Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

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O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

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Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

( :

Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km

 

 

 

 

Desafio Samurai: a vida como ela é

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Escrever sobre a minha quarta participação na Mizuno Uphill Marathon – prova que ocorre desde 2013 na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina – é uma tarefa árdua. São tantas emoções que nem Robertão Carlos seria capaz de descrever na suas centenas de letras. E dessa vez, tentarei explicar o que é encarar duas vezes a imponente estrada considerada “a mais linda do mundo”, vide eleição virtual realizada recentemente.

SERRA

Para quem não sabe, esse ano escolhi encarar o Desafio Samurai – ao todo, 67 km -, divididos em insanos 25km matutinos (de Lauro Müller a Bom Jardim da Serra) e 42km vespertinos/noturnos (de Treviso ao topo de Bom Jardim novamente). Duas “pernas” recheadas de subidas intermináveis. Poucos ousam subir (e descer) de veículos motorizados. Porque, meu fio, você enxerga a bunda da caranga no retrovisor. De moto, cansa. Imagine a pé. Enfrentando um clima nada previsível, numa região onde são registradas as temperaturas mínimas do País.

Participo desse evento desde a sua origem. Compareci religiosamente em todos os anos. Havia subido até ontem antes da 7h da manhã, 126km nas três edições – 42km em cada, ficando em 5º lugar em 2013, 3º lugar em 2014 e 2º lugar em 2015. E ontem acordei às 7h disposta a acumular mais essa porrada de quilômetros num só dia. Me sentia bem, havia treinado bastante, dentro das possibilidades – já que, lembrando, não sou atleta profissional e encaixo a planilha numa rotina de casa-filho-família/coordenação de academia e grupo de corrida/faculdade de Educação Física.  Pois então. Sem chorumelas. Estava prontíssima!

Aprendizado número 1: parcimônia

Larguei nos 25km controlando muito. Ficava olhando no GPS para jamais puxar demais o ritmo, com a certeza de que pagaria o preço depois. E fui segurando. A intenção era fazer abaixo de 2h15min a primeira “perna”, que fiz com perfeição. Encerrei em terceiro lugar geral feminino, numa corrida consistente e no controle, algo complicado para meu perfil, que ama “sentar a bota”. Acabei orgulhosa da minha capacidade de concentração, o que me deixou inteira para enfrentar a maratona que viria a seguir.

Descansei, encontrei amigos no ginásio de Treviso e me alinhei às 3h da tarde para a segunda largada. Pernas muito inteiras, pulmão idem – apesar de ter enfrentado quase que apenas subidas na primeira parte. E fui. Confiante. Só que a matemática não é tão simples quando falamos em ultramaratona. Comecei a subir muito bem e senti, lá pelo quilômetro 8, falta de água. Para quem estava largando sem o peso dos 25km nas costas, talvez esse detalhe não tenha sido determinante. Porém, para atletas acostumados a hidratar com regularidade como eu (o que acho imprescindível), o bolo começou a desandar nesse ponto, ainda no início.

Desidratei. O tempo abafado pesou a ponto de perder rendimento drasticamente. E o efeito dominó pegou: náuseas. Não entrava suplementação. Glicemia baixando. Pressão despencando. Cansaço extremo. Pernas não respondendo. E se tem algo que sei é conhecer meu organismo. Quando lá pelo quilômetro 20 da maratona “preteou os óios da gateada” (a visão ficou turva), vi que algo deveria ser feito. E a melhor atitude seria subir a serra de carro.

Parei num posto de hidratação. Dezenas de pessoas me ajudaram. Falavam palavras de incentivo. Queriam me levar junto. E eu, já apática, dizia que não dava. Comi, tomei Coca-Cola, glicose. E fui até o quilômetro 38. Talvez desse para terminar (não no tempo limite de 6h30min do Desafio Samurai). Porém, decidi que não valia a pena. Pressenti algo ruim. Não sei explicar. Ninguém sabe. Mas resumo assim: em respeito a mim, em primeiro lugar. Em respeito a minha família, em segundo lugar. E em terceiro, a todos que já me viram chegar e não reconheceriam ver cruzar o pórtico uma Daniela destruída e sem forças para vibrar ao cortar a desejada fita.

Saldo positivo: ao todo, percorri 60km. E hoje, escrevendo esse texto, parece que corri um “21km pegadinho na Beira-Rio”. ( ;

Há uma diferença brutal entre superação e burrice. Desculpem os fãs dos “atletas-que-chegam-vomitando”.

Brilho eterno de uma mente com lembranças

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Pela primeira vez, larguei uma prova. Após 20 anos correndo. E digo: fiz o certo. Hoje estou inteira, pronta para enfrentar um calendário bem bacana de ultras pros próximos seis meses (ficarão sabendo logo!). Tento sempre fazer do limão uma limonada e pensar de que nada é por acaso. Hoje, tenho o orgulho de dizer que jamais deixei alguém me ver passar mal numa prova – o que ao meu ver, depõe contra esse esporte tão lindo -, e que minha tentativa de passar um exemplo bonito e saudável tem dado bons frutos.

Minha frustração? Sei lidar com ela. Isso é fácil. O que não saberia é lidar com uma lesão ou sequela do desgaste excessivo. Entre três mulheres que puderam ter índice para encarar o Desafio Samurai, apenas a “alienígena” Letícia Saltori, da Equipiazza de Curitiba, conseguiu no tempo regulamentar de 6h30min para cumprir as duas pernas. Eloiza Testolin Rodrigues, da Inspire Assessoria Esportiva de Caxias do Sul (tchó!) conclui os 67km acima do tempo, mas está de parabéns pelo empenho e dedicação às corridas. Ambas moram no meu coração e são atletas exemplares, além de pessoas maravilhosas. Dessas coisas que só a corrida nos dão. <3

Agradeço a todos que me ajudaram nos dois percursos, tentaram me empurrar, levar de carrinho de mão, de guincho, mas amigos…tem dias que não dá! Hauhahaha! Prometo retribuir essa energia maravilhosa.

À equipe da Mizuno e da X3M, parabéns por mais um evento fantástico. É por isso que deixo minha família, meu trabalho em Porto Alegre e encaro a gincana. Para encontrar esse bando de “louco dentro das roupa!”. E como a trupe do Bernardo Fonseca e do Bruno Onezio pregam: “é muito mais fácil segurar um louco do que empurrar um bobo”. ( ;

Parabéns a todos atletas que encararam essa pedreira, seja nos 25km, nos 42km ou nos 67km. É pra poucos. E o que eu senti nesse final de semana não pode ser explicado num só texto. Somos uma “tribo” de loucos, sim, mas loucos pela vida. Essa gente que gosta de sentir o sangue correr na veia dessa maneira pode ser um objeto de estudo na NASA. Mas é essa adrenalina que nos move.

No frigir dos ovos (e eu amo omelete!), fica a sensação de que tudo é um aprendizado e, mais uma vez, confirmo que a corrida é a mais perfeita metáfora da vida.

A beleza da vida está nisso: na humildade de reconhecer nossos erros e acertos.

Estamos aqui hoje porque muita coisa deu certo – mas muitas coisas deram errado.

Já pensou nisso?

Um forte abraço e até a próxima!

 

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Entre o céu e o inferno: o carma de ser atleta no Brasil

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O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

Olimpíadas rolando. Todos em polvorosa conferindo o desempenho de atletas dos quatro cantos do mundo ao vivo, nas lindas arenas cariocas, ou pela telinha da TV, que transmite durante as 24 horas imagens incríveis das competições. Impossível ficar indiferente diante de cenas tão lindas. A cada vitória, grito de de superação dos atletas e quebra de recorde, vidramos os olhos e, muitas vezes, nos emocionamos – mesmo que jamais tenhamos ouvido o nome do campeão.

Embora tenhamos uma simpatia absurda com o Esporte, vivemos num País que, infelizmente, não sabe torcer. Pelo menos essa é a conclusão que tiro ao conferir a reação de nosso povo com o desempenho de nossos atletas. Claro que há exceções, mas a tendência é colocar o sujeito que não conquistou uma das três medalhas no status “abaixo da mosca que pousou no cocô do cavalo do bandido”. Aceitamos que o inglês perca, que o norte-americano falhe, que o francês desista. Mas quando testemunhamos algum atleta falhar, e esse alguém é made in Brazil…ah, que drama! Logo vem as críticas: “só podia ser brasileiro”, “incompetente”, “tá gastando o dinheiro do governo pra isso?”, “macaca”, entre outras frases menos classudas.

Ou você é herói, ou é um lixo. Esse é o carma de ser atleta nessa terra. Do céu ao inferno, é um passinho bem curto.

Joanna Maranhão, da natação, Rafaela Silva, do Judô e Diego Hypolito, da ginástica (sem falar de Caio Bomfim, da marcha atlética, que confessou ter sido xingado todos os dias enquanto treinava), são alguns exemplos nítidos desse verdadeiro carma de ser atleta no Brasil. Claro que todos tem o compromisso e responsabilidade de competir com afinco e dedicação, afinal, essa é a sua profissão. Porém, nem sempre as coisas são tão simples numa Olimpíada: estar ali, por si só, já é um grande feito. Ter índice para participar comprova que o sujeito está entre os melhores do mundo e, como tal, deve ser respeitado.

Assim como outros aspectos da vida, no Esporte há dias bons, dias ruins. E, se desabamos, temos que ter a chance de levantar, tentar novamente, até acertar. Nossa cultura esportiva, capenga, racista, homofóbica, descriminatória e elitista, ainda privilegia astros e esquece de que, para conquistar uma medalha de ouro, é necessário muito mais do que quatro anos entre um e outro Mundial.

O feito de Hypolito – que você pode conferir aqui nesse link, numa entrevista para a SporTV – resume o quanto devemos apoiar e acreditar no potencial de nossos talentos. Mesmo (e principalmente) quando eles não estão lá no topo.

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Atletas de verdade costumam ter um plano para quando o fracasso ocorrer, afinal, ele faz parte do árduo preparo para a vitória. Não importa quantas quedas teremos na vida. Provavelmente, serão muitas. Quantas? Ninguém sabe. O certo é que teremos que somar “um” após cada uma delas. Caiu 500? Vai ter que levantar 501 vezes. O sonho da vitória só rola quando há aprendizado com cada derrota.

 

 

Essa cachaça chamada maratona

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Ás 6h45, aguardando a buzina no pelotão de elite

Ás 6h45, aguardando a buzina no pelotão de elite

Quarenta e oito horas depois de finalizar mais uma maratona – a Internacional de Porto Alegre, realizada no dia 12 de junho -, cá estou pensando em tudo que passei durante as três horas, oito minutos e quatro segundos  de prova. A ansiedade da largada, o coração acelerado. O som da buzina de largada. O convívio com a dor constante que me acompanhou durante toda a segunda metade do percurso – que me fez correr mancando, toda torta, numa performance sofrível. E a alegria de cruzar a linha de chegada, numa explosão de alegria e alívio.

A decepção de não ter obtido o resultado desejado (fiquei em sexto lugar geral e primeiro na minha categoria) vem com a alegria de completar mais uma maratona – e a consciência de que maratonista é um bicho desgraçado. Afinal, são poucos os que se atrevem a encarar o desafio, e só completar já é algo homérico. Pois então. Quem corre há bastante tempo perde a noção da dimensão desse feito e corre o risco de perder até o tesão em correr. Confesso que volta e meia me vejo de saco cheio de treinar, de sofrer, de acordar cedo, abdicar de tantas coisas. Esse ano, tive que encaixar a planilha em meio a turbulência de uma mudança de casa e a um novo ofício, administrar minha academia, recém-inaugurada. Tempo praticamente não existiu. Fui de cabeça-dura para o combate, tendo a certeza de que iria sofrer feito um cavalo manco.

A  psicologia do gambá

E tinha mulher corajosa dessa vez! Quase 700 enfrentando sensação térmica negativa

E tinha mulher corajosa dessa vez! Quase 700 enfrentando sensação térmica negativa

O problema, meu amigo e minha amiga, é ficar fora dessa festa. Como abdicar de correr a minha distância predileta na minha cidade, em casa? Tinha certeza que, se não me inscrevesse, ficaria com um beiço enorme. Há oito anos participo do evento, dois em distâncias menores e há seis nos 42km. É clássico, Maratona de Porto Alegre é obrigatória no meu calendário.

Para quem nunca correu uma maratona, difícil explicar porque – mesmo com tanto sofrimento, tantos nos treinos duríssimos quanto na prova em si – provavelmente queremos sempre repetir a experiência. Alguns comparam com uma “cachaça”. A analogia é boa. Pensa aqui comigo, na mente de um pé-de-cana: ele bebe a marvada, fica alegrão, mas depois vem aquela ressaca desgraçada. Ele jura que nunca mais vai beber…até que aquela dor de cabeça passa e, como mágica, lá está o gambá procurando uma nova dose.

“Maratona é sempre maratona”. A frase simplória somente faz sentido para quem já experimentou. Não é reunião-dançante, é baile de gala. Você veste o melhor vestido, o fraque, se prepara todo. É dia de tapete vermelho, de luz de velas e fogos de artifício. Se vai ter ressaca depois da festa? Provavelmente. E isso jamais impedirá que a gente queira comparecer na nossa melhor forma, dançando a melhor música, curtindo cada momento extasiados.

Ah, essa cachaça chamada maratona.

Aliás, quando é a próxima? ( ;

* Não posso deixar de parabenizar e agradecer todos os atletas que prestigiaram essa 33ª edição da Maratona Internacional de Porto Alegre. Obrigada por engrandecer o evento a cada ano. E um obrigada a todos que torceram, gritaram meu nome e me deixaram com lágrimas nos olhos durante o percurso. Vocês moram do lado esquerdo aqui, ó.

 

 

#vivamaratonapoa chama público para prestigiar maratona nas ruas da capital gaúcha

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VIVAMARATONAPOA

Em 1° de maio, faltando 42 dias para a Maratona Internacional de Porto Alegre, um grupo de entusiastas de um dos esportes mais praticados do País – a corrida de rua – criaram o movimento “Viva Maratona POA”. A ideia é incentivar e envolver a capital do Rio Grande do Sul num dos mais importantes e tradicionais eventos esportivos do País. Somente em 2015, foram mais de 7.500 atletas inscritos no evento, realizado há 33 anos.

Famosa por ser uma prova rápida, plana, com temperatura ideal e bem organizada, a Maratona de Porto Alegre também surpreende pela tímida presença da sua população ao longo de seu percurso de 42.195 metros – e que tem ponto de largada e chegada no Parque da Harmonia, passando por diversos bairros da cidade.

O projeto Viva Maratona POA está sendo disseminado nas redes sociais desde o início desta semana, com uma excelente adesão. Até o dia do evento, marcado para 12 de junho, serão publicadas curiosidades, dicas e fatos interessantes sobre a tradicional prova.

 

MOVIMENTO #VIVAMARATONAPOA
Por que participar?
Assistir ao vivo, em tempo real, uma edição de uma das mais emblemáticas provas do atletismo, a maratona – que compreende 42.195 metros – e é considerada como um marco na vida de todo corredor. É muito mais do que uma competição: é um dos eventos mais democráticos, no qual pessoas de todas as idades, níveis culturais e sociais, raças, religiões e cores se encontram, sem barreiras. É uma festa ao ar livre, que ocorre uma vez por ano – e consegue parar megalópoles como Nova York, Berlim e Tóquio. Por que não, Porto Alegre?

Como participar?

Agende-se: é dia 12 de junho.
Horário: a partir das 7h

Local: Av. Augusto de Carvalho, junto ao Parque da Harmonia
Se você conhece alguém que vai correr, vá pra rua torcer por ela! Vale cartazes, buzinas, peruca colorida e tudo mais. Ninguém esquece da diferença que isso faz durante os 42,195 quilômetros!

Curta a página e convide seus amigos a compartilharem o movimento. Quanto mais gente, melhor!

USE O HASHTAG
#vivamaratonapoa

 

 

O maratonista de Kichute

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Dois dias depois de seu aniversário de 77 anos, Valdomiro participará mais uma vez da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre dia 12 de junho. A comemoração, segundo ele, “ficará após cruzar o pórtico de chegada”

No ano em que o primeiro homem correu a lendária Maratona de Boston abaixo de 2h30 min (o norte-americano Ellison M. “Tarzan” Brown, com 2:28:51), nascia, quase dois meses depois, no dia 10 de junho, um dos mais longevos maratonistas da capital gaúcha. Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, é uma figura notável. Impossível não sorrir ao vê-lo de manhã bem cedinho, de camiseta molhada, cumprindo mais um de seus sagrados treinos.

Já tinha mirado ele inúmeras vezes em provas de rua e nos longões da Beira-Rio. No mesmo passinho , devagar e sempre. Sem firula, tênis da moda ou qualquer parafernália. Aliás, sua primeira maratona, aos 50 anos de idade (a de Porto Alegre), foi disputada com um…Kichute. Sim, aquele tênis horroroso, misto de chuteira com sei-lá-o-quê, criado na década de 70 – e terror dos ortopedistas.

Mesmo que ninguém recomende correr 42 quilômetros com calçado similar, é por esse e outros detalhes que Valdomiro merece um capítulo a parte na história das corridas de rua da cidade. Pela sua simplicidade e leveza de ser, pela perseverança e atitude perante a vida. Ao invés de reclamar da idade, ele muda o curso e vai pra rua vestido apenas com a vontade insaciável de sentir o vento no rosto e a endorfina correndo nas veias.

Na semana passada, o relógio marcava 6h58. Esperava meu grupo de corrida chegar para treinarmos em frente ao Praia de Belas Shopping. E tive a sorte de esbarrar com Valdo. Encerrava seu treino, iniciado há mais de uma hora. Sim, ele acorda às 4h, come “frutas e respectivas farinhas” e sai para a rua às 5h30. “Com minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite”, não esquece de salientar, bem-humorado.

Nossos olhares se encontraram e fomos metralhando perguntas um ao outro. Ele iniciou o papo:

“E aí, tá fazendo quanto hoje?”

Eu respondo:

“Não, não, só tô esperando ainda o pessoal chegar pra correr. Só um trotinho hoje!”

Preferi não perguntar quanto ele já havia rodado, mas sem dúvida muitos mais do que faria no dia. Falamos sobre a Maratona de Porto Alegre, perguntei com quantos anos ele estava, como era bom acordar cedo pra correr…e, claro, não perdi a oportunidade de clicar uma fotinho pra me exibir ao lado do amigo, de quem sou fã.

No final, saiu essa entrevista, feita por e-mail. Acham que a jornalista aqui perderia a oportunidade de contar essa história contagiante? Jamé! A ideia é incentivar quem “acha que está velho pra começar a correr”, acha mil justificativas pra não desgrudar a buzanfa do sofá ou, simplesmente, deseja encontrar uma inspiração para seguir acreditando no poder desse lindo esporte.

Seu Valdomiro, taí uma figura encantadora. Espero chegar na sua idade com a metade de sua disposição e vitalidade. ( :

ENTREVISTA – Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, maratonista

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Valdo emocionado ao cruzar a reta final na Maratona de Chicago

Santa Corrida – Quando e porque começou a correr? 

Valdomiro Siegieniuk – Sempre gostei de correr, mas participar de corrida de rua foi mais tarde, a partir de 1980. Tudo surgiu a partir de uma aposta com guris mais jovens, que me desafiaram a começar. O início foi na pista do Parque Marinha do Brasil. A minha primeira Maratona foi a Internacional de Porto Alegre, em 1989. Eu tinha 50 anos de idade e corri com os tênis Kichute. Não tinha feito nem um treino longo. Fiquei uma semana sem poder descer as escadas.

Santa Corrida – Quantas maratonas já disputou?

Valdomiro -  Já disputei 42 Maratonas no Brasil, mais a Supermaratona de Rio Grande, além de 13 Maratonas no exterior. No total, foram 53 provas nessa modalidade. Mas eu corro diversas distâncias, gosto de todas!

Santa Corrida – Como é a sua rotina de treinos?

Valdomiro – Hoje, treino sem planejamento.Levanto às 4 horas da manhã,como as minhas frutas com as respectivas farinhas e saio para treinar ao redor das 5h30min (com a minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite). Quantos quilômetros por dia? Depende da disposição, temperatura e se encontro alguém no meio do caminho.Em média, de 10 a 20 km.

Santa Corrida – Qual o significado da corrida para você?

Valdomiro – É a chama da vida. A satisfação de chegar em casa, tomar um banho e estar disposto e com bom humor o dia inteiro.

Santa Corrida – Que conselho você daria para quem quer iniciar nesse esporte?

Valdomiro -  Em primeiro lugar, fazer um exame médico. Depois, procurar um professor de Educação Física ou participar de um grupo de corrida para receber as orientações corretas. Da minha parte, sempre digo para nunca desistirem.O meu maior prazer é ler no Facebook, quando após uma maratona, o que um(a) atleta escreve: Valdomiro, graças a ti,eu sou um(a) Maratonista! Pois já incentivei muitos jovens a participarem.

Santa Corrida – Cite um momento marcante que você viveu nesses anos todo correndo.

Valdomiro - Foram muitas emoções vividas. Uma foi ao correr a Maratona de Berlim, quando combinei com a minha mulher (que sempre me acompanha, mesmo não correndo), que me esperasse na frente do hotel, pois ali seria o 15 km do trajeto. Ao atingir esse ponto,encontrei ela com um apito (foram distribuídos pela organização),parei, dei um beijo, um forte abraço e recebi calorosos aplausos do público presente.Continuei  correndo com lágrimas nos olhos.Terminei a prova ao redor de 3h35min. Isto foi em 2001, aos 62 anos de idade. Outro episódio marcante foi na Maratona de Budapeste, quando passava pelo ponto de troca do revezamento e fui saudado pelo locutor anunciando meu nome e dizendo que era brasileiro. Inesquecível!

 

 

Corrida: um dos segredos de Mick Jagger

Publicado por | Gente que corre | Um Comentário

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Já tinha ouvido falar da impressionante boa forma de um dos maiores astros do rock mundial, Mick Jagger, dos Rolling Stones – que passa por Porto Alegre hoje, na sequência de shows da tour brasileira. Aos 70 e lá vai picos, o magrelinho (que já é bisavô), pula o tempo todo, vai de um lado ao outro do palco em segundos, dança feito uma enguia com coceira, brinca e interage com a platéia…enfim, dá um cansaço em muito jovenzinho por aí.

Uma matéria (publicada em 2011, muito lida) a respeito da forma física de Jagger foi publicada há algum tempo no jornal Daily Mail (que você pode ler na íntegra clicando aqui). Na reportagem, são citados os costumes do músico (alguns nada comuns, como aulas de ballet e creme facial de caviar), no qual estão incluídos impressionantes 12 quilômetros diários de corrida. Sim. Mick Jagger deve a esse esporte grande parte do seu fôlego, energia e boa forma. Em cada apresentação, ele chega a percorrer quase 20 quilômetros.

O costume, segundo o jornal, vem de infância: seu pai, Basil Joseph Jagger, era professor de educação física e determinava uma rotina severa de treinamento para o filho desde a década de 1960.

Taí mais um motivo pra amar Jagger – e pra ficar convencido de que correr é, definitivamente, um esporte engrandecedor!

Rock n’run, babe!

 

 

 

As lições que o esporte nos dá

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Há uma imensidade de coisas que aprendemos ao inserir o esporte na nossa vida. Disciplina, humildade, concentração, resistência, gratidão, paciência, companheirismo, competitividade saudável, meritocracia, entre muitos outros valores jamais possíveis de assimilar via osmose, numa sala de aula de aula ou até em Harvard.

Fora essa revolução pessoal, existe a poderosa força de transformação social. Quem estuda o assunto é unânime em afirmar que criamos uma sociedade melhor, mais justa e mais saudável quando fortalecemos esse pilar, já que com o esporte vem a inclusão, a fuga das drogas e da criminalidade, o resgate da cidadania.

Na época que precede grandes eventos, como as Olimpíadas – que ocorre pela primeira vez na magnífica e despreparada cidade do Rio -, alguns lembram de mencionar a importância de incentivar o esporte desde cedo e enaltecem a capacidade do brasileiro de se sair bem em diversas modalidades, do vôlei ao tênis, passando pela natação e pelo atletismo, sem esquecer, é claro, do velho e bom futebol.

A “pátria de chuteiras”, porém, só tem investido fortemente nas últimas décadas na formação de jogadores do esporte bretão. Uma meia dúzia de patrocinadores são disputados taco a taco por todo o “resto”. Quantos talentos já foram desperdiçados por conta da falta de visão empresarial e de incentivos governamentais?

Um dos ídolos máximos do tênis mundial, Gustavo Kuerten, criticou recentemente, em entrevista ao Esporte Espetacular, exatamente esta carência em solo brazuca: falta o trabalho nas categorias de base, algo só feito com mais consistência nos aspirantes a Neymar. Como ele, vários outros atletas que enfrentaram, em algum momento da vida, essa dificuldade de obter recursos para treinar e disputar provas, lamentam o quanto jogamos fora chances de ouro.

O atletismo — ao meu ver, o rei de todos os esportes — é um dos que sofrem fortemente com a carência de incentivos precoces. Não se forma um atleta do dia pra noite. Uma medalha de ouro só é conquistada com anos e anos de treino diário, com treinadores qualificados e uma infraestrutura adequada. De nada adianta querer colher uma lavoura linda sem plantar — e cuidar dela diariamente, sem trégua. Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, César Cielo, da natação, Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic do futebol, Federer e Nadal do tênis, Sheilla e Giba, do vôlei e tantos outros.

Nenhum deles é um milagre. Todos são resultado de um trabalho contínuo, sério e árduo e, obviamente, de quantias razoáveis de tempo e dinheiro aplicados constantemente, desde a infância.

No dia em que esta consciência estiver arraigada na mente de quem cria as políticas de incentivo ao esporte — e que fique claro, não só na véspera de megaeventos como a Olimpíadas — daremos um grande passo à frente.

Acreditar no poder de transformação do esporte jamais será um mau investimento.

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