Como lidar com a TPM: Tensão Pré-Maratona

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Estamos há exatos 11 dias da 34ª Maratona Internacional de Porto Alegre, marcada para o dia 11 de junho na capital dos gaúcho. Já começo a sentir a energia que paira no universo dos corredores que irão encarar os 42 quilômetros. Estreantes ou não, experientes ou menos calejados, todos acabam vivenciando algum grau de ansiedade. Aquele famigerado “friozinho na barriga” de quem tá descendo ladeira abaixo sem freio…

Tem aqueles que relatam alterações no sono, no apetite, no humor (que a família e os colegas de trabalho aguentem, kkkk!). Noooormal. Escrevo aqui justamente para esse time dos que “picam no lugar”, fritando no travesseiro, pensando nas quinhentas mil possibilidades de dar errado…eitaaa cabecinha difícil de controlar essa, hein?

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Primeira dica: pare com essa mania de olhar pro GPS do vizinho

Pois então. Senta aí. E vamos por partes – assim como a distância mais clássica do atletismo deve ser resolvida. Você treinou, certo? Cumpriu a planilha certinho. Cuidou da alimentação. Deu feedback pro treinador. Conversou com os parceiros. Pescou dicas. Deu um “Google” umas 567 mil vezes procurando temas relativos a sua preparação, equipamentos, alimentação. Isso bastaria, certo? Não. Pra você, que sofre de Tensão Pré-Maratona (TPM), é irresistível ficar de olho no longão do amigo no Facebook. Comparar seu pace com o do Fulano, do Sicrano. Começa a achar que tá fazendo pouco. Que não treinou o suficiente. E duvida do próprio treino. Se identificou? Rá!

Pra você, amiguinho maratonildo, tenho uma novidade. Deixa de besteira e vem ser feliz. Não importa se seu longão foi maior do que o do ninjarunner do Quinto dos Infernos, se seus tiros não foram tão bons quanto o do queniano dos pampas. Claro que há uma ciência por trás de todo treinamento e periodização de corrida (que seu treinador deve ter explicado), e o tema-de-casa deve ser feito. Mas, pera lá! Há muitos outros detalhes envolvidos. Um dos principais deles é, justamente, esse que abordo nesse texto: o fator psicológico. De nada adianta estar 110% na planilha, se chegar lá no dia se borrando nas calças, com medinho de não desempenhar o que você julga razoável. Uma mente tranquila e focada é item fundamental na hora do “pega pra capá”. Pode ter certeza que o motor vai fundir se não houver confiança. Aconteça o que acontecer, é preciso acreditar que tudo vai dar certo. Pelo menos, é assim que tenho feito desde sempre. ( :

 

Nessa altura do campeonato…quem treinou, treinou!

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Outro detalhe: nada adianta você ter feito um longo monstruoso de 38 km se não houve uma continuidade no seu treinamento. Aqui, estamos falando das 14 semanas que antecedem a Maratona. Sim, ininterruptos. E outra: meu véio, agora não é hora de fazer longo. Nessa altura do campeonato, há 11 dias do Dia “D”, esqueça treinos “pra estourar as coronárias”. Para tirar o atraso, muitos caem nessa roubada. Resultado: imunidade lá no pé e um risco altíssimo de lesões, o que pode colocar tudo a perder. Não, né?

Quando o controle vem com ela: sempre ela, a experiência

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Concordo em gênero, número e grau com o que pregam especialistas em Psicologia do Esporte, como William Falcão. Ele defende que “a ansiedade não é necessariamente ruim. Ela é até importante para o indivíduo reconhecer momentos estressantes onde o alto rendimento é necessário, como saber distinguir o ambiente de treino do ambiente de competição. São nesses momentos que atletas encontram a disposição para superar seus limites. Fundamental, no entanto, que o atleta encontre um grau de ‘ansiedade ideal’. Ela ajuda, inclusive, a sua performance, ao invés de prejudicá-la”.

Segundo o psicólogo, em entrevista recente ao site Globo Esporte, o controle de ansiedade se adquire com experiência. E é exatamente isso o que sinto. Nas minhas primeiras provas, sofria bastante. Me preocupava com meu sono, com minha dieta, com tudo – como se cada detalhe fosse fazer uma BAITA diferença. No final das contas, a verdade é que o que vale é o conjunto do que fazemos, meses a fio, e não num ou outro dia.

“Estar consciente do nível de ansiedade e das consequências do mesmo no seu corpo e mente podem acelerar este processo. Na medida em que se aprende a controlar o nível de ansiedade, o atleta pode também aprender a interpretar a ansiedade como um motivador. Temos inúmeros exemplos de atletas que depois de anos de experiência competindo em nível internacional relatam continuar sentindo “um frio na barriga” antes da competição. Este “frio na barriga” se torna um motivador ou um gatilho que os preparam para superar seus próprios limites. Seu corpo e mente interpretam este estímulo como um alerta para se preparar para a atividade”.

Ahá! E aí que está a chave de tudo. Não é que temos que anular a ansiedade, mas sim saber controlá-la – e cada deve encontrar seu mecanismo de controle. Esse “friozinho na barriga” é, ao meu ver, essencial. No dia em que eu não tiver mais isso, creio que vou parar de competir. Essa ansiedade, na medida, é saudável e totalmente compreensível.

Para os mais inexperientes – ou que irão estrear na distância dos 42,1 km em Porto Alegre -, minha dica é: respire fundo, esvazie sua mente e utilize sua energia para se concentrar e ganhar motivação para a corrida. Basta dois ou três quilômetros para a sensação de coração na boca e boca seca ir embora. E dali pra frente, você terá muito chão pra administrar.

Uma Maratona nunca é resolvida em meia dúzia de minutos. E por isso mesmo – por exigir tanta força, treino e preparo físico e mental – ela é tão mágica. De algo tenho absoluta certeza: depois de cruzar a linha de chegada, somos os ansiosos mais relax e de bem com a vida! Essa felicidade não tem preço nem explicação científica. E ninguém pode tirar isso da gente!

Desejo a todos corredores, de todas as distâncias uma excelente prova na Maratona Internacional de Porto Alegre. Nos vemos dia no domingão, dia 11, lá no BarraShoppingSul. Bora pra cima que o resto é só alegria!!!! ((( :

 

 

 

 

A poder das mães-atletas: porque ficamos mais fortes

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Nada mais apropriado do que falar, em pleno domingo de Dia das Mães, num assunto bastante interessante: da força e do poder das mulheres que, após a maternidade, decidem seguir com seus treinos ou, em alguns casos, até começam a praticar alguma modalidade esportiva. E, claro, de como fazer para conciliar tudo isso. Como de praxe (e até porque faz parte do meu universo), focarei na corrida. Fiquem à vontade para estender o raciocínio para qualquer outro esporte, como natação, atletismo, bike, cross-fit, dança, lutas. O que seja.

Tenho total convicção de que ficamos mais fortes após dar à luz. Mesmo que não exista comprovação científica, acredito que, ao contrário do que muitos pensam, a maternidade pode fazer com que nos tornemos ainda melhores no que diz respeito ao desempenho. Minha experiência foi exatamente essa. Meu filho Francisco nasceu há pouquinho mais de 8 anos. Na época, eu tinha 32 anos. Já havia feito algumas maratonas. Pouco mais de um ano após seu nascimento, virei ultramaratonista. Colecionei, nesse tempo, vários troféus muito cobiçados. E tive a alegria de vê-lo me esperar na linha de chegada, ou, como nessas foto abaixo, correr os últimos metros na sua doce companhia.

Chico, em 2015, na finaleira dos quase 82km da TTT

Chico, em 2015, na finaleira dos quase 82km da TTT

Coração, mente e corpo fortes

Seguir a rotina de treino com um bebê em casa não é lá das tarefas mais fáceis. E o que é fácil nessa vida? ( : Para quem ainda não foi mamãe, saiba que, de início, o troço é punk. E daí mesmo que mora o segredo. Sempre se dá um jeito. Precisamos, obviamente, de ajuda para dar conta de tudo. Nessa hora, ter um companheiro e a família ajudando é primordial. Felizmente, tive essa sorte. Mas já conheci atletas que, mesmo sem todo esse aporte, conseguiram “se virar” para não abandonar os exercícios físicos quase que diários.

Sou extremamente a favor de que as mulheres tenham esse direito de seguirem com sua trajetória esportiva. Benefícios são inúmeros. Um dos principais, ao meu ver, tem a ver com o relaxamento e sensação de bem-estar. Quem diz que toda a gravidez e a maternidade é uma maravilha, está mentindo. Ficamos podres! Noites mal-dormidas, uma livre demanda de amamentação…e sair daquela rotina massante por algum tempo (uma hora por dia já é mais do que suficiente, no início) é questão de saúde mental, minha gente! Por favor! Sem contar a auto-estima. Mulher que “se emburaca” porque virou mãe é coisa do passado.

Brinco que, quando nossos filhos nascem, somos abduzidas por ETs. Vamos lá pra outro paralelo, onde ficamos sem saber onde estamos, que horas são, quem somos, pra onde vamos. É tanta emoção envolvida que dá uma tonteada. Quem diz que é tudo muito lindão e tranquilo tá metendo uma conversa fiada daquelas. Se é difícil? É. mas a vida deve e volta, sim, ao normal. O esporte ajuda (e muito) nessa retomada.

Muita calma nessa hora

Obviamente, não defendo aqui que tenhamos que sair por aí doidas e desvairadas nos primeiros meses de vida do rebento. Tudo tem seu tempo e respeitar o organismo – e as recomendações médicas, é claro – é essencial para um retorno seguro. No meu caso, voltei às competições quando ainda amamentava, quando o Chico tinha seis ou sete meses. Essa história de que “seca o leite” ou provoca rejeição do bebê por causa do ácido lático é conversinha pra boi dormir, ok? Ninguém vai retornar em ritmo frenético, correndo a 4 por 1! Com uma alimentação e hidratação adequada e sem excessos, é beeeem possível conciliar.

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva, exercícios aeróbicos com intensidade moderada a forte (entre 40% a 75% do VO2Máx ou a 55% a 85% da freqüência cardíaca máxima) é seguro para a mãe que amamenta, eficaz no período pós-parto e não apresenta nenhuma alteração significativa no volume e composição do leite materno.

O condicionamento volta aos poucos, e esse caminho de formiguinha deve ser respeitado. A excelente notícia é que o corpo tem uma memória fisiológica, e logo que a rotina volta ao normal, a gente acaba tirando de letra esse tripé: maternidade + trabalho + treino. Os médicos, inclusive, recomendam que isso ocorra. E a corrida, nesse sentido, é maravilhosa: ajuda a eliminar toxinas, libera endorfina, ajuda na perda de peso e, importantíssimo: deixa longe a temida depressão pós-parto.

De volta aos pódios

Para quem leva essa “cachaça” mais a sério, só há pontos positivos. Quem teve uma gravidez tranquila, ganhou pouco peso e teve parto normal (no meu caso, engordei pouco mais de 8 quilos, nadava todos os dias quase 3 mil metros e não fiz cesárea), fica bem mais fácil. Em alto nível, exemplos não faltam. Um deles é a corredora inglesa Paula Radcliffe que, no início de 2007 deu a luz a sua filha Isla e, no final daquele ano, venceu a Maratona de Nova York (abaixo, na foto, aparece a atleta com a fofurinha no colo). Inclusive, ela teve outra menina pouco depois.

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Claro que estamos falando de uma “monstra” do atletismo. A britânica é uma rara exceção (ela começou a trotar 12 dias depois do parto, algo nada recomendável do ponto de vista médico). Cito ela porque amo essa foto dela com a nenê no colo. Meio que emblemática. E poque toda corredora que se preze gostaria de ter só uma rebinha daquele pace dela ( ^:

No mundo real, nesse aqui das mortais, e não alienígena (kkkkkk), o tempo de retorno para a atividade física após o parto é muito relativo, pois cada mulher reage de uma forma à chegada do bebê ao mundo e a saída dele de dentro do corpo humano. Para umas o processo de recuperação é mais lento, para outras mais rápido.

Não vamos mentir: inevitavelmente, o destreinamento ocorre. Por mais que você tenha se mantido ativa, a carga esportiva foi reduzida. Você deve ter treinado em frequências cardíacas mais baixas e de forma mais leve para preservar a sua saúde e a do bebê. Sem contar com uma série de mudanças que acontecem no corpo durante esses nove meses e que persistem por algum tempo após o parto. São os hormônios, alteração de peso, mudança do centro de gravidade e afrouxamento ligamentar, por exemplo.

Contar com profissionais nessa tarefa de retorno aos treinos mais pesados é essencial, e foi o que fiz. Acima de tudo, o bom-senso. Passamos nove meses com o bebê dentro da barriga, e não é do dia pra noite que nosso corpo retornará ao “normal”.

O que garanto é que, do ponto de vista psicológico, dá pra dividir em duas fases qualquer mulher: antes e depois de ter filhos. Ficamos muito mais fortes, decididas. Não desistimos fácil. Toda vez que competi com o Francisco na minha vida visualizei seu sorriso quando cheguei com uma medalhinha ou troféu em casa. Para ele, eu sou uma campeã. Mesmo que não fizesse nada, creio que seria também. Mas prefiro desse jeito. No nosso mundo de faz-de-conta, sou uma Super-Mãe. E é esse exemplo que procuro deixar pra ele: quando a gente quer, vamos lá e fazemos.

Um lindo Dia das Mães a todas mulheres maravilhosas desse universo! <3

 

A fantástica história de Bataclan – o mais célebre corredor de Porto Alegre

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Imagine o que seria correr nas ruas de Porto Alegre, de calção e regata, descalço, na década de 50. Impossível imaginar que o ser humano que fizesse isso na época não viraria um célebre personagem. Pois foi o que ocorreu com Cândido José dos Santos – apelidado de Bataclan, que nos romances de Jorge Amado remete ao significado de cabaré, já que esse era o nome de uma famosa boate de Paris.

Ouvi falar dele pela primeira vez conversando com meus pais. Nascidos na década de 40, viram muitas vezes o corredor no Centro. “Era uma imponente figura. Alinhado, de porte atlético. Chamava muita atenção”, lembra minha mãe.

Muitas vezes, Bataclan corria de pés descalços. Sempre de manhã, quando saía para fazer seus vários quilômetros. Como li em matéria do jornal Zero Hora (Almanaque, do amigo fotógrafo Ricardo Chaves, o Cadão, um aficionado pela memória do nosso Rio Grande do Sul), “à tarde, exibia a herança dos tempos de teatro: vestindo terno, gravata e cartola, andava pelas imediações da Rua dos Andradas propagandeando lojas, bares, bebidas, sabões e colchões, entre muitos outros produtos”.

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Conforme o resgate histórico – no qual cito fontes como os pesquisadores Marcello Campos e o repórter Nilo Dias -, “Bataclan também estava sempre nos estádios de futebol em dias de jogos, muitas vezes distribuindo alimentos para famílias pobres. Gostava de conversar com as pessoas e defendia uma vida saudável – além de praticar esportes, era vegetariano e rejeitava cigarros e álcool. Tanto que viveu em torno de 90 anos. Seu velório, em setembro de 1990, foi realizado no Salão Nobre da prefeitura”.

Um personagem repleto de histórias

Há quem diga que ele foi “o mais querido personagem popular de todos os tempos em Porto Alegre”. Vegetariano, dizia que o marinheiro Popeye adquiria sua força em virtude de uma dieta baseada em espinafres. Gostava de contar que, certa vez, correu sem parar para dormir ou descansar, durante quatro dias e três noites seguidos, margeando o Guaíba durante o crepúsculo. Não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu, ou era apenas uma das muitas histórias que criava. Dizia ter dado uma centena de voltas no Gigante da Beira-Rio e depois, para não ser injusto, repetira o mesmo feito no Olímpico Monumental da Azenha.

De como ziguezagueara entre os túmulos dos cemitérios da Oscar Pereira orando a Deus pela alma de todos que ali jaziam.  Lembrou a multidão que o ovacionara ao cruzar o Parque da Redenção e a bronca que levara da mulher ao chegar em casa.

 

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Outros trechos que recolhi na minha pesquisa:

“Alinhadíssimo, sempre de terno branco, chapéu, gravata vermelha, sapatos reluzentes, e para completar o modelo, cravo vermelho ou dália na lapela, no melhor estilo do malandro carioca dos anos 30″.

O ícone Keneth Cooper, criador do famoso método de Cooper, visitou Porto Alegre em setembro de 1975. Conheceu Bataclan e declarou “que jamais viu coisa igual em todo o mundo”.  Bataclan, em retribuição, lhe presenteou com uma cesta de legumes e frutas.

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Adepto de São Francisco de Assis, que não comia carne vermelha, se declarava ateu. Há uma certa dúvida quanto ao seu nascimento: alguns registros apontam que foi no Rio de Janeiro, outros que foi em Santa Catarina. Morou em também em Curitiba e São Paulo, passou pela Europa, mas se radicou em Porto Alegre, em 1939. Cantor da Companhia de Revista Negra, onde fazia dueto com Rosa Negra, traduzia as parte em francês da cantora.  Nas apresentações, sempre lia um trecho chamado “Bataclan”. Por isso, ganhou o apelido.

Sua morte, reportada pelo Correio do Povo em 26 de setembro de 1990, gerou comoção geral.

“A má notícia se espalhou rapidamente ontem pela Rua da Praia. Morreu Cândido José dos Santos, o Bataclan, com 94 anos, vítima de parada cardíaca, às 8:15 minutos, no Hospital Conceição. Bataclan era vegetariano, atleta e o primeiro propagandista da cidade”.

Neto de escravos da Guiana Francesa, filho de marinheiro, ainda tinha tempo para doar alimentos aos doentes da Santa Casa e o Lar Padre Cacique.

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Entre suas pérolas, a melhor de todas, ao meu ver, é essa:

“Meu caráter é impecável. Sou idealista e ateu. O homem não vale por seus preconceitos e nem pela cor. Vale por que faz na vida. Esta é minha concepção filosófica”.

 

TTT 2017: quando tudo dá certo

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Um dia após enfrentar pela quinta vez uma das provas mais cobiçadas do Sul do Brasil, a TTT – Travessia Torres-Tramandaí, resumo meu sentimento e impressões. Não tenho dose de narcisismo suficiente para focar apenas na conquista do meu pentacampeonato e recorde feminino da competição – pulverizado com 7h21min em 2017, 24 minutos abaixo do tempo anterior, que eu mesma cravei em 2015 (7h45min). Quero, mais do que enaltecer esse fato, explicar porque voto para que essa edição entre no rol das candidatas a predileta entre as 13 já realizadas na orla gaúcha. Os motivos são inúmeros.

Primeiro, marcou meu retorno à competição que mora no meu coração desde sempre. Em 2016, fiquei de fora, após tecer uma série de críticas logo após o tetracampeonato, em 2015. O texto, que você lê aqui, fala sobre o desprestígio aos atletas que se inscrevem para competir de verdade, e não apenas para confraternizar – embora seja esse o DNA da TTT, já que se trata de um evento focado no revezamento em equipes. Fiquei de fora, fui tratar da minha vida pessoal e profissional, e digo que o saldo foi extramente positivo. Afinal, dar um look geral e sentir o panorama de fora é válido – até para avaliar a importância do meu papel e de tantos outros fatores envolvidos – que incluem o tesão em participar novamente da prova.

Quem leu o texto com atenção percebe que coloco críticas bastante contundentes e que têm, em suma, a intenção de alertar os organizadores para uma melhoria na sua infra-estrutura. Felizmente, creio que as colocações colaboraram, de certa forma, para a correção das falhas, como kits mais elaborados, hidratação adequada, enfim. Escrevo português claro e para bom entendedores, não precisa desenhar.

Então. A notícia boa é que muitas dessas falhas foram corrigidas. Hidratação estava ótima. Água gelada, equipes envolvidas na distribuição (sobretudo os amigos da Girardi, Inspire, DaniVist, entre outros da Serra Gaúcha (que estão de parabéns pela iniciativa, idealizada pelo Clube de Corredores de Caxias), que mobilizaram equipes para ajudar da logística de hidratação e suporte durante o percurso). A premiação foi pontual. Os troféus ganharam um incremento. E acho muito bom premiar apenas os 5 primeiros na Geral, para agilizar e elevar o nível das categorias etárias. Enfim, o saldo foi muito positivo.

Agora, vamos a 2017: aaaah, que prova magnífica! Gente do Céu, que dia de gala! A ressaca que veio na quinta-feira, marcando os dias anteriores, deu uma tremidinha nas bases. O mar subiu, o vento estava Sul (que sopra em direção contrária a quem vem de Torres em direção a Tramandaí). Porém, Netuno, Iemanjá e todos os demais orixás, santos e previsões meteorológicas resolveram colaborar com a Nação Corredora. O céu estava aberto, mas na medida – com algumas nuvens nas primeiras horas da manhã, o que amenizou em grande parte a sensação de calor do verão gaúcho, bastante cruel nessa época do ano.

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O solo estava uma pista de corrida. Areia firme, compacta. Enfim, um cenário ideal, daqueles raros, tecido sob encomenda para estraçalhar recordes. E foi o que se viu. O “monstro” Rodrigo Cardoso bateu o feito de Tiago Mello (falecido em 2016, nem acredito…) em 9 minutos. Logo após ele, chegou o queridão Niumar Velho e o fera Alexandre Mello. Todos com tempos fantásticos, impensáveis em dias de maré alta e areia fofa – sim, já enfrentei dias em que você chama a mamãe e ela não vem nunca!

Agora, vamos ao que interessa de verdade: fora os recordes, os tempos, os troféus, toda essa parafernália: o que mais impressionou foi o calor humano. A TTT 2017 bateu recorde em termos de prestígio, alegria e fraternidade na beira da praia. Nunca vi tanta gente aplaudir, vibrar, berrar o nome dos atletas – independente de seu preparo físico ou categoria. O povo realmente entrou no clima. Os quase 3 mil atletas inscritos deram uma lição de humanidade e solidariedade. Ajudei várias pessoas e fui ajudada – já que meu apoio teve que abandonar a areia lá no quilômetro 50, após estourar o pneu da bike.

Nos últimos dois quilômetros, fui empurrada por uma multidão que berrava meu nome. Sei lá donde. Mas vi até o Salva-Vidas pular da Guarita e esbravejar, de punho cerrado: “Vai lá, Guerreira!”. Tchê, me arrepio só de escrever.

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de "parceria de fé"

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de “parceria de fé”

Fiz, como sempre, amizades incríveis: o figura Vanderlei “Chumbinho” Zanotto, de Veranópolis, estreou em grande estilo na categoria ultra com menos de 7 horas (6h58min). Correu do meu lado mais de 25 quilômetros e me deixou embasbacada com sua simplicidade e humanidade. Vi meu parceirão Ricardo “Kadinho” Cruz de Oliveira concretizar o sonho da primeira TTT com lágrima nos olhos, abraçado na parceirona Joana Ott, que acordou às 3h da matina pra fazer apoio pro doido (imagina só! e ainda me fez um telefonema desejando boa sorte…).

Em suma: estou até agora extasiada com o turbilhão de emoções dessa 13ª TTT. Quero parabenizar, mais uma vez, todos que torceram, vibraram e colaboraram para tornar o litoral norte gaúcho um palco de recordes nesse final de semana. Cada vez mais, tenho certeza de que essa é a melhor celebração que existe. É democrática, ao ar livre, sem máscaras, amarras ou filtros. Não tem frescura, artimanhas ou anestesia. É a vida como ela é.

Linda, intensa e verdadeira.

Até a próxima!

Com carinho,

Dani

* terei que replicar a máxima dum amigo hiperbrincalhão que lançou a célebre frase: “Todo mundo tenta. Mas só a Dani é Peeeenta!”. ((((

* deixo aqui meu muito obrigado a todos que torceram, vibraram e berraram meu nome durante o percurso e me parabenizaram presencial e virtualmente. Sem palavras!

* gratidão pela confiança e apoio dos meus patrocinadores, a Skechers Performance – que desenvolve guidis maravilhosos como o GoRide5, tênis que usei em todas as conquistas da TTT. Vocês estão cada vez melhores! – e a NewMillen Suplementos, que fornece toda a minha suplementação. Afinal, não é só de aguinha e banana que se enfrenta uma monstruosidade dessas! O PowerDrink, o IronGel e o 4:1, todos da linha IronMan, foram meus companheiros em muitos treinos e ao longo das mais de 7 horas de prova nesse sábado. Novamente, reitero a importância do aporte calórico numa ultra, o X da questão!

 

 

 

 

 

 

TTT 2017: pra começar – e terminar bem

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Foto: Guto Oliveira/Transpire

Foto: Guto Oliveira/Transpire

Após um ano fora da Travessia Torres-Tramandaí (TTT), que ocorre no próximo final de semana nas areias do litoral norte gaúcho, cá estou eu, ansiosa para percorrer os intermináveis 82 quilômetros que separam os dois balneários. Com a experiência de ter ganho por 4 anos consecutivos e sendo recordista feminina dessa competição, me arrisco a rabiscar alguns conselhos para quem irá encarar nessa edição. São bastante genéricos, mas talvez sejam úteis, sobretudo aos novatos.

1) Organize-se. Como é uma prova realizada na beira da praia, não espere um “mu-muzinho”. Por melhor que esteja a areia, o vento, o clima, jamais será como correr na Beira-Rio. Caso consiga, trace um plano B com sua equipe no que diz respeito à hidratação e suplementação. São várias horas de envolvimento no evento. Leve comida, isotônico, água, Coca-Cola, gel, paçoca, damasco, castanhas, sanduba, enfim, tudo aquilo que você esteja acostumado a comer. Jamais fique muito tempo sem se alimentar. Ter combustível constante é tudo!

2) Não se afobe. Tenha foco, bom-humor e paciência. Não importa a distância que você irá percorrer. Se vai na categoria solo, em dupla, quarteto ou octeto. Nada se resolve em 10 minutinhos. Vá trilhando quilômetro a quilômetro com base naquilo que você treinou. Milagre não existe e ficar dando uma de Usain Bolt em pista de tatuíra não vai te levar a lugar nenhum. Aliás, a chance de você quebrar é imensa. Lembre que é APENAS uma prova e que não tem vida ou morte em jogo. Estamos aí pra competir, sim, mas saudavelmente.

3) Concentre-se no ambiente. E curta cada momento. Caso a previsão se confirme – tempo bom, com sol -, fique mais atento ainda. Como a TTT é realizada em pleno veraneio, num sabadão, a chance da praia estar lotada é enorme. Crianças correndo pra lá e pra cá, guarda-sóis, vendedores ambulantes, bêbados, enfim, a fauna e a flora em atividade intensa. Tente seguir uma linha reta, não ficar em zigue-zague, pois, além de correr mais, a chance de acidentes fica maior. Numa única direção, sua concentração fica maior. Analise o estado da areia – quanto mais solta e clara, mais desgaste, pois não há retorno de passada e o sol reflete, aumentando a temperatura. Confira se mais perto da água a situação não estará melhor – afinal, perto das ondas, a areia é mais escura e você sofre menos a ação do calor. Claro, tem dias que nessa faixa a areia está muito fofa, o que não favorece nada. Tudo é questão de uma análise da situação. Ahh! Importante: não se preocupe em molhar seu rico pezinho na água. Ficar saltitando pra desviar dos córregos e valas, comuns no nosso litoral, é erro comum: muita gente já travou a posterior ou teve lesões ao fazer isso. Meta a “pata” sem dó e toque ficha. Afinal, se não é pra se sujar, nada como um passeio no xópim!

4) Evoque o mantra “eu posso. eu consigo”. Dia desses, conversando com um amigo meu que estreará na categoria solo, perguntei por qual motivo ele “inventou de fazer essa merda”. Deixei ele falar. Nenhum dos motivos que ele citou bateram com aqueles que acredito. “Não, você deve querer fazer porque você pode. E porque você consegue”, falei. A maneira de pensar é que faz toda a diferença. Lembre que tudo está na mente. Correr como você nunca correu é uma questão muito mais mental do que física. É preciso treino, sim, porém quem te faz chegar lá e cruzar a linha de chegada chorando e rindo ao mesmo tempo é essa superação pessoal. A grande batalha é com você mesmo.

Desejo a todos uma excelente prova – e que a força esteja com você. Sempre!

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Nos vemos lá na Barra do Imbé/Tramanda! ( ;

 

 

 

 

 

 

 

 

Fuja do Leão de Treino

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :

 

 

 

 

 

Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

Publicado por | Por Aí | Nenhum Comentário
O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

mounta

Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

( :

Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km