35ª Maratona de Porto Alegre: uma saga inesquecível

Publicado por | junho 10, 2018 | Maratonices | 7 Comentários

Cabeça feita. Essa é a sensação que tive após completar a minha 11ª maratona em Porto Alegre – e só Deus sabe qual da minha trajetória de pangaré. A trigésima quinta edição da Maratona Internacional de Porto Alegre, realizada na chuvosa manhã desse domingo, marcou minha memória de forma única, e foi completamente diferente de todas que corri.

Sem esperar muito – ou melhor, nada, já que não consegui treinar nem metade do ideal em função de uma fase punk profissional -, fui de sangue doce para a largada, sabendo que jamais faria um tempo próximo dos anteriores (tenho 3h06min como PR e 3h10min ano passado). Me inscrevi com a intenção de fazer parte da festa e não ficar de fora do maior evento do esporte que amo no nosso Estado.

Saí lá atrás, só no sapatinho, administrando um ritmo em torno de 4min30seg/km, o que conseguiria manter por o máximo de tempo possível. O cenário não era dos mais animadores: chuva, vento, um clima abafado e ao mesmo tempo pesado, nada ideal para sentar a bota. De forma conservadora, fui avançando sem forçar. Macaca véia, sei do preço que pagamos quando não cumprimos a planilha e sabemos que a periodização foi inexistente.

Porém…tava lá, no quilômetro 15. Focadinha, sofrendo feito cavalo manco, consciente do que me esperava pela frente. E nesse trecho, encontro uma atleta no canteiro, próximo à Usina do Gasômetro: a amiga Carina Carlan, excelente corredora e campeã de natação Master, “toda renga” (não muito pior que eu, kkkk), prestes a desistir, com muitas dores. Rapidamente, trocamos algumas palavras e a convidei para “sofrermos juntas”, naquela parceria que não precisa de muita conversa. Uma simples troca de olhares já diz tudo.

Naquele momento, encontrei um sentido a mais para estar ali. Sabe lá, acho que nada na vida é por acaso. Competitiva como é, Carina sentiria mais dor ao desistir naquele ponto, tenho certeza.

Como já passei por algo semelhante algumas vezes – e lembrei direto da última ultramaratona, no início do ano, quando eu passava mal e um amigo daqueles de fé não me deixou largar o osso -, quis retribuir dando o que tinha de forças para ela. Esqueci de qualquer dor, dos meus perrengues, da falta de treinos, de tudo. Estava ali por ela, obstinada em levá-la até o pórtico de chegada e ver o sorriso no seu rosto.

Sem munição, mas avançando na trincheira, fomos engolindo quilômetro a quilômetro. Parávamos, recuperávamos a musculatura, e mantínhamos o corpo em movimento num esforço digno de guerreiras.

Na reta final, o calor humano e aplausos dos amigos deram um impulso daqueles para cruzarmos a linha de chegada em 3h36min, num tempo incrível para quem enfrentou as dificuldades mentais e físicas, tendo que negociar com o “anjinho” e o “diabinho” todo tempo.

Eu e a atleta Carina Carlan cruzando de mãos dadas o pórtico de chegada. Que momento! <3

Eu e a atleta Carina Carlan cruzando de mãos dadas o pórtico de chegada. Que momento! <3

Hoje, foi dia de correr com o coração, numa prova que evidenciou mais uma vez o poder que nossa mente tem.  E que resiliência é tudo na vida – a famosa arte de se ferrar e continuar em pé…kkkk!

Essa maratona (que considero uma das sagas mais intensas pelas quais passei, pela sensação clara de desprendimento e egocentrismo, natural de quem  compete), deixa claro o quanto podemos evoluir como seres humanos – e quanto somos uma força monstruosa da natureza, em todos os sentidos.

Na minha mente, a sensação de dever cumprido, de gratidão e amor ao esporte, que transforma, que enobrece, que nos transforma em pessoas melhores e mais humanas.

Muito obrigada, de coração, a todos que gritaram meu nome, que transmitiram carinho e que integraram essa nobre festa.

Parabéns a todos guerreiros, não importando o tempo, as condições ou o que for.

Somos uma nação incrível e ser um “personagem” dessa história é uma honra, uma alegria e muito mais do que imaginei.

<3

Uma boa recuperação…e até a próxima, nação corredora!!!!!

* Agradeço a Skechers Performance, a NewMillen Suplementos e a Authen Brasil por me ajudarem a realizar todos esses sonhos. Gratidão. <3

 

7 Comentários

  • Gabriel disse:

    Esse é o “mistério” das maratonas nunca sabemos como chegaremos e talvez esse seja o fascínio de participar. Como tu Dani fiz treino básico mas consegui concluir sem judiar muito do “cadáver” em 3:52 pelo menos não precisei caminhar. Heheheh. Belo relato de parceria entre nós corredores.

  • Elizeu disse:

    Dani, tudo bem ?
    Você conseguiu transmitir exatamente o que foi a prova. Tenho 3:15 a fui pra tentar o 3:10. Logo no início eu vi que não seria possível.
    Terminei, sofrendo como nunca, em 3:35.

    Falei contigo durante o percurso. Disse que era de Recife.

    Abraços

  • Se a tua performance na maratona não foi a ideal, a tua crônica compensou o teu desempenho e o teu gesto merece o pódio da generosidade. Parabéns!

  • Boa noite Dani,
    acabo de ler o teu relato sobre a prova de ontem, muito legal! Parabens pelo gesto! Ha pouco tempo criei um perfil no instagram chamado gestoesportivo, exatamente para relatar os valores fundamentais do esporte! Te convido para dar uma olhada e, se achares legal, me mandar uma imagem com uma frase para publicacao no gestoesportivo.
    Valeu!
    Bjs,
    Geraldo

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