A fantástica história de Bataclan – o mais célebre corredor de Porto Alegre

Publicado por | maio 07, 2017 | Gente que corre | Um Comentário

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Imagine o que seria correr nas ruas de Porto Alegre, de calção e regata, descalço, na década de 50. Impossível imaginar que o ser humano que fizesse isso na época não viraria um célebre personagem. Pois foi o que ocorreu com Cândido José dos Santos – apelidado de Bataclan, que nos romances de Jorge Amado remete ao significado de cabaré, já que esse era o nome de uma famosa boate de Paris.

Ouvi falar dele pela primeira vez conversando com meus pais. Nascidos na década de 40, viram muitas vezes o corredor no Centro. “Era uma imponente figura. Alinhado, de porte atlético. Chamava muita atenção”, lembra minha mãe.

Muitas vezes, Bataclan corria de pés descalços. Sempre de manhã, quando saía para fazer seus vários quilômetros. Como li em matéria do jornal Zero Hora (Almanaque, do amigo fotógrafo Ricardo Chaves, o Cadão, um aficionado pela memória do nosso Rio Grande do Sul), “à tarde, exibia a herança dos tempos de teatro: vestindo terno, gravata e cartola, andava pelas imediações da Rua dos Andradas propagandeando lojas, bares, bebidas, sabões e colchões, entre muitos outros produtos”.

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Conforme o resgate histórico – no qual cito fontes como os pesquisadores Marcello Campos e o repórter Nilo Dias -, “Bataclan também estava sempre nos estádios de futebol em dias de jogos, muitas vezes distribuindo alimentos para famílias pobres. Gostava de conversar com as pessoas e defendia uma vida saudável – além de praticar esportes, era vegetariano e rejeitava cigarros e álcool. Tanto que viveu em torno de 90 anos. Seu velório, em setembro de 1990, foi realizado no Salão Nobre da prefeitura”.

Um personagem repleto de histórias

Há quem diga que ele foi “o mais querido personagem popular de todos os tempos em Porto Alegre”. Vegetariano, dizia que o marinheiro Popeye adquiria sua força em virtude de uma dieta baseada em espinafres. Gostava de contar que, certa vez, correu sem parar para dormir ou descansar, durante quatro dias e três noites seguidos, margeando o Guaíba durante o crepúsculo. Não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu, ou era apenas uma das muitas histórias que criava. Dizia ter dado uma centena de voltas no Gigante da Beira-Rio e depois, para não ser injusto, repetira o mesmo feito no Olímpico Monumental da Azenha.

De como ziguezagueara entre os túmulos dos cemitérios da Oscar Pereira orando a Deus pela alma de todos que ali jaziam.  Lembrou a multidão que o ovacionara ao cruzar o Parque da Redenção e a bronca que levara da mulher ao chegar em casa.

 

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Outros trechos que recolhi na minha pesquisa:

“Alinhadíssimo, sempre de terno branco, chapéu, gravata vermelha, sapatos reluzentes, e para completar o modelo, cravo vermelho ou dália na lapela, no melhor estilo do malandro carioca dos anos 30″.

O ícone Keneth Cooper, criador do famoso método de Cooper, visitou Porto Alegre em setembro de 1975. Conheceu Bataclan e declarou “que jamais viu coisa igual em todo o mundo”.  Bataclan, em retribuição, lhe presenteou com uma cesta de legumes e frutas.

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Adepto de São Francisco de Assis, que não comia carne vermelha, se declarava ateu. Há uma certa dúvida quanto ao seu nascimento: alguns registros apontam que foi no Rio de Janeiro, outros que foi em Santa Catarina. Morou em também em Curitiba e São Paulo, passou pela Europa, mas se radicou em Porto Alegre, em 1939. Cantor da Companhia de Revista Negra, onde fazia dueto com Rosa Negra, traduzia as parte em francês da cantora.  Nas apresentações, sempre lia um trecho chamado “Bataclan”. Por isso, ganhou o apelido.

Sua morte, reportada pelo Correio do Povo em 26 de setembro de 1990, gerou comoção geral.

“A má notícia se espalhou rapidamente ontem pela Rua da Praia. Morreu Cândido José dos Santos, o Bataclan, com 94 anos, vítima de parada cardíaca, às 8:15 minutos, no Hospital Conceição. Bataclan era vegetariano, atleta e o primeiro propagandista da cidade”.

Neto de escravos da Guiana Francesa, filho de marinheiro, ainda tinha tempo para doar alimentos aos doentes da Santa Casa e o Lar Padre Cacique.

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Entre suas pérolas, a melhor de todas, ao meu ver, é essa:

“Meu caráter é impecável. Sou idealista e ateu. O homem não vale por seus preconceitos e nem pela cor. Vale por que faz na vida. Esta é minha concepção filosófica”.

 

Um Comentário

  • Grande resgate Daniela!

    Nos anos 80 trabalhava no centro, onde diariamente passava pela Rua da Praia, e inúmeras vezes cruzei com Seu Bataclan, que era extremamente simpático e solicito, alem de gostar de bater papo. E de brincar com as pessoas, alem é claro, de ver ele seguidamente correndo pelas ruas da cidade. No final da década de oitenta, mais via ele de fatiota branca, do que em trajes de corrida.
    A noticia de sua morte foi muito representativa na nossa cidade!
    Bela lembrança!!!

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