Daniela Santarosa

TTT 2019: e foi forte

Publicado por | Finish Line | Nenhum Comentário
Numa das passagens pelos postos de troca, ao lado do parceiro Ricardo Cruz “Cadinho”

O texto que escrevo a seguir é um teste para ver se consigo, em palavras, descrever o que foi a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) 2019, um momento mágico e, sem dúvida, o mais emocionante de toda minha trajetória como pangaré-master. (((( :

A prova teve um sabor único: primeiramente, pela nomeação de “Madrinha” da prova, algo simbólico e alusivo a conquista de cinco das seis edições que disputei na categoria solo (82km).

Não sou de frescuragem nem dou muita bola para status de crachá… porém, não nego ter me sentido lisonjeada ao ser convidada pelo criador da TTT, Antônio João Freire (Janjão), para estrear em tal “cargo”, algo inédito nesse formato no Brasil. Isso porque, além de vender a imagem da prova de forma espontânea, me coloquei à disposição para correr grande parte do percurso sem chip, sem número, só com a vontade de ajudar e incentivar os atletas – sobretudo os novatos.

Porém, o cara lá de cima foi mais generoso.

Tudo o que previ ficou pequeno diante do que vivenciei nas mais de 8 horas que varei naquele sábado escaldante de verão – quando as temperaturas superaram os 35 graus e a sensação térmica…por baixo, beiravam os 45 graus. ((((( ; Nível Hard – quase estourando a tampa do radiador.

O cenário (nenhuma novidade no contexto histórico da TTT, já que é realizada no final de janeiro, na beira da praia…vai esperar o que?) era de um filme encomendado pela corredora-bicuíra aqui: céu azul, areia firme, pouco vento, amanhecendo…e mais de 3 mil pessoas vibrando e colorindo as areias do Litoral Norte gaúcho.

Embora tenha vencido tantas vezes e acreditando totalmente no princípio da meritocracia, não tinha bem certeza do que os participantes achariam do fato de eu figurar como uma atleta não-competitiva, low profile, que não está ali como “pipoca”, mas sim com o longa-metragem inteiro, o trailer, o refri e pra fechar um sorvetinho porque ninguém é de ferro. kkkkkk

Gente do Céu. Pelas barbas do profeta. O que vivi não está no mapa.

Lá no km 50 e lá vai pico, entre o Farol de Capão da Canoa e a Plataforma de Atlântida, quando puxei o trote de 6 km entre um ponto e outro, o clima era indescritível. Mal consegui ouvir a contagem regressiva para a relargada. Muitos querendo tirar fotos, galera dando risada. Abracei dezenas, ouvi palavras de carinho de tantos que perdi a conta…e ao longo dos mais de 67 km que corri das 6h30 da manhã até às 2h e pouco da tarde, indo e voltando, ajudando um aqui…outro ali…tive a certeza de ser uma criatura sortuda pra caramba.

Puxando o trote de 6km com mais de 2,5 mil pessoas na minha cola

Desde 26 de janeiro, quando ocorreu o evento no Litoral Norte, um filme não para de passar na minha cabeça. Digo que a ficha demorou a cair. Isso porque jamais imaginei receber o carinho que recebi de inúmeros atletas, dos mais novatos aos macacos-véios.

Não tenho palavras para definir tudo o que sinto.

Trocaria todos meus troféus e medalhas conquistados ao longo dessas duas décadas por esse sábado ensolarado. Sem pestanejar.

Lembro, ao pegar o microfone lá na tenda do trote, no final da minha fala…de abreviar as palavras e evitar olhar para a multidão que me ouvia para não desabar em choro.

Agora faço isso, ao terminar esse texto e agradecer, do fundo do meu coração, por tanto. <3

Obrigada. Obrigada e obrigada, nação corredora.

E até a próxima…porque nós gostamos é do que bate forte aqui no peito. Sempre!!!

TTT 2019: nós gostamos é do estrago

Publicado por | Mente de corredor | Um Comentário

A maior prova de revezamento desses pagos – a 15ª TTT, prestes a acontecer no dia 26 de janeiro na orla gaúcha – terá um gostinho especial para muitos atletas. Há aqueles que irão encarar pela primeira vez, em duplas, quartetos, octetos ou na categoria solo…e é para essa legião de corredores que eu dedico esse texto.

A Travessia Torres-Tramandaí tem um significado singular na minha breve e sofrida trajetória de pangaré master. Minha primeira experiência, em 2009, foi em dupla mista (cada um correndo 41km, metade dos 82km totais do percurso). Meu filho Francisco tinha um aninho de idade. Eu lá, sem muito treino, toda cheia de inseguranças, com duas maratonas nas costas…sem saber o que esperar. Porém, com muita gana de viver uma experiência única.

O destino – e o parceiro de dupla, é claro, o Luciano D’Arriaga, ultramaratonista de gabarito – foi generoso demais comigo. Faturamos o primeiro lugar, com pouco mais de 6 horas de peleia. E foi tão bacana que sentenciamos, na linha de chegada:

– Puta que lo pario! Ano que vem vamo solo!!!

Aí que eu me refiro. Como diz uma amiga de longa data, “Deus põe no mundo, a gente por si só se perde…e o diabo faz questão de nos juntar”. Ali estava decidido.

Ano seguinte, 2010, véspera de prova. O que esperar? Trabalhava várias horas na redação dum grande jornal como editora, tinha pouco tempo para treinar. Mesmo assim, dei um jeito. O treino era sagrado. Mesmo de madrugada ou no horário do almoço.

E sabe o que me motivou?

Não foi o ato quase hercúleo de vencer uma distância tão tosca a pé, na areia, em um ambiente insalubre e instável que me levou lá.

Minha gana era outra.

Era tirar aquela imagem da minha mente, antes de querer competir individualmente. Lembro bem. Todos acabados, com um semblante de exaustão…daquelas cenas de pós-guerra, lembrando autoflagelação. Pensei, com meus cadarços: “será que precisa ser assim? Eu acho que não. Que dá para chegar mantendo a decência, ou, ao mínimo, passando uma mensagem menos explícita do estrago que fazemos no nosso organismo ao correr dessa forma (mas isso eu deixo para outro post).

Dali pra diante, foi uma vitória. Duas, três. Quatro e cinco.

Pentacampeã.

Chega? Não.

Esse ano, vou estar lá novamente. E de uma forma bem diferente – e com uma missão bem mais nobre. A convite do Antônio “Janjão” João Freire, criador da prova há 15 anos atrás, serei a Madrinha da prova, posto inédito nesse formato no Brasil. Sairei às 6h30min lá de Torres, atrás de todos os 200 e tantos atletas solo, e irei acompanhar a galera até o Farol de Capão da Canoa, há 50km da largada. De lá, comandarei o trote (que voltou após anos sem a sua realização), quando cerca de 2 mil atletas estarão na minha cola, fazendo muita festa…e ahhhhhh….imagino a cena! Arrepiei aqui! ((( :

O resto? O resto é surpresa.

Porque o bacana da vida está exatamente no inesperado. No incomum, no fora da caixa. Se fosse fácil, não teria toda essa magia, charme e riqueza indescritíveis que só quem faz sabe e não pode ser descrito em palavras.

Desejo a todos uma prova nota mil.

A TTT 2019 será inesquecível.

Alguma dúvida?

Para mim, muitas. Mas bora tocar o barco, porque nós gostamos é do estrago.

Não percam, aqui, nesse mesmo bat blog, relato da experiência após a prova.

Coração de corredor <3

Publicado por | Mente de corredor | Nenhum Comentário


Broken-heart

A corrida consegue produzir metáforas perfeitas do que é essa breve e louca vida. Ao longo das mais de 2 décadas de prática e dedicação a esse nobre esporte, tenho orgulho em afirmar que sim, a corrida – e, em especial, a maratona – transforma seres humanos em gente de verdade. Digo isso porque tem muitos por aí que se gabam de conquistas como adquirir o carro do ano, ter a cobertura no bairro mais bacana. Baixar champa em Jurerê International e ostentar cartão Platinium Mega Gold Titanium soltando raio-laser afu em Miami.

Agora….quero ver enfrentar a vida como ela é. Isso é tarefa das brabas, sem filtrinho nem anestesia na peridural. É parto normal, suado, sofrido. No Instagram e no Facebook, é só alegria. Porém, a realidade se mostra dura e entediante para a maioria. Tenha certeza. E a tarefa mais árdua – a de se relacionar, tanto em família quanto em sociedade e, principalmente, amorosamente – fica mais difícil pra quem é corredor.

WHAT?

Explicarei.

Correndo, a gente questiona o sentido da vida. Sobre o sentido de estar aqui nesse plano.

Correndo, pensamos na naba que é tá nesse mundo gigante e ser só uma gota d’água (ou de suor na viseira).

Ao correr, viramos filósofos. Antropólogos. Psicólogos e, muitas vezes, arigós de obra (kkkkkk).

Ao correr, nos encontramos com nós mesmos — e percebemos o poder da simplicidade, da beleza que há no que poucos percebem.

E indagamos sobre o amor. Sobre esse sentimento filha duma mãe de tão grande, que aperta o peito e move montanhas – montanhas não, cordilheiras!

Não nos contentamos com pouco.

Saimos da água morna, paradinha….e vamos pra água fervente, descemos pra água congelante…aí queremos água com gás, cerveja, vinho (e opa! me vê um churrasco!). Não importa a idade, a distância ou qualquer outra coisa. A vida passa a ser muito mais intensa e altamente questionável.

………….

Falando com uma amiga corredora que se separou há 2 semanas de um casamento que durou 8 anos, há pouco, no telefone, matutei sobre o quanto amadurecemos ao dar nossas passadas solitárias – e também enriquecemos com as amizades construídas na jornada. A metáfora é perfeita, e é sobre o altos e baixos da vida, com o percurso casca-grossa dos 42, 1 km da Maratona.

Olhando, parece até fácil. Mas nunca menospreze o adversário.

Vamos pensar na clássica maratona: ao sair, “todo mundo é macho”. Baita ritmo, tudo muito belo. Ahhh…pois é. Só que é ali pelo km 32 que a prova começa. Dali pra frente, os machões viram menininhas. A Mulher Maravilha vira uma Mulher Samambaia. E o urso senta nas costas.

Infelizmente, só tomando na cabeça que aprendemos.

Amigo meu sentenciava: “tu só vai ficar boa depois da quarta ou quinta maratona”.

Odiava ele.

E vi que é isso mesmo.

Não se aprende por osmose. Não se cresce sem sofrimento. É na adversidade.

Não é fácil pra ninguém – só que acredito fielmente na força do coração dum corredor. Porque ele não cresce só na potência de bombear sangue. Ele é imensamente maior na capacidade de admitir que é ele, no fim das contas (em acordo com a mente, claro) que manda nessa bagaça.

Tenho certeza da capacidade de superação dessa fase que a amiga recém-solteira é gigantesca. Nem preciso me preocupar.

Virão novos ares. Novos amores, novas amizades. Novos desafios.

A melhor corrida é a que está por vir. E pra cruzar a linha de chegada sorrindo, o treino é diário.

Um quilômetro por vez.

Um dia de cada vez.

Que essa seja nossa nobre filosofia.

<3

 

 

35ª Maratona de Porto Alegre: uma saga inesquecível

Publicado por | Maratonices | 7 Comentários

Cabeça feita. Essa é a sensação que tive após completar a minha 11ª maratona em Porto Alegre – e só Deus sabe qual da minha trajetória de pangaré. A trigésima quinta edição da Maratona Internacional de Porto Alegre, realizada na chuvosa manhã desse domingo, marcou minha memória de forma única, e foi completamente diferente de todas que corri.

Sem esperar muito – ou melhor, nada, já que não consegui treinar nem metade do ideal em função de uma fase punk profissional -, fui de sangue doce para a largada, sabendo que jamais faria um tempo próximo dos anteriores (tenho 3h06min como PR e 3h10min ano passado). Me inscrevi com a intenção de fazer parte da festa e não ficar de fora do maior evento do esporte que amo no nosso Estado.

Saí lá atrás, só no sapatinho, administrando um ritmo em torno de 4min30seg/km, o que conseguiria manter por o máximo de tempo possível. O cenário não era dos mais animadores: chuva, vento, um clima abafado e ao mesmo tempo pesado, nada ideal para sentar a bota. De forma conservadora, fui avançando sem forçar. Macaca véia, sei do preço que pagamos quando não cumprimos a planilha e sabemos que a periodização foi inexistente.

Porém…tava lá, no quilômetro 15. Focadinha, sofrendo feito cavalo manco, consciente do que me esperava pela frente. E nesse trecho, encontro uma atleta no canteiro, próximo à Usina do Gasômetro: a amiga Carina Carlan, excelente corredora e campeã de natação Master, “toda renga” (não muito pior que eu, kkkk), prestes a desistir, com muitas dores. Rapidamente, trocamos algumas palavras e a convidei para “sofrermos juntas”, naquela parceria que não precisa de muita conversa. Uma simples troca de olhares já diz tudo.

Naquele momento, encontrei um sentido a mais para estar ali. Sabe lá, acho que nada na vida é por acaso. Competitiva como é, Carina sentiria mais dor ao desistir naquele ponto, tenho certeza.

Como já passei por algo semelhante algumas vezes – e lembrei direto da última ultramaratona, no início do ano, quando eu passava mal e um amigo daqueles de fé não me deixou largar o osso -, quis retribuir dando o que tinha de forças para ela. Esqueci de qualquer dor, dos meus perrengues, da falta de treinos, de tudo. Estava ali por ela, obstinada em levá-la até o pórtico de chegada e ver o sorriso no seu rosto.

Sem munição, mas avançando na trincheira, fomos engolindo quilômetro a quilômetro. Parávamos, recuperávamos a musculatura, e mantínhamos o corpo em movimento num esforço digno de guerreiras.

Na reta final, o calor humano e aplausos dos amigos deram um impulso daqueles para cruzarmos a linha de chegada em 3h36min, num tempo incrível para quem enfrentou as dificuldades mentais e físicas, tendo que negociar com o “anjinho” e o “diabinho” todo tempo.

Eu e a atleta Carina Carlan cruzando de mãos dadas o pórtico de chegada. Que momento! <3

Eu e a atleta Carina Carlan cruzando de mãos dadas o pórtico de chegada. Que momento! <3

Hoje, foi dia de correr com o coração, numa prova que evidenciou mais uma vez o poder que nossa mente tem.  E que resiliência é tudo na vida – a famosa arte de se ferrar e continuar em pé…kkkk!

Essa maratona (que considero uma das sagas mais intensas pelas quais passei, pela sensação clara de desprendimento e egocentrismo, natural de quem  compete), deixa claro o quanto podemos evoluir como seres humanos – e quanto somos uma força monstruosa da natureza, em todos os sentidos.

Na minha mente, a sensação de dever cumprido, de gratidão e amor ao esporte, que transforma, que enobrece, que nos transforma em pessoas melhores e mais humanas.

Muito obrigada, de coração, a todos que gritaram meu nome, que transmitiram carinho e que integraram essa nobre festa.

Parabéns a todos guerreiros, não importando o tempo, as condições ou o que for.

Somos uma nação incrível e ser um “personagem” dessa história é uma honra, uma alegria e muito mais do que imaginei.

<3

Uma boa recuperação…e até a próxima, nação corredora!!!!!

* Agradeço a Skechers Performance, a NewMillen Suplementos e a Authen Brasil por me ajudarem a realizar todos esses sonhos. Gratidão. <3

 

Meu encontro com Raimundo Nonato

Publicado por | Gente que corre | Nenhum Comentário

A lenda diz que ele saiu do útero da sua mãe já morta, através de uma cesariana, algo incomum para a época (século XIII). O bebê sobreviveu, por um milagre. E a força como veio ao mundo pode ter despertado seu lado guerreiro – tanto que foi canonizado por ter lutado contra a escravidão (mesmo não sendo de origem africana), na época considerada natural. Seu nome? Raimundo Nonato – já que “non nato”, em latim, significa “não nascido”. Virou o santo das obstetras e parteiras, que comemoram a data no dia 31 de agosto.

Cristo canonizando São Raimundo Nonato

Cristo canonizando São Raimundo Nonato

Nonato, que viveu entre 1204 e 1240 na Catalunha, canonizado em 1657 pelo Papa Alexandre VII, é o nome de muitos brasileiros e virou até nome de uma cidade do Piauí. E no domingo passado, num calor escaldante de Porto Alegre veranil, conheci o primeiro deles em plena Avenida Carlos Gomes. De longe, o avistei. Carregava umas cinco malas grandes presas ao quadro da bicicleta, capacete, mochila, chapéu de Crocodilo Dundee e um mapa preso ao extensor do bagageiro. A cena despertou minha atenção. Quando fui ultrapassá-lo, não me segurei. Desconfiava que ali residia uma ótima história (cacoete de jornalista que já foi repórter de campo):

– Tá vindo da onde? – perguntei.

– De Punta Arenas, no Chile – respondeu, parando a bike.

Hein? Cuma??? Parei meu GPS na hora. O carinha já tinha pedalado mais de 4 mil quilômetros. E dali, iria até o Chuí (mais 518 quilômetros).

E aí ele começou a contar sobre sua saga. Já sucumbiu às drogas, foi pro fundo do poço. Ressurgiu das cinzas e prometeu a si mesmo superar a fase de angústia e depressão.

– Quis mostrar que sou mais forte do que tudo isso – falou, com sotaque carregado, já que mora em território chileno a muitos anos.

Raimundo, 51 anos, trabalha como encanador hidráulico. Ganha dois salários mínimos, em média, por mês. Atualmente, o salário mínimo do Chile é de cerca de 250 mil pesos, o que representa pouco mais de R$ 1.200,00. Ganha o suficiente para se sustentar, mas está longe de ter condições de ficar em bons hotéis. Se vira como dá. Vai pedalando, parando, encontrando gente que acolhe. Um dia de cada vez, quilômetro por quilômetro.

Os perrengues são inúmeros. No domingo, quando o encontrei, usava uma sandália no pé esquerdo, enfaixado. Havia sido atropelado por uma carreta. A pior parte da aventura, sem dúvida, é a situação precária das estradas e de uma estrutura para pedalar sossegado. Fome, sede, cansaço. Sol que castiga. Sua pele já apresentava queimaduras severas. Mas ele não tinha reclamação alguma a fazer, nem de fraqueza física ou mental. Parecia muito tranquilo e obstinado no seu objetivo.

– Tenho certeza que tem muito mais coisas entre o céu e a terra que desconhecemos – filosofou, em pleno asfalto escaldante do meio-dia.

 

A bike de fé do maluco denuncia a aventura

A bike de fé do maluco denuncia a aventura

 

Assim como Raimundo Nonato que virou santo (e Raimundo tem origem a partir do germânico Ragnemundus, formado pela união dos elementos ragin, que significa “conselho”, e mundo que quer dizer “proteção”, e significa “sábio protetor”, “aquele que protege com seus conselhos”), o brasileirinho radicado no Chile deixou uma lição para mim naquele dia.

Pensei sobre o destino de cada um de nós; sobre nossas escolhas; nossa capacidade de superar fases ruins com tranquilidade e amor no coração; na resiliência; na atitude perante a vida. De como estamos sozinhos nesse mundão, porém tão próximos de tanta gente bacana. Basta ter olhos para enxergar além do horizonte. Números? O que são números? Aquelas placas indicando quilômetros não são nada diante da poderosa força que temos de dar mais um passo ou pedalar mais uma vez.

Raimundo fez eu ter certeza de que o impossível é, certamente, apenas uma questão de opinião.

 

 

Claro que tiramos uma fotinho do nosso inusitado encontro

Claro que tiramos uma fotinho do nosso inusitado encontro

 

Boa jornada, guerreiro!

( ;

 

RAIMUNDO2

 

Correr: a arte de seguir sem olhar pra trás

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Mick Jagger já disse em entrevista que deve a sua excelente forma física às corridas diárias

Mick Jagger já disse em entrevista que deve a sua excelente forma física às corridas diárias

If it’s love that you’re running from (se é do amor que você está fugindo)
There is no hiding place (não há esconderijo)
Just your problems, no one else’s problems (são os seus problemas, não os de mais ninguém)
You just have to face (você terá que encarar)

If you just put your hand in mine (Se você colocar suas mãos nas minhas)
We’re gonna leave all our troubles behind (nós iremos deixar todas as nossas encrencas pra trás)
Gonna walk and don’t look back (Vamos andar e não olhar para trás)

……

Em muitos longões (corridas mais longas), carrego essa trilha cantada magnificamente pelo mestre do reggae Peter Tosh e pelo ícone Mick Jagger (confira no Youtube clicando aqui). Embora tenhamos o vício de revisitar nossos erros com frequência – essencial para refletirmos e tentarmos fazer diferente na próxima vez -, creio que a vida só segue com dinamismo se exercitarmos a arte de preferir olhar pra frente e não se deter tanto no que já fizemos ou já ocorreu. Afinal, só podemos mudar o hoje, o agora, e o que irá ocorrer daqui pra diante será fruto dessas atitudes, tomadas com a cabeça erguida, olhando pro horizonte.

Tudo isso tem a ver com autoconhecimento e engloba um tanto mais de filosofia e de psicologia. Será que estou “viajando”? Bem, sempre….kkkkk….(((( ;

Vou tentar ser mais clara.

spirit2
Defendo a teoria de que correr é meditar. Muito mais do exercício físico, a corrida envolve um encontro mental e até espiritual. Por essência, é um esporte individual, característica que, ao meu ver, a tem catapultado, na última década, para o topo do ranking das modalidades mais praticadas no mundo.

Para mim, o que vicia nesta modalidade não é o simples benefício muscular, estético ou cardiovascular. Não há médico que explique. Quem descobre a corrida, descobre uma nova forma de ver o mundo. E é uma maneira simples, mas genuína e intensa, que apaixona tanta gente.

Ao longo de mais de 20 anos de prática da corrida de rua, conheci gente de todo tipo: de atletas profissionais a praticantes de “corridinhas” de final de semana. Em comum, todos eles revelaram nos olhos, brilhantes e energizados, uma sensação de prazer extremo. Me confessaram não saber viver mais sem o prazer do dever cumprido, da planilha executada na íntegra, na alegria de completar essa ou aquela prova. São garotos-propaganda voluntários, fazem questão de compartilhar suas experiências e incentivar aqueles que nunca experimentaram a alegria de uma hora de corrida intensa.

O que mais me alegra, sendo uma atleta amadora dedicada e tão apaixonada por esse esporte, é ver o crescimento em escala geométrica de corredores de norte a sul do Brasil. Graças às redes sociais e à bendita internet (que, quando não atrapalha, ajuda demais a vida da gente), tenho me comunicado com gente de todo canto, que me pede dicas, conta histórias inesquecíveis, planeja junto provas ao redor do mundo e vibra a cada conquista. Porque, depois de olhar pra frente, a gente olha pros lados pra ver quanta gente bacana tem nesse mundo (ainda!).

Cada um tem uma missão na vida. Não vim aqui para passeio no shopping. Vim pra passeio ao ar livre, com vento batendo no rosto e adrenalina correndo nas veias!  Mesmo não sendo uma atleta tão gabaritada e ter uma série de defeitos e limitações, acredito que consigo plantar uma semente na cabeça de pessoas que desejam sentir o lado, ao meu ver, mais bacana de ver a vida: com os pés no chão, os olhos no céu, a mente aberta e, principalmente, o coração sedento de novos desafios.

Keep walking…ou melhor, keep running!

keep

Um abraço e bons treinos a todos!

 

 

TTT 2018: carta de uma veterana de guerra

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Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros "ultraloucos"

Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros “ultraloucos”

Sábado que vem, a essa hora (perto das 20h), a esmagadora maioria dos atletas que enfrentarão a 14ª edição da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) – uma das mais célebres provas de revezamento do Sul do Brasil – estará com um irritante sorriso no rosto, daqueles que só exibem aqueles que são adeptos da máxima “missão dada, missão cumprida”. Na peleia, quase 3 mil atletas dos mais diversos níveis de condicionamento, idades e perfis – dos iniciantes, recrutados para revezamentos em octetos e quartetos -, aos mais calejados, que enfrentam os 82 quilômetros na beira da praia em duplas e individualmente com sangue nos zóios, como é de praxe no evento esportivo mais disputado do verão gaúcho.

Será minha oitava participação na TTT. Venci 5 vezes solo, 1 vez em dupla, e fiz mais uma vez não sei há quanto tempo, em quarteto (quando achava aquilo tudo uma doidera, tipo gincana de colégio). Devo a essa competição meu pontapé inicial nas ultramaratonas. Nunca, jamais, imaginei estar no posto de recordista feminina da prova (com 7h21min, cravados ano passado), e hoje, aos 41 anos, ainda ter tesão de varar a imensa faixa litorânea, monótona e invariavelmente insalubre que separa as cidades de Torres, na divisa com Santa Catarina, com a Barra do Imbé, balneário onde veraneio há 3 décadas (sim, cruzo a chegada a 500 metros de casa, onde minha mamãe me espera com uma sopa de legumes que levanta até defunto). <3

E, afinal, o que posso dizer dessa doidêra toda? Dicas, curiosidades, o que tenho a declarar?

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Sou a prova viva, véia, seca, esturricada e toda fia da mãe (kkkkkkkkkkk) de que não há mágica nessa brincadeira toda. Tudo o que conquistei foi suado pra caramba, e fruto de anos e anos de treinamento incessante, um DNA favorável, um lastro respeitável no esporte desde muito cedo (já pratiquei de tudo um pouco, desde os 3 anos de idade) e, sobretudo – e é sobre isso que que quero focar -, de uma cabeça dura pra dedéu. A prática da resiliência (a arte de se ferrar, tomar pancada e seguir em pé) é o que me trouxe até aqui. Absoluta certeza.

Tenho receio de dar dicas genéricas. Até porque hoje, como profissional de Educação Física, tenho compromisso de incentivar a todos os que buscam ter uma vida longeva e consistente no esporte busquem orientação, já que cada organismo reage de forma distinta e o princípio da individualidade biológica deve ser respeitado.

…o que não me priva de dar um conselho que já me serviu muito na hora do aperto: não vamos nos acadelar. ((((:

“Você é uma mulher ou um verme?” às vezes é muito mais válido do que o famigerado e inútil “falta pouco!” (só se for pra você, desgraçado!). kkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!

No sábado, quando a coisa estiver russa, o urso sentar nas costas e aquele paredão desgraçado surgir na sua frente, lembre que no final é tudo alegria.

Desejo a todos uma excelente prova. Corram com paixão e alegria. Afinal, é por isso que estamos aqui, certo?

Quando cruzarem com a veterana de guerra que vos fala, tenham certeza que estou torcendo por cada um de vocês. De coração.

 

Até lá!

Um forte abraço!

(((( :

 

 

 

 

 

Dependentes da corrida: quando correr vira um problema

Publicado por | Mente de corredor | 3 Comentários

 

Jogging injury.

Se você é um atleta experiente, já deve ter respondido para alguém “se correr realmente vicia”. Nada mais natural a curiosidade. Afinal, para quem olha de fora, como explicar a rotina exaustiva de treinos dum maratonista? Ao longo das mais de duas décadas de prática desse esporte, posso afirmar que sim, vicia. E muito. Até chegar ao ponto de mais atrapalhar do que ajudar a vida. E é justamente sobre isso que falarei nesse texto.

Nessa manhã, ao ligar no canal OFF, deparei com um documentário muito interessante (Wild Surf), filmado com mulheres que pegavam onda na década de 80/90 nos Estados Unidos e que viviam o lifestyle do surf na veia, mesmo depois de décadas. Todas elas, na faixa dos 50 anos de idade, falavam, nostálgicas, o que o mar significava para elas. Uma das entrevistadas revelou ter feito terapia para curar a dependência no esporte, que passou a atrapalhar sua rotina. “Tinha dias que eu estava trabalhando e identificava um swell entrando de Sul. Não conseguia fazer mais nada a não ser pensar nas ondas que estava perdendo dentro do escritório”. E é justamente nesse ponto que quero chegar.

Quem aí já faltou um compromisso importante porque “tinha” que treinar? Deixou de aproveitar um encontro familiar ou amoroso para cumprir na íntegra a planilha? Ou ficou com um beiço deeeesse tamanho porque não conseguiu calçar os tênis pra rodar “pelo menos 10 quilometrozinhos”? Ah, pois é. Eu me enquadro perfeitamente no grupo que levanta a mão pra dizer que sim, já deixei de fazer muita coisa por causa da corrida. É claro que treinar é necessário, e dependendo da prova-foco, tem que treinar MUITO. Ultramaratonistas e triatletas que o digam.

Quando passa do ponto

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Há um limiar muito pequeno entre o saudável e o doentio, objeto de estudo de teses como essa, publicada há vários anos na Revista Brasileira de Medicina do Esporte – “Dependência da Prática de Exercícios Físicos: Estudo com Maratonistas Brasileiros“.  Ali, é possível ler a respeito da chamada negative addiction – ou seja, quando “a prática excessiva de exercícios está associada a aspectos prejudiciais à saúde física e mental do indivíduo”. O estudo, realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, avaliou o grau de dependência de 59 corredores. A conclusão bate com o que observo hoje, após ter observado centenas de atletas amadores. “Alguns corredores apresentavam sintomas de abstinência, tais como irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos de culpa, quando eram impedidos de participar de suas rotinas de corridas regulares. Entre as evidências que fortalecem a hipótese da existência de dependência de exercício, encontram-se relatos de corredores sobre a interferência da prática regular de corrida no convívio familiar, social e no ambiente de trabalho”.

Os sintomas de que a coisa está passando do ponto são evidentes.  Vamos a alguns deles:

1) Deixar de realizar outras atividades para manter o padrão de treino;

2) Aumentar a tolerância à quantidade e frequência dos exercícios físicos ao decorrer dos anos;

3) Ter sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade) quando interrompida a rotina de exercícios e consequente alívio ou prevenção ao praticar a atividade;

4) Seguir realizando a atividade física mesmo quando lesionado, doente ou com qualquer indicação médica;

5) Se isolar socialmente, afetando relacionamentos com amigos, familiares ou com companheiros de trabalho;

6) Fazer dieta alimentar para perder peso como uma forma de melhorar o desempenho.

Em busca da harmonia

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Se você se identificou com esse perfil de “dependente da corrida”, vale refletir o quanto isso está afetando a sua vida. Assim como a surfista do documentário, que foi atrás de um psiquiatra para tirar o pé e encontrar o equilíbrio entre o esporte, o trabalho e a família, creio que é válido buscarmos uma ajuda profissional caso você tenha a consciência de que a corrida virou mais um problema do que um prazer. Afinal, não estamos aqui nessa vida para pagar penitência, certo?

Sou um caso típico. Numa época, não conseguia passar um dia sem treinar. A ideia era capotar na cama, ao ponto de desligar a chave-geral. Essa válvula de escape até funciona, porém pode ter consequências graves, como overtraining, queda no rendimento físico e mental – sem contar no vasto rol de lesões.

Fui buscar terapia. Estava chegando no ponto perigoso da obsessão. A sorte é que consegui puxar o freio antes que algo mais grave ocorresse. A boa notícia: correndo menos, melhorei meu desempenho. Descobri que qualidade é muito mais importante do que quilometragem. Que descanso também é treino. Ao meu ver, a corrida pode ser uma grande aliada para um envelhecimento saudável. Para isso, é preciso investir bastante em autoconhecimento: a chave de tudo. É preciso descobrir os motivos  dessa fuga (não adianta correr, os problemas seeeeempre são quenianos, kkkkk). Buscar o real sentido da corrida, que é colaborar para nos tornarmos seres mais completos e saudáveis.

Pretendo ser uma velhinha beeeeem doidinha, amarrando meus cadarços para aquele trotezinho matinal. Creio estar no caminho certo. Ouvindo meu corpo, sabendo dos meus limites, dos meus objetivos e prioridades. A corrida significa muito, mas não é absolutamente tudo. Vamos correr, sem exagerar na dose – afinal,  a diferença entre o remédio e o veneno é bem pequenina.

Bons treinos a todos!

( ;

 

Correr é aprender a sofrer

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A frase pode parecer um mantra de masoquista. Calma. Não pense que todo corredor é um sofredor por natureza. Deixe explicar minha teoria.

Corro há quase duas décadas, continuamente. Isso não quer dizer um mês sim, outro não. Falo de treino diário, suado, faça chuva, faça sol. Inverno ou verão. Com céu de brigadeiro ou tomando canivete nas paletas. O que me dá um respaldo suficiente para resumir (toscamente, ok), o que é esse esporte para mim. Se fosse escolher três palavrinhas, tascaria de prima: “aprender a sofrer”. Sim. Porque não pense aí você, que vê um maratonista de longa data rodando feito lebre, que o negócio é fácil e “está no DNA”.

Alguma dúvida do perrengue?

Alguma dúvida do perrengue?

Embora há inúmeros estudos comprovando a influência dos genes paternos e maternos na nossa eficiência biomecânica e energética, jamais poderemos esquecer do que está na base de tudo, e que – ao meu ver, tem TODA diferença. É a capacidade de tolerarmos a dor e seguirmos adiante. Mesmo nos dias ruins.

Esses dias, por acaso, li um artigo muito interessante na revista Gracie Mag, falando sobre os ensinamentos para os lutadores de jiu-jitsu (que admiro muito). No texto, uma citação chamou atenção:

“Acostume-se com a adversidade. Treinar cansado, sem vaidade e sem pensar no resultado, faz parte do caminho do guerreiro. Em breve, isso será normal para você e fará toda a diferença numa eventual competição. Entender como você se porta cansado vai ajudar no seu autoconhecimento”.

Precisa falar algo mais?

Finish-line-image

Resiliência – a “arte de se f*** e seguir em pé, resumindo – segue norteando toda a base do bom treinamento. Qualquer atleta que se preze, amador ou profissional, aprende (na marra ou não), que saber aguentar no osso o tranco é a chave do sucesso. Há dias ruins, dias bons, dias péssimos e outros nem queremos comentar de tão sofríveis. E é por isso mesmo que tem graça. Se fosse tão barbada, qualquer um corresse uma maratona como vai no supermercado comprar bananas…

A meritocracia do maratonista é um patrimônio valioso. Todos que já correram 42.195 metros sabem do que estou falando. Não menosprezando as distâncias menores – afinal, os velocistas estouram as coronárias por um motivo muito nobre. Independente da distância, tempo ou qualquer outro parâmetro, estamos falando aqui de superação construída diariamente, mental e fisicamente.

Na manjada e inevitável metáfora da corrida com a vida, mais uma afirmação que faço sem pestanejar: os mais fortes triunfam.

Quem disse que viver seria lomba abaixo, com vento a favor?

É vento contra. Lomba acima.

Mas a gente guenta.

Pode mandar mais, que estamos com muita sede de vida – e de corrida, até o fim dos nossos dias!

* Keep Running!

Bons treinos a todos. ( ;

 

 

Uphill Marathon 2017: brincadeira de gente grande

Publicado por | Por Aí, Sem categoria | Um Comentário

SERRA

Por mais conhecimento que acumulemos na trajetória de atletas, jamais poderemos afirmar que já vimos de tudo. A cada treino – e a cada nova oportunidade de competir -, podemos nos surpreender com situações fantásticas. E foi exatamente isso que ocorreu no último final de semana, quando participei pela quinta vez da Mizuno Uphill Marathon, prova que ocorre anualmente na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Ao todo, foram 67km suados em duas “pernas” – 42km de manhã e 25km à tarde. Desde o ano passado, é possível se inscrever em três modalidades: maratona, 25km ou na dobradinha. E, claro, a fominha aqui assinou o atestado de demência ao escolher o “Desafio Samurai”, afinal, correr “só” uma maratona na subida cansa pouco. kkkkk! (((( ; A ideia (além de prestigiar o evento, que reúne corredores do Brasil todo e do qual fui eleita embaixadora, por participar de todas edições desde 2013) era apenas chegar duas vezes lá no topo. Importante: com as duas pernas, dois braços e sem rastejar. Estava com o grito entalado na garganta desde ano passado, quando tentei o mesmo feito e parei no quilômetro 60, desidratada e chamando urubu de meu lôro. A primeira e única vez que retirei meus cadarços do asfalto.

Enfim, lá fui eu pra missão. Havia encaixado os treinos como nunca. A mente estava de “psicopata”. Me sentindo forte, segura e extremamente preparada pra escalar aquele paredão do demo. E fui. Peguei estrada já na sexta, antes do almoço, com meu parceiraço Marcinho Calcagnotto (do @gemeostri), triatleta de mão cheia, que dirigiria pra mim na volta, pois tinha um evento em Bento Gonçalves no domingo, o Grape Tea Country Run da Salton, um dia após o desafio. (Sim….corri mais 10km no dia seguinte. Vai entender! Mas foi só pra “puxar” a galera).

E foi aí que começou a odisseia duma das mais mágicas corridas da minha vida.

Maratona: segurando a onda

Acordo às 4h, tomo café em Nova Veneza, onde fiquei hospedada. Saímos antes das 6h em direção a Treviso, cidade que já abraçou a Uphill como evento oficial. Todas cidades da região, aliás, incluindo a maiorzinha delas, Lauro Müller, de onde sai a segunda perna, recebem a competição com excelentes olhos, já que vem gente de dezenas de cantinhos do Brasil, movimentando a economia e levando uma série de benefícios para os moradores. Prova de que, onde há esporte, todo mundo ganha! <3

Voltando a linha de largada dos 42k, foi aquela loucura de sempre: nervos à flor da pele. Coração acelerado. E a certeza de que teria que segurar muito a onda, afinal, não poderia cometer o erro grosseiro de arrebentar as coronárias na primeira etapa e ficar só no arame. Concentrei. Fui administrando o tempo todo, baseada muito mais no ritmo cardíaco do que no pace. Aumentava um pouco, eu puxava o freio. Parei em TODOS pontos de hidratação, com a intenção de realmente me poupar, hidratar e suplementar adequadamente.

Como já corri mais de 260 quilômetros, ao todo, nessa serpente que é a Serra do Rio do Rastro, sabia muito bem o que iria encontrar. Um minuto a mais, um a menos até o km 32, se for pra aliviar e deixar um gás pros últimos 10, faz pouca diferença. O importante é chegar no pé da Serra inteira, capaz de caminhar rápido, parar pouco e tentar mesclar com corrida. O famoso “o que dá pra fazer”. Se der pra correr é lucro.

Fui sorrindo, conversando com os guerreiros que encontrava pelo caminho. Num cenário estontante, daqueles de filme. Quem conhece aquilo ali sabe o que é de lindo. Mas a imponência daquelas montanhas estava inacreditável no sábado. O céu azul, a temperatura na largada amena. Um cenário perfeito….pra se lascar. Sim, porque é nesses dias nos quais você acha que vai dar tudo perfeito que a cobra fuma. Se o visual compensou, o termômetro fez questão de massacrar na segunda metade da prova. Vários atletas fizeram a mesma observação: a prova estava pesada, pois o calor maltrata quem faz força.

Tive que negociar o tempo todo com a dor no meu pé esquerdo (tenho um neuroma de Morton, uma praga que vai minando com aquela facadinha na sola). Como vi que a mulherada “alienígena” garantiu os 5 primeiros lugares, fiquei ali atrás, ainda entre as 10 primeiras, ciente das minhas limitações, porém obcecada em cruzar a linha de chegada inteira.

Na reta final, o meu maior presente, além do alívio da dor: vejo a corredora Lilian Olimpio (que também estava no Desafio Samurai) quebradinha, quebradinha (tanto quanto eu, claro! kkkk). Eu sabia que poderia passar por ela no quilômetro final.  E talvez muitas corredoras fariam isso, sem pestanejar. Mas, na hora, me deu um estalo. A plena sensação de que não deveria fazer aquilo. Encostei nela, preocupada com a situação de ser ultrapassada no finalzinho. Ela, ofegante, ouviu de mim um “calma que não vou te ultrapassar. Nós vamos chegar juntas. De mãos dadas. Eles nem vão saber quem chegou em sétimo ou oitavo lugar”. Ela, chorando…e eu falando: “…aliás, eles vão saber sim. Tu vais chegar na minha frente. Quando estivermos cruzando, tu vai meter o pé no tapete e eu vou chegar atrás”.

Quando adentramos no túnel que desemboca na Finish Line, presas uma a outra, embriagadas de emoção, ouvindo os gritos da galera que ovacionava aquele momento, tive uma sensação única. Indescritível. Chegamos juntas, nos abraçamos, e eu fiquei muito mais feliz por ela do que por mim. Dificilmente esqueceremos desse dia. Um presente de Deus.

O final: só no sapatinho

Se tem algo que quebra as pernas é ter que fazer uma ultramaratona em 2 etapas. Sim, é mais fácil duma vez só. Pelo menos para mim. Você para, esfria, tem que saber o que comer pra não se estufar, mas ainda assim ter energia estocada. Os 42km antes dos 25km nessa Uphill (ano passado foi de forma inversa) foi bem melhor. Porém, mesmo assim, o troço é punk.

Num resumo tosco, posso dizer que fiz os últimos 25km do jeito que deu. Senti muita dor, estourei o tempo planejado….corri mal os últimos 10km. Mas foi o que deu. Rale-se. Cheguei lá em cima duas vezes, num feito que poucas mulheres no Brasil tem coragem de arriscar, quiçá completar – e olha que não falta mulher forte nesses pagos. Basta dizer que apenas 24 homens e oito mulheres concluíram essa pedreira – e eu fui uma delas. Com reclamar do desempenho? Não dá, né!

Na semana em que completei 41 anos de vida, agradeço a Deus pela oportunidade de viver isso na pele. Creio que nada é por acaso, e a corrida resume tudo o que acredito. E acredito, cada vez mais, em muitas coisas: em primeiro lugar, na paixão e no amor que colocamos naquilo que fazemos. Também tenho plena certeza que somos uma força descomunal da natureza. Creio na força da amizade. E que a mente comanda tudo: ela pode nos levar para lugares inimagináveis. Um dia desses li que “o impossível é só uma questão de opinião”. Fato!

A Serra do Rio do Rastro está lá para mostrar que somos nada diante de tamanha imponência das montanhas e do tamanho desse universo. A vida é um sopro, já diria Niemeyer. Eu mesma prefiro uma ventania! ((( :

Quero deixar aqui meus parabéns a todos que enfrentaram o desafio de subir aquela serpente, independentemente do tempo ou distância. É para poucos! Definitivamente!

Agradeço a todos pelo carinho. À equipe da organização da Mizuno Uphill Marathon, meus sinceros agradecimentos. Aos meus patrocinadores e apoiadores – Skechers Performance Brasil, NewMillen Suplementos e Authen Brasil -, um obrigada gigante.

Até logo, guerreiros de fé!

#ninjarunners