Daniela Santarosa

Dependentes da corrida: quando correr vira um problema

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Jogging injury.

Se você é um atleta experiente, já deve ter respondido para alguém “se correr realmente vicia”. Nada mais natural a curiosidade. Afinal, para quem olha de fora, como explicar a rotina exaustiva de treinos dum maratonista? Ao longo das mais de duas décadas de prática desse esporte, posso afirmar que sim, vicia. E muito. Até chegar ao ponto de mais atrapalhar do que ajudar a vida. E é justamente sobre isso que falarei nesse texto.

Nessa manhã, ao ligar no canal OFF, deparei com um documentário muito interessante (Wild Surf), filmado com mulheres que pegavam onda na década de 80/90 nos Estados Unidos e que viviam o lifestyle do surf na veia, mesmo depois de décadas. Todas elas, na faixa dos 50 anos de idade, falavam, nostálgicas, o que o mar significava para elas. Uma das entrevistadas revelou ter feito terapia para curar a dependência no esporte, que passou a atrapalhar sua rotina. “Tinha dias que eu estava trabalhando e identificava um swell entrando de Sul. Não conseguia fazer mais nada a não ser pensar nas ondas que estava perdendo dentro do escritório”. E é justamente nesse ponto que quero chegar.

Quem aí já faltou um compromisso importante porque “tinha” que treinar? Deixou de aproveitar um encontro familiar ou amoroso para cumprir na íntegra a planilha? Ou ficou com um beiço deeeesse tamanho porque não conseguiu calçar os tênis pra rodar “pelo menos 10 quilometrozinhos”? Ah, pois é. Eu me enquadro perfeitamente no grupo que levanta a mão pra dizer que sim, já deixei de fazer muita coisa por causa da corrida. É claro que treinar é necessário, e dependendo da prova-foco, tem que treinar MUITO. Ultramaratonistas e triatletas que o digam.

Quando passa do ponto

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Há um limiar muito pequeno entre o saudável e o doentio, objeto de estudo de teses como essa, publicada há vários anos na Revista Brasileira de Medicina do Esporte – “Dependência da Prática de Exercícios Físicos: Estudo com Maratonistas Brasileiros“.  Ali, é possível ler a respeito da chamada negative addiction - ou seja, quando “a prática excessiva de exercícios está associada a aspectos prejudiciais à saúde física e mental do indivíduo”. O estudo, realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, avaliou o grau de dependência de 59 corredores. A conclusão bate com o que observo hoje, após ter observado centenas de atletas amadores. “Alguns corredores apresentavam sintomas de abstinência, tais como irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos de culpa, quando eram impedidos de participar de suas rotinas de corridas regulares. Entre as evidências que fortalecem a hipótese da existência de dependência de exercício, encontram-se relatos de corredores sobre a interferência da prática regular de corrida no convívio familiar, social e no ambiente de trabalho”.

Os sintomas de que a coisa está passando do ponto são evidentes.  Vamos a alguns deles:

1) Deixar de realizar outras atividades para manter o padrão de treino;

2) Aumentar a tolerância à quantidade e frequência dos exercícios físicos ao decorrer dos anos;

3) Ter sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade) quando interrompida a rotina de exercícios e consequente alívio ou prevenção ao praticar a atividade;

4) Seguir realizando a atividade física mesmo quando lesionado, doente ou com qualquer indicação médica;

5) Se isolar socialmente, afetando relacionamentos com amigos, familiares ou com companheiros de trabalho;

6) Fazer dieta alimentar para perder peso como uma forma de melhorar o desempenho.

Em busca da harmonia

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Se você se identificou com esse perfil de “dependente da corrida”, vale refletir o quanto isso está afetando a sua vida. Assim como a surfista do documentário, que foi atrás de um psiquiatra para tirar o pé e encontrar o equilíbrio entre o esporte, o trabalho e a família, creio que é válido buscarmos uma ajuda profissional caso você tenha a consciência de que a corrida virou mais um problema do que um prazer. Afinal, não estamos aqui nessa vida para pagar penitência, certo?

Sou um caso típico. Numa época, não conseguia passar um dia sem treinar. A ideia era capotar na cama, ao ponto de desligar a chave-geral. Essa válvula de escape até funciona, porém pode ter consequências graves, como overtraining, queda no rendimento físico e mental – sem contar no vasto rol de lesões.

Fui buscar terapia. Estava chegando no ponto perigoso da obsessão. A sorte é que consegui puxar o freio antes que algo mais grave ocorresse. A boa notícia: correndo menos, melhorei meu desempenho. Descobri que qualidade é muito mais importante do que quilometragem. Que descanso também é treino. Ao meu ver, a corrida pode ser uma grande aliada para um envelhecimento saudável. Para isso, é preciso investir bastante em autoconhecimento: a chave de tudo. É preciso descobrir os motivos  dessa fuga (não adianta correr, os problemas seeeeempre são quenianos, kkkkk). Buscar o real sentido da corrida, que é colaborar para nos tornarmos seres mais completos e saudáveis.

Pretendo ser uma velhinha beeeeem doidinha, amarrando meus cadarços para aquele trotezinho matinal. Creio estar no caminho certo. Ouvindo meu corpo, sabendo dos meus limites, dos meus objetivos e prioridades. A corrida significa muito, mas não é absolutamente tudo. Vamos correr, sem exagerar na dose – afinal,  a diferença entre o remédio e o veneno é bem pequenina.

Bons treinos a todos!

( ;

 

Correr é aprender a sofrer

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A frase pode parecer um mantra de masoquista. Calma. Não pense que todo corredor é um sofredor por natureza. Deixe explicar minha teoria.

Corro há quase duas décadas, continuamente. Isso não quer dizer um mês sim, outro não. Falo de treino diário, suado, faça chuva, faça sol. Inverno ou verão. Com céu de brigadeiro ou tomando canivete nas paletas. O que me dá um respaldo suficiente para resumir (toscamente, ok), o que é esse esporte para mim. Se fosse escolher três palavrinhas, tascaria de prima: “aprender a sofrer”. Sim. Porque não pense aí você, que vê um maratonista de longa data rodando feito lebre, que o negócio é fácil e “está no DNA”.

Alguma dúvida do perrengue?

Alguma dúvida do perrengue?

Embora há inúmeros estudos comprovando a influência dos genes paternos e maternos na nossa eficiência biomecânica e energética, jamais poderemos esquecer do que está na base de tudo, e que – ao meu ver, tem TODA diferença. É a capacidade de tolerarmos a dor e seguirmos adiante. Mesmo nos dias ruins.

Esses dias, por acaso, li um artigo muito interessante na revista Gracie Mag, falando sobre os ensinamentos para os lutadores de jiu-jitsu (que admiro muito). No texto, uma citação chamou atenção:

“Acostume-se com a adversidade. Treinar cansado, sem vaidade e sem pensar no resultado, faz parte do caminho do guerreiro. Em breve, isso será normal para você e fará toda a diferença numa eventual competição. Entender como você se porta cansado vai ajudar no seu autoconhecimento”.

Precisa falar algo mais?

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Resiliência – a “arte de se f*** e seguir em pé, resumindo – segue norteando toda a base do bom treinamento. Qualquer atleta que se preze, amador ou profissional, aprende (na marra ou não), que saber aguentar no osso o tranco é a chave do sucesso. Há dias ruins, dias bons, dias péssimos e outros nem queremos comentar de tão sofríveis. E é por isso mesmo que tem graça. Se fosse tão barbada, qualquer um corresse uma maratona como vai no supermercado comprar bananas…

A meritocracia do maratonista é um patrimônio valioso. Todos que já correram 42.195 metros sabem do que estou falando. Não menosprezando as distâncias menores – afinal, os velocistas estouram as coronárias por um motivo muito nobre. Independente da distância, tempo ou qualquer outro parâmetro, estamos falando aqui de superação construída diariamente, mental e fisicamente.

Na manjada e inevitável metáfora da corrida com a vida, mais uma afirmação que faço sem pestanejar: os mais fortes triunfam.

Quem disse que viver seria lomba abaixo, com vento a favor?

É vento contra. Lomba acima.

Mas a gente guenta.

Pode mandar mais, que estamos com muita sede de vida – e de corrida, até o fim dos nossos dias!

* Keep Running!

Bons treinos a todos. ( ;

 

 

Uphill Marathon 2017: brincadeira de gente grande

Publicado por | Por Aí, Sem categoria | Nenhum Comentário

SERRA

Por mais conhecimento que acumulemos na trajetória de atletas, jamais poderemos afirmar que já vimos de tudo. A cada treino – e a cada nova oportunidade de competir -, podemos nos surpreender com situações fantásticas. E foi exatamente isso que ocorreu no último final de semana, quando participei pela quinta vez da Mizuno Uphill Marathon, prova que ocorre anualmente na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Ao todo, foram 67km suados em duas “pernas” – 42km de manhã e 25km à tarde. Desde o ano passado, é possível se inscrever em três modalidades: maratona, 25km ou na dobradinha. E, claro, a fominha aqui assinou o atestado de demência ao escolher o “Desafio Samurai”, afinal, correr “só” uma maratona na subida cansa pouco. kkkkk! (((( ; A ideia (além de prestigiar o evento, que reúne corredores do Brasil todo e do qual fui eleita embaixadora, por participar de todas edições desde 2013) era apenas chegar duas vezes lá no topo. Importante: com as duas pernas, dois braços e sem rastejar. Estava com o grito entalado na garganta desde ano passado, quando tentei o mesmo feito e parei no quilômetro 60, desidratada e chamando urubu de meu lôro. A primeira e única vez que retirei meus cadarços do asfalto.

Enfim, lá fui eu pra missão. Havia encaixado os treinos como nunca. A mente estava de “psicopata”. Me sentindo forte, segura e extremamente preparada pra escalar aquele paredão do demo. E fui. Peguei estrada já na sexta, antes do almoço, com meu parceiraço Marcinho Calcagnotto (do @gemeostri), triatleta de mão cheia, que dirigiria pra mim na volta, pois tinha um evento em Bento Gonçalves no domingo, o Grape Tea Country Run da Salton, um dia após o desafio. (Sim….corri mais 10km no dia seguinte. Vai entender! Mas foi só pra “puxar” a galera).

E foi aí que começou a odisseia duma das mais mágicas corridas da minha vida.

Maratona: segurando a onda

Acordo às 4h, tomo café em Nova Veneza, onde fiquei hospedada. Saímos antes das 6h em direção a Treviso, cidade que já abraçou a Uphill como evento oficial. Todas cidades da região, aliás, incluindo a maiorzinha delas, Lauro Müller, de onde sai a segunda perna, recebem a competição com excelentes olhos, já que vem gente de dezenas de cantinhos do Brasil, movimentando a economia e levando uma série de benefícios para os moradores. Prova de que, onde há esporte, todo mundo ganha! <3

Voltando a linha de largada dos 42k, foi aquela loucura de sempre: nervos à flor da pele. Coração acelerado. E a certeza de que teria que segurar muito a onda, afinal, não poderia cometer o erro grosseiro de arrebentar as coronárias na primeira etapa e ficar só no arame. Concentrei. Fui administrando o tempo todo, baseada muito mais no ritmo cardíaco do que no pace. Aumentava um pouco, eu puxava o freio. Parei em TODOS pontos de hidratação, com a intenção de realmente me poupar, hidratar e suplementar adequadamente.

Como já corri mais de 260 quilômetros, ao todo, nessa serpente que é a Serra do Rio do Rastro, sabia muito bem o que iria encontrar. Um minuto a mais, um a menos até o km 32, se for pra aliviar e deixar um gás pros últimos 10, faz pouca diferença. O importante é chegar no pé da Serra inteira, capaz de caminhar rápido, parar pouco e tentar mesclar com corrida. O famoso “o que dá pra fazer”. Se der pra correr é lucro.

Fui sorrindo, conversando com os guerreiros que encontrava pelo caminho. Num cenário estontante, daqueles de filme. Quem conhece aquilo ali sabe o que é de lindo. Mas a imponência daquelas montanhas estava inacreditável no sábado. O céu azul, a temperatura na largada amena. Um cenário perfeito….pra se lascar. Sim, porque é nesses dias nos quais você acha que vai dar tudo perfeito que a cobra fuma. Se o visual compensou, o termômetro fez questão de massacrar na segunda metade da prova. Vários atletas fizeram a mesma observação: a prova estava pesada, pois o calor maltrata quem faz força.

Tive que negociar o tempo todo com a dor no meu pé esquerdo (tenho um neuroma de Morton, uma praga que vai minando com aquela facadinha na sola). Como vi que a mulherada “alienígena” garantiu os 5 primeiros lugares, fiquei ali atrás, ainda entre as 10 primeiras, ciente das minhas limitações, porém obcecada em cruzar a linha de chegada inteira.

Na reta final, o meu maior presente, além do alívio da dor: vejo a corredora Lilian Olimpio (que também estava no Desafio Samurai) quebradinha, quebradinha (tanto quanto eu, claro! kkkk). Eu sabia que poderia passar por ela no quilômetro final.  E talvez muitas corredoras fariam isso, sem pestanejar. Mas, na hora, me deu um estalo. A plena sensação de que não deveria fazer aquilo. Encostei nela, preocupada com a situação de ser ultrapassada no finalzinho. Ela, ofegante, ouviu de mim um “calma que não vou te ultrapassar. Nós vamos chegar juntas. De mãos dadas. Eles nem vão saber quem chegou em sétimo ou oitavo lugar”. Ela, chorando…e eu falando: “…aliás, eles vão saber sim. Tu vais chegar na minha frente. Quando estivermos cruzando, tu vai meter o pé no tapete e eu vou chegar atrás”.

Quando adentramos no túnel que desemboca na Finish Line, presas uma a outra, embriagadas de emoção, ouvindo os gritos da galera que ovacionava aquele momento, tive uma sensação única. Indescritível. Chegamos juntas, nos abraçamos, e eu fiquei muito mais feliz por ela do que por mim. Dificilmente esqueceremos desse dia. Um presente de Deus.

O final: só no sapatinho

Se tem algo que quebra as pernas é ter que fazer uma ultramaratona em 2 etapas. Sim, é mais fácil duma vez só. Pelo menos para mim. Você para, esfria, tem que saber o que comer pra não se estufar, mas ainda assim ter energia estocada. Os 42km antes dos 25km nessa Uphill (ano passado foi de forma inversa) foi bem melhor. Porém, mesmo assim, o troço é punk.

Num resumo tosco, posso dizer que fiz os últimos 25km do jeito que deu. Senti muita dor, estourei o tempo planejado….corri mal os últimos 10km. Mas foi o que deu. Rale-se. Cheguei lá em cima duas vezes, num feito que poucas mulheres no Brasil tem coragem de arriscar, quiçá completar – e olha que não falta mulher forte nesses pagos. Basta dizer que apenas 24 homens e oito mulheres concluíram essa pedreira – e eu fui uma delas. Com reclamar do desempenho? Não dá, né!

Na semana em que completei 41 anos de vida, agradeço a Deus pela oportunidade de viver isso na pele. Creio que nada é por acaso, e a corrida resume tudo o que acredito. E acredito, cada vez mais, em muitas coisas: em primeiro lugar, na paixão e no amor que colocamos naquilo que fazemos. Também tenho plena certeza que somos uma força descomunal da natureza. Creio na força da amizade. E que a mente comanda tudo: ela pode nos levar para lugares inimagináveis. Um dia desses li que “o impossível é só uma questão de opinião”. Fato!

A Serra do Rio do Rastro está lá para mostrar que somos nada diante de tamanha imponência das montanhas e do tamanho desse universo. A vida é um sopro, já diria Niemeyer. Eu mesma prefiro uma ventania! ((( :

Quero deixar aqui meus parabéns a todos que enfrentaram o desafio de subir aquela serpente, independentemente do tempo ou distância. É para poucos! Definitivamente!

Agradeço a todos pelo carinho. À equipe da organização da Mizuno Uphill Marathon, meus sinceros agradecimentos. Aos meus patrocinadores e apoiadores – Skechers Performance Brasil, NewMillen Suplementos e Authen Brasil -, um obrigada gigante.

Até logo, guerreiros de fé!

#ninjarunners

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como lidar com a TPM: Tensão Pré-Maratona

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Estamos há exatos 11 dias da 34ª Maratona Internacional de Porto Alegre, marcada para o dia 11 de junho na capital dos gaúcho. Já começo a sentir a energia que paira no universo dos corredores que irão encarar os 42 quilômetros. Estreantes ou não, experientes ou menos calejados, todos acabam vivenciando algum grau de ansiedade. Aquele famigerado “friozinho na barriga” de quem tá descendo ladeira abaixo sem freio…

Tem aqueles que relatam alterações no sono, no apetite, no humor (que a família e os colegas de trabalho aguentem, kkkk!). Noooormal. Escrevo aqui justamente para esse time dos que “picam no lugar”, fritando no travesseiro, pensando nas quinhentas mil possibilidades de dar errado…eitaaa cabecinha difícil de controlar essa, hein?

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Primeira dica: pare com essa mania de olhar pro GPS do vizinho

Pois então. Senta aí. E vamos por partes – assim como a distância mais clássica do atletismo deve ser resolvida. Você treinou, certo? Cumpriu a planilha certinho. Cuidou da alimentação. Deu feedback pro treinador. Conversou com os parceiros. Pescou dicas. Deu um “Google” umas 567 mil vezes procurando temas relativos a sua preparação, equipamentos, alimentação. Isso bastaria, certo? Não. Pra você, que sofre de Tensão Pré-Maratona (TPM), é irresistível ficar de olho no longão do amigo no Facebook. Comparar seu pace com o do Fulano, do Sicrano. Começa a achar que tá fazendo pouco. Que não treinou o suficiente. E duvida do próprio treino. Se identificou? Rá!

Pra você, amiguinho maratonildo, tenho uma novidade. Deixa de besteira e vem ser feliz. Não importa se seu longão foi maior do que o do ninjarunner do Quinto dos Infernos, se seus tiros não foram tão bons quanto o do queniano dos pampas. Claro que há uma ciência por trás de todo treinamento e periodização de corrida (que seu treinador deve ter explicado), e o tema-de-casa deve ser feito. Mas, pera lá! Há muitos outros detalhes envolvidos. Um dos principais deles é, justamente, esse que abordo nesse texto: o fator psicológico. De nada adianta estar 110% na planilha, se chegar lá no dia se borrando nas calças, com medinho de não desempenhar o que você julga razoável. Uma mente tranquila e focada é item fundamental na hora do “pega pra capá”. Pode ter certeza que o motor vai fundir se não houver confiança. Aconteça o que acontecer, é preciso acreditar que tudo vai dar certo. Pelo menos, é assim que tenho feito desde sempre. ( :

 

Nessa altura do campeonato…quem treinou, treinou!

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Outro detalhe: nada adianta você ter feito um longo monstruoso de 38 km se não houve uma continuidade no seu treinamento. Aqui, estamos falando das 14 semanas que antecedem a Maratona. Sim, ininterruptos. E outra: meu véio, agora não é hora de fazer longo. Nessa altura do campeonato, há 11 dias do Dia “D”, esqueça treinos “pra estourar as coronárias”. Para tirar o atraso, muitos caem nessa roubada. Resultado: imunidade lá no pé e um risco altíssimo de lesões, o que pode colocar tudo a perder. Não, né?

Quando o controle vem com ela: sempre ela, a experiência

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Concordo em gênero, número e grau com o que pregam especialistas em Psicologia do Esporte, como William Falcão. Ele defende que “a ansiedade não é necessariamente ruim. Ela é até importante para o indivíduo reconhecer momentos estressantes onde o alto rendimento é necessário, como saber distinguir o ambiente de treino do ambiente de competição. São nesses momentos que atletas encontram a disposição para superar seus limites. Fundamental, no entanto, que o atleta encontre um grau de ‘ansiedade ideal’. Ela ajuda, inclusive, a sua performance, ao invés de prejudicá-la”.

Segundo o psicólogo, em entrevista recente ao site Globo Esporte, o controle de ansiedade se adquire com experiência. E é exatamente isso o que sinto. Nas minhas primeiras provas, sofria bastante. Me preocupava com meu sono, com minha dieta, com tudo – como se cada detalhe fosse fazer uma BAITA diferença. No final das contas, a verdade é que o que vale é o conjunto do que fazemos, meses a fio, e não num ou outro dia.

“Estar consciente do nível de ansiedade e das consequências do mesmo no seu corpo e mente podem acelerar este processo. Na medida em que se aprende a controlar o nível de ansiedade, o atleta pode também aprender a interpretar a ansiedade como um motivador. Temos inúmeros exemplos de atletas que depois de anos de experiência competindo em nível internacional relatam continuar sentindo “um frio na barriga” antes da competição. Este “frio na barriga” se torna um motivador ou um gatilho que os preparam para superar seus próprios limites. Seu corpo e mente interpretam este estímulo como um alerta para se preparar para a atividade”.

Ahá! E aí que está a chave de tudo. Não é que temos que anular a ansiedade, mas sim saber controlá-la – e cada deve encontrar seu mecanismo de controle. Esse “friozinho na barriga” é, ao meu ver, essencial. No dia em que eu não tiver mais isso, creio que vou parar de competir. Essa ansiedade, na medida, é saudável e totalmente compreensível.

Para os mais inexperientes – ou que irão estrear na distância dos 42,1 km em Porto Alegre -, minha dica é: respire fundo, esvazie sua mente e utilize sua energia para se concentrar e ganhar motivação para a corrida. Basta dois ou três quilômetros para a sensação de coração na boca e boca seca ir embora. E dali pra frente, você terá muito chão pra administrar.

Uma Maratona nunca é resolvida em meia dúzia de minutos. E por isso mesmo – por exigir tanta força, treino e preparo físico e mental – ela é tão mágica. De algo tenho absoluta certeza: depois de cruzar a linha de chegada, somos os ansiosos mais relax e de bem com a vida! Essa felicidade não tem preço nem explicação científica. E ninguém pode tirar isso da gente!

Desejo a todos corredores, de todas as distâncias uma excelente prova na Maratona Internacional de Porto Alegre. Nos vemos dia no domingão, dia 11, lá no BarraShoppingSul. Bora pra cima que o resto é só alegria!!!! ((( :

 

 

 

 

A poder das mães-atletas: porque ficamos mais fortes

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Nada mais apropriado do que falar, em pleno domingo de Dia das Mães, num assunto bastante interessante: da força e do poder das mulheres que, após a maternidade, decidem seguir com seus treinos ou, em alguns casos, até começam a praticar alguma modalidade esportiva. E, claro, de como fazer para conciliar tudo isso. Como de praxe (e até porque faz parte do meu universo), focarei na corrida. Fiquem à vontade para estender o raciocínio para qualquer outro esporte, como natação, atletismo, bike, cross-fit, dança, lutas. O que seja.

Tenho total convicção de que ficamos mais fortes após dar à luz. Mesmo que não exista comprovação científica, acredito que, ao contrário do que muitos pensam, a maternidade pode fazer com que nos tornemos ainda melhores no que diz respeito ao desempenho. Minha experiência foi exatamente essa. Meu filho Francisco nasceu há pouquinho mais de 8 anos. Na época, eu tinha 32 anos. Já havia feito algumas maratonas. Pouco mais de um ano após seu nascimento, virei ultramaratonista. Colecionei, nesse tempo, vários troféus muito cobiçados. E tive a alegria de vê-lo me esperar na linha de chegada, ou, como nessas foto abaixo, correr os últimos metros na sua doce companhia.

Chico, em 2015, na finaleira dos quase 82km da TTT

Chico, em 2015, na finaleira dos quase 82km da TTT

Coração, mente e corpo fortes

Seguir a rotina de treino com um bebê em casa não é lá das tarefas mais fáceis. E o que é fácil nessa vida? ( : Para quem ainda não foi mamãe, saiba que, de início, o troço é punk. E daí mesmo que mora o segredo. Sempre se dá um jeito. Precisamos, obviamente, de ajuda para dar conta de tudo. Nessa hora, ter um companheiro e a família ajudando é primordial. Felizmente, tive essa sorte. Mas já conheci atletas que, mesmo sem todo esse aporte, conseguiram “se virar” para não abandonar os exercícios físicos quase que diários.

Sou extremamente a favor de que as mulheres tenham esse direito de seguirem com sua trajetória esportiva. Benefícios são inúmeros. Um dos principais, ao meu ver, tem a ver com o relaxamento e sensação de bem-estar. Quem diz que toda a gravidez e a maternidade é uma maravilha, está mentindo. Ficamos podres! Noites mal-dormidas, uma livre demanda de amamentação…e sair daquela rotina massante por algum tempo (uma hora por dia já é mais do que suficiente, no início) é questão de saúde mental, minha gente! Por favor! Sem contar a auto-estima. Mulher que “se emburaca” porque virou mãe é coisa do passado.

Brinco que, quando nossos filhos nascem, somos abduzidas por ETs. Vamos lá pra outro paralelo, onde ficamos sem saber onde estamos, que horas são, quem somos, pra onde vamos. É tanta emoção envolvida que dá uma tonteada. Quem diz que é tudo muito lindão e tranquilo tá metendo uma conversa fiada daquelas. Se é difícil? É. mas a vida deve e volta, sim, ao normal. O esporte ajuda (e muito) nessa retomada.

Muita calma nessa hora

Obviamente, não defendo aqui que tenhamos que sair por aí doidas e desvairadas nos primeiros meses de vida do rebento. Tudo tem seu tempo e respeitar o organismo – e as recomendações médicas, é claro – é essencial para um retorno seguro. No meu caso, voltei às competições quando ainda amamentava, quando o Chico tinha seis ou sete meses. Essa história de que “seca o leite” ou provoca rejeição do bebê por causa do ácido lático é conversinha pra boi dormir, ok? Ninguém vai retornar em ritmo frenético, correndo a 4 por 1! Com uma alimentação e hidratação adequada e sem excessos, é beeeem possível conciliar.

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva, exercícios aeróbicos com intensidade moderada a forte (entre 40% a 75% do VO2Máx ou a 55% a 85% da freqüência cardíaca máxima) é seguro para a mãe que amamenta, eficaz no período pós-parto e não apresenta nenhuma alteração significativa no volume e composição do leite materno.

O condicionamento volta aos poucos, e esse caminho de formiguinha deve ser respeitado. A excelente notícia é que o corpo tem uma memória fisiológica, e logo que a rotina volta ao normal, a gente acaba tirando de letra esse tripé: maternidade + trabalho + treino. Os médicos, inclusive, recomendam que isso ocorra. E a corrida, nesse sentido, é maravilhosa: ajuda a eliminar toxinas, libera endorfina, ajuda na perda de peso e, importantíssimo: deixa longe a temida depressão pós-parto.

De volta aos pódios

Para quem leva essa “cachaça” mais a sério, só há pontos positivos. Quem teve uma gravidez tranquila, ganhou pouco peso e teve parto normal (no meu caso, engordei pouco mais de 8 quilos, nadava todos os dias quase 3 mil metros e não fiz cesárea), fica bem mais fácil. Em alto nível, exemplos não faltam. Um deles é a corredora inglesa Paula Radcliffe que, no início de 2007 deu a luz a sua filha Isla e, no final daquele ano, venceu a Maratona de Nova York (abaixo, na foto, aparece a atleta com a fofurinha no colo). Inclusive, ela teve outra menina pouco depois.

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Claro que estamos falando de uma “monstra” do atletismo. A britânica é uma rara exceção (ela começou a trotar 12 dias depois do parto, algo nada recomendável do ponto de vista médico). Cito ela porque amo essa foto dela com a nenê no colo. Meio que emblemática. E poque toda corredora que se preze gostaria de ter só uma rebinha daquele pace dela ( ^:

No mundo real, nesse aqui das mortais, e não alienígena (kkkkkk), o tempo de retorno para a atividade física após o parto é muito relativo, pois cada mulher reage de uma forma à chegada do bebê ao mundo e a saída dele de dentro do corpo humano. Para umas o processo de recuperação é mais lento, para outras mais rápido.

Não vamos mentir: inevitavelmente, o destreinamento ocorre. Por mais que você tenha se mantido ativa, a carga esportiva foi reduzida. Você deve ter treinado em frequências cardíacas mais baixas e de forma mais leve para preservar a sua saúde e a do bebê. Sem contar com uma série de mudanças que acontecem no corpo durante esses nove meses e que persistem por algum tempo após o parto. São os hormônios, alteração de peso, mudança do centro de gravidade e afrouxamento ligamentar, por exemplo.

Contar com profissionais nessa tarefa de retorno aos treinos mais pesados é essencial, e foi o que fiz. Acima de tudo, o bom-senso. Passamos nove meses com o bebê dentro da barriga, e não é do dia pra noite que nosso corpo retornará ao “normal”.

O que garanto é que, do ponto de vista psicológico, dá pra dividir em duas fases qualquer mulher: antes e depois de ter filhos. Ficamos muito mais fortes, decididas. Não desistimos fácil. Toda vez que competi com o Francisco na minha vida visualizei seu sorriso quando cheguei com uma medalhinha ou troféu em casa. Para ele, eu sou uma campeã. Mesmo que não fizesse nada, creio que seria também. Mas prefiro desse jeito. No nosso mundo de faz-de-conta, sou uma Super-Mãe. E é esse exemplo que procuro deixar pra ele: quando a gente quer, vamos lá e fazemos.

Um lindo Dia das Mães a todas mulheres maravilhosas desse universo! <3

 

A fantástica história de Bataclan – o mais célebre corredor de Porto Alegre

Publicado por | Gente que corre | Um Comentário

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Imagine o que seria correr nas ruas de Porto Alegre, de calção e regata, descalço, na década de 50. Impossível imaginar que o ser humano que fizesse isso na época não viraria um célebre personagem. Pois foi o que ocorreu com Cândido José dos Santos – apelidado de Bataclan, que nos romances de Jorge Amado remete ao significado de cabaré, já que esse era o nome de uma famosa boate de Paris.

Ouvi falar dele pela primeira vez conversando com meus pais. Nascidos na década de 40, viram muitas vezes o corredor no Centro. “Era uma imponente figura. Alinhado, de porte atlético. Chamava muita atenção”, lembra minha mãe.

Muitas vezes, Bataclan corria de pés descalços. Sempre de manhã, quando saía para fazer seus vários quilômetros. Como li em matéria do jornal Zero Hora (Almanaque, do amigo fotógrafo Ricardo Chaves, o Cadão, um aficionado pela memória do nosso Rio Grande do Sul), “à tarde, exibia a herança dos tempos de teatro: vestindo terno, gravata e cartola, andava pelas imediações da Rua dos Andradas propagandeando lojas, bares, bebidas, sabões e colchões, entre muitos outros produtos”.

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Conforme o resgate histórico – no qual cito fontes como os pesquisadores Marcello Campos e o repórter Nilo Dias -, “Bataclan também estava sempre nos estádios de futebol em dias de jogos, muitas vezes distribuindo alimentos para famílias pobres. Gostava de conversar com as pessoas e defendia uma vida saudável – além de praticar esportes, era vegetariano e rejeitava cigarros e álcool. Tanto que viveu em torno de 90 anos. Seu velório, em setembro de 1990, foi realizado no Salão Nobre da prefeitura”.

Um personagem repleto de histórias

Há quem diga que ele foi “o mais querido personagem popular de todos os tempos em Porto Alegre”. Vegetariano, dizia que o marinheiro Popeye adquiria sua força em virtude de uma dieta baseada em espinafres. Gostava de contar que, certa vez, correu sem parar para dormir ou descansar, durante quatro dias e três noites seguidos, margeando o Guaíba durante o crepúsculo. Não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu, ou era apenas uma das muitas histórias que criava. Dizia ter dado uma centena de voltas no Gigante da Beira-Rio e depois, para não ser injusto, repetira o mesmo feito no Olímpico Monumental da Azenha.

De como ziguezagueara entre os túmulos dos cemitérios da Oscar Pereira orando a Deus pela alma de todos que ali jaziam.  Lembrou a multidão que o ovacionara ao cruzar o Parque da Redenção e a bronca que levara da mulher ao chegar em casa.

 

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Outros trechos que recolhi na minha pesquisa:

“Alinhadíssimo, sempre de terno branco, chapéu, gravata vermelha, sapatos reluzentes, e para completar o modelo, cravo vermelho ou dália na lapela, no melhor estilo do malandro carioca dos anos 30″.

O ícone Keneth Cooper, criador do famoso método de Cooper, visitou Porto Alegre em setembro de 1975. Conheceu Bataclan e declarou “que jamais viu coisa igual em todo o mundo”.  Bataclan, em retribuição, lhe presenteou com uma cesta de legumes e frutas.

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Adepto de São Francisco de Assis, que não comia carne vermelha, se declarava ateu. Há uma certa dúvida quanto ao seu nascimento: alguns registros apontam que foi no Rio de Janeiro, outros que foi em Santa Catarina. Morou em também em Curitiba e São Paulo, passou pela Europa, mas se radicou em Porto Alegre, em 1939. Cantor da Companhia de Revista Negra, onde fazia dueto com Rosa Negra, traduzia as parte em francês da cantora.  Nas apresentações, sempre lia um trecho chamado “Bataclan”. Por isso, ganhou o apelido.

Sua morte, reportada pelo Correio do Povo em 26 de setembro de 1990, gerou comoção geral.

“A má notícia se espalhou rapidamente ontem pela Rua da Praia. Morreu Cândido José dos Santos, o Bataclan, com 94 anos, vítima de parada cardíaca, às 8:15 minutos, no Hospital Conceição. Bataclan era vegetariano, atleta e o primeiro propagandista da cidade”.

Neto de escravos da Guiana Francesa, filho de marinheiro, ainda tinha tempo para doar alimentos aos doentes da Santa Casa e o Lar Padre Cacique.

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Entre suas pérolas, a melhor de todas, ao meu ver, é essa:

“Meu caráter é impecável. Sou idealista e ateu. O homem não vale por seus preconceitos e nem pela cor. Vale por que faz na vida. Esta é minha concepção filosófica”.

 

TTT 2017: quando tudo dá certo

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Um dia após enfrentar pela quinta vez uma das provas mais cobiçadas do Sul do Brasil, a TTT – Travessia Torres-Tramandaí, resumo meu sentimento e impressões. Não tenho dose de narcisismo suficiente para focar apenas na conquista do meu pentacampeonato e recorde feminino da competição – pulverizado com 7h21min em 2017, 24 minutos abaixo do tempo anterior, que eu mesma cravei em 2015 (7h45min). Quero, mais do que enaltecer esse fato, explicar porque voto para que essa edição entre no rol das candidatas a predileta entre as 13 já realizadas na orla gaúcha. Os motivos são inúmeros.

Primeiro, marcou meu retorno à competição que mora no meu coração desde sempre. Em 2016, fiquei de fora, após tecer uma série de críticas logo após o tetracampeonato, em 2015. O texto, que você lê aqui, fala sobre o desprestígio aos atletas que se inscrevem para competir de verdade, e não apenas para confraternizar – embora seja esse o DNA da TTT, já que se trata de um evento focado no revezamento em equipes. Fiquei de fora, fui tratar da minha vida pessoal e profissional, e digo que o saldo foi extramente positivo. Afinal, dar um look geral e sentir o panorama de fora é válido – até para avaliar a importância do meu papel e de tantos outros fatores envolvidos – que incluem o tesão em participar novamente da prova.

Quem leu o texto com atenção percebe que coloco críticas bastante contundentes e que têm, em suma, a intenção de alertar os organizadores para uma melhoria na sua infra-estrutura. Felizmente, creio que as colocações colaboraram, de certa forma, para a correção das falhas, como kits mais elaborados, hidratação adequada, enfim. Escrevo português claro e para bom entendedores, não precisa desenhar.

Então. A notícia boa é que muitas dessas falhas foram corrigidas. Hidratação estava ótima. Água gelada, equipes envolvidas na distribuição (sobretudo os amigos da Girardi, Inspire, DaniVist, entre outros da Serra Gaúcha (que estão de parabéns pela iniciativa, idealizada pelo Clube de Corredores de Caxias), que mobilizaram equipes para ajudar da logística de hidratação e suporte durante o percurso). A premiação foi pontual. Os troféus ganharam um incremento. E acho muito bom premiar apenas os 5 primeiros na Geral, para agilizar e elevar o nível das categorias etárias. Enfim, o saldo foi muito positivo.

Agora, vamos a 2017: aaaah, que prova magnífica! Gente do Céu, que dia de gala! A ressaca que veio na quinta-feira, marcando os dias anteriores, deu uma tremidinha nas bases. O mar subiu, o vento estava Sul (que sopra em direção contrária a quem vem de Torres em direção a Tramandaí). Porém, Netuno, Iemanjá e todos os demais orixás, santos e previsões meteorológicas resolveram colaborar com a Nação Corredora. O céu estava aberto, mas na medida – com algumas nuvens nas primeiras horas da manhã, o que amenizou em grande parte a sensação de calor do verão gaúcho, bastante cruel nessa época do ano.

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O solo estava uma pista de corrida. Areia firme, compacta. Enfim, um cenário ideal, daqueles raros, tecido sob encomenda para estraçalhar recordes. E foi o que se viu. O “monstro” Rodrigo Cardoso bateu o feito de Tiago Mello (falecido em 2016, nem acredito…) em 9 minutos. Logo após ele, chegou o queridão Niumar Velho e o fera Alexandre Mello. Todos com tempos fantásticos, impensáveis em dias de maré alta e areia fofa – sim, já enfrentei dias em que você chama a mamãe e ela não vem nunca!

Agora, vamos ao que interessa de verdade: fora os recordes, os tempos, os troféus, toda essa parafernália: o que mais impressionou foi o calor humano. A TTT 2017 bateu recorde em termos de prestígio, alegria e fraternidade na beira da praia. Nunca vi tanta gente aplaudir, vibrar, berrar o nome dos atletas – independente de seu preparo físico ou categoria. O povo realmente entrou no clima. Os quase 3 mil atletas inscritos deram uma lição de humanidade e solidariedade. Ajudei várias pessoas e fui ajudada – já que meu apoio teve que abandonar a areia lá no quilômetro 50, após estourar o pneu da bike.

Nos últimos dois quilômetros, fui empurrada por uma multidão que berrava meu nome. Sei lá donde. Mas vi até o Salva-Vidas pular da Guarita e esbravejar, de punho cerrado: “Vai lá, Guerreira!”. Tchê, me arrepio só de escrever.

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de "parceria de fé"

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de “parceria de fé”

Fiz, como sempre, amizades incríveis: o figura Vanderlei “Chumbinho” Zanotto, de Veranópolis, estreou em grande estilo na categoria ultra com menos de 7 horas (6h58min). Correu do meu lado mais de 25 quilômetros e me deixou embasbacada com sua simplicidade e humanidade. Vi meu parceirão Ricardo “Kadinho” Cruz de Oliveira concretizar o sonho da primeira TTT com lágrima nos olhos, abraçado na parceirona Joana Ott, que acordou às 3h da matina pra fazer apoio pro doido (imagina só! e ainda me fez um telefonema desejando boa sorte…).

Em suma: estou até agora extasiada com o turbilhão de emoções dessa 13ª TTT. Quero parabenizar, mais uma vez, todos que torceram, vibraram e colaboraram para tornar o litoral norte gaúcho um palco de recordes nesse final de semana. Cada vez mais, tenho certeza de que essa é a melhor celebração que existe. É democrática, ao ar livre, sem máscaras, amarras ou filtros. Não tem frescura, artimanhas ou anestesia. É a vida como ela é.

Linda, intensa e verdadeira.

Até a próxima!

Com carinho,

Dani

* terei que replicar a máxima dum amigo hiperbrincalhão que lançou a célebre frase: “Todo mundo tenta. Mas só a Dani é Peeeenta!”. ((((

* deixo aqui meu muito obrigado a todos que torceram, vibraram e berraram meu nome durante o percurso e me parabenizaram presencial e virtualmente. Sem palavras!

* gratidão pela confiança e apoio dos meus patrocinadores, a Skechers Performance – que desenvolve guidis maravilhosos como o GoRide5, tênis que usei em todas as conquistas da TTT. Vocês estão cada vez melhores! – e a NewMillen Suplementos, que fornece toda a minha suplementação. Afinal, não é só de aguinha e banana que se enfrenta uma monstruosidade dessas! O PowerDrink, o IronGel e o 4:1, todos da linha IronMan, foram meus companheiros em muitos treinos e ao longo das mais de 7 horas de prova nesse sábado. Novamente, reitero a importância do aporte calórico numa ultra, o X da questão!

 

 

 

 

 

 

TTT 2017: pra começar – e terminar bem

Publicado por | Gente que corre | Nenhum Comentário
Foto: Guto Oliveira/Transpire

Foto: Guto Oliveira/Transpire

Após um ano fora da Travessia Torres-Tramandaí (TTT), que ocorre no próximo final de semana nas areias do litoral norte gaúcho, cá estou eu, ansiosa para percorrer os intermináveis 82 quilômetros que separam os dois balneários. Com a experiência de ter ganho por 4 anos consecutivos e sendo recordista feminina dessa competição, me arrisco a rabiscar alguns conselhos para quem irá encarar nessa edição. São bastante genéricos, mas talvez sejam úteis, sobretudo aos novatos.

1) Organize-se. Como é uma prova realizada na beira da praia, não espere um “mu-muzinho”. Por melhor que esteja a areia, o vento, o clima, jamais será como correr na Beira-Rio. Caso consiga, trace um plano B com sua equipe no que diz respeito à hidratação e suplementação. São várias horas de envolvimento no evento. Leve comida, isotônico, água, Coca-Cola, gel, paçoca, damasco, castanhas, sanduba, enfim, tudo aquilo que você esteja acostumado a comer. Jamais fique muito tempo sem se alimentar. Ter combustível constante é tudo!

2) Não se afobe. Tenha foco, bom-humor e paciência. Não importa a distância que você irá percorrer. Se vai na categoria solo, em dupla, quarteto ou octeto. Nada se resolve em 10 minutinhos. Vá trilhando quilômetro a quilômetro com base naquilo que você treinou. Milagre não existe e ficar dando uma de Usain Bolt em pista de tatuíra não vai te levar a lugar nenhum. Aliás, a chance de você quebrar é imensa. Lembre que é APENAS uma prova e que não tem vida ou morte em jogo. Estamos aí pra competir, sim, mas saudavelmente.

3) Concentre-se no ambiente. E curta cada momento. Caso a previsão se confirme – tempo bom, com sol -, fique mais atento ainda. Como a TTT é realizada em pleno veraneio, num sabadão, a chance da praia estar lotada é enorme. Crianças correndo pra lá e pra cá, guarda-sóis, vendedores ambulantes, bêbados, enfim, a fauna e a flora em atividade intensa. Tente seguir uma linha reta, não ficar em zigue-zague, pois, além de correr mais, a chance de acidentes fica maior. Numa única direção, sua concentração fica maior. Analise o estado da areia – quanto mais solta e clara, mais desgaste, pois não há retorno de passada e o sol reflete, aumentando a temperatura. Confira se mais perto da água a situação não estará melhor – afinal, perto das ondas, a areia é mais escura e você sofre menos a ação do calor. Claro, tem dias que nessa faixa a areia está muito fofa, o que não favorece nada. Tudo é questão de uma análise da situação. Ahh! Importante: não se preocupe em molhar seu rico pezinho na água. Ficar saltitando pra desviar dos córregos e valas, comuns no nosso litoral, é erro comum: muita gente já travou a posterior ou teve lesões ao fazer isso. Meta a “pata” sem dó e toque ficha. Afinal, se não é pra se sujar, nada como um passeio no xópim!

4) Evoque o mantra “eu posso. eu consigo”. Dia desses, conversando com um amigo meu que estreará na categoria solo, perguntei por qual motivo ele “inventou de fazer essa merda”. Deixei ele falar. Nenhum dos motivos que ele citou bateram com aqueles que acredito. “Não, você deve querer fazer porque você pode. E porque você consegue”, falei. A maneira de pensar é que faz toda a diferença. Lembre que tudo está na mente. Correr como você nunca correu é uma questão muito mais mental do que física. É preciso treino, sim, porém quem te faz chegar lá e cruzar a linha de chegada chorando e rindo ao mesmo tempo é essa superação pessoal. A grande batalha é com você mesmo.

Desejo a todos uma excelente prova – e que a força esteja com você. Sempre!

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Nos vemos lá na Barra do Imbé/Tramanda! ( ;

 

 

 

 

 

 

 

 

Fuja do Leão de Treino

Publicado por | Foco no treino | Um Comentário

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :