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Fuja do Leão de Treino

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :

 

 

 

 

 

Repetição: a mãe da habilidade

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Você conhece alguém que já obteve bons resultados não só na corrida, mas em qualquer outro esporte, sem treinar muito? Já viu alguém superar um recorde sem afirmar que foram precisos meses de preparo? OK. Há quem atribua grandes marcas à genética, assim como há quem afirme que aquele empresário bem-sucedido teve muita “sorte”. Ahãm.

Não tem fórmula mágica: é repetição. Repetição. Repetição. Perseverança. Rotina. Disciplina. Ralação pura e crua.

Porém, como fazer para achar isso bom?

Cada um tem suas estratégias. Prefiro ser bastante prática e resumir: é um mal necessário. E ponto. Quem disse que seria fácil? ( :

Treinando para algumas provas cascas-grossas, tento mentalizar, sobretudo nos longões solitários, que essa rotina muita vezes estafante faz parte do jogo – e que se eu não acostumar meu corpo e cérebro a aguentar o tranco no osso, jamais vou evoluir ou ter a sensação de missão cumprida.

Penso que, mesmo não tendo certeza do melhor resultado, saberemos que estamos no caminho certo: no caso da corrida, treinando, simulando provas, fazendo pista, aumentando progressivamente a velocidade. E tudo isso com um planejamento adequado, otimizando tempo e recursos. Na hora do “pega pra capar”, se você sabe que treinou o bastante e que seu corpo está preparado para tal estímulo, as chances de ter êxito são bem maiores.

Pode parecer óbvio, mas a prática não costuma ser fiel à teoria. Cada vez mais, vejo atletas amadores priorizarem as provas do que o treinamento rotineiro. São os famosos “leões (ou campeões) de treino” . Mas vem cá, você treina para competir ou é ao contrário? Ah, não tem tempo? Então não exija do pobre do seu corpo o que ele não pode dar sem sofrer até quase sair sangue dos olhos ou estourar as coronárias.

Treinar é, sim, muitas vezes chato. Inúmeras vezes saí para a rua sem a mínima vontade. E o que ocorreu? Voltei, sempre, feliz da vida. Mesmo que não tivesse feito aqueeeeele treino, eu fui. E isso que importa.

Correr é lindo, correr é bom, correr virou uma coqueluche. Mas, se você tem um perfil como o meu, que adora superar a si mesmo, em primeiro lugar, o conselho é um só: treine sério. Treine duro. Repita. Repita. Repita. E quando você ficar bom, prepare-se para ouvir: “ah, é genético”.

Tá certo.

 

 

 

TTT 2014: expectativas, histórias e “não-conselhos”

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Faltando menos de 20 dias para uma das competições mais esperadas do Sul do país, a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) – que chega na sua décima edição mais disputada do que nunca –, a ansiedade para as centenas de atletas que vão encarar a prova cresce a passos largos. Não consegui obter os dados de quantas pessoas estão inscritas em 2014, mas acredito que, em termos de quantidade e qualidade dos competidores, será um ano inesquecível.

Bem, para ser mais sincera (e sem querer aterrorizar, mas já aterrorizando), inesquecível sempre é. Seja pelo calor, pelo vento contra e areia fofa (vide a nona edição), pela alegria contagiante, pelos veranistas-torcedores, pelo espírito de equipe onipresente ou por histórias hilárias, como o prêmio que ganhei em 2012 ao vencer a prova: um troféu e UM pão de forma. Sério. Pelo menos era um “sete grãos”. Até hoje dou muitas risadas disso. Mas enfim, não é esse o intuito desse post. É falar sobre a carga de ansiedade que marca os dias (e, no caso de muitos, meses) pré-competição, e a impressão que tenho de tudo isso.

Planejei fazer pela última vez a prova, pelo menos na categoria solo. Já corri outras quatro vezes: duas sozinha, em 2013 e 2012, quando bati o recorde feminino da prova em ambos anos; em dupla, em 2011, quando também tive a alegria de erguer o troféu de primeiro lugar ao lado do Luciano D’Arriaga (que gentilmente cedeu sua vaga para mim neste ano, pois estará impossibilitado de correr devido a sua tese de mestrado. Ele coletará sangue dos ultramaratonistas antes e após os 82 quilômetros para analisar biomarcadores de lesão muscular). E outra vez em quarteto, bem mais light, mas igualmente bacana. Como viajei para o Japão no período de inscrições, desta vez comi mosca e…ixi, quase fico de fora! Mas enfim, até que provem ao contrário, vou lá dar uma de “camelo-pangaré-paraguaio” mais uma vez.

É natural que muita gente me pergunte como fazer para correr a TTT sozinho, ou em duplas. Qual o segredo, que tênis usar, como fazer a hidratação e alimentação adequada, entre outras manhas. Como não sou treinadora, mas já tenho uma boa experiência nesse tipo de desafio, sempre dou um ou outro toque, sempre com base na minha vivência, claro – que é muito baseada nos erros e acertos.

Para não cometer nenhum grave equívoco e também para não me meter de pato a ganso, meu conselho é: não dar muito conselho. Isso é muito individual e cabe aos especialistas. Até porque o que serve para mim, dificilmente funcionará num outro atleta. O tênis que uso, de quantas em quantas horas me alimento, etc, etc. Besteira achar que é uma fórmula pronta. Defendo o treino individualizado, baseado em uma série de variáveis analisadas com calma.

Olhando para trás, confesso que, na primeira vez que saí lá de Torres às 6h, não tinha noção do que estava fazendo. Já comecei errado, saindo quase 10 minutos atrás dos outros corredores – sim, até isso ocorreu. Todo mundo na praia e eu lá, pegando o chip na barraca com o Corpa. Tanto que, quando cruzei a linha de chegada em Imbé, explodi de felicidade. Estava em êxtase, tentando encontrar uma explicação para tal acontecimento. Ainda tenho amigos que olham para mim e perguntam: “como pode? Olhando para ti, nem dá para acreditar o que tu faz…”. Realmente, é meio insano, sim. Pegue o carro e faça mais de 80 quilômetros. Olhe a paisagem, veja quanto tempo demora. Agora imagine percorrer isso a pé, em menos de oito horas. Não, não é fácil pra ninguém. Quem diz que é moleza, estará mentindo. E feio.

Cada um tem um limite, e eu vivo testando o meu. Não sei se é um parafuso frouxo, autoestima em baixa, tendência suicida, cabeça dura ou qualquer outra patologia. Mas é um vício maldito. Confesso que deveria me preparar melhor para algumas provas, ouvir mais os conselhos e orientações de treinadores, fisiologistas, psiquiatras, nutricionistas e ortopedistas. Todo esse aparato só vem ajudar. Eu admiro quem consegue fazer tudo certinho, como manda o figurino. Porém, eu vou aprendendo no meu ritmo – e sempre fiz assim, desde a época que aprendi a surfar olhando os garotos e tomando onda na cabeça, engolindo muita água.

Para quem vai marcar presença na Travessia Torres-Tramandaí pela primeira vez, esteja certo que dia 25 de janeiro será um dia pra ficar na história. Para quem vai em duplas ou estrear na categoria solo, desejo muita sorte, porque a pedreira é braba. Espero que possa abraçar a todos amigos no final, ouvir inúmeras histórias emocionantes de superação, e, claro, contar algumas delas. Pelo que estou vendo, personagens incríveis não vão faltar.

Nos vemos em Torres – ou melhor, na Barra do Imbé!

Parcerias de treino

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Dentre todos os esportes, a corrida – mais do que a natação e o ciclismo – talvez seja o que mais testa a capacidade do atleta em conseguir treinar sozinho. Por mais que os grupos de corrida tenham crescido em escala geométrica e unido os “pangarés” para rodagens coletivas, não tem jeito: se o cara não consegue ter disciplina para calçar os tênis e cumprir a planilha diária com afinco, sem precisar de alguém incentivado o tempo todo, as chances de estagnação são enormes. Além das rotinas serem completamente diferentes, pessoas tem níveis de condicionamento distintos. Dos bons maratonistas que já cruzei pelas ruas e pistas, quase a totalidade estava só, suando a camiseta.

Embora esta seja uma realidade triste para alguns, que preferem esportes coletivos, nela está, ao meu ver, um diferencial positivo: para correr, basta um bom par de tênis e sua própria vontade. Motivo pelo qual a corrida tem dado um pulo no número de praticantes a cada ano. Sim, somos seres individualistas, e isso não pode ser encarado como um fato estritamente ruim. Para mim, ser dono do seu tempo é sinônimo de liberdade.

Porém, ao mesmo tempo em que é uma atividade solitária, a corrida tem o poder de criar elos tão fortes que chega a ser inexplicável a energia que rola entre atletas que mal se conhecem. Quantas vezes, naqueles longões intermináveis, encontrei gente pelas ruas e rodei quilômetros trocando ideias, perguntando o nome só no final do papo. A conversa flui, sempre há assunto. Feito pescador, corredor sempre tem uma história mirabolante para contar.

O valor das parcerias de treino é inestimável. Na terça-feira, saí para um longão de 30 quilômetros, num calor terrível, ainda sentindo o jet lag da viagem de volta do Japão (foram mais de 30 horas sem dormir direito, intercalando três voos), sem treinar direito há 20 dias. Achei que não ia conseguir completar. Aí, encontro um amigo de fé, o Alessandro Amaral, lá no quilômetro 21. Dito e feito: ele se prontificou para acabar comigo o sacrifício e eu cumpri o dever com muito mais alegria.

No domingo passado, a mesma coisa: saí para dar uma rodadinha de 10km e acabei fazendo 18km porque encontrei o Gabriel, gente finíssima, no meio do caminho. Conversamos sobre filhos, trânsito, tipo de tênis…naquela miscelânea de assuntos, o tempo voou.

No final das contas, chego à conclusão que correr sozinho é bom, mas ter parceria pros treinos é, sem dúvida, melhor ainda.

Os mitos do destreino

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Após 20 dias de férias, sacudindo as tranças no Japão, retorno com a “cabeça feita”, mas com um tempo curtíssimo para me preparar para os próximos desafios. No dia 30 deste mês, embarco para Santa Catarina para enfrentar a Mizuno Uphill, idealizada pela gigante marca japonesa e que promete ser uma pedreira das brabas.

Para quem ainda não ouviu falar da prova, é um desafio proposto para 50 atletas do país (com boa experiência em provas similares) na Serra do Rio do Rastro. O percurso abrange as cidades de Treviso, Lauro Müller e Bom Jardim da Serra, totalizando os 42,1 km oficiais da maratona, mas com um detalhe: serão nada menos do que 256 curvas até a linha de chegada, localizada a 1.418 metros do nível do mar, com inclinação média de 7%, podendo atingir até 35%. Tá achando que é moleza?

Apesar da minha preparação não ter sido perfeita em função da viagem, vou tentar recuperar o tempo perdido até o dia do desafio e focar em treinos específicos, incluindo muita subida e caprichados longões. Se eu conseguir completar a prova no tempo máximo permitido (no regulamento, consta que a Mizuno dará seis horas), já terei feito a minha parte bem feita. Claro que a ideia é completar a maratona sem fazer feio, dando o meu máximo. Se é possível chegar lá? É. Sempre é.

Bem, mas toda essa história é para chegar no ponto onde quero chegar: o quanto perdermos, afinal, ao ter que dar uma pausa nos treinos ou diminui-los?

Muitos ficam chateados quando tem que parar os treinos por algum tempo específico, seja por lesões, por motivos pessoais ou profissionais. Pesquisando sobre o assunto, descobri um fato relevante: o “destreinamento”, como se chama, ocorre mais lentamente do que se imagina: em termos gerais, ele diminui na mesma proporção que se eleva. Renomadas publicações internacionais mostraram, em recentes estudos, o quanto um atleta perde ao cessar os treinos ou apenas diminui-lo. Dê uma olhada no resumo clicando aqui.

Há quem defenda que, mesmo que a queda no rendimento seja significativa, é possível recuperá-la rapidamente. No meu caso (como não fiquei totalmente parada, consegui correr, como se vê na foto acima, mesmo que em esteiras de hotel, além de caminhar todos os dias de 15 a 20 quilômetros pelas cidades de Tóquio e Kyoto), não há uma preocupação tão grande. Mas quem para por mais tempo deve obedecer a regra básica propagada pelos educadores físicos: ao voltar após um tempo parado, vá com calma: tentar retornar com a mesma carga e intensidade que se estava treinando no momento da interrupção pode causar lesões bem sérias.

Num excelente artigo publicado no site Papo de Esteira, o professor Reinaldo Tubarão, da USP, dá um resumo do que chamamos de “memória muscular”: segundo ele, quanto mais tempo você leva para ficar bem condicionado, mais tempo levará para perder esse condicionamento. Para quem quer ler mais um pouquinho, sugiro a leitura nesse link.

Bem, agora o que me resta é ir atrás do preju. Sem me estressar, vou fazer tudo o que eu conseguir, da melhor forma. Se depender da minha vontade, vou superar mais essa com um sorriso no rosto. Torçam por mim!