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A fantástica história de Bataclan – o mais célebre corredor de Porto Alegre

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Imagine o que seria correr nas ruas de Porto Alegre, de calção e regata, descalço, na década de 50. Impossível imaginar que o ser humano que fizesse isso na época não viraria um célebre personagem. Pois foi o que ocorreu com Cândido José dos Santos – apelidado de Bataclan, que nos romances de Jorge Amado remete ao significado de cabaré, já que esse era o nome de uma famosa boate de Paris.

Ouvi falar dele pela primeira vez conversando com meus pais. Nascidos na década de 40, viram muitas vezes o corredor no Centro. “Era uma imponente figura. Alinhado, de porte atlético. Chamava muita atenção”, lembra minha mãe.

Muitas vezes, Bataclan corria de pés descalços. Sempre de manhã, quando saía para fazer seus vários quilômetros. Como li em matéria do jornal Zero Hora (Almanaque, do amigo fotógrafo Ricardo Chaves, o Cadão, um aficionado pela memória do nosso Rio Grande do Sul), “à tarde, exibia a herança dos tempos de teatro: vestindo terno, gravata e cartola, andava pelas imediações da Rua dos Andradas propagandeando lojas, bares, bebidas, sabões e colchões, entre muitos outros produtos”.

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Conforme o resgate histórico – no qual cito fontes como os pesquisadores Marcello Campos e o repórter Nilo Dias -, “Bataclan também estava sempre nos estádios de futebol em dias de jogos, muitas vezes distribuindo alimentos para famílias pobres. Gostava de conversar com as pessoas e defendia uma vida saudável – além de praticar esportes, era vegetariano e rejeitava cigarros e álcool. Tanto que viveu em torno de 90 anos. Seu velório, em setembro de 1990, foi realizado no Salão Nobre da prefeitura”.

Um personagem repleto de histórias

Há quem diga que ele foi “o mais querido personagem popular de todos os tempos em Porto Alegre”. Vegetariano, dizia que o marinheiro Popeye adquiria sua força em virtude de uma dieta baseada em espinafres. Gostava de contar que, certa vez, correu sem parar para dormir ou descansar, durante quatro dias e três noites seguidos, margeando o Guaíba durante o crepúsculo. Não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu, ou era apenas uma das muitas histórias que criava. Dizia ter dado uma centena de voltas no Gigante da Beira-Rio e depois, para não ser injusto, repetira o mesmo feito no Olímpico Monumental da Azenha.

De como ziguezagueara entre os túmulos dos cemitérios da Oscar Pereira orando a Deus pela alma de todos que ali jaziam.  Lembrou a multidão que o ovacionara ao cruzar o Parque da Redenção e a bronca que levara da mulher ao chegar em casa.

 

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Outros trechos que recolhi na minha pesquisa:

“Alinhadíssimo, sempre de terno branco, chapéu, gravata vermelha, sapatos reluzentes, e para completar o modelo, cravo vermelho ou dália na lapela, no melhor estilo do malandro carioca dos anos 30″.

O ícone Keneth Cooper, criador do famoso método de Cooper, visitou Porto Alegre em setembro de 1975. Conheceu Bataclan e declarou “que jamais viu coisa igual em todo o mundo”.  Bataclan, em retribuição, lhe presenteou com uma cesta de legumes e frutas.

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Adepto de São Francisco de Assis, que não comia carne vermelha, se declarava ateu. Há uma certa dúvida quanto ao seu nascimento: alguns registros apontam que foi no Rio de Janeiro, outros que foi em Santa Catarina. Morou em também em Curitiba e São Paulo, passou pela Europa, mas se radicou em Porto Alegre, em 1939. Cantor da Companhia de Revista Negra, onde fazia dueto com Rosa Negra, traduzia as parte em francês da cantora.  Nas apresentações, sempre lia um trecho chamado “Bataclan”. Por isso, ganhou o apelido.

Sua morte, reportada pelo Correio do Povo em 26 de setembro de 1990, gerou comoção geral.

“A má notícia se espalhou rapidamente ontem pela Rua da Praia. Morreu Cândido José dos Santos, o Bataclan, com 94 anos, vítima de parada cardíaca, às 8:15 minutos, no Hospital Conceição. Bataclan era vegetariano, atleta e o primeiro propagandista da cidade”.

Neto de escravos da Guiana Francesa, filho de marinheiro, ainda tinha tempo para doar alimentos aos doentes da Santa Casa e o Lar Padre Cacique.

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Entre suas pérolas, a melhor de todas, ao meu ver, é essa:

“Meu caráter é impecável. Sou idealista e ateu. O homem não vale por seus preconceitos e nem pela cor. Vale por que faz na vida. Esta é minha concepção filosófica”.

 

TTT 2017: pra começar – e terminar bem

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Foto: Guto Oliveira/Transpire

Foto: Guto Oliveira/Transpire

Após um ano fora da Travessia Torres-Tramandaí (TTT), que ocorre no próximo final de semana nas areias do litoral norte gaúcho, cá estou eu, ansiosa para percorrer os intermináveis 82 quilômetros que separam os dois balneários. Com a experiência de ter ganho por 4 anos consecutivos e sendo recordista feminina dessa competição, me arrisco a rabiscar alguns conselhos para quem irá encarar nessa edição. São bastante genéricos, mas talvez sejam úteis, sobretudo aos novatos.

1) Organize-se. Como é uma prova realizada na beira da praia, não espere um “mu-muzinho”. Por melhor que esteja a areia, o vento, o clima, jamais será como correr na Beira-Rio. Caso consiga, trace um plano B com sua equipe no que diz respeito à hidratação e suplementação. São várias horas de envolvimento no evento. Leve comida, isotônico, água, Coca-Cola, gel, paçoca, damasco, castanhas, sanduba, enfim, tudo aquilo que você esteja acostumado a comer. Jamais fique muito tempo sem se alimentar. Ter combustível constante é tudo!

2) Não se afobe. Tenha foco, bom-humor e paciência. Não importa a distância que você irá percorrer. Se vai na categoria solo, em dupla, quarteto ou octeto. Nada se resolve em 10 minutinhos. Vá trilhando quilômetro a quilômetro com base naquilo que você treinou. Milagre não existe e ficar dando uma de Usain Bolt em pista de tatuíra não vai te levar a lugar nenhum. Aliás, a chance de você quebrar é imensa. Lembre que é APENAS uma prova e que não tem vida ou morte em jogo. Estamos aí pra competir, sim, mas saudavelmente.

3) Concentre-se no ambiente. E curta cada momento. Caso a previsão se confirme – tempo bom, com sol -, fique mais atento ainda. Como a TTT é realizada em pleno veraneio, num sabadão, a chance da praia estar lotada é enorme. Crianças correndo pra lá e pra cá, guarda-sóis, vendedores ambulantes, bêbados, enfim, a fauna e a flora em atividade intensa. Tente seguir uma linha reta, não ficar em zigue-zague, pois, além de correr mais, a chance de acidentes fica maior. Numa única direção, sua concentração fica maior. Analise o estado da areia – quanto mais solta e clara, mais desgaste, pois não há retorno de passada e o sol reflete, aumentando a temperatura. Confira se mais perto da água a situação não estará melhor – afinal, perto das ondas, a areia é mais escura e você sofre menos a ação do calor. Claro, tem dias que nessa faixa a areia está muito fofa, o que não favorece nada. Tudo é questão de uma análise da situação. Ahh! Importante: não se preocupe em molhar seu rico pezinho na água. Ficar saltitando pra desviar dos córregos e valas, comuns no nosso litoral, é erro comum: muita gente já travou a posterior ou teve lesões ao fazer isso. Meta a “pata” sem dó e toque ficha. Afinal, se não é pra se sujar, nada como um passeio no xópim!

4) Evoque o mantra “eu posso. eu consigo”. Dia desses, conversando com um amigo meu que estreará na categoria solo, perguntei por qual motivo ele “inventou de fazer essa merda”. Deixei ele falar. Nenhum dos motivos que ele citou bateram com aqueles que acredito. “Não, você deve querer fazer porque você pode. E porque você consegue”, falei. A maneira de pensar é que faz toda a diferença. Lembre que tudo está na mente. Correr como você nunca correu é uma questão muito mais mental do que física. É preciso treino, sim, porém quem te faz chegar lá e cruzar a linha de chegada chorando e rindo ao mesmo tempo é essa superação pessoal. A grande batalha é com você mesmo.

Desejo a todos uma excelente prova – e que a força esteja com você. Sempre!

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Nos vemos lá na Barra do Imbé/Tramanda! ( ;

 

 

 

 

 

 

 

 

O maratonista de Kichute

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Dois dias depois de seu aniversário de 77 anos, Valdomiro participará mais uma vez da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre dia 12 de junho. A comemoração, segundo ele, “ficará após cruzar o pórtico de chegada”

No ano em que o primeiro homem correu a lendária Maratona de Boston abaixo de 2h30 min (o norte-americano Ellison M. “Tarzan” Brown, com 2:28:51), nascia, quase dois meses depois, no dia 10 de junho, um dos mais longevos maratonistas da capital gaúcha. Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, é uma figura notável. Impossível não sorrir ao vê-lo de manhã bem cedinho, de camiseta molhada, cumprindo mais um de seus sagrados treinos.

Já tinha mirado ele inúmeras vezes em provas de rua e nos longões da Beira-Rio. No mesmo passinho , devagar e sempre. Sem firula, tênis da moda ou qualquer parafernália. Aliás, sua primeira maratona, aos 50 anos de idade (a de Porto Alegre), foi disputada com um…Kichute. Sim, aquele tênis horroroso, misto de chuteira com sei-lá-o-quê, criado na década de 70 – e terror dos ortopedistas.

Mesmo que ninguém recomende correr 42 quilômetros com calçado similar, é por esse e outros detalhes que Valdomiro merece um capítulo a parte na história das corridas de rua da cidade. Pela sua simplicidade e leveza de ser, pela perseverança e atitude perante a vida. Ao invés de reclamar da idade, ele muda o curso e vai pra rua vestido apenas com a vontade insaciável de sentir o vento no rosto e a endorfina correndo nas veias.

Na semana passada, o relógio marcava 6h58. Esperava meu grupo de corrida chegar para treinarmos em frente ao Praia de Belas Shopping. E tive a sorte de esbarrar com Valdo. Encerrava seu treino, iniciado há mais de uma hora. Sim, ele acorda às 4h, come “frutas e respectivas farinhas” e sai para a rua às 5h30. “Com minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite”, não esquece de salientar, bem-humorado.

Nossos olhares se encontraram e fomos metralhando perguntas um ao outro. Ele iniciou o papo:

“E aí, tá fazendo quanto hoje?”

Eu respondo:

“Não, não, só tô esperando ainda o pessoal chegar pra correr. Só um trotinho hoje!”

Preferi não perguntar quanto ele já havia rodado, mas sem dúvida muitos mais do que faria no dia. Falamos sobre a Maratona de Porto Alegre, perguntei com quantos anos ele estava, como era bom acordar cedo pra correr…e, claro, não perdi a oportunidade de clicar uma fotinho pra me exibir ao lado do amigo, de quem sou fã.

No final, saiu essa entrevista, feita por e-mail. Acham que a jornalista aqui perderia a oportunidade de contar essa história contagiante? Jamé! A ideia é incentivar quem “acha que está velho pra começar a correr”, acha mil justificativas pra não desgrudar a buzanfa do sofá ou, simplesmente, deseja encontrar uma inspiração para seguir acreditando no poder desse lindo esporte.

Seu Valdomiro, taí uma figura encantadora. Espero chegar na sua idade com a metade de sua disposição e vitalidade. ( :

ENTREVISTA – Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, maratonista

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Valdo emocionado ao cruzar a reta final na Maratona de Chicago

Santa Corrida – Quando e porque começou a correr? 

Valdomiro Siegieniuk – Sempre gostei de correr, mas participar de corrida de rua foi mais tarde, a partir de 1980. Tudo surgiu a partir de uma aposta com guris mais jovens, que me desafiaram a começar. O início foi na pista do Parque Marinha do Brasil. A minha primeira Maratona foi a Internacional de Porto Alegre, em 1989. Eu tinha 50 anos de idade e corri com os tênis Kichute. Não tinha feito nem um treino longo. Fiquei uma semana sem poder descer as escadas.

Santa Corrida – Quantas maratonas já disputou?

Valdomiro -  Já disputei 42 Maratonas no Brasil, mais a Supermaratona de Rio Grande, além de 13 Maratonas no exterior. No total, foram 53 provas nessa modalidade. Mas eu corro diversas distâncias, gosto de todas!

Santa Corrida – Como é a sua rotina de treinos?

Valdomiro – Hoje, treino sem planejamento.Levanto às 4 horas da manhã,como as minhas frutas com as respectivas farinhas e saio para treinar ao redor das 5h30min (com a minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite). Quantos quilômetros por dia? Depende da disposição, temperatura e se encontro alguém no meio do caminho.Em média, de 10 a 20 km.

Santa Corrida – Qual o significado da corrida para você?

Valdomiro – É a chama da vida. A satisfação de chegar em casa, tomar um banho e estar disposto e com bom humor o dia inteiro.

Santa Corrida – Que conselho você daria para quem quer iniciar nesse esporte?

Valdomiro -  Em primeiro lugar, fazer um exame médico. Depois, procurar um professor de Educação Física ou participar de um grupo de corrida para receber as orientações corretas. Da minha parte, sempre digo para nunca desistirem.O meu maior prazer é ler no Facebook, quando após uma maratona, o que um(a) atleta escreve: Valdomiro, graças a ti,eu sou um(a) Maratonista! Pois já incentivei muitos jovens a participarem.

Santa Corrida – Cite um momento marcante que você viveu nesses anos todo correndo.

Valdomiro - Foram muitas emoções vividas. Uma foi ao correr a Maratona de Berlim, quando combinei com a minha mulher (que sempre me acompanha, mesmo não correndo), que me esperasse na frente do hotel, pois ali seria o 15 km do trajeto. Ao atingir esse ponto,encontrei ela com um apito (foram distribuídos pela organização),parei, dei um beijo, um forte abraço e recebi calorosos aplausos do público presente.Continuei  correndo com lágrimas nos olhos.Terminei a prova ao redor de 3h35min. Isto foi em 2001, aos 62 anos de idade. Outro episódio marcante foi na Maratona de Budapeste, quando passava pelo ponto de troca do revezamento e fui saudado pelo locutor anunciando meu nome e dizendo que era brasileiro. Inesquecível!

 

 

Corrida: um dos segredos de Mick Jagger

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Já tinha ouvido falar da impressionante boa forma de um dos maiores astros do rock mundial, Mick Jagger, dos Rolling Stones – que passa por Porto Alegre hoje, na sequência de shows da tour brasileira. Aos 70 e lá vai picos, o magrelinho (que já é bisavô), pula o tempo todo, vai de um lado ao outro do palco em segundos, dança feito uma enguia com coceira, brinca e interage com a platéia…enfim, dá um cansaço em muito jovenzinho por aí.

Uma matéria (publicada em 2011, muito lida) a respeito da forma física de Jagger foi publicada há algum tempo no jornal Daily Mail (que você pode ler na íntegra clicando aqui). Na reportagem, são citados os costumes do músico (alguns nada comuns, como aulas de ballet e creme facial de caviar), no qual estão incluídos impressionantes 12 quilômetros diários de corrida. Sim. Mick Jagger deve a esse esporte grande parte do seu fôlego, energia e boa forma. Em cada apresentação, ele chega a percorrer quase 20 quilômetros.

O costume, segundo o jornal, vem de infância: seu pai, Basil Joseph Jagger, era professor de educação física e determinava uma rotina severa de treinamento para o filho desde a década de 1960.

Taí mais um motivo pra amar Jagger – e pra ficar convencido de que correr é, definitivamente, um esporte engrandecedor!

Rock n’run, babe!

 

 

 

Corrida: esporte para todos os pesos

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Basta checar os números e dar uma olhada a sua volta. Nunca o brasileiro esteve tão gordo. Conforme dados recentes do Ministério da Saúde, 48,5% da população está acima do peso. Ao mesmo tempo, jamais vimos tamanho crescimento da quantidade de corredores nos quatro cantos do país. Hoje, esse já é o segundo esporte mais praticado no País, só ficando atrás do futebol (se bem que acho que há mais gente que apenas “curte”o esporte bretão, mas não joga toda a semana…).

A verdade é que a figura do corredor de alta performance, magrelo, estilo queniano, forte e esguio, é rara nas ruas. Corpos mais roliços e menos privilegiados, digamos assim, são a grande maioria, sobretudo quando formos falar de quem realiza treinos e compete nos 3, 5 e 10 quilômetros. Há, é claro, os que encaram os 21 e os 42 quilômetros – e entram naquela lista dos que “apenas querem completar”. O número de maratonistas brasileiros cresceu mais de 40% de 2009 a 2014, mesmo que ocupemos a 33ª posição na lista de 47 países, no que diz respeito à performance. A média de tempo que um brazuca leva para completar a distância é de 4h21min, bem acima dos espanhóis (3h55min), por exemplo.

Ou seja: a esmagadora maioria corre porque se sente bem. Para socializar, conhecer gente nova. O valor social da corrida é inegável e é muito em função dele que os atletas amadores, magros e gordos, se juntam nas dezenas de provas realizadas todo fim-de-semana. A saúde e a boa forma figuram como fatores importantes, sem dúvida, porém dar aquele “upgrade” na qualidade de vida é o que faz a grande diferença.

Ser gordinho ou não? Esse parece não ser um detalhe primordial quando falamos em corrida. É possível, sim, estar acima do peso e fazer bonito nas pistas. Com orientação profissional e parcimônia (e desde que realizados todos os exames de aptidão física), há ganhos inegáveis em todos os aspectos. Sinal disso é que revistas de grande circulação e credibilidade, como a Women’s Running estão fugindo do modelo-padrão e já estampam, como na atual capa, modelos como a plus size Erica Jean Schenk, na foto acima, praticante desse esporte desde criança. Na reportagem, ela conta que “adora correr para relaxar e pensar na vida” e coloca o dedo na ferida de muita garota “instafitness”: “garotas de todos os tamanhos têm o direito se serem valorizadas pelo público e pela mídia”.

Vou concordar em gênero, número e grau com a Erica. Está cheio de gente magra e que de saudável não tem nada – tanto física quanto psicologicamente. A genética não favorece todo mundo, o que jamais poderá ser um fator impeditivo. Atingir grandes marcas, figurar no pódio é para a minoria. A maioria não dorme sonhando com isso. Quer mais é descontrair, ter mais energia, bater papo com os amigos.

Como escreveu o colunista da revista O2 Marcos Caetano:

Eu admiro profundamente os gordinhos que continuam correndo, mesmo sem emagrecer. Eles têm a alma de corredor. Correm contra os próprios limites, contra si mesmos e não por glórias. Correm mesmo sob gritos jocosos dos bocós sedentários nas provas: “Corre, gordinho!”, “Tá magrinho, hein, bolão?!”… Os gordinhos corredores — esses seres grandes de tamanho e imensos de caráter — não ligam para a crueldade do bicho homem. Apenas seguem, passo após passo, rumo à faixa final. Todo o meu respeito a eles, que estão em outro estágio de compreensão da importância do esporte e do valor da determinação. E, talvez exatamente por isso, mereçam ser chamados de homo sapiens“.

O mais belo desse esporte, ao meu ver, é o caráter democrático. Sem ele, não haveria tanta graça. Viver mais e melhor todos queremos: gordo, magro, alto, baixo, pobre ou rico. O universo da corrida é assim: leve, real e sem preconceitos.

 

 

Retomando os treinos: como voltar à forma sem drama

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Dificilmente, um corredor mais experiente não conta na sua trajetória um tempo parado. Lesões, trabalho, viagens, estudos, família, filhos, doenças…enfim, uma infinidade de motivos e até “desculpas” são usadas para essa pausa. A intenção desse texto não é puxar as orelhas de quem deixa de se exercitar, por quaisquer fatos. É deixar claro que sim, é possível – e necessário – retomar a corrida assim que a poeira baixar.

Devemos ter em mente que o corpo é altamente adaptável. Assim como ele acostuma a ficar na inércia, acostuma a se mexer diariamente. O que importa é a atitude de jamais deixá-lo muito tempo na primeira situação que, comprovadamente, traz inúmeros malefícios ao corpo e à mente.

Conheço pessoas que começaram a correr, se apaixonaram pelo esporte e “puf!”, num passo de mágica, pararam e jamais recomeçaram. Em comum a todas elas, um profundo arrependimento. Se você teve (ou quis) parar por um tempo, seja ele qual for, saiba que é possível, sim, retomar os treinos e voltar ainda mais forte do que antes. Como? Ah, esse é o segredo!

Ter calma, parcimônia e muita persistência são regras básicas. Assim como iniciar qualquer atividade física, a prática requer habilidades, sim, mas muita perseverança e pensamento positivo. O corpo sentirá o “baque” dos meses sem fazer nada e pedirá água. Natural que ele queira sabotar você o tempo todo. Nessa hora, é preciso ter jogo-de-cintura para seguir com perseverança.

Li uma entrevista recentemente com uma treinadora de Los Angeles chamada Marissa Tiamfook. Ela falou algo com o que concordo:

“Você não deve se sentir culpado. Concentre-se no fato de que quer retornar e não se preocupe com a velocidade no início. É normal a gente se sentir pesado, com uma tonelada em cada perna…mas é um processo natural. Saiba que todos passam por isso. E conforme os treinos vão evoluindo, seu corpo voltará ao ritmo”.

Fugindo das lesões

A palavra “lesão”, ao lado da desmotivação e da preguiça, figuram no topo do ranking das palavras mais temidas por qualquer corredor em fase de reinício. Claro que isso não deve ser ignorado. Para tanto, a orientação de um profissional capacitado, no caso um professor de educação física, torna-se essencial.

O fortalecimento do corpo deve ser encarado como prioridade, de forma gradual e de acordo com cada caso. Outro ponto ressaltado por especialistas nessa fase é a avaliação da condição aeróbia básica, ou seja, o desempenho do coração e do pulmão. Saber a frequência cardíaca é um parâmetro referencial importantíssimo, com o qual o treinador terá condições de fazer seu “motor” funcionar a pleno vapor novamente em segurança.

Claro que nada são flores. Quando eu falo com quem está nesse momento, sempre tento ajudar falando que nada é definitivo. Essa dor do recomeço passa. E os treinos pesados do início fazem parte do processo. Ou achou que ia ser fácil? Ficar sem treinar não tira como mágica o lastro do corredor, mas jamais você recuperará em um mês a performance desmanchada ao longo de meses off.

Para deixar todo esse discurso mais “humano”, pedi para dois corredores contarem como foi sua retomada às pistas. A primeira entrevistada é a médica Juliana Kratochvil, de 36 anos, que deu um tempo em função da maternidade. O segundo é o campeão da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) André Reinert Brüch, engenheiro civil de 29 anos, que decidiu parar para dar um gás no lado profissional.

Ambos revelam como fizeram para seguir firme nos treinos após meses sem calçar os tênis de corrida e, atualmente, se preparam para novos desafios ainda mais fortalecidos. Confira!

“O esporte não pode ser secundário”

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação na Rústica de Estrela

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação de 3ª colocação na Rústica de Estrela (RS)

1)      Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Iniciei em 2012, procurando complementar a musculação com algum esporte que me envolvesse principalmente com a natureza. Logo fiquei superempolgada em superar minhas próprias dificuldades. Sempre achei que não conseguiria ter condições físicas para correr!

Aos poucos, fui me empolgando e seguindo a conquista. No início, não tive uma orientação tão focada na corrida e me mantive num treinamento mais misto com a musculação, na academia.

2)      Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Fiquei parada 11 meses, incluindo a gestação e mais 2 meses após a cesárea. Atualmente, minha maior dificuldade é na logística dos cuidados com meu filhinho de 1 ano e 4 meses!

3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Conto com meu marido, que é bem parceiro nos cuidados com o baby e um grande estimulador dos meus treinos. Também tenho suporte de uma funcionária uma vez por semana e de amigas queridas. Às vezes, em razão dos horários do trabalho de médica, a planilha de treinamentos acaba ficando prejudicada. Daí não tem jeito: temos que adaptar com o treinador.

4)      Como você costuma se preparar para as provas? Qual sua próxima meta?

Sempre traço um objetivo de provas e distâncias conforme minhas condições de treinamento para aquele período. Refaço as planilhas a cada dois ou três meses. Meu grande sonho é  correr uma meia maratona, e estou muito contente, pois estou muito próxima de realizá-lo.

5)      Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Amor, foco e, principalmente, colocar o esporte como prioridade. Não deve ser algo secundário, senão a coisa não anda!

6)      O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

Começar! O retorno é bem mais tranquilo, pelo menos para mim. Já tinha uma memória corporal. Só precisei melhor o condicionamento físico.

7)      Qual o significado da corrida em sua vida?

É fazer amigos, curtir a natureza…ter a sensação de superação e claro, manter a saúde!

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“Determinação e disciplina valem para tudo”

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

1)  Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Eu comecei a correr aos 14 anos com objetivo de perder peso. Nunca mais parei. A corrida foi realmente o esporte que se encaixou bem ao meu estilo de vida. Sempre mantive certa regularidade com as corridas, mas como o objetivo era só a saúde, não me preocupava muito com a evolução nos treinos. Apenas saía de casa e ia correr, entre 30 minutos e 1 hora.

Em 2007 estreei nas corridas de rua, participando de um octeto na Maratona de Porto Alegre, e então passei a procurar mais informações sobre treinamento. Também passei a participar cada vez mais dos eventos de corrida. Em 2009, resolvi correr minha primeira maratona, no Rio de Janeiro. Foi durante os treinos preparatórios para a maratona que eu encontrei o que eu realmente gostava de fazer: correr longas distâncias. Ainda em 2009, experimentei minha primeira corrida trail, fazendo o trecho do Vale da Ferradura, em Canela, durante a Gramado Adventure Running. A partir de então, comecei a focar em provas de trail run de longa distância.

2)    Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Regularidade eu sempre tive porque sempre gostei de correr. Quando não tenho um objetivo específico, me mantenho correndo sem muito compromisso, como fazia antigamente. E aí, é claro que perco bastante condicionamento. Mas acho saudável tirar o pé do acelerador com os treinos de vez em quando, tanto para o corpo quanto para a cabeça.

A parte do desafio e da superação dos próprios limites é algo que também gosto muito, então procuro sempre ter um objetivo novo para criar um compromisso com os treinos (principalmente os treinos de tiro, que não gosto de fazer). Procuro escolher 3 provas alvo por ano, montando meu planejamento de acordo com elas, e as vezes incluindo uma ou outra prova menor para manter a motivação e o contato com a galera da corrida que não costumo encontrar no dia a dia.

 3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Como não sou casado e nem tenho filhos, não tenho dificuldades em relação a casa/família. Durante a semana gosto de treinar no final do dia, uma vez que já cumpri com todos os meus compromissos. Treinando no final do dia consigo quebrar o ritmo de trabalho e descansar a cabeça. Já no final de semana é o contrário: gosto de fazer os treinos longos no sábado de manhã. Assim, fico livre para aproveitar o almoço em família, podendo comer e beber a vontade. Também posso fazer algum programa a noite sem me preocupar em ter de levantar cedo para fazer o longo no domingo, como a maioria que eu conheço faz.

4) Você foi campeão da TTT há dois anos. Como foi sua preparação para essa prova?

A preparação foi bem tranquila. Muitas pessoas acham que pra fazer uma prova dessas a pessoa tem que abrir mão de muita coisa, compromissos familiares, sociais…e não é bem assim. O volume e a adaptação do corpo é algo que acontece com o tempo, com a experiência, e essa já era a minha 4ª participação individual na TTT.

Para esta edição eu já vinha de um ano forte em função de outras provas, e o foco na TTT foi apenas durante os meses de novembro e dezembro (no início de janeiro já estava baixando o volume). Então o que fiz basicamente foi aumentar o volume semanal, e direcionar os longos para a TTT: fazia os longos na praia, começando em torno das 10h, para me adaptar ao terreno e a possível alta temperatura no dia da prova. Nesta fase, foram 8 treinos longos aumentando o volume progressivamente, e 3 treinos longos baixando o volume, até a prova.

5) Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Acho que determinação e disciplina. E isso vale pra tudo, não só para o esporte. Determinação para estar disposto a fazer o que tem que ser feito. E disciplina para fazer da forma correta.

6) O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

O grande problema para retomar os treinos após uma pausa significativa é que nos frustramos com a perda de performance que esta pausa proporcionou, e isso acaba abalando bastante o emocional durante a retomada, dando uma certa preguiça para trilhar todo o caminho novamente até atingir o condicionamento que perdeu. Mas quem já treinou bastante e está voltando de um tempo parado conhece o caminho que precisa percorrer para atingir seus objetivos. Daí, basta manter o foco novamente. Além da memória muscular do corpo, que facilita a retomada.

Por outro lado, para quem está começando, cada degrau que a pessoa sobe no seu condicionamento físico é uma vitória, uma superação, e acho que a pessoa se motiva mais facilmente. Penso também que o iniciante é mais aberto a aprender as técnicas de corrida e os diferentes treinamentos que o seu professor passa, já que ainda não desenvolveu seus hábitos e manias.

No entanto, pelo que sempre observei, o grande problema com atletas iniciantes é conseguir segurar o seu ímpeto e conscientizá-los de que a evolução deve ser gradual, para que todo o corpo possa se adaptar ao treinamento, evitando o desenvolvimento de lesões. Por este motivo eu creio que para uma pessoa com certa experiência retomar os treinos é mais simples do que para uma pessoa inexperiente iniciar no esporte, pois o primeiro conhece melhor o seu corpo e os seus limites, o que ajuda na evolução dos treinamentos e na prevenção de lesões.

7) Qual o significado da corrida em sua vida?

Correr é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Corro há 15 anos e pretendo continuar correndo a vida inteira, conhecendo novos lugares, me propondo e superando desafios cada vez maiores e mais difíceis. Correr me possibilita descarregar todo desgaste psicológico/emocional do dia a dia. É uma válvula de escape muito potente para mim.

Quando faço treinos longos eu realmente desligo a cabeça. Às vezes, 2 horas se passam durante um treino longo e nem percebo. O corpo faz tudo no automático: olho o relógio, me alimento, cuido onde vou pisar, mas a cabeça fica longe, viajando. Coisa boa que é botar uma mochila com água e comida nas costas e sair pra correr durante horas.

 

 

Pipoca ou bandido?

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pipoca

Quinta-feira, meio-dia. Visualizo um post de Gustavo Maia, de Jundiaí (SP), corredor e organizador de corridas de rua. No texto dele, uma defesa de quem está do lado de trás do balcão. Ele organiza um evento noturno na cidade. E é enfático.

“Reunir tanta gente em torno de um esporte, requer muito trabalho, muita atenção aos detalhes e principalmente, muita calma e paciência. Afinal, como qualquer procedimento que envolve uma venda e um consumidor, não pode haver falhas. Mais: a despeito da relação comercial, é imperativo pensar que a reunião de pessoas em torno de uma prática esportiva pode ser perigoso. Ambulâncias, médicos socorristas, enfermeiros e equipes de apoio devem estar a postos para evitar quaisquer eventualidades, sempre priorizando a segurança dos atletas”.

Parei e pensei. Ele organiza corridas. Está defendendo seu ponto-de-vista. OK. Nada mais natural. Porém, nunca tinha parado para analisar a quantidade de fatores envolvidos numa corrida de rua. E aí, ele elucida de forma extremamente clara.

“Quer um troféu imponente e uma medalha bonita, para ele pendurar na prateleira. E por tudo isso, ele quer pagar bem barato. Quem não quer? Eu também quero. Agora vamos fazer uma conta matemática simples. Tomemos por base o kit desta prova de hoje. Dentro da sacola plástica de 50 centavos, cada corredor leva pra casa uma camiseta de R$ 25,00, um par de meias que custaria cerca de R$20,00, mais uma toalhinha de cerca de R$ 10,00 e um vale sorvete, um vidro de vinagre balsâmico, um vale de sete dias para treinar na principal academia da cidade (1/4 da mensalidade de 129 reais); cerca de R$32,00. Um gel de carboidrato de R$ 5,00. Sem falar que em cada sacolinha ele ainda ganha um numeral de peito personalizado, com um chip de cronometragem que não sai por menos de R$6,00 por dia de aluguel. Só no kit do atleta então, gastamos até agora cerca de cem reais.

Aí, temos que começar a contabilizar a prova em si. Afinal, não é só de kit que se faz uma prova: Seguro de responsabilidade civil. Seguro dos participantes (ambas obrigatoriedades da federação de atletismo). Taxa da Federação, fiscal com moto, aluguel de pórticos, grades, backdrops, pódio, som. Aluguel das ambulâncias, do locutor, dos banheiros químicos, dos cones, das barracas de guarda volume, das tendas médicas, da cronometragem. Transporte de todo o material para a largada e, antes disso, para a entrega de kit. Ainda tem os gastos com a empresa que vende as inscrições, com a agência que produz os logos, com os outdoors que divulgam o evento para a cidade. Os gastos com o vídeo promocional, com os cartazes, filipetas, email marketing. Os custos com as faixas que avisam da interdição da avenida, assim como as placas de desvio do trânsito. Sem contabilizar a hora extra do funcionário do Trânsito (esta, absorvida pelo apoio da Prefeitura) das pessoas envolvidas no preparo deste evento, que passam o feriado trabalhando para que os corredores desfrutem desta engrenagem…”

POLÊMICA FORTE

Gente, como não pensar nisso? Como não questionar?

Resolvi fazer uma enquete. Em menos de 12 horas, mais de 70 comentários no Facebook me deixaram tonta. As opiniões foram deveras divergentes. Minha indagação foi: Você já correu de “pipoca”? Você acha essa atitude correta? Justifique”. Muitas das respostas se resumiam às seguintes frases: “as provas são caras”, “a rua é pública”, “não vou atrapalhar”, “não usufruo da infraestrutura da prova, como hidratação”, “não cruzo o pórtico de chegada e não pega medalha”, “vou só para acompanhar”, entre outras justificativas.

O que será, afinal, que está em questão?

Ao entrevistar treinadores, organizadores de prova e atletas que participam de provas frequentemente, não obtive um veredicto. Os que defendem a participação em eventos sem número acreditam que isso é algo irrelevante, que jamais serão notados ou punidos por tal prática. E, no caso dos treinadores, há uma saia-justa clara: como impedir que seus alunos frequentem a barraca da assessoria, estejam treinando mas não inscritos?

Tauro Bonorino, educador físico de larga experiência, atleta de primeira, dá sua opinião.

“Se fomos considerar que é um evento, destinado a pessoas que se inscreveram pra ele, não é correto. Por outro lado, os altos custos das inscrições contribuem para que os corredores resolvam “correr por fora” ou por dentro mesmo. Também o fato de não podermos impedir o principal direito constitucional (de ir e vir) seja exercido. Claro, o “jeitinho brasileiro” acaba sendo utilizado em alguns casos, quando pessoas que não pagaram, usam de toda a estrutura e ainda pegam a medalha de finisher. Sendo assim, sou da opinião de que o atleta que não se inscreveu tem o direito de correr no percurso, pois a organização não é dona daquele espaço. Também não acho problema ele pegar água, pois não se nega isso nem a um inimigo, pois normalmente chegam a sobrar caixas dela. Porém, não concordo quando o “invasor” atrapalha outros corredores e no final entra na arena para receber medalha”.

Há, porém, os que são totalmente contra a prática. É o caso de Harry Thomas (SP), um dos mais influentes blogueiros do país, fundador da WebRun e criador da RunningNews:

“Compito desde 1994 e NUNCA corri de pipoca. Acho a pratica totalmente errada. E não há nenhuma justificativa convincente para que seja usada de desculpa para os que defendem os “bandits”. Um exemplo claro que ela é ilegal? Na Corrida de São Silvestre, milhões de pessoas assistem pela televisão os batedores de caminho da PM tirarem os pipocas que aparecem ao lado dos líderes”.

Harry se refere aos “bandits”: nos Estados Unidos, qualquer corredor sem número é considerado um pirata. No Brasil, ainda é uma prática corriqueira, defendida por muitos.

Minha posição? Não pulo muro de festa. Não entro em festa na qual não sou convidada. Adoro ter meu número no peito e brigar por ele.

Não sou arroz-de-festa e se quero treinar forte, elejo percursos alternativos e muito mais produtivos. Para mim, treino é tarefa de casa.

Respeito todo corredor que sai de casa cedo para treinar: mas convenhamos, há muitos mais trajetos do que a Beira-Rio, por exemplo, às 7h da manhã dum domingo.

O que vale é correr sempre. Se você é pipoca ou não…detalhe ético/cultural. Enfim.

Sabe o que importa? O amor pelo esporte. Ninguém está cometendo crime algum. Apenas vamos deixar claro nossa real intenção. O espírito da corrida: democrática, apaixonante…e nada xiita.

Conheça Timothy Olson, um dos monstros do ultratrail

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Timothy Olson. Se você gosta de ultramaratonas – e é adepto da filosofia “quanto mais difícil, melhor –, vai gostar de conhecer esse cara. Nascido na pequena cidade de Ashland, no estado norte-americano de Oregon, o atleta é vencedor e recordista de uma das provas de montanha mais tradicionais e casca-grossas do planeta, a Western States 100-Mile Endurance Run, feito realizado em 2012 (ver vídeo aqui), com 14h46min. No momento, ele está disputando uma mais dura ainda: a Hardrock 100, no Colorado, competição para poucos. Diria que o negócio é pra extraterrestre. No total, são 34 mil pés de altimetria acumulada (o que equivale a 10.363 metros). O pico mais alto fica a 14 mil pés (4.260 metros). Dá para acreditar? E ele acredita.

Olson é uma daquelas figuras que gostaria de conhecer. Casado, tem uma bela filhinha, a Tristan, lourinha como ele. Imagino suas histórias. Só as de treino devem dar um livro. Em uma entrevista para a revista Running Times, o cabeludo afirmou, na semana passada, estar animado com a prova. Treinou feito louco desde janeiro, preparando-se para a altitude e as subidas duríssimas. Por semana, acumulava até 40 mil pés nos treinos, que duravam até seis horas diárias.

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Torço para que ele consiga um bom resultado na Hardrock. Ele deve estar lá, alcançando as primeiras 30 milhas (48 quilômetros), que, segundo ele, é quando começa seu expediente. Nas suas palavras: “After the first 30 miles, it’s business time”.

Para quem quiser saber mais sobre Olson, que é atleta da North Face, vale dar uma conferida no blog pessoal dele,  onde ele conta toda sua trajetória e tem fotos de tirar o fôlego. Recomendo.

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Humildade, dedicação e muito suor: conheça Marli Matias

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Pequenina no tamanho, gigante nas conquistas. Conheci de perto essa gaúcha natural da cidade de Pedro Osório em 2013, quando disputei a Maratona Internacional de Punta del Este, no Uruguai. Vi ela me ultrapassar nos últimos cinco quilômetros da prova, quando eu já não suportava mais manter um ritmo duas semanas após ter passado 24 horas correndo numa esteira, na ultra mais insana que já participei. Subi no pódio, em quarto lugar, atrás poucos minutos da veterana – que compete na categoria dos 45 a 49 anos, sendo a atual segunda colocada no ranking brasileiro nesta faixa etária –, mas mesmo assim fiquei feliz demais ao conseguir levar pra casa um reluzente caneco e ainda 100 doletas no bolso.

Vaidosa e adepta do batom vermelho mesmo “socando a bota” nos treinos e maratonas, Marli é atleta há 28 anos. Já foi modelo e chegou a concorrer a Rainha do Carnaval na região onde mora, Pelotas.

- Eu comecei a correr para manter a forma. Um dia, eu estava treinando e encontrei dois atletas, que  me convidaram para participar de uma prova. Já nessa primeira experiência, fiquei em terceiro lugar geral e ganhei meu primeiro troféu. Daí pra frente, comecei a me dedicar mais aos treinos e a competir. Nunca mais parei.

Marli, que contabiliza 14 maratonas e tem oito São Silvestres nas costas (sendo que em 2004 ela ficou no segundo posto na categoria de 43ª na classificação geral, um feito grandioso diante do nível das adversárias), já foi campeã do Circuito da Cidade de Rio Grande e cinco vezes campeã do circuito Cefet, realizado em Pelotas. Atualmente, é patrocinada pela Unimed e pelo Dr. Armando de Abreu.

- Treino de segundo a sexta e priorizo treinos longos, embora faça algumas provas curtas. Meu foco é acima de 15 quilômetros.

Em março, a atleta irá participar pela primeira vez da Supermaratona de Rio Grande, o que para ela está sendo encarado como um desafio, apesar de tanta bagagem e experiência adquirida há quase três décadas. Para ela, o importante é manter o pique com alegria, fé e determinação. A humildade e a paixão pelo que faz, segundo ela, são os segredos de seu sucesso.

- A corrida me trouxe muitas coisas boas: conheci muitas pessoas, países e acima de tudo, os benefícios de conseguir ter saúde para ajudar outras pessoas,  incentivando elas a praticarem uma atividade física. Amo o que eu faço.

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