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Turbine sua corrida treinando a mente

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Treinar-seu-cerebro

Treinadores esportivos das mais diversas modalidades são unânimes em afirmar que a mente de qualquer atleta deve ser preparada tanto quanto o seu corpo. É inegável a importância de estar forte por dentro e por fora para otimizar resultados e evoluir. Mesmo que a metodologia de treinamento físico esteja sendo aprimorada dia após dia, nada terá eficácia se não for trabalhado, em sinergia, os aspectos emocional e intelectual.

Basta observar os atletas que se destacam. Confiança, determinação, resiliência, coragem, paciência, dentre tantas outras qualidades, não surgem do nada. As maiores escolas e clubes mundiais têm hoje, em seu quadro de profissionais, psicólogos encarregados de “turbinar” o cérebro de seus talentos, desde cedo.

Para entender melhor do assunto, fui atrás de recursos para mergulhar à fundo nesse universo de preparação de atletas de alta performance. E descobri, entre tantas técnicas utilizadas, o EMDR. A sigla, que em inglês significa Eye Movement Desensitization, pode ser definida como “Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares” e foi criada por uma estudante de Psicologia, no final da década de 80.

O nome dela? Francine Shapiro. Sua descoberta foi meio por “acaso”. Francine estava caminhando pelo parque da cidade de Los Gatos, na Califórnia. Os pensamentos perturbadores que ela tinha, de repente, começaram a desaparecer. Quando ela voltou a pensar neles, se deu conta que já não incomodavam como antes. Aos poucos, foi percebendo que, quando um pensamento perturbador vinha à mente, seus olhos começavam a se mexer rapidamente. Parecia que os movimentos oculares conseguiam fazer com que o pensamento incômodo “saísse” da sua mente consciente. Quando voltava a pensar naquilo, tinha perdido muito da sua carga negativa.

Então, ela começou a experimentar deliberadamente, pensando sobre coisas do seu passado e presente que lhe incomodavam enquanto ela mexia os olhos. Todas as vezes que fazia isso a perturbação cessava. Decidiu descobrir se isso funcionaria com outras pessoas e, então, fez experiências com seus amigos. Pedia que eles seguissem o movimento dos seus dedos como uma forma de ajudá-los a manter os movimentos oculares enquanto eles estivessem pensando em coisas perturbadoras. Depois de experimentar com mais de 70 pessoas, foi confirmado que o processo tinha dessensibilizado os pensamentos perturbadores.

Francine foi aperfeiçoando a técnica e chamou-a de EMD, Eye Movement Desensitization e, em 1990, expandiu o conceito para EMDR, Eye Movement Desensitization and Reprocessing, para incluir o conceito de processamento e aprendizagem. Estava convencida que os movimentos oculares poderiam processar as lembranças traumáticas, libertando a pessoa para que pudesse ter condutas mais adaptativas e funcionais.

Em 1998, a Dra. Shapiro experimentou seu novo método com 22 voluntários, veteranos da guerra do Vietnã ou vítimas de estupro, ou abuso sexual, e que tinham os sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. A metade do grupo recebeu uma sessão de EMDR, enquanto que ao outro grupo (grupo controle) se pediu apenas que contassem o seu trauma em detalhe. O grupo demonstrou melhorias significativas; o grupo controle, não. Por questões éticas, depois se aplicou também a terapia EMDR com o grupo controle. Ao averiguar um mês depois e aos três meses depois do tratamento, todos os pacientes tinham mantido os resultados positivos da sua sessão de EMDR.

Uma experiência surpreendente

Interessada em aprofundar meus conhecimentos sobre o tema, fui atrás de um profissional que aplicasse tal método. E, há seis meses, virei “cobaia” no consultório de Maury Braga, que – além de psicólogo – é praticante de atletismo. No começo, achei meio estranho ser estimulada através do método, no qual você acompanha os dedos do terapeuta com os olhos e fala o que vêm a mente, elegendo, a cada série de sessões, um tema. Por exemplo: se vai correr uma maratona, é simulado o ambiente de competição, as sensações, as emoções. Em resumo, você antecipa o ambiente de prova e processa mentalmente tudo o que vai enfrentar.

 

Quando fui à Mizuno Uphill Marathon, nesse ano, consegui verificar in loco a eficácia do EMDR. Tinha feito uma maratona seis dias antes e me preparei, durante um bom tempo, para ter confiança para cruzar a linha de chegada. Imaginei o vento cortando meu rosto; a voz de incentivo dos amigos; o som das minhas passadas no asfalto. Simulei a prova “perfeita”. Me fortaleci.

Recursos como esses, ao meu ver, são essenciais para incrementar o treinamento e deveriam ser incluídos na agenda de todo corredor, do amador ao profissional. Temos dias bons, dias ruins, mas quem compete sabe que o dia “D” (da competição) é o momento em que nos definimos como atletas. Nesse momento, mostramos a nós mesmos, primeiramente, do que somos capazes de fazer. Porém, antes disso, precisamos de perseverança e, principalmente, de confiança para chegar lá.

Recomendo que cada um busque esse “treinamento” mental, visando sua meta, seja ela qual for: começar a correr, correr 10k, 21k, 42k ou uma ultramaratona. Não só um atleta, mas todo ser humano, só evolui de verdade se estiver forte por fora – e, principalmente, por dentro.

 

Vídeo: onde você quer chegar?

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Muitas vezes, imagens valem mais do que mil palavras.

Foi essa intenção ao produzir dois vídeos. Um deles eu disponibilizo para vocês especialmente agora, há pouco menos de 35 horas da largada da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre no próximo domingo, 14 de junho, às 7h. O outro ficará para depois da odisseia. ( :

Espero que gostem. Fiquem à vontade para ver uma, duas, três ou 154 vezes. Compartilhem. Guardem para ver nos momentos de vacilo. E também nos de alegria.

Eu já chorei muito vendo isso.

Um abraço e boa preparação.

Pernas, pulmões, mente e coração fortes.

KEEP STRONG!


TTT 2015: porque eu não vou correr em 2016

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Dizem que uma das sabedorias necessárias para qualquer atleta é planejar quais competições irá participar e, mais a longo prazo, qual o momento exato de sair de cena. Para profissionais (o que não é meu caso, e o da maioria), isso é mais difícil e doloroso. Fico imaginando a frustração de ter ido ao auge e, em função de lesões ou desgaste físico e também psicológico, ter que anunciar a aposentadoria.

No final de semana passado, quando corri pela quarta vez a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) na categoria solo (82km pela beira da praia), pensei muito sobre isso. Conquistei um tetracampeonato bonito, sofri, chorei e me diveti para caramba. Porém, quando cheguei em casa e olhei para o troféu feioso de 1° lugar, cinzento e sem graça, me questionei se realmente valeu a pena tanto esforço.

Nessa e em outras competições realizadas no Rio Grande do Sul (e creio que o mesmo ocorre em outras regiões brasileiras), somos tratados como meros coadjuvantes em “festas promocionais” mal organizadas. Pagamos inscrições com valores altos, investimos em equipamentos, em toda infraestrutura para fazer bonito.

Treinamos feito doidos o ano inteiro. Ficamos ansiosos, abrimos mão de uma série de coisas para correr.

E o que ganhamos em troca?

Não estou tirando o mérito de quem cria e realiza tais eventos. Sei que dá trabalho. Mas é um negócio: e um negócio cada vez mais lucrativo. Hoje a corrida é o segundo esporte mais praticado do País. Do Oiapoque ao Chuí, milhares de corredores de todas as idades e classes sociais invadem as ruas com seus tênis coloridos e gastam uma babilônia de grana para alimentar esse “vício” do bem.

Mas a meu ver – e me corrijam se estiver errada -, nos contentamos com migalhas. No caso dum evento como a TTT, que reuniu mais de 2 mil corredores (que desembolsaram, cada um, 130 paus), as falhas ficaram evidentes e decepcionaram muita gente. Falando com colegas que correram a prova, foram apontadas uma série de problemas.

Eu percebi erros graves nos pontos de hidratação (como estava na dianteira, notei que o staff não conseguiu sequer oferecer água gelada em vários pontos, sobretudo após o meio-dia, após a plataforma de Atlântida), algo essencial e básico para todo ultramaratonista. O kit da prova, mais uma vez, decepcionou muita gente. E a premiação, então…sem comentários.

Após correr 82km em 7h44min, batendo o recorde da prova, ganhei um troféu igual a todos os demais (nada criativo e muito feio, no formato da bandeira do Rio Grande do Sul. Mais brochante, impossível). A impressão que tive é que foi feito sem um tesão. Muito, mas muito aquém da dimensão dada pelo público ao evento.

O que ganhei de premiação? Um boné.

Quando digo isso a leigos, que nada entendem de corrida, o espanto é geral. “Mas como pode? Não pode ser! Correr 82km e ganhar um boné! Como tu ainda vai nisso?”, me perguntaram ontem.

Eu não soube responder.

Será que o que vimos no último final semana no litoral não vale para uma reflexão?

O quanto estão valorizando quem se dedica tanto a esse esporte? Onde está o profissionalismo, a consideração com os atletas? Será que merecemos comer pão seco com queijo, quando merecemos (e pagamos para ter) um rango que tenha o sabor da superação, gostoso como um croissant quentinho?

É por essa e outras que, em 2016, decidi não correr mais essa competição e todas as demais que, ao meu ver, não primam pelo profissionalismo e deixam a desejar em vários aspectos.

Quer ver como funciona? Vá para qualquer evento esportivo na Europa e Estados Unidos ou, mais perto ainda, na Argentina.

Somos os principais personagens. E exigir qualidade não é ofensa ou crime. É nosso direito.

Espero que tenhamos uma evolução nos próximos anos, pois do jeito que as coisas andam, dá mais vontade de investir essa grana preta das inscrições em um bom vinho – pelo menos, o retorno é garantido.

 

 

 

TTT 2015: preparando a mente

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Quem acha que é preciso apenas pernas e pulmões fortes para encarar uma corrida na areia – sobretudo se essa corrida durar mais de quatro horas, caso da maioria que disputará a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) no próximo dia 31 -, está muito, mas muito enganado. Minha convicção é de que os treinos são fundamentais, tanto físicos quanto mentais. E é dessa segunda parte (o condicionamento psicológico) do qual tratarei dessa vez.

Apesar de já ser “macaca-véia” no esporte, fui atrás de um corredor pra lá de gente-fina para discorrer a respeito do tema. Rafael Homem de Carvalho, psicólogo e consultor de empresas familiares, é um baita exemplo para muita gente: perdeu 42 quilos com a corrida e hoje, aos 40 anos, é um desses magrelos loucos fissurados por um dos esportes mais antigos da humanidade.

Pedi para ele escrever um texto, que reproduzo abaixo e creio que vem muito a calhar nesse momento de concentração pré-prova – e também para tantos outros momentos da vida.

Se quiserem saber mais sobre esse psicólogo-amigo-corredor, vale conferir o blog Vida Mais Saudável, que ele inaugurou há pouco para dividir suas ideias hiperbacanas.

Espero que gostem! Eu curti pacas! ( :

Quando os fantasmas se divertem

Rafa empolgadão na chegada da Mountain Do

Rafa empolgadão na chegada da Mountain Do

 

Ainda que de forma um tanto empírica, à medida em que passei a me dedicar mais aos treinos e provas de corrida, passei a procurar conciliar e aproximar os aspectos físicos e orgânicos de alguns fatores psicológicos. Diria que comecei a prestar mais atenção nas influências positivas e negativas da cabeça em relação ao corpo.

Ressalto que não sou especialista nem trabalho com psicologia do esporte, mas apesar disso, nos últimos dois anos tenho tido descobertas interessantes nas – aqui vem um primeiro aprendizado – “conversas”e “negociações” mente e corpo. E são muitas conversas que envolvem uma série de negociações.

Destacarei duas delas, sendo que a primeira foi quando treinava e me preparava para a maratona de Porto Alegre neste ano de 2014. A rotina e o volume de treinos para uma maratona são estressantes em dado momento e se tornam cansativos. Ainda mais para amadores como eu. E em um desses treinos comecei a ter uma perda de rendimento considerável. Notem que não se tratava de algo novo e diferente que fazia naquele momento. Pelo contrário. Já havia realizado em semanas anteriores treino semelhante e com nível de exigência mais forte. Terminei completamente exaurido e com uma sensação muito ruim de quase ter voltado pra estaca zero. Fui então examinar o que poderia ter havido. Me dei conta que durante quase todo o tempo em que fazia a série de tiros na pista, não conseguia deixar de pensar em um problema pessoal que teria que resolver no dia seguinte. Mas o interessante é que durante o treino, o tal problema ia e vinha, mas não me deixava. Me assombrando mesmo. E não fui capaz de perceber que o a ser feito não era tentar ignorar ou esquecer, mas encará-lo de outra forma.

O aprendizado aqui teve um custo, o do desgaste, mas serviu para que eu me preparasse para situações semelhantes que certamente surgiriam não só em treinos, como na própria maratona. Mas a diferença que eles, esses fantasmas já não me assombrariam mais como da primeira vez.

A segunda situação foi mais recente, quando com o término da temporada, direcionei o foco para os treinos para a TTT.

Dezembro é o mês que estamos envolvidos com uma série de eventos sociais e familiares, conclusões e início de novas etapas e ciclos, promessas com novos compromissos assumidos e retrospectivas. E foi justamente numa dessas que veio o segundo aprendizado.

Foi um treino de ritmo, onde para cada distância determinada um ritmo de velocidade pré determinado deveria ser feito. De novo, nada diferente ou acima do que já estava acostumado a fazer.

Lá pelas tantas, Gasômetro vai, Gasômetro vem, começo a perder ritmo. Mas perder feio. Surgem primeiras hipóteses de checagem: Estou bem hidratado? Sim.; Alimentado e suplementado? Ok.; Quente, úmido, vento contra ou a favor? Nada anormal. E a vontade de parar e ir embora só aumentava.

O que aconteceu? De forma não proposital, ao natural, comecei a relembrar de alguns fatos do meu ano. Uma breve retrospectiva. Especialmente das provas em que corri naquele percurso onde estava treinando. Mas assim como vieram uma série de lembranças agradáveis e bacanas, outras nem tanto também estavam nesse pacote. E se encarregaram de passar a assombrar o meu treino. O cansaço e o desgaste potencializam a presença destes pensamentos desagradáveis, sem dúvida alguma.

Os treinos para a TTT tendem a se intensificar passadas as festas de fim de ano. Não só treinos mas o foco na prova, a preocupação em ter um bom rendimento independente do nível, ainda mais que a grande maioria assume compromisso mútuo com parceiros e parceiras de equipe.

Focar numa prova como esta significa, além dos cuidados e preparação com o físico, estar com a mente tranquila. Tenho me policiado para não abrir espaço para que os fantasmas que habitam as nossas mentes festejem e se divirtam em cima dos nossos medos, angústias, preocupações e problemas. Afinal, humanos todos somos. E eles estão lá no aguardo de oportunidades para assumirem o comando.

A ideia é outra: que nos momentos dos treinos e das provas se esteja inteiro. Que se assuma o comando do início ao fim sem dar margem para outra coisa que não seja concluir e bem o que se planejou. Isto nos tornará e deixará com que fiquemos cada vez mais fortes e por consequência, com cada vez menos espaço para fantasmas e assombrações.

 

Maratona de Punta: a vitória do vento

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Vai, pangaré, sente esse ventinho nas palhetas

Vai, pangaré, sente esse ventinho nas palhetas

 

Nunca, mas nunca mesmo, trilhar os 42mil, 195 metros de uma maratona é missão de Zé Pequeno. Tudo bem que há um certo exagero, em considerar ser um feito sobrehumano (porque creio que é possível, sim, para qualquer mortal completar a distância), mas tem vezes que você se considera um cidadão privilegiado em cruzar a linha de chegada.

Foi assim no último domingo, quando coloquei na conta mais uma prova nada fácil, a Maratona Internacional de Punta del Este. Há quem vá para o país vizinho esperando melzinho na chupeta. Balneário burguês, onde nove entre dez frequentadores se gabam de frequentá-lo no verão, quando uma Coca-Cola custa quase 10 contos, Punta está incluída no rol daquelas maratonas que são verdadeiras “pegadinhas”. Ano passado, menos de um mês após uma ultramaratona de 24 horas na esteira, cheguei lá toda esgualepada. Não tinha cinco unhas nos pés e consegui um quarto lugar sofrido, mirrado, com 3h16min. O tempo alto foi engolido com naturalidade, afinal, nem esperava conseguir completar a competição naquele estadinho lamentável.

Neste ano, me preparei devidamente, fiz os longões, treinos de pista, de ritmo. Esperava sim, completar, e completar bem abaixo da edição anterior. Mas a realidade foi bem outra.

Na largada, tudo parecia uma maravilha. Consegui administrar um pace abaixo dos 4min30segundos frouxo, até mais ou menos metade da prova, fechando a primeira perna com pouco mais de 1h30min. Porém, depois disso, a coisa degringolou. Há uma certa alimetria, mas o que mais tira o fôlego é o vento, que dá as caras em boa parte da prova. Até os 33km, é administrável. Após, uma briga de foice. A força para manter a passada se torna crescente. Na reta final, não sei a quantos nós estava aquela josca. Só sei que pra kite surfe tava uma maravilha.

Não é por nada que a Maratona de Punta não é procurada por quem quer fazer tempo ou índices de estampar no mural. O evento uruguaio é feito para quem come bastante parilla e doce de leite, não para quem vive no déficit calórico de pratinhos frugais repletos de alface postados no Instagram. É batalha pra forçudos. Feito a personalidade e porte forte e enérgico dos uruguaios e argentinos.

Conquistei o primeiro lugar com folga, 16 minutos acima da segunda colocada (com 3h12min, e tendo que voltar para cortar a fita, pois as meninas que estavam no pórtico mosquearam e não me viram chegar), mas minha dor nas pernas sinalizam a necessidade duma musculação redobrada antes de enfrentá-la outra vez. Não vou lamentar nada, apenas comemorar, mas deixar bem claro para quem perguntar: não, não venci em Punta. Quem deu um vareio foi ele, o vento.

 

 

 

 

Corrida, esse esporte solitário

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De tantas frases que ouvi, uma das que mais impactaram foi: “nascemos e morremos sozinhos”. É, desde então (e não sei quando), uma das minhas favoritas, ao lado de “caixão não tem gaveta”. Embora seja um tanto melancólica e pessimista, ao longo da vida vamos percebendo que, embora tenhamos companhia da família, dos amigos e de outros artifícios – como as redes virtuais, que nos dão a falsa ilusão de aconchego psicológico -, a realidade é nua e crua, há milênios: se você não luta para acordar todo dia, ficar em pé e matar um leão a cada jornada, ninguém irá fazer isso por você.

Na corrida, é exatamente assim. Embora tenhamos hoje centenas de parafernálias tecnológicas, tênis de última geração, profissionais altamente capacitados, informação a bangu e toda miscelânea esportiva, jamais evoluiremos e ganharemos o famoso “lugar ao sol” sem acreditar nos nossos objetivos e nos empenhar como loucos para subir cada degrauzinho. Como esporte genuinamente individual, a corrida tem essa característica pulsante, de só recompensar quem treina com afinco. E nos esportes coletivos, não deixa de ser parecido: por mais que tenhamos treinadores, gritos da torcida e um time lutando a favor, na hora do vamos ver, quem decide a partida é a somatória de cada esforço individual, trabalhando por um resultado comum.

Essa reflexão pode parecer óbvia, mas me faz pensar sobre um montão de coisas: o que somos, se não uma união perfeita de esforços? Fazer a nossa parte, seja na rua, no bairro, na cidade, é o que faz a diferença. De nada adianta querermos mudar o mundo e o percurso da história se não firmarmos os alicerces de forma consistente. É muito fácil reclamar que nada deu certo, mas assumir a responsabilidade que temos nos erros é essencial para acertarmos.

A cada dia, percebo mais – e com certa tristeza – o quanto as pessoas estão somente preocupadas com seus umbigos e não percebem que o mais belo da vida não está no carro que dirigem, nem na roupa de grife, nem no emprego que tanto preservam. Não está no abdômen sarado, nem na bunda dura. Está na relação humana, nos momentos que vivenciamos e compartilhamos.

Na corrida (e mais uma vez, é por isso que amo tanto ela), há essa característica de auxílio-mútuo de forma intensa, sobretudo quando disputamos uma prova: mesmo em silêncio, corremos quilômetros e quilômetros ao lado de desconhecidos, mas na linha de chegada, é comum nos abraçarmos, com a sensação de conquista. Sabemos que aquele olhar forte, aquelas palavras de incentivo ditas no momento certo, fizeram toda diferença. Nos ajudamos pelo simples prazer de fazer o bem.

É um esporte solitário? É. Mas ao mesmo tempo, tão coletivo.

Como a vida.

 

 

Maratona de Porto Alegre 2014: palco para reflexões

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Christiano Cardoso/SportsMag

Christiano Cardoso/SportsMag

 

Poucas coisas são tão intensas e ao mesmo tempo doloridas quanto correr uma maratona. Os 42,1 quilômetros que separam a linha de largada do pórtico de chegada são capazes de transformar bárbaros em frágeis crianças e fortes mulheres em donzelas desamparadas. Como alguns bem definem, “é quando os bebês choram e as mães não ouvem”. No domingo passado, quando ocorreu a 31ª edição da Maratona Internacional de Porto Alegre, percebi mais uma vez o quanto a tarefa de completar esse tipo de prova é dura e extenuante, porém magnífica e viciante. Mesmo que você não consiga alcançar seu objetivo plenamente – o meu caso, pois não foi dessa vez que veio o sub-3h -, mesmo que ninguém aplauda você, mesmo que você termine com vontade de desmaiar de dor e cansaço.

Um amigo perguntou, nessa semana, o que passava na minha cabeça durante uma maratona. Talvez essa seja a dúvida mais recorrente de quem não pratica o esporte. “E dá para pensar em algo?”, indagou. Prontamente, eu respondi: “ô, se dá. Dá para pensar na vida toda. É um filme que passa na cachola, todos os sentimentos se misturam. Uma loucura. E como eu amo isso”. Em 2014, talvez tenha sido a edição que mais refleti durante o percurso. Estava sem conseguir treinar direito por questões profissionais, não muito empolgada. Mas com a clareza de que deveria comparecer, tentar fazer um tempo decente e parar de reclamar ou de achar desculpas. Seja o que Deus quiser, até porque ele SEMPRE quer.

Acordei cedo, depois de uma noite bem dormida. Tomei café e fui cedinho para o front de batalha – 5h30, ainda no escuro, eu já tomava um chimarrão embaixo das barracas montadas no Jockey Club. Como a largada feminina era às 6h45, não demorou para eu estar ao lado de outras 12 corredoras da elite, sendo duas quenianas e feras como as atletas profissionais Marily dos Santos e Conceição Oliveira. Fiquei ali na minha, sabendo que teria muito chão pela frente e quebrar não estava nos meus planos.

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Frio na barriga. O dia que eu não sentir mais isso, deixo de competir. Mesmo sabendo que a gente tem potencial, que treinou direitinho, que se alimentou adequadamente, que abdicou de muitas coisas para estar ali. Imagino que essa “cosquinha” no estômago é justamente por termos a consciência de que a corrida não é uma ciência exata. A famosa sorte deve dar as caras, mas quem depende apenas dela são os fracos. Quem encara uma maratona, por excelência, é um forte. Pode errar e vacilar em diversos aspectos da vida, porém ao enfrentar mais de 42 quilômetros sem desistir o torna um vencedor.

Larguei num ritmo forte, fui bem até o quilômetro 25, mantendo o pace de 4’30” pra baixo. Depois dei uma desandada, senti muito a lombar. Comecei a achar terrível aquele monte de voltinhas, subidas, afff! Me tirem daqui! O meu apoio, Ariel de Deus, foi de bike me incentivando, mas nada parecia divertido. Se as pernas não acompanhavam minha vontade de ir mais rápido, minha mente fazia o papel. Viajei muito. Fui longe. Aqueles quilômetros finais foram de uma batalha das brabas. Me animei apenas nos três mil metros derradeiros, quando “larguei pras cobras” e pensei: “pra que economizar se eu vou sofrer igual?”.

No domingo, quando cruzei a linha de chegada, pela primeira vez não lamentei tempo abaixo do esperado. Não fiquei me martirizando por não ter conseguido colocar meu nome na lista das “extraterrestres” que conseguem fazer uma maratona abaixo de 3 horas (vamos combinar que esse é um sonho masculino). Fiz em 3h07min, o que para uma mulher, mãe, profissional e dona-de-casa está de excelente tamanho. Subi no pódio, ergui o troféu, bem felizona, sorri até dizer chega e passei o resto do dia leve como um passarinho. Certamente, não foi meu melhor dia em termos de desempenho, mas foi um BAITA dia. Daqueles que você olha pra cima e agradece por estar vivo.

E aproveitando o ensejo…dizem que o papa é argentino e Deus é brasileiro, certo? Pois tô achando que, nas horas vagas, o cara lá de cima é maratonista. E dos bons.

 

 

 

 

O sonho dos 42 quilômetros

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Para aqueles que começaram a correr há algum tempo e se apaixonaram pelo esporte – caso da esmagadora maioria –, a pergunta sempre é a mesma: como fazer para evoluir nas distâncias e, quem sabe um dia, estar pronto para correr os sonhados 42,1 quilômetros da maratona? Há quem diga que não, jamais terá esse desejo. Porém, quantos morderam a língua e, pouco tempo depois, já se aventuraram nos 21 quilômetros e, naturalmente, passaram para o dobro do percurso, investindo (e muito) em treino e disciplina.

Aquele famoso ditado“nunca diga nunca”é facilmente aplicável quando falamos em corrida. Lembro bem de quando comecei, ainda na década de 90. Minha primeira rústica (que na época compreendia 10 quilômetros) na Maratona Internacional de Porto Alegre foi completada com muita alegria. Fiquei em 10º lugar e achei o máximo. Corri outras do estilo, sempre obtendo boas colocações. E percebi, logo adiante, que aqueles 45 minutos não eram suficientes. Procurei baixar meu tempo. Depois, aumentar os trajetos nos treinos, depois nas provas. Descobri o valor dos “longões” (treinos de duração maior, cujo foco é aumentar a resistência do atleta). Mas o sonho de cruzar a linha de chegada de uma competição nos moldes olímpicos surgia frequentemente na mente. A tal coceira que nunca passa.Adivinha? Só sosseguei quando meus

pés pisaram no tapete do pórtico final e a cobiçada medalha de finisher estava em minhas mãos.

Falando com treinadores especializados, a posição é unânime: ninguém consegue completar uma maratona num tempo razoável (abaixo de quatro horas) sem querer muito. Esse desejo não deve ser meia boca.Vai exigir seu tempo? Vai.Vai doer? Sem dúvida. A história de que há quem nasceu para ser maratonista até existe, mas é raríssima. Os quenianos que o digam – e, mesmo assim, eles treinam pra caramba. Todos os dias.

Jane Fonda estava bem certa quando proferiu a frase “no pain, no gain”. Sem esforço, os ganhos são nulos ou, se vierem, não serão valorizados. Talvez por isso a corrida seja tão apaixonante: por dar a certeza de que seu esforço, no final das contas, terá valido a pena. Não só ao conquistar medalhas e pódios, mas por conhecer tanta gente legal, viver intensamente tantos momentos e perceber que cada gota de suor derramado foi essencial.

Naquela lista de conselhos das coisas que todos deveriam fazer antes de morrer – escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore –, eu acrescentaria, sem sombras de dúvidas, “correr uma maratona”. Experimente.

A arte de construir – e destruir – castelos

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Um dia olhava meu filho na praia, construindo um castelo. Pediu ajuda. Eu fui lá, balde e pá na mão. Ficamos naquela brincadeira por um bom tempo. Fizemos janelas, portas, incluindo até um “mirante” com um palito de picolé e calabouço repleto de crocodilos que nhac!, arrancariam a cabeça de qualquer intruso que se atravesse a invadir aquela propriedade tão valiosa.

Feita a obra, Francisco levanta. Mira bem no meio do pomposo castelo, que levou horas pra ficar pronto. Prepara, se concentra, e…dá um chutão no meio. A estrutura fica abalada, mas não chega a cair. Ele pula em cima. Gargalhando, finaliza o brinquedo temporário sem dó. Xingar? Nem pensar. Não falei nada, apenas o peguei pela mão e fui correndo em direção ao mar, onde tiramos o efeito croquete num refrescante mergulho.

Fiquei pensando a respeito daquilo, no dia. No ato de construir um castelo, para destruí-lo logo depois. Talvez esse ato infantil possa resumir tanta coisa que fazemos nas nossas vidas – e seja o mais importante no desenrolar de toda brincadeira. Nos empenhamos, trabalhamos, estudamos, cativamos amores, amizades, relações. Duma hora pra outra, um fato ou acidente incontrolável dá fim a uma situação, nos deixando ou excitados, ou atônitos, ou tristes, ou muito alegres. Da forma que for, o fim de um ciclo nos obriga a reiniciar outro, e esse processo de mudança é constante ao longo da vida. E, acredito, é desta forma que evoluímos: aprendendo a lidar com novos desafios. Aprendendo, desde crianças, que outro castelo tão ou mais belo pode ser construído ali na frente. Basta vontade, dedicação e, claro, uma boa dose de suor.

Escrevo toda essa história para falar sobre as mudanças de rumo. Das guinadas que a vida dá. No meu caso, estou vivendo isso na pele: no início desse ano, muitas dessas bruscas reviravoltas surgiram na minha frente. Os dois primeiros meses foram de revolução. Creio que muitos do que estão lendo esse texto já passaram por isso: as referências se apagarem, as certezas sumirem. E fazer do limão uma limonada? Ah, aí é que está o segredo!

Como nada, absolutamente nada nessa vida é por acaso, aproveitei para repensar muitas coisas, sendo que uma delas, minha relação futura com a corrida. Essa, que acredito ser eterna, vai ter muito mais planejamento daqui pra frente. Quero seguir treinando forte, mas resolvi me preservar mais. Correr poucas e boas. Conseguir bons resultados sempre – e nem que esse “resultado” seja uma experiência maravilhosa, e não um lugar privilegiado no pódio.

Desejo, cada vez mais, que a corrida me propicie apenas coisas legais. Minha intenção, não só como atleta amadora – mas como alguém que adora ouvir e transmitir histórias –, é seguir inspirando tanta gente que confessa me ver como um exemplo nesse esporte. Mostrar o quanto ele é rico em valores. Em como resume a essência da vida: saber ganhar, saber perder. Vibrar e chorar de alegria com vitórias, aprender com as derrotas.

Esse “castelo” chamado corrida é um daqueles difíceis de derrubar. Nem um chute certeiro de um bom artilheiro faz ele desmoronar. Ao construí-lo e aprimorá-lo, dia a dia, treino após treino, tenho plena certeza de que ele não é feito de areia. Não sei de qual material é esculpido, mas que é forte e resistente como o aço, belo e fascinante como o diamante… ah…isso é.