Mente de corredor

Parar para seguir em frente

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Caso eu tivesse que escolher uma frase clichê de uma música tanto quanto, que se confirma em toda sua integridade, essa frase seria: “a vida vem em ondas, como um mar, num indo e vindo infinito”. Assim como há momentos maravilhosos, de êxtase, que você está lá em cima, há outros de profunda tristeza, repletos sofrimento e minados de dificuldades. Claro que nossa mente é sacana pra caramba e só quer nos levar para o lado do prazer e da cobiçada “felicidade”, embora minha convicção é que o que existem são apenas momentos felizes. Não querendo ser pessimista, mas quem não está pronto para enfrentar, a qualquer momento, lomba acima e vento contra e aprende a descascar os abacaxis gigantes que pintam pela frente vai sofrer bem mais – e em dobro.

A corrida – essa metáfora perfeita da vida, com a qual aprendemos a conviver com a dor e com o alívio, com a frustração e com a conquista de forma constante e intensa – apaixona tanto, talvez, justamente por oferecer a garantia de que, se nos esforçarmos, conseguiremos, na grande maioria das vezes, triunfar. O que não ocorre, infelizmente, nos relacionamentos, no trabalho e em todas as relações e situações que não dependam apenas da gente.

Questionar o quanto estamos doando de nossa capacidade física e mental e quais resultados estamos obtendo com isso é um exercício que deve ser feito com frequência. Após um fase de treinos e competições duras, costumo dar uma parada para refletir sobre o quanto está valendo a pena. Como uma revisão de um automóvel, precisamos, sim, daquela triagem nas engrenagens, da troca de óleo. De um carinho com o cérebro, mente e carcaça que costumamos exigir tanto sempre, incansavelmente. Se as máquinas precisam, por que ficaríamos de fora?

Acredito que dar um “tempo” é fundamental para seguirmos em frente com mais força e convicção. Traçar novos objetivos, reciclar pensamentos, redefinir valores. Cansou de asfalto? Vá para as montanhas. Chateado de correr sozinho? Procure amigos, um grupo de corrida. Tá achando que correr 10 quilômetros ficou pouco? Tente novas distâncias.

Parar para seguir em frente, apesar de tão simples, é uma sábia atitude. Se não for por livre e espontânea vontade, o destino fará isso acontecer de qualquer forma. Que vire, pois então, um constante exercício de nossa rotina – como corredores mas, sobretudo, como seres humanos.

A felicidade mora longe, mas o longe é logo ali

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“O que eu quero para 2014? Ser feliz”, falou de bate-pronto a entrevistada, num desses programas dedicados ao público feminino, exibidos todas manhãs na TV. Fiquei pensando em como o tal de “ser feliz” virou um chavão, facilmente disseminado e aplaudido.

Afinal, o que é a felicidade? Se você pedir essa definição para a pessoa mais próxima de você, há grandes chances de ser bem diferente do que é para o garçom do restaurante, para o milionário que passa férias em Miami e para o adolescente de 16 anos que anda de skate na frente da sua casa.

Nunca esqueço duma excelente reportagem, muito bem feita, por sinal, e publicada em 2005 na Revista Superinteressante, cujo tema de capa era justamente esse: o que é ser feliz? No início do texto, surge a definição mais perfeita: “ Felicidade é uma cenoura pendurada numa vara de pescar amarrada no nosso corpo. Às vezes, com muito esforço, conseguimos dar uma mordidinha. Mas a cenoura continua lá adiante, apetitosa, nos empurrando para a frente. Felicidade é um truque.”

Esse tema certamente rende muito, e tem tudo a ver com esse final de ano, quando todos acabam fazendo um balanço e reflexão sobre o que passou, sobre o que foi feito, o que deixou de ser feito – e como, no frigir dos ovos, toda essa função colaborou para tornar o 2013 um “ano feliz”. Note que sempre desejamos um “Feliz Ano-Novo”, porque a felicidade é, na escala humana, o topo da pirâmide: é nessa palavrinha mágica que estão intrínsecos todos nossos sonhos e aspirações (de bens materiais a sucesso profissional, amoroso, e aí em diante).

No Facebook, está rolando uma brincadeira a respeito da felicidade. A frase prega que “dinheiro não compra felicidade, mas compra tênis de corrida, o que é a mesma coisa”. Na minha avaliação, como não existe felicidade, e sim momentos felizes, concordo com quem inventou a filosofia barata.

Quantas pessoas vi, ao longo de todos esses anos, mudarem totalmente de estilo de vida correndo? Gente que descobriu uma nova visão de vida, que curou doenças, que fez amizades incríveis e duradouras. Esse esporte tem uma ligação muito íntima com a realização de uma série de projetos pessoais. Não raro, ele é o catalisador de modificações drásticas.

Como o assunto principal aqui no meu blog é corrida, busquei a ajuda de um amigo, que além de ser psicólogo, corre há cinco anos para servir de exemplo de como é preciso agir para ir em busca daquilo que acreditamos – e não deixar nossos planos apenas no mundo das ideias. Rafael Homem de Carvalho me enviou o texto, que reproduzo abaixo, e que fala sobre as motivações para seguir correndo em busca de nossos sonhos. Ele mesmo saiu da inércia e realizou um: perdeu 40 quilos nos últimos cinco anos. Passou dos 110 para os 68 quilos e agora, em 2014, correrá a primeira maratona.

Fica aqui a mensagem dele para o nosso final de ano.

Desejo a todos um excelente recomeço e muitos quilômetros bem rodados em 2014! Que muitos sonhos se realizem e que vivamos com muito amor e com menos dor, com mais compreensão, carinho e, em primeiro lugar, saúde para dar e vender.

Lembre-se: a felicidade mora longe – às vezes é preciso rodar centenas de quilômetros para alcançá-la. Mas pra todo corredor que se preze, essa coisa de longe não existe. É logo ali.

Um forte abraço,

Dani

 

Correr da vida e correr pela vida

Rafael Homem de Carvalho

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“Uma boa parte do ano de 2013, que agora se encerra, foi ligado a treinos, planilhas, paces, provas, etc. Independente do nível de desempenho, todos buscamos fazer e dar o melhor. Ou seja, corremos, suamos e como.

Tantas foram as razões para e porque corremos que talvez não caibam aqui. Mas há uma que considero muito especial e quem sabe seja interessante de se refletir a respeito. O que de fato motivou e impulsionou para que não deixássemos de correr? O que esteve por trás dessa disposição em muitos ou alguns de nós, onde mesmo naqueles dias e semanas bem difíceis ao longo deste ano, poucas foram as vezes que deixamos de calçar os tênis e irmos pra rua? Mesmo com as adversidades e dificuldades de conciliar tempo para família, com compromissos do trabalho, de clima e temperatura, não deixamos de correr.

Um desafio e tanto o de administrar e lidar com todas dificuldades que a vida impõe e ainda assim não deixar de lado o que nos satisfaz, a corrida. Ela, a vida, sempre irá nos apresentar desafios, dificuldades, algumas até quase insuperáveis, mas a diferença vai estar entre corrermos ao encontro destes desafios e não para longe deles. Esta é a diferença:  a capacidade de cada um entre correr da vida ou correr pela vida”.

Onde o coração leva quem o ouve

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Acordei hoje com a boa repercussão da minha coluna no caderno Vida do jornal Zero Hora, que é publicada a cada mês. Nela, falei um pouquinho sobre meu sentimento e sensações pós-viagem.

Reproduzo aqui, para quem deseja ler:

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Onde o coração leva quem o ouve

De tudo o que podemos fazer com nossas próprias pernas e alguns pilas no bolso, não tenho dúvida em afirmar, com convicção, de que viajar é a melhor das experiências. Voltei na semana passada do Japão, quando visitei a frenética cidade de Tóquio e a bela Kyoto.

Durante 16 dias, sem trégua, peregrinei pelas imensas avenidas e ruelas misteriosas da megalópole japonesa, entrei em contato direto e inédito com uma cultura milenar e me surpreendi a cada momento.

Não tenho palavras para descrever tudo o que vi, com todos os detalhes e nuances jamais revelados em qualquer filme ou documentário sobre o país. Na companhia do meu marido, saímos a todo momento da rota turística e nos perdíamos de propósito, muitas vezes sem rumo, descobrindo que não saber para onde ir pode ser uma boa estratégia para desvendar uma nova rota, um novo horizonte, deparar com uma cidade pulsante e, ao mesmo tempo, pacata. Na minha visão, o mais bacana de uma viagem é conhecer a forma de vida dos habitantes, como eles se movimentam, se vestem, onde fazem as refeições, como vão trabalhar. Nada de guia enlatado: o lado “B” sempre é o mais interessante.

A cada viagem que faço, seja para fazer puro turismo ou correr uma maratona, confirmo a tese de que para crer, é preciso ver. E isso não deve ser feito de táxi ou de carro: andar a pé, caminhando ou correndo, é a melhor forma de sentirmos a pulsação de um lugar, sentir o vento bater no rosto, ouvir o barulho dos pés em contato com o solo. Se esse local for provido de natureza generosa, melhor ainda. Se você gosta de correr, experimente disputar provas fora da sua cidade. Comece naquelas mais próximas e economize seu rico dinheirinho para testar maratonas internacionais. Para 2014, o calendário promete: dezenas de opções no Brasil e no exterior são um prato cheio para aliar turismo e esporte. Aliás, essa é uma tendência fortíssima: nos últimos cinco anos, mais do que duplicou a quantidade de atletas amadores dispostos a desbravar circuitos em outros Estados e países. Os depoimentos são sensacionais.

É emocionante saber que um amigo bateu um recorde em terra desconhecida, que experimentou novas sensações, conheceu paisagens indescritíveis e cruzou a linha de chegada com lágrimas escorrendo.

Se viajar é bacana caminhando, imagine correndo. Se você ainda não pensou na hipótese, procure se informar. Às vezes, o investimento vale muito mais a pena do que trocar o modelo do carro ou comprar um sofá novo para a sala. No final das contas, sai barato, porque essa experiência, ao contrário de coisas materiais, ninguém vai tirar de você.

Como falou um amigo: “você ouviu seu coração, e olha para onde ele te levou”. Penso que devemos ouvir mais o que bate do lado esquerdo do peito. No final das contas, é ele quem manda nisso tudo, não é mesmo?

Fazendo o desânimo comer poeira

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Sabe aqueles dias que você acorda sem vontade de treinar? Quando o ânimo não dá as caras e o desejo mais latente é de se atirar na cama e dormir até o outro dia? Sim, isso também ocorre com quem treina há muitos anos. Mesmo aquela pessoa mais obstinada e focada, do iniciante ao atleta de elite. Não há quem não passe por dias de marasmo, cinzentos e morrinhentos.

Hoje foi um desses dias. Amanheci com um humor de cão (embora ache essa expressão inadequada, já que os cachorros estão sempre faceiros e serelepes). Levei meu filho na aula de futebol no Grêmio Náutico União. Sentei na espreguiçadeira e fiquei lá, atolada. Vi alguns corredores dando voltinhas na pista do clube e pensei: “bah, que saco”.

Almocei, fui descansar. Fiz algumas tarefas domésticas, trabalhei um pouco no computador e pensei no treino que deveria fazer na tarde da quinta-feira. Seriam 15 quilômetros de ritmo, na rua, finalizando com algumas subidas, já que estou dando ênfase às lombas há pouco mais de um mês da Mizuno Uphill, prova na qual fui selecionada para correr na íngreme Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Pilha para fazer esse treino? Zero. Absolutamente zero. Há tempos, não sentia tanto cansaço, mas um cansaço mental, muito mais do que físico. Tentei encontrar os motivos. Alguns deles eu consegui esmiuçar, porém, mesmo assim, nada do tesão de correr vir à tona.

Lembrei do termo “runner’s blues”, citado pelo maratonista Haruki Murakami na excelente obra Do Que Eu Falo Quando Falo em Corrida (quem ainda não o leu, recomendo): um sentimento de vazio, letargia que envolve muitos corredores, sobretudo aqueles que já rodaram milhares de quilômetros, e não veem mais sentido naquilo que estão fazendo.

Ao mesmo tempo, lembrei do meu mantra “me entregar? Jamais!”. Calcei meus tênis, botei uma mochila nas costas e fui para a academia. Não seria o treino programado, mas seria um treino. Entrei na Porto do Corpo meio borocoxô, conversei com uns amigos. Subi as escadas e liguei a esteira. Comecei devagarinho, num pace “geriátrico” (10 km/h, ou 6min/km) e esperei ele vir.

Como em poucas vezes, o ânimo quis me pregar uma peça. Tentou fugir, dobrar a esquina, falar que não iria se apresentar na tarde desta quinta-feira. Mas eu fui mais esperta. Quando vi que eu poderia pegá-lo, dei um gás e concluí 13km em 1h de corrida. Tudo bem, foi sem altimetria, foi indoor. Mas foi.

Mais uma vez, confirmo uma convicção: nunca, mas nunca mesmo, desista de um treino. Depois que você manda o desânimo embora, sacode a poeira e calça um tênis, já era. Não há chances para arrependimentos.