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TTT 2017: quando tudo dá certo

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Um dia após enfrentar pela quinta vez uma das provas mais cobiçadas do Sul do Brasil, a TTT – Travessia Torres-Tramandaí, resumo meu sentimento e impressões. Não tenho dose de narcisismo suficiente para focar apenas na conquista do meu pentacampeonato e recorde feminino da competição – pulverizado com 7h21min em 2017, 24 minutos abaixo do tempo anterior, que eu mesma cravei em 2015 (7h45min). Quero, mais do que enaltecer esse fato, explicar porque voto para que essa edição entre no rol das candidatas a predileta entre as 13 já realizadas na orla gaúcha. Os motivos são inúmeros.

Primeiro, marcou meu retorno à competição que mora no meu coração desde sempre. Em 2016, fiquei de fora, após tecer uma série de críticas logo após o tetracampeonato, em 2015. O texto, que você lê aqui, fala sobre o desprestígio aos atletas que se inscrevem para competir de verdade, e não apenas para confraternizar – embora seja esse o DNA da TTT, já que se trata de um evento focado no revezamento em equipes. Fiquei de fora, fui tratar da minha vida pessoal e profissional, e digo que o saldo foi extramente positivo. Afinal, dar um look geral e sentir o panorama de fora é válido – até para avaliar a importância do meu papel e de tantos outros fatores envolvidos – que incluem o tesão em participar novamente da prova.

Quem leu o texto com atenção percebe que coloco críticas bastante contundentes e que têm, em suma, a intenção de alertar os organizadores para uma melhoria na sua infra-estrutura. Felizmente, creio que as colocações colaboraram, de certa forma, para a correção das falhas, como kits mais elaborados, hidratação adequada, enfim. Escrevo português claro e para bom entendedores, não precisa desenhar.

Então. A notícia boa é que muitas dessas falhas foram corrigidas. Hidratação estava ótima. Água gelada, equipes envolvidas na distribuição (sobretudo os amigos da Girardi, Inspire, DaniVist, entre outros da Serra Gaúcha (que estão de parabéns pela iniciativa, idealizada pelo Clube de Corredores de Caxias), que mobilizaram equipes para ajudar da logística de hidratação e suporte durante o percurso). A premiação foi pontual. Os troféus ganharam um incremento. E acho muito bom premiar apenas os 5 primeiros na Geral, para agilizar e elevar o nível das categorias etárias. Enfim, o saldo foi muito positivo.

Agora, vamos a 2017: aaaah, que prova magnífica! Gente do Céu, que dia de gala! A ressaca que veio na quinta-feira, marcando os dias anteriores, deu uma tremidinha nas bases. O mar subiu, o vento estava Sul (que sopra em direção contrária a quem vem de Torres em direção a Tramandaí). Porém, Netuno, Iemanjá e todos os demais orixás, santos e previsões meteorológicas resolveram colaborar com a Nação Corredora. O céu estava aberto, mas na medida – com algumas nuvens nas primeiras horas da manhã, o que amenizou em grande parte a sensação de calor do verão gaúcho, bastante cruel nessa época do ano.

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O amigo Fernando Falavigna Vianna clicou essa linda foto no amanhecer

O solo estava uma pista de corrida. Areia firme, compacta. Enfim, um cenário ideal, daqueles raros, tecido sob encomenda para estraçalhar recordes. E foi o que se viu. O “monstro” Rodrigo Cardoso bateu o feito de Tiago Mello (falecido em 2016, nem acredito…) em 9 minutos. Logo após ele, chegou o queridão Niumar Velho e o fera Alexandre Mello. Todos com tempos fantásticos, impensáveis em dias de maré alta e areia fofa – sim, já enfrentei dias em que você chama a mamãe e ela não vem nunca!

Agora, vamos ao que interessa de verdade: fora os recordes, os tempos, os troféus, toda essa parafernália: o que mais impressionou foi o calor humano. A TTT 2017 bateu recorde em termos de prestígio, alegria e fraternidade na beira da praia. Nunca vi tanta gente aplaudir, vibrar, berrar o nome dos atletas – independente de seu preparo físico ou categoria. O povo realmente entrou no clima. Os quase 3 mil atletas inscritos deram uma lição de humanidade e solidariedade. Ajudei várias pessoas e fui ajudada – já que meu apoio teve que abandonar a areia lá no quilômetro 50, após estourar o pneu da bike.

Nos últimos dois quilômetros, fui empurrada por uma multidão que berrava meu nome. Sei lá donde. Mas vi até o Salva-Vidas pular da Guarita e esbravejar, de punho cerrado: “Vai lá, Guerreira!”. Tchê, me arrepio só de escrever.

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de "parceria de fé"

Kadinho e Joana, uma dupla que resume o conceito de “parceria de fé”

Fiz, como sempre, amizades incríveis: o figura Vanderlei “Chumbinho” Zanotto, de Veranópolis, estreou em grande estilo na categoria ultra com menos de 7 horas (6h58min). Correu do meu lado mais de 25 quilômetros e me deixou embasbacada com sua simplicidade e humanidade. Vi meu parceirão Ricardo “Kadinho” Cruz de Oliveira concretizar o sonho da primeira TTT com lágrima nos olhos, abraçado na parceirona Joana Ott, que acordou às 3h da matina pra fazer apoio pro doido (imagina só! e ainda me fez um telefonema desejando boa sorte…).

Em suma: estou até agora extasiada com o turbilhão de emoções dessa 13ª TTT. Quero parabenizar, mais uma vez, todos que torceram, vibraram e colaboraram para tornar o litoral norte gaúcho um palco de recordes nesse final de semana. Cada vez mais, tenho certeza de que essa é a melhor celebração que existe. É democrática, ao ar livre, sem máscaras, amarras ou filtros. Não tem frescura, artimanhas ou anestesia. É a vida como ela é.

Linda, intensa e verdadeira.

Até a próxima!

Com carinho,

Dani

* terei que replicar a máxima dum amigo hiperbrincalhão que lançou a célebre frase: “Todo mundo tenta. Mas só a Dani é Peeeenta!”. ((((

* deixo aqui meu muito obrigado a todos que torceram, vibraram e berraram meu nome durante o percurso e me parabenizaram presencial e virtualmente. Sem palavras!

* gratidão pela confiança e apoio dos meus patrocinadores, a Skechers Performance – que desenvolve guidis maravilhosos como o GoRide5, tênis que usei em todas as conquistas da TTT. Vocês estão cada vez melhores! – e a NewMillen Suplementos, que fornece toda a minha suplementação. Afinal, não é só de aguinha e banana que se enfrenta uma monstruosidade dessas! O PowerDrink, o IronGel e o 4:1, todos da linha IronMan, foram meus companheiros em muitos treinos e ao longo das mais de 7 horas de prova nesse sábado. Novamente, reitero a importância do aporte calórico numa ultra, o X da questão!

 

 

 

 

 

 

Desafio Samurai: a vida como ela é

Publicado por | Por Aí, Sem categoria | Nenhum Comentário

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Escrever sobre a minha quarta participação na Mizuno Uphill Marathon – prova que ocorre desde 2013 na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina – é uma tarefa árdua. São tantas emoções que nem Robertão Carlos seria capaz de descrever na suas centenas de letras. E dessa vez, tentarei explicar o que é encarar duas vezes a imponente estrada considerada “a mais linda do mundo”, vide eleição virtual realizada recentemente.

SERRA

Para quem não sabe, esse ano escolhi encarar o Desafio Samurai – ao todo, 67 km -, divididos em insanos 25km matutinos (de Lauro Müller a Bom Jardim da Serra) e 42km vespertinos/noturnos (de Treviso ao topo de Bom Jardim novamente). Duas “pernas” recheadas de subidas intermináveis. Poucos ousam subir (e descer) de veículos motorizados. Porque, meu fio, você enxerga a bunda da caranga no retrovisor. De moto, cansa. Imagine a pé. Enfrentando um clima nada previsível, numa região onde são registradas as temperaturas mínimas do País.

Participo desse evento desde a sua origem. Compareci religiosamente em todos os anos. Havia subido até ontem antes da 7h da manhã, 126km nas três edições – 42km em cada, ficando em 5º lugar em 2013, 3º lugar em 2014 e 2º lugar em 2015. E ontem acordei às 7h disposta a acumular mais essa porrada de quilômetros num só dia. Me sentia bem, havia treinado bastante, dentro das possibilidades – já que, lembrando, não sou atleta profissional e encaixo a planilha numa rotina de casa-filho-família/coordenação de academia e grupo de corrida/faculdade de Educação Física.  Pois então. Sem chorumelas. Estava prontíssima!

Aprendizado número 1: parcimônia

Larguei nos 25km controlando muito. Ficava olhando no GPS para jamais puxar demais o ritmo, com a certeza de que pagaria o preço depois. E fui segurando. A intenção era fazer abaixo de 2h15min a primeira “perna”, que fiz com perfeição. Encerrei em terceiro lugar geral feminino, numa corrida consistente e no controle, algo complicado para meu perfil, que ama “sentar a bota”. Acabei orgulhosa da minha capacidade de concentração, o que me deixou inteira para enfrentar a maratona que viria a seguir.

Descansei, encontrei amigos no ginásio de Treviso e me alinhei às 3h da tarde para a segunda largada. Pernas muito inteiras, pulmão idem – apesar de ter enfrentado quase que apenas subidas na primeira parte. E fui. Confiante. Só que a matemática não é tão simples quando falamos em ultramaratona. Comecei a subir muito bem e senti, lá pelo quilômetro 8, falta de água. Para quem estava largando sem o peso dos 25km nas costas, talvez esse detalhe não tenha sido determinante. Porém, para atletas acostumados a hidratar com regularidade como eu (o que acho imprescindível), o bolo começou a desandar nesse ponto, ainda no início.

Desidratei. O tempo abafado pesou a ponto de perder rendimento drasticamente. E o efeito dominó pegou: náuseas. Não entrava suplementação. Glicemia baixando. Pressão despencando. Cansaço extremo. Pernas não respondendo. E se tem algo que sei é conhecer meu organismo. Quando lá pelo quilômetro 20 da maratona “preteou os óios da gateada” (a visão ficou turva), vi que algo deveria ser feito. E a melhor atitude seria subir a serra de carro.

Parei num posto de hidratação. Dezenas de pessoas me ajudaram. Falavam palavras de incentivo. Queriam me levar junto. E eu, já apática, dizia que não dava. Comi, tomei Coca-Cola, glicose. E fui até o quilômetro 38. Talvez desse para terminar (não no tempo limite de 6h30min do Desafio Samurai). Porém, decidi que não valia a pena. Pressenti algo ruim. Não sei explicar. Ninguém sabe. Mas resumo assim: em respeito a mim, em primeiro lugar. Em respeito a minha família, em segundo lugar. E em terceiro, a todos que já me viram chegar e não reconheceriam ver cruzar o pórtico uma Daniela destruída e sem forças para vibrar ao cortar a desejada fita.

Saldo positivo: ao todo, percorri 60km. E hoje, escrevendo esse texto, parece que corri um “21km pegadinho na Beira-Rio”. ( ;

Há uma diferença brutal entre superação e burrice. Desculpem os fãs dos “atletas-que-chegam-vomitando”.

Brilho eterno de uma mente com lembranças

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Pela primeira vez, larguei uma prova. Após 20 anos correndo. E digo: fiz o certo. Hoje estou inteira, pronta para enfrentar um calendário bem bacana de ultras pros próximos seis meses (ficarão sabendo logo!). Tento sempre fazer do limão uma limonada e pensar de que nada é por acaso. Hoje, tenho o orgulho de dizer que jamais deixei alguém me ver passar mal numa prova – o que ao meu ver, depõe contra esse esporte tão lindo -, e que minha tentativa de passar um exemplo bonito e saudável tem dado bons frutos.

Minha frustração? Sei lidar com ela. Isso é fácil. O que não saberia é lidar com uma lesão ou sequela do desgaste excessivo. Entre três mulheres que puderam ter índice para encarar o Desafio Samurai, apenas a “alienígena” Letícia Saltori, da Equipiazza de Curitiba, conseguiu no tempo regulamentar de 6h30min para cumprir as duas pernas. Eloiza Testolin Rodrigues, da Inspire Assessoria Esportiva de Caxias do Sul (tchó!) conclui os 67km acima do tempo, mas está de parabéns pelo empenho e dedicação às corridas. Ambas moram no meu coração e são atletas exemplares, além de pessoas maravilhosas. Dessas coisas que só a corrida nos dão. <3

Agradeço a todos que me ajudaram nos dois percursos, tentaram me empurrar, levar de carrinho de mão, de guincho, mas amigos…tem dias que não dá! Hauhahaha! Prometo retribuir essa energia maravilhosa.

À equipe da Mizuno e da X3M, parabéns por mais um evento fantástico. É por isso que deixo minha família, meu trabalho em Porto Alegre e encaro a gincana. Para encontrar esse bando de “louco dentro das roupa!”. E como a trupe do Bernardo Fonseca e do Bruno Onezio pregam: “é muito mais fácil segurar um louco do que empurrar um bobo”. ( ;

Parabéns a todos atletas que encararam essa pedreira, seja nos 25km, nos 42km ou nos 67km. É pra poucos. E o que eu senti nesse final de semana não pode ser explicado num só texto. Somos uma “tribo” de loucos, sim, mas loucos pela vida. Essa gente que gosta de sentir o sangue correr na veia dessa maneira pode ser um objeto de estudo na NASA. Mas é essa adrenalina que nos move.

No frigir dos ovos (e eu amo omelete!), fica a sensação de que tudo é um aprendizado e, mais uma vez, confirmo que a corrida é a mais perfeita metáfora da vida.

A beleza da vida está nisso: na humildade de reconhecer nossos erros e acertos.

Estamos aqui hoje porque muita coisa deu certo – mas muitas coisas deram errado.

Já pensou nisso?

Um forte abraço e até a próxima!

 

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Pré-TTT 2016: pra vencer a guerra

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Pouquinho mais de uma semana pra largada de uma das provas mais aguardadas do Sul do País, a Travessia Torres-Tramandaí (TTT), já vejo gente nervosa. Não há como negar, e pouco importa se você é iniciante ou corredor mais calejado. Sempre rola aquela ansiedade e “friozinho na barriga” – o que acho maravilhoso. Afinal, quando perdemos esse brilho no olho, é porque tem algo errado!

Dessa vez, estarei curtindo apenas como torcedora, do lado de fora, na beira da praia. Participei das seis últimas edições. Venci uma vez em dupla mista, mais quatro vezes na categoria solo. Decidi, após erguer o troféu em 2015, que daria um tempo. Já expliquei os motivos anteriormente. A vontade de encarar a ultra novamente se foi, mas a de incentivar os atletas que ainda acham a competição sensacional – ou que irão estrear nesse ano – segue forte como nunca.

Então lá vamos! Deixarei de lado os aspectos de treinamento físico dessa vez, até porque, se você não treinou até essa altura do campeonato…só lamento! Minha colaboração será para aqueles que curtem um incentivo psicológico, uma palavra de conforto e que acreditam, assim como eu, no poder da mente para a conquista dos objetivos.

A arte da guerra

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Contarei com a ajuda de um amigo psicólogo, já experiente nessa prova, com quem costumo trocar ideias a respeito desse tema com frequência. O Rafael (Homem de Carvalho) cita algo que considero extremamente importante. Ele preparou um artigo, batizado de “TTT termina na hora da largada”. Pode parecer confuso, mas é facilmente explicável:

“Ao ler alguns conceitos do livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, caiu a ficha sobre a relação de um deles com nossa realidade. Tzu fala que ‘a guerra é vencida antes mesmo do início da batalha, na escolha da estratégia’. Em outras palavras, o autor diz que os vitoriosos seriam aqueles que teriam planos de guerra melhores elaborados do que seus adversários. A guerra, em si, seria apenas o momento da execução deste ou daquele plano. E quanto mais fiel esta execução ao seu plano, maiores a chance de êxito”.

Não faz todo sentido? E ele segue, relembrando experiências passadas:

“Depois de algumas TTTs feitas, procuro já não alimentar expectativas além das minhas reais condições, do planejamento como um todo. Mas tenho que confessar que, volta e meia, ainda vem um tal de pensamento mágico que conseguirei resultados melhores. De que na hora H vai vir uma força extra – e eu sigo no aguardo dela –, aquela que vai me fazer tornar o melhor dos melhores, um verdadeiro campeão! Porém, bem rapidinho, volto a realidade, apesar de acreditar que pensamentos desse tipo podem ajudar como um estímulo a mais, um gás extra. No final, vejo que se torna inviável permanecer nesse plano mágico, desconectado do mundo real. Na corrida, as realidades são verdadeiras, muito duras às vezes, mas puramente honestas, sinceras e individuais”.

Concordo em gênero, número e grau. Não espere por resultados bombásticos sem ter treinado para tal feito. Suba os degraus com segurança e parcimônia. Valentia em excesso pode ser um sinal de burrice e imaturidade. Quando falo que, na corrida não tem cesárea – aqui, o parto é normal, com dor e paciência -, procuro alertar aos que buscam atalhos. É natural desejarmos nos destacar em meio à multidão, triunfar, ser como nossos ídolos. Só que ninguém chega lá de forma artificial e dura por muito tempo. E é justamente por isso que o esporte é tão apaixonante: a seleção é natural. Pura, crua – e muitas vezes cruel.

Controlando as variáveis

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Traçada a estratégia – que é algo bem pessoal, e por isso mesmo não comentarei sobre a minha ou de qualquer outra pessoa -, é hora de pensar sobre as múltiplas variáveis. E se chover? E se ventar forte? E se meu tênis incomodar? E se tiver um sol de rachar? Claro que queremos sempre tudo 100% lindo e sob controle. Porém, numa prova como essa, realizada na areia, no verão (quando o tempo “vira” a todo momento), imaginar um cenário perfeito é muita pretensão. Rafael dá a barbada:

“Executar a estratégia planejada não é das tarefas mais fáceis, já que a TTT inclui uma série de variáveis externas – temperatura, areia dura, areia solta, com buraco sem buraco, vento contra ou a favor, logística, etc. – só para citar algumas, bem possível que ao longo do dia toda a estratégia planejada antecipadamente tenha que ser revista. Ainda assim, aprendi não abrir mão de contar com um plano real, executável. Mesmo que tenha que sofrer ajustes de última hora”.

Essa flexibilidade de mudar a estratégia de última hora, novamente, ao meu ver, é algo que vamos aprendendo ao longo do tempo. “Macaco véio” de prova sabe o que fazer quando pinta um imprevisto. Desistir, definitivamente, não é opção válida para os mais fortes – embora seja uma hipótese válida para os casos que colocam suas vidas em risco.

E você? Já tem sua estratégia em mente?

Para a TTT ou qualquer outra competição, seja na corrida ou em demais aspectos de nossas vidas, contar apenas com a sorte não costuma ser uma boa ideia.

Por isso, sempre desejo aos amigos, ao invés de “boa sorte” antes da buzina da largada, um singelo “boa prova”. É apenas o que precisamos pra vencer a “guerra” com um sorrisão no rosto e, claro, aquele gostinho de quero mais.

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Histórias de uma pré-maratona

Publicado por | Sem categoria | 2 Comentários

Domingo sempre é dia sagrado para corredores em todo canto do Brasil, já que a maior parte das provas e treinos são realizadas ao longo dele. Ironicamente, esse dia, considerado de “descanso” na maior parte do mundo, é quando acordamos cedo, muitas vezes antes do sol nascer, e partimos para uma missão muitas vezes solitária. Quando tem festa – dia de prova, como no próximo, quando é realizada a 32ªedição da Maratona Internacional de Porto Alegre - , então, a situação fica ainda mais especial.

Chega a ser engraçado acompanhar a quantidade de pessoas que se envolvem a fundo, escrevendo sobre seu preparo, falando sobre o quanto estão tensos com a estreia numa nova distância, sobretudo nos 42km. O desconhecido ali na frente amedronta e fascina. Para os mais calejados, é tempo de relembrar suas melhores marcas, os perrengues que passaram, buscar imagens de feitos anteriores e passar a experiência para os novatos.

Como acho que o melhor conselho é não dar conselho, fiquei quietinha e deixei que cada um fizesse sua lição de casa. Não sou treinadora, muito menos nutricionista. O que tenho é uma bagagem de duas décadas nesse esporte, e longe de ser uma autoridade no assunto, sinto que a cada treino, a cada prova, devo aprender mais e mais. Os treinadores e suas planilhas de treino foram criadas para isso. Nada de empirismo.

O que eu mais curto, no final das contas, é saber que há muita história a ser contada. Como a do colega de competições Rafael Homem de Carvalho, sujeito que encontro há vários anos pelas “roubadas” dessa vida de atleta.

Pai de dois filhos, Rafael é psicólogo e treina duro. Ele resumiu de forma bastante sensível sua experiência de maratonista, que reproduzo a seguir.

Espero que gostem.

Para os que irão correr domingo, uma excelente prova. No final, tudo terá valido a pena.

 

Passos que não voltam mais

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Umas das experiências que vivi bem significativa com meus dois filhos foi quando começaram a engatinhar. Via e sentia ali em ambos um desejo e uma força quase descomunal de alcançarem e preencherem novos espaços. A impressão que eu tinha é que quanto mais adquiriam confiança, segurança e firmeza no movimento, alcançar ou conquistar novos ambientes se tornava algo um tanto desafiador. Era apenas o início de uma bela e grande jornada.

As primeiras tentativas de ficarem em pé e dos primeiros passos para alcançar o até então inalcançável eram conquistas vitoriosas. O andar pelo chão já não atendia mais as necessidades e não bastava mais. O esforço dispendido por ambos era algo incrível, pois parecia encontrarem uma força maior, capaz de superar os inúmeros tombos, tropeçadas e outras dificuldades e obstáculos que se dispunham a enfrentar em nome dessa jornada da vida.

Mas chegou o dia em que os passos se tornaram firmes, decididos e determinados. O ir pra lá e pra cá se tornou algo definitivamente conquistado. O senso de confiança e de segurança foi plenamente alcançado. O tempo de saída e de chegada para ir de um ponto ao outro diminuiu e muito. A sincronia entre o comando dado pelo desejo de ir e vir aliada a pernas e braços atingiu uma sintonia quase perfeita.

Hoje eles brincam de correr. Se divertem ao apostar corrida um com o outro. Também brincam de começar caminhando bem devagar até que de forma progressiva, correm o máximo que podem.

Os movimentos e passos iniciais que foram dados ao iniciarem essa jornada, hoje já fazem parte do passado de cada um deles. Pois cresceram e seguirão em busca de cada vez mais novas conquistas e objetivos maiores. Ou seja, passos que não voltarão mais.

No próximo domingo, milhares de pessoas enfrentarão um outro tipo de jornada: a maratona de Porto Alegre. Independente dos objetivos e das razões que as farão estarem lá, passos dos mais variados – firmes, rápidos, lentos, decididos, determinados … –  cruzarão boa parte da cidade, desde o momento da largada até o pórtico de chegada, a fim de que se complete os 42.195 metros.

Ninguém dos que estarão lá tem a capacidade de saber e de antecipar o que está por vir. Talvez esteja aí uma pista do porque correr uma maratona. Somos seres curiosos por natureza. Nenhum desses milhares de corredores podem prever de que forma e com o que irão lidar e se deparar ao longo do percurso. O que se sabe é que seremos tomados por um misto de  sentimentos de parar e avançar, sensações de dor e de prazer, de momentos de dificuldades, de tensão e de leveza, entre outros que fazem parte dessa jornada, em maior ou menor grau.

Acima de tudo, que se possa viver essa jornada. De se estar lá de corpo e alma, entregue a um momento único e que é capaz de nos transformar em pessoas mais confiantes, fortes e vitoriosas. E felizes.

Daqui a um certo tempo já ficará difícil lembrar de cada detalhe ou de como superamos cada centímetro, metro ou quilômetro desta maratona. Pois outras virão. Todos os passos dados ficarão sim para trás e não se repetirão mais da mesma forma. Farão parte desta história e não de outra.

Assim como os meus filhos que seguem nesta jornada da vida, que a 32a maratona de Porto Alegre possa proporcionar acima de tudo, novos ensinamentos e  aprendizados que ainda desconhecemos. E principalmente de nos permitirmos a sermos invadidos pelo turbilhão de emoções que só quem cruzará a linha de chegada terá a oportunidade de viver isso intensamente.

 

 

TTT 2015: porque eu não vou correr em 2016

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Dizem que uma das sabedorias necessárias para qualquer atleta é planejar quais competições irá participar e, mais a longo prazo, qual o momento exato de sair de cena. Para profissionais (o que não é meu caso, e o da maioria), isso é mais difícil e doloroso. Fico imaginando a frustração de ter ido ao auge e, em função de lesões ou desgaste físico e também psicológico, ter que anunciar a aposentadoria.

No final de semana passado, quando corri pela quarta vez a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) na categoria solo (82km pela beira da praia), pensei muito sobre isso. Conquistei um tetracampeonato bonito, sofri, chorei e me diveti para caramba. Porém, quando cheguei em casa e olhei para o troféu feioso de 1° lugar, cinzento e sem graça, me questionei se realmente valeu a pena tanto esforço.

Nessa e em outras competições realizadas no Rio Grande do Sul (e creio que o mesmo ocorre em outras regiões brasileiras), somos tratados como meros coadjuvantes em “festas promocionais” mal organizadas. Pagamos inscrições com valores altos, investimos em equipamentos, em toda infraestrutura para fazer bonito.

Treinamos feito doidos o ano inteiro. Ficamos ansiosos, abrimos mão de uma série de coisas para correr.

E o que ganhamos em troca?

Não estou tirando o mérito de quem cria e realiza tais eventos. Sei que dá trabalho. Mas é um negócio: e um negócio cada vez mais lucrativo. Hoje a corrida é o segundo esporte mais praticado do País. Do Oiapoque ao Chuí, milhares de corredores de todas as idades e classes sociais invadem as ruas com seus tênis coloridos e gastam uma babilônia de grana para alimentar esse “vício” do bem.

Mas a meu ver – e me corrijam se estiver errada -, nos contentamos com migalhas. No caso dum evento como a TTT, que reuniu mais de 2 mil corredores (que desembolsaram, cada um, 130 paus), as falhas ficaram evidentes e decepcionaram muita gente. Falando com colegas que correram a prova, foram apontadas uma série de problemas.

Eu percebi erros graves nos pontos de hidratação (como estava na dianteira, notei que o staff não conseguiu sequer oferecer água gelada em vários pontos, sobretudo após o meio-dia, após a plataforma de Atlântida), algo essencial e básico para todo ultramaratonista. O kit da prova, mais uma vez, decepcionou muita gente. E a premiação, então…sem comentários.

Após correr 82km em 7h44min, batendo o recorde da prova, ganhei um troféu igual a todos os demais (nada criativo e muito feio, no formato da bandeira do Rio Grande do Sul. Mais brochante, impossível). A impressão que tive é que foi feito sem um tesão. Muito, mas muito aquém da dimensão dada pelo público ao evento.

O que ganhei de premiação? Um boné.

Quando digo isso a leigos, que nada entendem de corrida, o espanto é geral. “Mas como pode? Não pode ser! Correr 82km e ganhar um boné! Como tu ainda vai nisso?”, me perguntaram ontem.

Eu não soube responder.

Será que o que vimos no último final semana no litoral não vale para uma reflexão?

O quanto estão valorizando quem se dedica tanto a esse esporte? Onde está o profissionalismo, a consideração com os atletas? Será que merecemos comer pão seco com queijo, quando merecemos (e pagamos para ter) um rango que tenha o sabor da superação, gostoso como um croissant quentinho?

É por essa e outras que, em 2016, decidi não correr mais essa competição e todas as demais que, ao meu ver, não primam pelo profissionalismo e deixam a desejar em vários aspectos.

Quer ver como funciona? Vá para qualquer evento esportivo na Europa e Estados Unidos ou, mais perto ainda, na Argentina.

Somos os principais personagens. E exigir qualidade não é ofensa ou crime. É nosso direito.

Espero que tenhamos uma evolução nos próximos anos, pois do jeito que as coisas andam, dá mais vontade de investir essa grana preta das inscrições em um bom vinho – pelo menos, o retorno é garantido.

 

 

 

Previsão TTT 2015: melhor, impossível

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Em 2011, tempo foi favorável a quem correu a travessia. Cenário deve se repetir

Em 2011, tempo foi favorável para quem correu a travessia. Cenário deve se repetir

Um amanhecer nublado e fresquinho – com temperatura em torno dos 19 graus -, vento ameno soprando e um mar bastante calmo (o que, a princípio, garante o terreno arenoso firme e seco). Ao longo do dia, leve aumento de temperatura (com sensação térmica abaixo dos 30 graus Celsius, chegando no máximo a 28 graus), predomínio do sol, com poucas nuvens, e aquela leve brisa nas costas refrescando. Melhor estraga.

Embora seja uma ciência não lá muito exata, a Meteorologia e seus recursos de previsão desenham um cenário perfeito para os corredores no próximo sábado, dia 31 de janeiro, quando quase 2 mil corredores enfrentarão a 11ª edição da Travessia Torres-Tramandaí (TTT), que ocorre no sábado no Rio Grande do Sul, entre os dois balneários. Ao todo, são 81,2 quilômetros, disputados nas categorias solo, duplas, quartetos e octetos.

Pesquisei em uma série de sites especializados – incluindo MetSul, WindGuru, The Weather Channel e SurfGuru e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) – e o prognóstico é o mesmo.

Agora, o negócio é o torcer para que a previsão seja confirmada e tenhamos uma das TTTs mais competitivas de todos os anos: afinal, quando o tempo é bom, é bom para todo mundo.

Imagina se desse daqueles temporais...

Imagina se desse um daqueles temporais tipo “Independece Day”…

Nos dois últimos anos, quem enfrentou as areias litorâneas fofas, com muito vento contra (Sul) e mar revolto (que forma uma série de córregos ao longo do trajeto e deixam os pés constantemente empapuçados), terá um alento, enfim.

O bacana será ver a beira da praia lotada de “veranistas-torcedores”, criando um cenário bastante animador.

Como é final de semana de Planeta Atlântida (festival de música que atrai bem mais gente do que nos finais de semana comuns), a dica é prestar MUITA atenção quando passarem próximo à praia de Capão da Canoa, sobretudo com crianças que surgem do “nada” e não tem a mínima noção do que seja essa manada numerada correndo feito louca na beira da praia.

Vale lembrar que quem está “invadindo” o espaço de convivência somos nós; sendo assim, nada de ficar revoltadinho com quem está fazendo o “normal”, que é curtir a beira da praia empinando caipirinhas e enchendo o pandulho de milho verde e violinha frita.

O negócio é descontrair e aproveitar para abanar para aquela sua vizinha (ou seu vizinho, enfim) que acha o máximo que você corre.

"Aaaaah! Lá vem eeeeeleeeee!"

“Aaaaah! Lá vem eeeeeleeeee!”

No mais, uma boa prova a todos.

Vâmo que vâmo!

Um grande abraço e até Imbé (Imbeverly Hills), minha segunda casa, onde certamente iremos dar muitas risadas e comemorar juntos.

Até a chegada – com certeza!!!

"Nóis capota, mas não breca!"

“Nóis capota, mas não breca!”

Maratona…é sempre maratona

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Pra quem decidiu na terça-feira anterior à prova correr, tá de lamber os beiços

Pra quem decidiu na terça-feira anterior à prova correr, tá de lamber os beiços

 

“Maratona é sempre maratona. Sempre são 42 quilômetros. Não tem fácil”. A sentença me veio à cabeça imediatamente após percorrer os 42.195 metros da Maratona Caixa Rio Grande do Sul, que ocorreu no sábado à noite na orla do Guaíba, em Porto Alegre. Não importa quantas pessoas estejam correndo com você; se há chances ou não de pegar pódio; se você treinou direitinho e está num dia excelente. A distância sempre será a mesma, e o sofrimento – mesmo para os mais experientes – é certo, sobretudo na segunda metade da prova.

Claro que existem fatores agravantes ou atenuantes, como o clima, altimetria e pressão psicológica. Falando com atletas supercalejados, daqueles que já correram mais de 40 maratonas, sempre ouvi a mesma frase: cada prova é uma prova. E nenhum deles, desses cascas-grossas, chegou ao ponto de falar que “foi uma barbada”.

Para um cidadão comum, imaginar correr 15 minutos sem parar já é um baita feito. Daí eu entendo a cara de espanto quando falamos que demoramos três, quatro, ou cinco horas para finalizar o percurso olímpico. Sim, é um feito grandioso. Não existe maratonista de longa data que não saiba conviver com a dor de forma madura. Porque os aventureiros desistem na primeira tentativa. É o famoso “fogo de palha”. Tem que ser muito cascudo, cabeça-dura e persistente para aprender a aguentar o tranco.

No sábado à noite, quando larguei na Maratona Caixa – minha quarta maratona do ano, com a Maratona Internacional de Porto Alegre, a de Punta del Este e a Mizuno Uphill -, não sabia se terminaria em boas condições, já que os treinos para a ultramaratona Travessia Torres-Tramandaí (TTT) me fizeram diminuir bastante o ritmo.

O que eu vi foi incrível: um corpo bem adaptado ao sofrimento, pelo volume dos treinos e do lastro de provas incessante de 2014, e uma mente serena, que eu julgo ser o mais importante.

Cruzei a linha de chegada forte e contente, liderando a prova de ponta a ponta, e vibrando com a conquista pessoal, mas também com a de tantas pessoas que fizeram pela primeira vez uma maratona. A alegria e o sorriso dessa vitória – que não pode ser medida em troféus, medalhas, pódios ou outras parafernálias – é único.

Por mais que digam que é insanidade, defenderei e incentivarei sempre um corredor a correr a dita distância. Antes de fazer uma, você nunca saberá.

Como prega o “Locomotiva Humana” Emil Zapoteck, “se você quiser correr, corra uma milha. Se você quiser mudar de vida, corra uma maratona”.

 

A primeira vez de Caynã

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Surly, o esquilinho do filme que desbrava a cidade grande como o gauchinho do Morro da Cruz

Surly, o esquilinho do filme que desbrava a cidade grande como o gauchinho do Morro da Cruz

No início da tarde de ontem, com meu filho Francisco amolado por uma maldita infecção na garganta e sem poder ir ao colégio – quem é mãe sabe bem o quanto qualquer dorzinha parte nosso coração no meio -, decidi ir ao cinema com o pitoco. Escolhi o único filme infantil em cartaz em toda Grande Porto Alegre, com classificação livre, cujo título foi abrasileirado para O Que Será de Nozes? (no original, veio como The Nut Job). Enfim, sessão da tarde total.

O que me importava era tirar o guri de casa e levá-lo para arejar a cuca com a mamãe, já que a fruta não cai longe do pé e a “superatividade” é, sim, algo que se passa de geração em geração. Pode estar com o pé engessado, mas vai dar um jeito de andar de bicicleta.

Cinema em shopping, terça-feira, 16h, uma beleza. Chegamos 20 minutos antes e, como de praxe, lá vou eu comprar o “kit porcaria” para distrair os beiços, composto do famigerado “balde de pipoca-mais-cara-do-mundo” e “refri-aguado-e-sem-gás”.  Isso após conseguir acordar o atendente, que, sem brincadeira, dormia sentado, anestesiado pelo marasmo do local.

Sentei com o Chico num banco na entrada das salas de exibição. Tíquetes no bolso, pipocas tranbordando nas mãos, tudo pronto. Nesse momento, vimos chegando um garoto franzino, vestindo roupas surradas. Feições bonitas, queimado naturalmente do sol. A tiracolo, uma bolsa térmica já rasgada nas alças. Se aprochega:

- Oi…onde posso comprar pipocas? Tá fechado? – pergunta, tímido.

Aponto para o caixa e respondo:

- Olha, tem um rapaz ali, mas tem tá meio que dormindo…mas tá aberto. Dá um grito, acho que ele aparece.

Como a hora do filme estava chegando, fomos passando pela catraca, eu e meu filho “mauricinho”. Noto que, logo atrás, nos segue o garoto, com um ingresso esmagadinho entre os dedos. Já que ele não vinha com as pipocas, indaguei o que havia acontecido. Ué, o cara não atendeu? Vai ver, desmaiou no carpete…

- É que eu não tinha o dinheiro, não sabia que era tão caro. É minha primeira vez -, explicou.

Poxa, nunca tinha conversado com alguém que tinha “debutado” dessa forma. Me interessei (jornalista é dose) e comecei a fazer algumas perguntas. Descobri que o nome dele é Caynã. Assim, com Y. Que ele tinha conseguido o ingresso falando com as “moças na entrada”. E que ele mora no Morro da Cruz e tem dois irmãos. Trabalha vendendo trufas de chocolate, que carrega na térmica quase maior que seu mirrado tronco. E que não tem mãe, mora com o pai.

Como era nítido que ele não tinha condições de comprar, me prontifiquei a completar a quantia. Abri a carteira. Só tinha uma nota de 20 pilas. “Vai lá, compra uma pipoca e um refri, daí me traz o troco”.

A cara de felicidade desse guri não dá para explicar. Cheguei a me emocionar.

As luzes vão se apagando. Lá vem Caynã, correndo, felizão da vida, com um pacotão de pipocas quentinhas e uma Coca-Cola borbulhando nas mãos. O sorriso estampado no rosto e R$ 12,50 de troco, mais a nota.

Ele me entrega a grana e convido ele para sentar na fila da frente (tinham colocado ele lá no fundão, na última fila, coitado). Meio atrapalhado, fica com dificuldade para se ajeitar na poltrona, e eu ajudo. Meu filho, com cinco anos, é apenas alguns centímetros menor e menos pesado que o garoto de 11 anos.

Mal consigo me concentrar viajando na história, no passado e no destino do Caynã.

Caynâ (à esquerda) e Francisco antes dos esquilos invadirem a tela

Caynâ (à esquerda) e Francisco antes dos esquilos invadirem a tela

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O “causo” dessa tarde de setembro me fez pensar um montão de coisas. Posso citar as três principais.

A primeira delas, em como somos mal-agradecidos com a vida. Temos tudo, mas vivemos chorando de barriga cheia.

A segunda, que uma primeira experiência é algo a ser marcado com chave de ouro. E nunca vai evaporar da memória. Seja um primeiro beijo, um primeiro filme, uma primeira maratona. Valorizar esses raros instantes é algo que aprendi. A estreia no cinema para Caynã nunca fugirá da minha mente. E fiz questão de transformar, de forma simples, aquela experiência em algo mais grandioso para mim, para o Francisco e para ele. Tenho certeza que teve um sabor especial para nós três.

A terceira e última, que educação, cultura e conhecimento não se compra. Assim como a honestidade. Da mesma forma que a atitude e a coragem. Caynã, que já levou mais porradas em pouco mais de uma década do que vários marmanjos de 60 anos, mostra que dá para dar um jeito. Ninguém falou para ele que dava para entrar gratuitamente no cinema da burguesia. Ele foi lá, conversou. Não mendigou nada. Do jeito dele, conseguiu. Como, torço, que ele conquiste outro tantão de coisas na vida.

Dirigindo para casa, Francisco fica curioso e questiona como ele sabia o caminho de casa, já que tinha ido pedalando do Morro da Cruz até a Avenida Ipiranga, o que não é lá tão perto. Ninguém tinha levado ele. Não tinha pai, mãe, irmão. E era uma criança, sozinha.

- Pessoas como ele sabem bem por onde andam. Têm que aprender logo. Ele vai até à Lua, se quiser, sem mapa respondo.

- Quer dizer que ele pode ser astronauta, como eu? – pergunta Chico.

Ô. Se pode.

 

 

 

 

 

Não, você não gasta tudo isso correndo uma horinha

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big kahuna

Já escrevi, certa vez, sobre a polêmica de que “correr emagrece“. Embora não seja nutricionista nem tenha a pretensão de dar dicas sobre alimentação, emagrecimento ou suplementação, vejo que muita gente procura a corrida para “secar”.

Lendo uma das revistas especializadas em dar dicas para quem quer diminuir o manequim, deparei com uma chamada pra lá de apelativa: Como calcular o tempo de exercícios para queimar as calorias dos doces“.

Em primeiro lugar, vamos analisar o que é a tirania do título dado à matéria. A pessoa vai lá, come um brigadeiro, e imagina ter que correr tantos minutos para “queimar” o tal doce, ou pular corda, fazer faxina, enfim. Meu Deus, que bizarrice! Tem que torrar as calorias do tal negrinho? Não seria melhor comer e não pensar nisso? Na minha visão, se é para comer algo e ficar pensando que você vai engordar é uma burrice. Por que perde toda a graça. Se não posso, prefiro não comer.

Além do mais, essa tabela nutricional, pelo que entendo, está totalmente genérica e perigosa para quem deseja controlar a ingestão e gasto calórico. Na modalidade corrida, aparece o lindo número de 900 calorias (quem não quer gastar 900 calorias? luxo!) para uma hora do exercício. Ah, fala sério.

Pergunte a qualquer especialista: isso é muito pessoal e variável. Uma pessoa com um nível mais avançado de treinamento gasta bem menos do que uma iniciante, e o peso corporal, além de massa muscular, entre outros fatores, como a intensidade do treino/batimentos cardíacos influenciam diretamente nessa matemática. Eu, por exemplo, com 1,72 e 55kg, não gasto 600 calorias em uma hora de treino pesado. Para gastar 900 calorias, deveria correr meia hora a mais, o que já é considerado um longão, já que nesse intervalo de tempo, percorro mais de 20 quilômetros.

Quem aí faz 20 quilômetros por dia, cinco vezes por semana? Conheço poucos. Ou seja, o gasto calórico semanal dificilmente ultrapassará uma ingestão compulsiva de doces, bebidas alcóolicas ou outras tranqueiras tão comuns nessa estação – e com a Copa do Mundo, pelo que vejo, muita gente abandonou os tênis de vez em casa e está investindo no “alterocopismo” bem na camufla.

Sejamos sinceros: quantas vezes enganamos a nós próprios, aliviando o peso na consciência com essas tabelinhas falcatruas?

Uma alimentação adequada, sem restrições severas, mas que priorize muito mais a qualidade do que a quantidade é a chave para estar em forma para um esporte que exige tanta leveza e força quanto a corrida. A disciplina dos treinos, claro, é fator fundamental. Sei que dá preguiça, que tem coisa bem mais interessante para fazer nesse tempo chuvoso. Mas é uma questão de escolha: querer acreditar na realidade, dura e inflexível, ou seguir lendo historinhas pra boi dormir.

E afinal, quanto eu gasto?

Para quem quer saber com mais precisão, a  resposta é simples: o corredor que mais pesa queimará mais calorias porque precisará de mais energia para mover o corpo se compararmos com um atleta magro. Esta vantagem é a base para perder peso correndo, quanto mais pesado estiver, mais calorias consumirá.

De acordo uma reportagem da revista Runner’s, a tabela abaixo mostra apenas um parâmetro para o gasto calórico para a corrida. Claro que os números podem variar um pouco de corredor para corredor e que os cálculos abaixo reproduzem o gasto calórico em uma corrida moderada, quando o atleta está praticando a corrida a aproximadamente oito quilômetros por hora.

Para ter mais precisão, usar o frequencímetro juntamente com o relógio GPS garante um parâmetro ainda mais seguro.

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FC x Cal

 

 

Encontre na tabela abaixo o gasto calórico para os pesos mais comuns:

                 5 km    10 km     15 km       20 km      Maratona
50 kg  259 cal   518 cal   777 cal    1.036 cal     2.186 cal

60 kg   311 cal   622 cal    932 cal    1.243 cal    2.623 cal

55 kg   285 cal   570 cal   855 cal     1.140 cal     2.404 cal

65 kg   337 cal   673 cal   1.010 cal   1.347 cal   2.841 cal

70 kg   363 cal   725 cal   1.088 cal    1.450 cal   3.060 cal

75 kg   388.5cal   777 cal  1.165, 5cal  1.554     3.278,5 ca

80 kg   414 cal   829 cal   1.243 cal   1.658 cal    3.497 cal

85 kg   440 cal  881 cal   1.321 cal    1.761 cal     3.716 cal

90 kg   466 cal   932 cal   1.399 cal   1.865 cal     3.934 cal

95 kg   492 cal  984 cal   1.476 cal   1.968 cal     4.153 cal