Coração de corredor

Publicado por | julho 28, 2018 | Mente de corredor | Nenhum Comentário


Broken-heart

A corrida consegue produzir metáforas perfeitas do que é essa breve e louca vida. Ao longo das mais de 2 décadas de prática e dedicação a esse nobre esporte, tenho orgulho em afirmar que sim, a corrida – e, em especial, a maratona – transforma seres humanos em gente de verdade. Digo isso porque tem muitos por aí que se gabam de conquistas como adquirir o carro do ano, ter a cobertura no bairro mais bacana. Baixar champa em Jurerê International e ostentar cartão Platinium Mega Gold Titanium soltando raio-laser afu em Miami.

Agora….quero ver enfrentar a vida como ela é. Isso é tarefa das brabas, sem filtrinho nem anestesia na peridural. É parto normal, suado, sofrido. No Instagram e no Facebook, é só alegria. Porém, a realidade se mostra dura e entediante para a maioria. Tenha certeza. E a tarefa mais árdua – a de se relacionar, tanto em família quanto em sociedade e, principalmente, amorosamente – fica mais difícil pra quem é corredor.

WHAT?

Explicarei.

Correndo, a gente questiona o sentido da vida. Sobre o sentido de estar aqui nesse plano.

Correndo, pensamos na naba que é tá nesse mundo gigante e ser só uma gota d’água (ou de suor na viseira).

Ao correr, viramos filósofos. Antropólogos. Psicólogos e, muitas vezes, arigós de obra (kkkkkk).

Ao correr, nos encontramos com nós mesmos — e percebemos o poder da simplicidade, da beleza que há no que poucos percebem.

E indagamos sobre o amor. Sobre esse sentimento filha duma mãe de tão grande, que aperta o peito e move montanhas – montanhas não, cordilheiras!

Não nos contentamos com pouco.

Saimos da água morna, paradinha….e vamos pra água fervente, descemos pra água congelante…aí queremos água com gás, cerveja, vinho (e opa! me vê um churrasco!). Não importa a idade, a distância ou qualquer outra coisa. A vida passa a ser muito mais intensa e altamente questionável.

………….

Falando com uma amiga corredora que se separou há 2 semanas de um casamento que durou 8 anos, há pouco, no telefone, matutei sobre o quanto amadurecemos ao dar nossas passadas solitárias – e também enriquecemos com as amizades construídas na jornada. A metáfora é perfeita, e é sobre o altos e baixos da vida, com o percurso casca-grossa dos 42, 1 km da Maratona.

Olhando, parece até fácil. Mas nunca menospreze o adversário.

Vamos pensar na clássica maratona: ao sair, “todo mundo é macho”. Baita ritmo, tudo muito belo. Ahhh…pois é. Só que é ali pelo km 32 que a prova começa. Dali pra frente, os machões viram menininhas. A Mulher Maravilha vira uma Mulher Samambaia. E o urso senta nas costas.

Infelizmente, só tomando na cabeça que aprendemos.

Amigo meu sentenciava: “tu só vai ficar boa depois da quarta ou quinta maratona”.

Odiava ele.

E vi que é isso mesmo.

Não se aprende por osmose. Não se cresce sem sofrimento. É na adversidade.

Não é fácil pra ninguém – só que acredito fielmente na força do coração dum corredor. Porque ele não cresce só na potência de bombear sangue. Ele é imensamente maior na capacidade de admitir que é ele, no fim das contas (em acordo com a mente, claro) que manda nessa bagaça.

Tenho certeza da capacidade de superação dessa fase que a amiga recém-solteira é gigantesca. Nem preciso me preocupar.

Virão novos ares. Novos amores, novas amizades. Novos desafios.

A melhor corrida é a que está por vir. E pra cruzar a linha de chegada sorrindo, o treino é diário.

Um quilômetro por vez.

Um dia de cada vez.

Que essa seja nossa nobre filosofia.

<3

 

 

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