Entre o céu e o inferno: o carma de ser atleta no Brasil

Publicado por | agosto 15, 2016 | Mente de corredor | Nenhum Comentário
O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

Olimpíadas rolando. Todos em polvorosa conferindo o desempenho de atletas dos quatro cantos do mundo ao vivo, nas lindas arenas cariocas, ou pela telinha da TV, que transmite durante as 24 horas imagens incríveis das competições. Impossível ficar indiferente diante de cenas tão lindas. A cada vitória, grito de de superação dos atletas e quebra de recorde, vidramos os olhos e, muitas vezes, nos emocionamos – mesmo que jamais tenhamos ouvido o nome do campeão.

Embora tenhamos uma simpatia absurda com o Esporte, vivemos num País que, infelizmente, não sabe torcer. Pelo menos essa é a conclusão que tiro ao conferir a reação de nosso povo com o desempenho de nossos atletas. Claro que há exceções, mas a tendência é colocar o sujeito que não conquistou uma das três medalhas no status “abaixo da mosca que pousou no cocô do cavalo do bandido”. Aceitamos que o inglês perca, que o norte-americano falhe, que o francês desista. Mas quando testemunhamos algum atleta falhar, e esse alguém é made in Brazil…ah, que drama! Logo vem as críticas: “só podia ser brasileiro”, “incompetente”, “tá gastando o dinheiro do governo pra isso?”, “macaca”, entre outras frases menos classudas.

Ou você é herói, ou é um lixo. Esse é o carma de ser atleta nessa terra. Do céu ao inferno, é um passinho bem curto.

Joanna Maranhão, da natação, Rafaela Silva, do Judô e Diego Hypolito, da ginástica (sem falar de Caio Bomfim, da marcha atlética, que confessou ter sido xingado todos os dias enquanto treinava), são alguns exemplos nítidos desse verdadeiro carma de ser atleta no Brasil. Claro que todos tem o compromisso e responsabilidade de competir com afinco e dedicação, afinal, essa é a sua profissão. Porém, nem sempre as coisas são tão simples numa Olimpíada: estar ali, por si só, já é um grande feito. Ter índice para participar comprova que o sujeito está entre os melhores do mundo e, como tal, deve ser respeitado.

Assim como outros aspectos da vida, no Esporte há dias bons, dias ruins. E, se desabamos, temos que ter a chance de levantar, tentar novamente, até acertar. Nossa cultura esportiva, capenga, racista, homofóbica, descriminatória e elitista, ainda privilegia astros e esquece de que, para conquistar uma medalha de ouro, é necessário muito mais do que quatro anos entre um e outro Mundial.

O feito de Hypolito – que você pode conferir aqui nesse link, numa entrevista para a SporTV – resume o quanto devemos apoiar e acreditar no potencial de nossos talentos. Mesmo (e principalmente) quando eles não estão lá no topo.

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Atletas de verdade costumam ter um plano para quando o fracasso ocorrer, afinal, ele faz parte do árduo preparo para a vitória. Não importa quantas quedas teremos na vida. Provavelmente, serão muitas. Quantas? Ninguém sabe. O certo é que teremos que somar “um” após cada uma delas. Caiu 500? Vai ter que levantar 501 vezes. O sonho da vitória só rola quando há aprendizado com cada derrota.