Essa cachaça chamada maratona

Publicado por | junho 14, 2016 | Maratonices | Nenhum Comentário
Ás 6h45, aguardando a buzina no pelotão de elite

Ás 6h45, aguardando a buzina no pelotão de elite

Quarenta e oito horas depois de finalizar mais uma maratona – a Internacional de Porto Alegre, realizada no dia 12 de junho -, cá estou pensando em tudo que passei durante as três horas, oito minutos e quatro segundos  de prova. A ansiedade da largada, o coração acelerado. O som da buzina de largada. O convívio com a dor constante que me acompanhou durante toda a segunda metade do percurso – que me fez correr mancando, toda torta, numa performance sofrível. E a alegria de cruzar a linha de chegada, numa explosão de alegria e alívio.

A decepção de não ter obtido o resultado desejado (fiquei em sexto lugar geral e primeiro na minha categoria) vem com a alegria de completar mais uma maratona – e a consciência de que maratonista é um bicho desgraçado. Afinal, são poucos os que se atrevem a encarar o desafio, e só completar já é algo homérico. Pois então. Quem corre há bastante tempo perde a noção da dimensão desse feito e corre o risco de perder até o tesão em correr. Confesso que volta e meia me vejo de saco cheio de treinar, de sofrer, de acordar cedo, abdicar de tantas coisas. Esse ano, tive que encaixar a planilha em meio a turbulência de uma mudança de casa e a um novo ofício, administrar minha academia, recém-inaugurada. Tempo praticamente não existiu. Fui de cabeça-dura para o combate, tendo a certeza de que iria sofrer feito um cavalo manco.

A  psicologia do gambá

E tinha mulher corajosa dessa vez! Quase 700 enfrentando sensação térmica negativa

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O problema, meu amigo e minha amiga, é ficar fora dessa festa. Como abdicar de correr a minha distância predileta na minha cidade, em casa? Tinha certeza que, se não me inscrevesse, ficaria com um beiço enorme. Há oito anos participo do evento, dois em distâncias menores e há seis nos 42km. É clássico, Maratona de Porto Alegre é obrigatória no meu calendário.

Para quem nunca correu uma maratona, difícil explicar porque – mesmo com tanto sofrimento, tantos nos treinos duríssimos quanto na prova em si – provavelmente queremos sempre repetir a experiência. Alguns comparam com uma “cachaça”. A analogia é boa. Pensa aqui comigo, na mente de um pé-de-cana: ele bebe a marvada, fica alegrão, mas depois vem aquela ressaca desgraçada. Ele jura que nunca mais vai beber…até que aquela dor de cabeça passa e, como mágica, lá está o gambá procurando uma nova dose.

“Maratona é sempre maratona”. A frase simplória somente faz sentido para quem já experimentou. Não é reunião-dançante, é baile de gala. Você veste o melhor vestido, o fraque, se prepara todo. É dia de tapete vermelho, de luz de velas e fogos de artifício. Se vai ter ressaca depois da festa? Provavelmente. E isso jamais impedirá que a gente queira comparecer na nossa melhor forma, dançando a melhor música, curtindo cada momento extasiados.

Ah, essa cachaça chamada maratona.

Aliás, quando é a próxima? ( ;

* Não posso deixar de parabenizar e agradecer todos os atletas que prestigiaram essa 33ª edição da Maratona Internacional de Porto Alegre. Obrigada por engrandecer o evento a cada ano. E um obrigada a todos que torceram, gritaram meu nome e me deixaram com lágrimas nos olhos durante o percurso. Vocês moram do lado esquerdo aqui, ó.