Histórias de uma pré-maratona

Publicado por | junho 11, 2015 | Sem categoria | 2 Comentários

Domingo sempre é dia sagrado para corredores em todo canto do Brasil, já que a maior parte das provas e treinos são realizadas ao longo dele. Ironicamente, esse dia, considerado de “descanso” na maior parte do mundo, é quando acordamos cedo, muitas vezes antes do sol nascer, e partimos para uma missão muitas vezes solitária. Quando tem festa – dia de prova, como no próximo, quando é realizada a 32ªedição da Maratona Internacional de Porto Alegre - , então, a situação fica ainda mais especial.

Chega a ser engraçado acompanhar a quantidade de pessoas que se envolvem a fundo, escrevendo sobre seu preparo, falando sobre o quanto estão tensos com a estreia numa nova distância, sobretudo nos 42km. O desconhecido ali na frente amedronta e fascina. Para os mais calejados, é tempo de relembrar suas melhores marcas, os perrengues que passaram, buscar imagens de feitos anteriores e passar a experiência para os novatos.

Como acho que o melhor conselho é não dar conselho, fiquei quietinha e deixei que cada um fizesse sua lição de casa. Não sou treinadora, muito menos nutricionista. O que tenho é uma bagagem de duas décadas nesse esporte, e longe de ser uma autoridade no assunto, sinto que a cada treino, a cada prova, devo aprender mais e mais. Os treinadores e suas planilhas de treino foram criadas para isso. Nada de empirismo.

O que eu mais curto, no final das contas, é saber que há muita história a ser contada. Como a do colega de competições Rafael Homem de Carvalho, sujeito que encontro há vários anos pelas “roubadas” dessa vida de atleta.

Pai de dois filhos, Rafael é psicólogo e treina duro. Ele resumiu de forma bastante sensível sua experiência de maratonista, que reproduzo a seguir.

Espero que gostem.

Para os que irão correr domingo, uma excelente prova. No final, tudo terá valido a pena.

 

Passos que não voltam mais

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Umas das experiências que vivi bem significativa com meus dois filhos foi quando começaram a engatinhar. Via e sentia ali em ambos um desejo e uma força quase descomunal de alcançarem e preencherem novos espaços. A impressão que eu tinha é que quanto mais adquiriam confiança, segurança e firmeza no movimento, alcançar ou conquistar novos ambientes se tornava algo um tanto desafiador. Era apenas o início de uma bela e grande jornada.

As primeiras tentativas de ficarem em pé e dos primeiros passos para alcançar o até então inalcançável eram conquistas vitoriosas. O andar pelo chão já não atendia mais as necessidades e não bastava mais. O esforço dispendido por ambos era algo incrível, pois parecia encontrarem uma força maior, capaz de superar os inúmeros tombos, tropeçadas e outras dificuldades e obstáculos que se dispunham a enfrentar em nome dessa jornada da vida.

Mas chegou o dia em que os passos se tornaram firmes, decididos e determinados. O ir pra lá e pra cá se tornou algo definitivamente conquistado. O senso de confiança e de segurança foi plenamente alcançado. O tempo de saída e de chegada para ir de um ponto ao outro diminuiu e muito. A sincronia entre o comando dado pelo desejo de ir e vir aliada a pernas e braços atingiu uma sintonia quase perfeita.

Hoje eles brincam de correr. Se divertem ao apostar corrida um com o outro. Também brincam de começar caminhando bem devagar até que de forma progressiva, correm o máximo que podem.

Os movimentos e passos iniciais que foram dados ao iniciarem essa jornada, hoje já fazem parte do passado de cada um deles. Pois cresceram e seguirão em busca de cada vez mais novas conquistas e objetivos maiores. Ou seja, passos que não voltarão mais.

No próximo domingo, milhares de pessoas enfrentarão um outro tipo de jornada: a maratona de Porto Alegre. Independente dos objetivos e das razões que as farão estarem lá, passos dos mais variados – firmes, rápidos, lentos, decididos, determinados … –  cruzarão boa parte da cidade, desde o momento da largada até o pórtico de chegada, a fim de que se complete os 42.195 metros.

Ninguém dos que estarão lá tem a capacidade de saber e de antecipar o que está por vir. Talvez esteja aí uma pista do porque correr uma maratona. Somos seres curiosos por natureza. Nenhum desses milhares de corredores podem prever de que forma e com o que irão lidar e se deparar ao longo do percurso. O que se sabe é que seremos tomados por um misto de  sentimentos de parar e avançar, sensações de dor e de prazer, de momentos de dificuldades, de tensão e de leveza, entre outros que fazem parte dessa jornada, em maior ou menor grau.

Acima de tudo, que se possa viver essa jornada. De se estar lá de corpo e alma, entregue a um momento único e que é capaz de nos transformar em pessoas mais confiantes, fortes e vitoriosas. E felizes.

Daqui a um certo tempo já ficará difícil lembrar de cada detalhe ou de como superamos cada centímetro, metro ou quilômetro desta maratona. Pois outras virão. Todos os passos dados ficarão sim para trás e não se repetirão mais da mesma forma. Farão parte desta história e não de outra.

Assim como os meus filhos que seguem nesta jornada da vida, que a 32a maratona de Porto Alegre possa proporcionar acima de tudo, novos ensinamentos e  aprendizados que ainda desconhecemos. E principalmente de nos permitirmos a sermos invadidos pelo turbilhão de emoções que só quem cruzará a linha de chegada terá a oportunidade de viver isso intensamente.

 

 

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