Mizuno Uphill Marathon: o relato da insanidade

Publicado por | outubro 20, 2014 | Por Aí | 8 Comentários

curvas da Serra do Rio do Rastro

Insana. Dura. Cruel. E magnífica. Assim eu posso resumir o que foi encarar pela segunda vez o desafio de subir a imponente Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. Hoje, um dia após a prova patrocinada pela gigante marca esportiva japonesa, a Mizuno Uphill Marathon 2014, a sensação é de que uma patrola passou por cima de mim. Tenho algumas boas competições difíceis no currículo, incluindo provas de subida e ultratrail, como os 100 quilômetros da Patagonia Run. A Travessia Torres-Tramandaí, com seus 82 quilômetros na beira da praia, areia fofa e vento contra. Já corri 24 horas numa esteira. Mas essa foi de lascar.

O sofrimento começou cedo. Depois de dormir apenas 3 horas e tentar conectar meu cérebro com o horário de verão de sábado para domingo, acordei às 4h30 da madrugada. Tomei café e peguei a van com os demais jornalistas que cobriam a prova. Uma hora antes, perto das 6h, estávamos em Treviso, local onde o pórtico de largada foi montado. E também onde foi armado um temporal muito, mas muito feio, 20 minutos antes do estouro da boiada. Às 6h40, caía o mundo naquele vilarejo de 3.500 habitantes do Estado catarinense. A reviravolta de São Pedro dava o prenúncio de uma missão sinistra: sair daquele local e correr nada menos do que 42,1 mil metros, subindo cerca de 1.400 metros de altitude, até o topo da famosa estrada da Serra do Rio do Rastro, eleita como uma das mais belas do mundo.

Sul em Foco

Me posicionei junto a outros atletas batizados de “survivors” (sobreviventes), concluintes da primeira edição da prova, em 2013. Poucos dos 50 atletas convidados ano passado puderam (ou quiseram, por razões múltiplas e, ao meu ver, óbvias), repetir o feito. Ao som de “Higway to Hell”, de AC/DC, fomos fazer despertar o gigante. Lá foram os 300 loucos desvairados, a maioria sem ter a mínima noção do encontrariam pela frente. Incluindo eu.

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Mesmo sabendo que era extremamente difícil chegar no topo, larguei forte. Sou péssima como montanhista e não treino em subidas com a frequência necessária para tal perfil de prova, e essa é a maneira que encontro de não deixar meu tempo ser tão ruim. Eu vou me ralar igual. Então tentei manter um pace de 4min/30 segundos (cerca de 13,5 km/h) no plano e nas descidas, e tentar implementar um ritmo de 10km/h nas subidas menores, até quando eu aguentasse. E isso durou pouco.

Uma dor nas solas dos pés lancinante, atormentante, me desconcentrou por volta do quilômetro 25. Não sei explicar o que exatamente ocorreu, mas posso descrever que é como se uma faca bem afiada e fagulhas bombardeassem as solas sem trégua. Conto nos dedos as vezes que parei para chorar e espremi os olhos de tanto sofrimento. Outros corredores me ofereciam sprays, balas de sal, davam palavras de incentivo. Mas eu não queria saber de nada. Só que aquilo passasse porque eu nunca, na vida, desisti no meio de uma corrida – e aquela não seria a vez.

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No quilômetro 30, em Lauro Müller, no pé da montanha, a tragédia estava feita. Simplesmente acabada, pensei em pedir arrego. E um milagre aconteceu: as dores nos pés amenizaram um pouco. Resolvi seguir e enfrentar o pior, pois é ali que a corrida começa de verdade. Os 12 quilômetros finais são para gente grande. Só subidas, com curvas em cotovelos, e desta vez, para piorar, com chuva e vento que, pelos meus cálculos e de outros colegas, chegava a 90 km/h. Placas chumbadas no concreto voavam. Correr era impossível em alguns momentos. A água gelada que descia da serra devia medir cerca de 3 graus. A cena, sem exagerar, era de terror e pânico.

Mas é aí que há a divisão “dos homens e das galinhas”, como diz um amigo meu.

Fiquei com raiva. “Ou eu subo essa joça ou eu não me chamo Daniela”. Fala sério. Que baita ameaça! Enfim, é aquela briga mental ferrenha. Esqueci o ritmo, o relógio, o pé congelando, o frio…só não esqueci da ventania porque não dava. Corria agachada, o que não adiantava porcaria nenhuma. Caminhava uns trechos, corria outros…e os quilômetros foram sendo engolidos.

Quando enxerguei o final da estrada, no quilômetro 40, uma sensação de conquista indescritível tomou conta. Pouco mais de um quilômetro adiante, um batedor me aguardava, anunciando o terceiro lugar feminino. A sirene da motocicleta foi acionada. Comecei a desabar em choro. O policial brinca: “vai lá, tu é a terceira mulher, vai ganhar uma rapadura!”. Eu tive forças para gargalhar.

Cruzei a linha de chegada em prantos, de boca roxa e com uma hipotermia – fui para a ambulância com 34,6 graus de temperatura, o que ocorreu com vários outros atletas. Cheguei depois de duas “monstrengas” da montanha, Letícia Saltori Mirlene “Mika” Picin, legítimas “Hammers”, enquanto eu, aqui, sou aquele fusqueta de asfalto.

A sensação hoje é de que sou boa de perna, mas melhor ainda de insistência. Ser osso duro assim de roer deve ser algo a ser estudado. Digo o mesmo para boa parte que chegou lá em cima, onde a ventorréia derrubou até banheiro químico e o pórtico de chegada.

É…a Uphill 2014 deixou um rastro de lágrimas. Isso foi o detalhe, talvez, que tenha feito toda diferença. Quanto pior, melhor? Não sei. Mas que essa sensação de conquista e superação tá difícil de tirar da cabeça, tá.

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* Parabéns a todos que enfrentaram o desafio e à organização da prova, impecável.

 

 

8 Comentários

  • Ivana disse:

    O que dizer ? EMOCIONANTE, simplesmente ! Parabéns a todos os guerreiros e a ti, pelo pódium.

  • Mário Fernandes disse:

    Simplesmente lindo o teu relato!

    Parabéns por este feito, este tipo de desafios são pra poucos.
    Parabéns mais uma vez.

    Abraço

  • Luísa Medeiros disse:

    Dani, tu é MUITO f… baita orgulho de ti, guria!! Show show show

  • Cristiane disse:

    Parabéns para todos os atletas Daniela!!!! Me lembro da gente conversando antes da largada, já no pórtico, comentando do vento e da chuva fria…Era de abalar o psicológico de qualquer um, mas a adrenalina não deixou nosso ânimo arrefecer e vencemos a maldita ventania!!!! viva os Ninjas Runners!!!

  • Máu Souza disse:

    Linda história! Mostrou que além de correr bem, escreve também! Felicidades!

  • Val disse:

    Parabéns SURVIVOR!!!
    Essa foi de lascar os ossos…Rsss

  • leda maria da silva disse:

    É inexplicável a sensação que você sente ao cruzar a linha de chegada. Essa prova é um desafio fantástico em todos os sentidos! Adoraria participar e sentir toda emoção !!!!!
    É querer de mais! Aos sessenta e dois anos de idade participar de um evento grandioso como este.

  • leda maria da silva disse:

    Parabéns, aos participantes pelo desafio e aos campeões e que venham novos desafios.