Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

Publicado por | outubro 10, 2016 | Por Aí | Nenhum Comentário
O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

mounta

Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

( :

Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km

 

 

 

 

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