O maratonista de Kichute

Publicado por | março 28, 2016 | Gente que corre | Nenhum Comentário
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Dois dias depois de seu aniversário de 77 anos, Valdomiro participará mais uma vez da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre dia 12 de junho. A comemoração, segundo ele, “ficará após cruzar o pórtico de chegada”

No ano em que o primeiro homem correu a lendária Maratona de Boston abaixo de 2h30 min (o norte-americano Ellison M. “Tarzan” Brown, com 2:28:51), nascia, quase dois meses depois, no dia 10 de junho, um dos mais longevos maratonistas da capital gaúcha. Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, é uma figura notável. Impossível não sorrir ao vê-lo de manhã bem cedinho, de camiseta molhada, cumprindo mais um de seus sagrados treinos.

Já tinha mirado ele inúmeras vezes em provas de rua e nos longões da Beira-Rio. No mesmo passinho , devagar e sempre. Sem firula, tênis da moda ou qualquer parafernália. Aliás, sua primeira maratona, aos 50 anos de idade (a de Porto Alegre), foi disputada com um…Kichute. Sim, aquele tênis horroroso, misto de chuteira com sei-lá-o-quê, criado na década de 70 – e terror dos ortopedistas.

Mesmo que ninguém recomende correr 42 quilômetros com calçado similar, é por esse e outros detalhes que Valdomiro merece um capítulo a parte na história das corridas de rua da cidade. Pela sua simplicidade e leveza de ser, pela perseverança e atitude perante a vida. Ao invés de reclamar da idade, ele muda o curso e vai pra rua vestido apenas com a vontade insaciável de sentir o vento no rosto e a endorfina correndo nas veias.

Na semana passada, o relógio marcava 6h58. Esperava meu grupo de corrida chegar para treinarmos em frente ao Praia de Belas Shopping. E tive a sorte de esbarrar com Valdo. Encerrava seu treino, iniciado há mais de uma hora. Sim, ele acorda às 4h, come “frutas e respectivas farinhas” e sai para a rua às 5h30. “Com minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite”, não esquece de salientar, bem-humorado.

Nossos olhares se encontraram e fomos metralhando perguntas um ao outro. Ele iniciou o papo:

“E aí, tá fazendo quanto hoje?”

Eu respondo:

“Não, não, só tô esperando ainda o pessoal chegar pra correr. Só um trotinho hoje!”

Preferi não perguntar quanto ele já havia rodado, mas sem dúvida muitos mais do que faria no dia. Falamos sobre a Maratona de Porto Alegre, perguntei com quantos anos ele estava, como era bom acordar cedo pra correr…e, claro, não perdi a oportunidade de clicar uma fotinho pra me exibir ao lado do amigo, de quem sou fã.

No final, saiu essa entrevista, feita por e-mail. Acham que a jornalista aqui perderia a oportunidade de contar essa história contagiante? Jamé! A ideia é incentivar quem “acha que está velho pra começar a correr”, acha mil justificativas pra não desgrudar a buzanfa do sofá ou, simplesmente, deseja encontrar uma inspiração para seguir acreditando no poder desse lindo esporte.

Seu Valdomiro, taí uma figura encantadora. Espero chegar na sua idade com a metade de sua disposição e vitalidade. ( :

ENTREVISTA – Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, maratonista

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Valdo emocionado ao cruzar a reta final na Maratona de Chicago

Santa Corrida – Quando e porque começou a correr? 

Valdomiro Siegieniuk – Sempre gostei de correr, mas participar de corrida de rua foi mais tarde, a partir de 1980. Tudo surgiu a partir de uma aposta com guris mais jovens, que me desafiaram a começar. O início foi na pista do Parque Marinha do Brasil. A minha primeira Maratona foi a Internacional de Porto Alegre, em 1989. Eu tinha 50 anos de idade e corri com os tênis Kichute. Não tinha feito nem um treino longo. Fiquei uma semana sem poder descer as escadas.

Santa Corrida – Quantas maratonas já disputou?

Valdomiro -  Já disputei 42 Maratonas no Brasil, mais a Supermaratona de Rio Grande, além de 13 Maratonas no exterior. No total, foram 53 provas nessa modalidade. Mas eu corro diversas distâncias, gosto de todas!

Santa Corrida – Como é a sua rotina de treinos?

Valdomiro – Hoje, treino sem planejamento.Levanto às 4 horas da manhã,como as minhas frutas com as respectivas farinhas e saio para treinar ao redor das 5h30min (com a minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite). Quantos quilômetros por dia? Depende da disposição, temperatura e se encontro alguém no meio do caminho.Em média, de 10 a 20 km.

Santa Corrida – Qual o significado da corrida para você?

Valdomiro – É a chama da vida. A satisfação de chegar em casa, tomar um banho e estar disposto e com bom humor o dia inteiro.

Santa Corrida – Que conselho você daria para quem quer iniciar nesse esporte?

Valdomiro -  Em primeiro lugar, fazer um exame médico. Depois, procurar um professor de Educação Física ou participar de um grupo de corrida para receber as orientações corretas. Da minha parte, sempre digo para nunca desistirem.O meu maior prazer é ler no Facebook, quando após uma maratona, o que um(a) atleta escreve: Valdomiro, graças a ti,eu sou um(a) Maratonista! Pois já incentivei muitos jovens a participarem.

Santa Corrida – Cite um momento marcante que você viveu nesses anos todo correndo.

Valdomiro - Foram muitas emoções vividas. Uma foi ao correr a Maratona de Berlim, quando combinei com a minha mulher (que sempre me acompanha, mesmo não correndo), que me esperasse na frente do hotel, pois ali seria o 15 km do trajeto. Ao atingir esse ponto,encontrei ela com um apito (foram distribuídos pela organização),parei, dei um beijo, um forte abraço e recebi calorosos aplausos do público presente.Continuei  correndo com lágrimas nos olhos.Terminei a prova ao redor de 3h35min. Isto foi em 2001, aos 62 anos de idade. Outro episódio marcante foi na Maratona de Budapeste, quando passava pelo ponto de troca do revezamento e fui saudado pelo locutor anunciando meu nome e dizendo que era brasileiro. Inesquecível!