Fazendo o desânimo comer poeira

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Sabe aqueles dias que você acorda sem vontade de treinar? Quando o ânimo não dá as caras e o desejo mais latente é de se atirar na cama e dormir até o outro dia? Sim, isso também ocorre com quem treina há muitos anos. Mesmo aquela pessoa mais obstinada e focada, do iniciante ao atleta de elite. Não há quem não passe por dias de marasmo, cinzentos e morrinhentos.

Hoje foi um desses dias. Amanheci com um humor de cão (embora ache essa expressão inadequada, já que os cachorros estão sempre faceiros e serelepes). Levei meu filho na aula de futebol no Grêmio Náutico União. Sentei na espreguiçadeira e fiquei lá, atolada. Vi alguns corredores dando voltinhas na pista do clube e pensei: “bah, que saco”.

Almocei, fui descansar. Fiz algumas tarefas domésticas, trabalhei um pouco no computador e pensei no treino que deveria fazer na tarde da quinta-feira. Seriam 15 quilômetros de ritmo, na rua, finalizando com algumas subidas, já que estou dando ênfase às lombas há pouco mais de um mês da Mizuno Uphill, prova na qual fui selecionada para correr na íngreme Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Pilha para fazer esse treino? Zero. Absolutamente zero. Há tempos, não sentia tanto cansaço, mas um cansaço mental, muito mais do que físico. Tentei encontrar os motivos. Alguns deles eu consegui esmiuçar, porém, mesmo assim, nada do tesão de correr vir à tona.

Lembrei do termo “runner’s blues”, citado pelo maratonista Haruki Murakami na excelente obra Do Que Eu Falo Quando Falo em Corrida (quem ainda não o leu, recomendo): um sentimento de vazio, letargia que envolve muitos corredores, sobretudo aqueles que já rodaram milhares de quilômetros, e não veem mais sentido naquilo que estão fazendo.

Ao mesmo tempo, lembrei do meu mantra “me entregar? Jamais!”. Calcei meus tênis, botei uma mochila nas costas e fui para a academia. Não seria o treino programado, mas seria um treino. Entrei na Porto do Corpo meio borocoxô, conversei com uns amigos. Subi as escadas e liguei a esteira. Comecei devagarinho, num pace “geriátrico” (10 km/h, ou 6min/km) e esperei ele vir.

Como em poucas vezes, o ânimo quis me pregar uma peça. Tentou fugir, dobrar a esquina, falar que não iria se apresentar na tarde desta quinta-feira. Mas eu fui mais esperta. Quando vi que eu poderia pegá-lo, dei um gás e concluí 13km em 1h de corrida. Tudo bem, foi sem altimetria, foi indoor. Mas foi.

Mais uma vez, confirmo uma convicção: nunca, mas nunca mesmo, desista de um treino. Depois que você manda o desânimo embora, sacode a poeira e calça um tênis, já era. Não há chances para arrependimentos.

A fera das 24 Horas

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Quem vê essa forte “alemoa” correndo, não imagina que se trata de uma das mais experientes ultramaratonistas do país. Natural de Três Coroas – cidade famosa pelos passeios de rafting –, no belo Vale do Paranhana, Gildiane Souza Heusner, 41 anos, é uma verdadeira máquina de correr.

Para se ter uma ideia, entre seus feitos, está o primeiro lugar nos 235 quilômetros de uma das provas mais duras de montanha do país: a Ultra dos Anjos, em Minas Gerais, fantástica conquista que concluiu em 48 horas e 18 minutos (isso mesmo, dois dias inteiros correndo sem trégua). Na frente dela, apenas um homem cruzou a linha de chegada, com diferença de míseros cinco minutos.

Além de corredora das boas, Gildiane, que é secretária e mãe de dois filhos (uma menina de sete anos e um rapaz de 18 anos, que muitas vezes a acompanha nas competições), é uma figuraça conhecida pelo sorriso fácil, carisma e humildade. Seu sonho é ficar velhinha correndo e influenciar cada vez mais pessoas a iniciarem esse esporte, que para ela foi muito além de uma terapia: com a corrida, Gildiane encontrou a si mesma: uma criança faceira, cheia de energia e, acima de tudo, incansável nos seus objetivos.

Com vocês, a guerreira Gildiane, que concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

 

Santa Corrida – Conte um pouco da tua história como corredora. De que forma começou, há quanto tempo?

Gildiane Hauser – Comecei na academia para manter a forma, apenas isto. Eu caminhava todos os dias uma hora na esteira, e aí, aos poucos, comecei a alternar com minutinhos de corrida, pois eu li que correr era bom para depressão. Na época, eu tomava medicamentos há mais de cinco anos. Decidi tentar e acabei me apaixonando: quando vi, corria 10 quilômetros, que para mim era uma alegria imensa! Foi quando veio o convite de participar em uma equipe de revezamento na Volta a Ilha de 2009. A princípio, eu achei uma loucura, mas aceitei o desafio e fui lá correr 18 quilômetros. Chorei tanto de emoção como de dor, pois voltei machucada. Quase enlouqueci. Foram dois meses sem correr. Daí, vi que não podia mais viver sem a corrida.

 SC – Como foi sua evolução para as ultramaratonas?

Gildiane – Eu fazia meus treinos de 10 quilômetros, mas sempre queria mais. Aos poucos, fui começando com os treinos mais longos. Meu sonho era fazer a TTT (Travessia Torres-Tramandaí), então decidi fazer uma ultra de seis horas para ver como me saía…e adorei! Isso foi em setembro de 2011, depois disso não parei mais.

SC – Qual o principal desafio e dificuldades de enfrentar provas tão duras como as de 24 horas, categoria na qual você se especializou?

Gildiane - O  maior desafio é o sono e as bolhas, que sempre aparecem no decorrer da prova. Tem um momento, que ocorre em todas as provas, sempre lá pelas três horas da manhã, que eu quase apago…a partir daí, o que me salva é a cafeína e a dor causada pelas bolhas. Aprendi a administrar, mesmo não sendo nada fácil.

SC – Como você faz para treinar e conciliar a rotina profissional e a família, afinal, os treinos são muito duros…

Gildiane – O jeito é abrir mão de algumas coisas, mas não me importo com isso. Eu abro mão do meu almoço, pois faço um treino no meu intervalo do meio-dia, de 10 Km, outro depois das 17h30min de mais 10 Km, e quando tenho parceria ainda faço um terceiro treino. Além disso, ainda tem a parte de musculação, que temos que levar muito a sério. Acabo meus treinos lá pelas 20h. Só então vou para casa assumir o papel de mãe e cuidar da Mariana, que tem sete anos, e dar atenção também ao Gustavo, que tem 18 anos, e que quando pode, faz meu apoio nas provas.

SC – E para quem deseja virar ultramaratonista, qual o conselho que daria?

Gildiane – Primeiro, é preciso querer muito e não ter preguiça para treinar, não importa se estiver fazendo zero ou 40 graus. Temos que estar preparados para qualquer situação. Uma das coisas mais importantes que faço é escutar meu corpo e respeitar meus limites.

SC – Quais seus objetivos para os próximos anos?

Gildiane – Tenho mais duas ultras programadas para este ano, que é uma 24 horas no mês de novembro em Valinhos (SP). A outra é uma 48 horas no mês de dezembro em Guarujá (SP).

SC – O que é a corrida, para você? Qual o significado dela na sua vida?

Gildiane – A corrida para mim é sinônimo de vida, eu não consigo imaginar minha vida sem ela, é prazer, é alegria, é voltar a ser criança, e para mim é uma alegria imensa quando consigo influenciar alguém a começar a correr. Sempre brinco que vou comemorar meus 100 anos nas pistas.

 

Marcas impressionantes

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- A primeira 24 horas foi o Desafio Farroupilha de Porto Alegre, em setembro de 2012, quando bateu o recorde feminino que era de 171km. Ela fez 180km.

- A segunda prova foi a 24 horas de Campinas, no mês de novembro de 2012, quando também bateu o recorde feminino que era de 168km. e o meu recorde (ela percorreu 188km).

- Em maio de 2013, a atleta bateu o recorde feminino nas 24 horas de Santa Maria, com a marca de 185km. Também no mês de maio, ela participou do dia do desafio em Porto Alegre, quando correu 12 horas na Redenção em baixo de muita chuva e fez 99km.

- No mês de junho, Gildiane venceu a Ultra dos Anjos, em Minas Gerais, percorrendo os duríssimos 235km de montanha em 48 horas e 18 minutos.

- Em julho, arrecadou 240 kg de alimentos e 40kg de ração para cães num Desafio Solidário de 12 horas na sua cidade natal.

- Em agosto, a ultramaratonista foi para Valinhos (SP) disputar uma prova de 12 horas e venceu com 110 km.

- Em outubro de 2013, nas 24 Horas de Rio Grande, bateu vários recordes: o pessoal de 12 horas, com 112km percorridas, e ainda o da prova, que era de  172,6 quilômetros: Gildiane chegou aos impressionantes 191km.

Escapando das crateras

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Há uma série de maneiras de medir o desenvolvimento de uma cidade. Entre elas, julgo eu, está a limpeza e conservação de ruas e avenidas – sobretudo no que diz respeito às calçadas.

E quer saber realmente como está o estado da via pública? Pergunte a um maratonista. Não há sujeito mais ciente desta realidade e crítico ao estado lamentável do chão onde pisamos – e o pior, no caso dos corredores, em alta velocidade.

Por rodar dezenas de quilômetros por semana, canelas finas sabem de cor onde há buracos, desníveis e obstáculos capazes de botar qualquer sujeito de molho, com torsão ou até fratura causadas por uma pisada mal calculada.

Traiçoeiras, as crateras (muitas vezes camufladas por trás de árvores, muros e esquinas) são uma inimiga constante. Hoje mesmo, perto da minha casa, em Petrópolis, deparei com algo assustador no meio duma calçada situada em frente a um dos nobres edifícios da região: não era um buraco, era um túnel. Cheguei a parar para olhar mais de perto. Certamente, uma família de guaxinins viveria na boa no local. Qualquer desavisado corredor – ou pior, uma criança ou um idoso – correriam sério risco de sofrer escoriações graves numa queda dessas.

Claro que essa não é nenhuma novidade. Há décadas, Porto Alegre e outras cidades brasileiras deixam a desejar neste quesito. O bom é que existe um movimento interessante ao nosso favor, criado pela prefeitura de Capital: a campanha “Minha Calçada: Eu Curto, eu Cuido, que além de tentar conscientizar o pessoal para a importância de manter o lugar onde as pessoas pisam num estado no mínimo decente, autua os proprietários que não fizerem a manutenção correta. Dá para saber como anda o projeto clicando aqui

Também achei bacana esse manual, que dá dicas de manutenção e conservação das vias públicas.

Obviamente, é um começo, mas já representa uma bela iniciativa para melhorar o atual cenário. Fiscalização sempre falta: bom senso, nem se fala.

Uma boa seria replicar a iniciativa para diversas outras cidades brasileiras. Vale lembrar que esta é uma questão de segurança, em primeiro lugar.

Os corredores – e o restante da população, claro – agradecem e aplaudem!

Ajustando o termostato

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Quem saiu para a rua durante o domingo ensolarado dificilmente não deve ter reparado na quantidade de pessoas praticando atividades físicas ao ar livre. O dia, que amanheceu amarrado, mudou completamente a partir do meio-dia, quando o sol brilhou forte e levou embora a alta umidade que incomodou quem acordou cedo para treinar – meu caso.

A sensação de desgaste foi nítida nos primeiros cinco quilômetros. Fiquei pensando: daqui pra frente, inicia a época de tortura pra quem sofre com as corridas no calor. E vamos combinar: o Rio Grande do Sul é tinhoso para acelerar nos meses mais quentes. A partir de novembro, aqueles que elegem o horário do almoço para rodar devem redobrar os cuidados com o desgaste físico. Passar do ponto é bem fácil – e pode ser bem danoso ao organismo.

Lendo sobre o assunto, achei uma matéria bem interessante na excelente revista O2 Por Minuto, que alerta para os perigosos reflexos da pane no nosso termostato interno: acima de 5ºC da normalidade corporal, há um “cozimento” das proteínas celulares. Num limite extremo, o cérebro é o órgão mais afetado. Cãimbras, náuseas, vômito, tontura, desmaios e até falência cardíaca estão na lista de problemas.

Nunca esqueço do fatídico ano de 2012, quando um atleta de revezamento caiu na minha frente, passando mal na Travessia Torres-Tramandaí (TTT), quando o sol castigava a gauchada na beira da praia após o meio-dia, com uma sensação térmica de mais de 40 graus à sombra – no sol, os miolos pareciam fritar. Nunca vou esquecer das feições dele, que além de desmaiar, vomitava sangue, desidratado. Por sorte, ele se safou dessa, resgatado por uma ambulância.

Para quem quer entender um pouco mais – até porque creio que conhecimento técnico é primordial para qualquer bom corredor –, sugiro ler a matéria clicando aqui.

Normal que a empolgação aumente nessa época (quando todos querem correr atrás do preju de meses enchendo o pandulho em casa no inverno), mas o ideal é ir com parcimônia nos treinos mais intensos nos dias escaldantes.

Uma grande conquista

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Nasce hoje o blog Santa Corrida. Um projeto de longa data, mas que teve uma hora certa para acontecer – como, aliás, quase tudo na vida. Para mim, é motivo de comemoração e alegria. Consegui, finalmente, juntar minha profissão de jornalista e a vontade de contar histórias com a paixão da corrida. A concretização desse sonho tem a ver com muitos esforços e de muito planejamento (não, nada cai do céu, isso eu jamais contestarei). Mas, também – e principalmente – tem relação com aquele velho conselho dos bens sucedidos, que jamais dei muita bola: “se você fizer o que você gosta, as chances de dar certo são bem maiores”.

Há quem diga que trabalhar com o que gostamos de verdade, com o que mexe não só com nossa mente, mas com nossos corações, é um privilégio para poucos. Outros afirmam que é uma questão de sorte. Outros, de oportunidade. E há os que defendam a mágica fórmula dos 90% de transpiração e 10% de inspiração. Eu acredito em todas essas teses, de certo modo. A que mais me agrada é a teoria da paixão pelo que se faz. Eu amo ser jornalista, mas amo correr. Por que, então, não juntar essas duas coisas?

Então aqui está o Santa Corrida. Espero atualizá-lo diariamente com muito conteúdo de qualidade, seja por meio de textos, artigos, notícias, vídeos, entrevistas, textos de colaboradores e coberturas de eventos. Pretendo, da mesma forma, dar dicas valiosas para quem deseja cumprir seus objetivos da melhor forma, dos iniciantes aos corredores mais avançados.

Quero também abrir o espaço para a troca de ideias, para divulgar nossos talentos, apresentar personagens reais desse encantador universo esportivo. Há muita história boa para ser contada!

Assim como o nome diz, a corrida é um santo remédio. Minha intenção é que as doses diárias que irei “administrar” aqui no blog possam servir como um potente estimulante. O melhor é que o uso pode ser feito sem parcimônia. Leia, comente, compartilhe.

Uma boa leitura…e, claro, bons treinos!

Sedentos por medalhas – e por lesões

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Embora sejam inegáveis os benefícios da corrida e cresça a cada dia o número de pessoas que queiram surfar esta onda, há de se mencionar que um tsunami de gente que começou a correr nos últimos anos vá parar, quando menos espera, no consultório de um ortopedista com lesões irreversíveis, enfrentando sessões intermináveis de fisioterapia, e, o pior – a longo prazo, colhendo os amargos frutos de anos e anos a fio tomando antinflamatórios sem o mínimo de parcimônia.

Explico: a evolução gradual, conservadora, porém mais saudável, é chata para quem começou a correr há poucos anos e quer ver resultados a pequeno prazo. Na faixa dos 30 e poucos anos, não canso de ver atletas amadores que iniciaram nesse esporte e já acham que são legítimos quenianos. Treinam no limite da sua capacidade, suplementam sem necessidade e camuflam qualquer dor com analgésicos para equinos.

Participam do máximo de provas que podem e dão o sangue em troca de pura vaidade. A saúde? Bem, a saúde fica em segundo plano. O aqui e agora é que vale. Não importa se, daqui uns anos, não estiverem mais aptos a trotar por aí. Não tem pena de seus joelhos, de seu passado de sobrepeso e sedentarismo. Querem efeitos rápidos, o prazer momentâneo, como se colocassem uma ficha na máquina de Coca-Cola e pum! Vem a medalha reluzindo.

O corpo tem memória. Assim como a natureza humana é generosa com quem tem um histórico de prática de atividades físicas durante a vida inteira, é impiedosa com quem quer dar o passo maior do que a perna ou que não respeita seu biotipo e limitações. Quem vai com muita sede ao pote pode se preparar: infelizmente, um dia essa conta pode vir sem avisar. Se duvida, basta perguntar a algum especialista em medicina do Esporte ou um bom ortopedista.

Se já é complicado para pessoas que têm um histórico no esporte, para atletas de ponta, biologicamente privilegiados e altamente assessorados (que praticamente vivem pra isso, só comem, treinam e dormem), imagine para quem tem que aliar treinos pesados para alta performance com filhos, carreira e vida social.

Ninguém é o Wolverine para ter forças descomunais de regeneração. Vamos deixar essa história de seres humanos de aço para as histórias em quadrinhos.

Correr para nós mesmos, e não para os outros, pode ser um bom conselho para dar a qualquer atleta que não disputa provas profissionalmente.

Afinal, o que é mais importante: correr três anos a 16km/h ou a vida inteira a 12 km/h, curtindo a paisagem? Eu escolhi a segunda opção. E você?

Correndo na pátria das chuteiras

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Segundo esporte mais praticado do Brasil, a corrida só perde para, claro, o futebol no número de adeptos. Porém, vejo (pelo menos aqui no Rio Grande do Sul e, não raro, no restante do País), uma míope visão dos empresários brasileiros, que estão comendo mosca ao não investirem seu rico dinheirinho no patrocínio de atletas e no envolvimento em provas de rua, entre outros projetos ligados a esta atividade esportiva.

Falando com uma amiga norte-americana, corredora e triatleta há mais de duas décadas, fui indagada sobre o panorama da corrida em solo brazuca. Falei que o mercado cresceu em progressão geométrica na última década. Que todo mundo corre, quer correr ou conhece mais de uma dúzia de amigos que pratica o esporte. E então ela me perguntou se eu tinha patrocínio, mesmo sendo uma atleta amadora, mas com alguns resultados expressivos. Ri e disse que não, que isso era uma realidade, infelizmente, não só distante para mim, mas para muita gente melhor do que eu que pena para disputar provas e conseguir o básico, como equipamentos. Que há dezenas de talentos desperdiçados. E que o atletismo é visto como um esporte de beirada, pouco “rentável” para as empresas. Afinal, não é transmitido pela TV (em raros casos), não ganha espaço nobre no jornal. Que corredores talentosos devem conciliar a rotina de treinos com estafantes jornadas de trabalho, muitas vezes em profissões desgastantes, como lavadores de carro, garis, coletores de lixo.

Minha amiga ficou muda. Disse não acreditar que era assim. Afinal, na pátria das chuteiras, de onde saem os melhores jogadores do mundo, não sobra nenhuma verba para quem quer apenas correr?

A realidade, que entristece e muitas vezes me indigna, pode ser mudada. E sou otimista em dizer que será modificada. Que a luz acenda e quem pode investir nesse lindo esporte enxergue o seu real potencial. Vou dizer: para quem quiser surfar essa onda, não há chances para arrependimentos.

Driblando o desânimo

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Você já sentiu “ressaca” de tanto correr? Já tomou um fartão de tanto treino, a ponto de ficar com uma preguiça incontrolável de calçar os tênis e sair para a rua, mesmo para um trote regenerativo? Chegou a pensar em largar esse esporte e passar a, sei lá, jogar xadrez ou sinuca?

Você faz parte do time de corredores que “enche o saco” volta e meia, saiba que isso é perfeitamente normal. Especialistas afirmam que a desmotivação é desencadeada por um estresse, e o fenômeno tem até nome: trata-se da Síndrome de Burnout (burn é queima, out, exterior). Em poucas palavras, ocorre pelo simples fato de que nosso organismo pede uma trégua quando damos o mesmo estímulo a ele. Pode ocorrer com qualquer um, e não só com os esportistas, mas também com profissionais e empresários bem sucedidos.

Irritação, mudanças no apetite ou nos hábitos de sono, abuso de álcool e outras válvulas de escape são facilmente usadas por quem chegou num ponto limite da situação. Mas a boa notícia é que, como tudo na vida, isso passa. Há técnicas que podem ser muito úteis para resgatar o tesão pela corrida. Uma delas pode ser encontrar novos parceiros de corrida, que o acompanharão em treinos e os tornarão bem menos monótonos, além de obrigarem você a mudar de trajetos e de ritmo.

Outra estratégia (a que eu julgo mais eficaz) é dar um tempo mesmo, fazendo outras atividades como ciclismo, natação, caminhadas ou musculação e exercícios funcionais, que darão um upgrade no seu condicionamento físico por meio da utilização de outros grupos musculares e estímulos diferenciados.

O importante é ter consciência que, como tudo na vida, há momentos que devem ser respeitados. Ouça com carinho seu corpo e identifique do que ele precisa.

O corpo é uma engenhoca perfeita e nada é por acaso. Acredite nisso!

E você, o que faz para driblar a desmotivação e seguir treinando?

A mosquinha da corrida

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“Fui picada pela mosquinha da corrida”, escreveu uma amiga no Facebook, onde aparecia sorridente, lépida e faceira, abanando a bandeira do Brasil na empolgante Maratona Internacional de Punta del Este, que ocorreu no último final de semana no país vizinho. Assim como ela, que iniciou os treinos há poucos anos – incentivada pelo namorado, corredor experiente –, vejo cada vez mais a felicidade nos olhos de pessoas que descobriram, ao calçar um tênis e a trotar por aí, uma nova forma de viver, um estilo de vida mais saudável e feliz. Em Punta, onde participei do evento ao lado de mais de 800 brasileiros, pude perceber que esse é um caminho sem volta. Me enche de orgulho e satisfação de atestar o quanto estamos evoluindo para a valorização e consolidação desse apaixonante esporte.

Isso me faz lembrar de quando comecei a correr, ainda na década de 90. Nessa época, poucos se aventuravam em distâncias maiores, como a maratona e seus mais de 42 quilômetros. Quem corria com mais frequência pouco se aventurava a disputar provas, quiçá viajar centenas de quilômetros afim de levar para casa uma medalha.

Corríamos onde dava, de qualquer jeito, com o tênis que tínhamos. Treinador? Nem imaginávamos a possibilidade de ter um. Seria um luxo para atletas de elite. Planilha de treino, nem pensar. Há uma década, mais ou menos, que essa cultura começou a se disseminar no país com mais força, e, felizmente, hoje temos uma realidade favorável para qualquer um que aspire virar um corredor dos bons.

A corrida de rua no Brasil tem crescido em escala geométrica, e o Rio Grande do Sul figura como um dos Estados onde esse fenômeno tem sido notado com grande força. Para se ter uma ideia, hoje temos mais de 800 provas anuais pelos quatro cantos do país, e cálculos apontam que já são mais de 4,5 milhões de adeptos que fazem do esporte o segundo na preferência do público brasileiro, apenas atrás do futebol. Esse “boom”, além de fazer bem para a saúde de quem pratica, é um baita filão de mercado: o crescimento desse setor ultrapassa os 40% ao ano, bem acima de qualquer outra modalidade esportiva.

Ter mais disposição para o corpo e para a mente, preservar a saúde, manter a forma, proteger o coração, envelhecer bem, ampliar a rede de amigos e a visão de mundo, além de tantas outras vantagens. É, essa mosquinha é bem pegajosa. Espero que todos sejam picados por ela.

* Texto publicado no caderno Vida de Zero Hora no dia 28 de outubro de 2013