Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

Rockyman 2015: uma saga para os brutos

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Dois dias após retornar do Rio de Janeiro, onde disputei o incrível Rockyman - maior competição multiesportiva do País -, ainda sinto o cansaço de dois dias intensos de competição. Convidada pelo capitão Chico Santos, montanhista experiente, fiz parte da equipe carioca Terra de Gigantes, formada por atletas de ponta nas suas diversas especialidades: surf, skate, BMX, mountain bike, corrida de montanha, maratona e canoagem. Uma gauchinha perdida lá no meio das feras!

Equipe quase completa. Da esquerda para a direita, os apoios "Lobinho" e Edgar, eu, Chico Santos, Amarildo Ferreira e Kaique Milani

Equipe quase completa.
Da esquerda para a direita, os apoios “Lobinho” e Edgar, eu, Chico Santos, Amarildo Ferreira e Kaique Milani

 

O que vivi nas 48 horas de aventura jamais sairá da cachola. Os flashes passam na cabeça como num filme. Desde que cheguei, foi emoção à flor da pele: tantos as positivas quanto negativas. E o que mais ficou evidente – e é sobre isso que irei enfocar nesse texto – é a definição que temos de atleta. Conheci gente de todo tipo. Cinco das 20 equipes que disputaram o Rockyman 2015 eram estrangeiras. Só “galo cinza”. Gente altamente qualificada, muitos deles atletas com índices olímpicos. Campeões de carteirinha. Embora, em meio a eles, alguns maus exemplos tenham surgido.

Um deles foi infiltrado por azar do destino justamente na Terra de Gigantes. Não citarei nomes, embora deveria. Um sujeito, selecionado a dedo para desempenhar nas provas de surf e de skate simplesmente decidiu não ir de última hora. E aí que começaram os problemas. Você imagina: viajar centenas de quilômetros para participar de um dos mais cobiçados eventos esportivos realizados em solo brasileiro e ter que se conformar com esse fato, indesculpável. É o tipo de atitude antidesportiva e antiética, que veio como uma notícia-bomba duas horas antes da largada oficial, no sábado, dia 7 de novembro. Como fazer? Todos da equipe, atletas e staff de apoio, não sabíamos como resolver o pepino. O cidadão simplesmente desligou o celular. Arregou. Nos deixou na mão. E estávamos sem atleta para duas importantes modalidades.

Conseguimos um skatista para o domingo. No sábado, tentamos preencher o furo, mas não chegamos a tempo de entrar no mar (gigante, por sinal, com mais de 2 metros de ondas na Barra) com um substituto. O que fazer? Lamentar. E seguir o baile. Não tem aquele ditado: “se não há solução, solucionado está”? Na prática, é assim mesmo que funciona.

Minha participação na maratona foi bem abaixo do esperado. Não bastasse o desfalque, sofri um tombo feio no dia anterior, resvalando e caindo de costas numa escada lotada de lodo – o que me deixou com várias escoriações, a coluna com um “ovo” e as costelas doloridas. Fui no arrasto. Mas cheguei. Isso não seria o que nos afundaria. Tivemos a impressionante participação dos campeões Kaique Milani (um dos melhores atletas de BMX do Brasil, que voou no Parque Radical de Deodoro, onde ocorrerão as Olimpíadas do Rio 2016) e de Amarildo Ferreira (veterano na mountain bike, pura garra e dedicação), além do capitão Chico Santos, que sempre arrasa nas corridas de montanha e ama uma pirambeira. Pra essa turma, tiro meu chapéu. Só gente fina, bem humorada e no estilo “topa todas”. Não tinha tempo ruim. Todos se ajudando, apoiando os nossos e demais integrantes e competidores…amigos que já entraram pro lado esquerdo do peito.

No domingo, a competição de skate, eletrizante, contou com a boa vontade de um atleta que estava “passeando” no bowl da pista Rio Sul e topou a roubada de mandar ver ao lado de feras como Felipe Foguinho e Raul Roger Magalhães Baracho. Um show de talentos que jamais presenciei!

Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

 

Finalizamos remando 12 km juntos na canoa polinésia (uma das experiências mais loucas da vida, sem dúvida), correndo mais 13km rumo ao topo do Morro Chapéu Mangueira e descendo pela favela, em meio à comunidade – outro momento que me dá arrepios e que dificilmente viveria desse jeito se não fosse esportista. Nós lá, bem longe da primeira colocação, e uma menina puxa um coro, do alto de uma janela dum barraco:

- Já ganhou! Já ganhou!

Juro que fiquei com lágrima nos olhos. No fundo, no fundo, essa era a realidade. Apesar de todas as adversidades, todos tinham triunfado: acrescentamos, no frigir dos ovos, uma experiência indescritível no currículo.

Saio do Rockyman reforçando algumas de minhas várias convicções. Vamos a elas.

A primeira delas: para ser atleta, não basta praticar um esporte. É preciso dedicação, comprometimento, respeito e, além do corpo, uma cabeça saudável. Quando o cara nasce pra ser “loser”, não tem jeito. Pode treinar, participar de provas, até subir no pódio. Mas não vai longe. É o caso do nosso surfista furão, que deu um exemplo de como não agir – e está, ao meu ver, numa distância anos-luz de tal definição acima.

A segunda delas: é preciso dar o melhor de si, mesmo que as coisas estejam indo de mal a pior. Tem que ser bruto (na definição heróica da palavra). Não se acadelar com merreca. Tem dias bons, dias ruins, outros piores ainda. Eu poderia ter entregado o jogo e não completado a maratona, diante de um cenário tão intimidador – e das inúmeras dores do meu tombo. Mas fui até o final. Sabia que se não cruzasse a linha de chegada, não estaria cumprindo com minha palavra. E, como diz um amigo meu: “não é do meu biotipo desistir” (rsrsrsrsrs).

A terceira e última: somente o esporte nos proporciona experiências tão únicas. É preciso agradecer ao universo, a Deus, ou a sei lá quem você queira, pela oportunidade de ser atleta. Só porque corro, e dediquei anos e anos da minha vida à corrida, cheguei onde cheguei. É o tipo de experiência que nenhum dinheiro pode comprar. Só quem pratica algum esporte com tamanha paixão consegue entender do que estou falando.

Iria acrescentar uma quarta, mas essa não nem preciso repetir: a vida é boa. Acredite nela. ( :

 

 

 

Zica na maratona: quando tudo dá errado

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Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Sabe aquele dia em que as coisas insistem em conspirar contra o pobre cidadão? Quando nada parece encaixar. Quando a maionese desanda. O pneu fura. Você não vê a hora de acordar no outro dia, para acabar com a zica? Pois esse dia – ou melhor, noite – foi ontem, na Maratona Caixa de Porto Alegre. A prova noturna (na qual levei o troféu de campeã no ano anterior) parecia um pesadelo, daqueles que costumam fazer você encharcar os lençóis.

Apesar de não ter a pretensão de ultrapassar feras como a multicampeã Rosa Jussara Barbosa ou Gracielle Pedroso, fui correndo sem medo até meados dos quilômetros 23 ou 24. Quando tudo parecia estar bom demais para ser verdade, vou passar num dos postos de hidratação e esbarro, não sei porque, numa das mesas. Dois dos carbogéis que carregava saltaram da cinta. Fiquei com apenas um para todo o restante da competição (sendo que um dos 4 que levei já havia tomado). Péssimo. Tentei não me abalar demais com o fato.

Dois quilômetros à frente, porém, o guampudo montou na garupa. Comecei a esboçar sintomas de hipotermia. Tremia feito bambu verde. E o pior ainda estava por vir: uma indisposição intestinal (prenunciando o famoso “churrio”, na língua tosca) me deixou extremamente incomodada. Não dava, não havia jeito de passar. Resultado: tive que parar três vezes nos matinhos da Beira-Rio. Sorte que estava escuro.

Notei que não só para mim o dia não estava pra peixe. Vi muitas pessoas parando para se aliviar. Pelo menos meia dúzia de amigos confessaram ter recebido a visita do famigerado “piriri”. O que fazer? Maldita maldição!

Nunca, nessas duas décadas de corrida, passei por tamanho sufoco. Mesmo que jamais tenha abandonado uma prova, algo me dizia que deveria obedecer o corpo e sair pela tangente. O problema é a cabeça-dura aqui obedecer. Fui “escutando os sinais” e afrouxei o pé total. Pensei: completar, apenas completar, na boa, sem passar mal. Vamos ver se dá.

E deu. Cruzei a linha de chegada dos 43.200 metros do percurso (sim, erraram a marcação – corremos um quilômetro a mais) na quarta posição, com pouco mais de 3h20min no cronômetro. Que situação. Mas enfim, foi o que deu.

Taí o que deu pra levar pra casa - 4º lugar no pódio geral feminino

Taí o que deu pra levar pra casa – 4º lugar no pódio geral feminino

A conclusão? Tem dias que não dá. Mesmo que você treine, tenha experiência, vá com fé, animado, tenha “sangue nos óio” e tantas outras qualidades.

A vida é isso aí: feita de altos e baixos, de certezas e incertezas.

Saber tirar proveito e aprender com cada um desses momentos é essencial.

Vamos pra próxima!

* Parabéns a todos que completaram a Maratona Caixa do Rio Grande do Sul na noite desse sábado. E um “puxão de orelhas” na Latin Sports, que não entregou medalhas para os concluintes dos 43,2 quilômetros (confirmei no meu Garmin e no de muitas outras pessoas). Eu não dou lá tanta importância, mas penso em quem fez sua primeira maratona, treinou duro para tanto, e chegou em casa com um papelzinho chinfrim tentando justificar tal vacilada. Não sei se foi a fábrica de medalhas, o caminhão da transportadora, o Zé da Esquina. O fato é que pegou bastante mal.

Uma pena. Outro desrespeito aos atletas é errar o percurso: ninguém achou legal ter que fazer mais de 1.000 metros além dos 42,1. Não estamos falando de 200, 300 ou 600 metros. É um quilômetro de diferença. Francamente.

 

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

 

 

 

Turbine sua corrida treinando a mente

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Treinar-seu-cerebro

Treinadores esportivos das mais diversas modalidades são unânimes em afirmar que a mente de qualquer atleta deve ser preparada tanto quanto o seu corpo. É inegável a importância de estar forte por dentro e por fora para otimizar resultados e evoluir. Mesmo que a metodologia de treinamento físico esteja sendo aprimorada dia após dia, nada terá eficácia se não for trabalhado, em sinergia, os aspectos emocional e intelectual.

Basta observar os atletas que se destacam. Confiança, determinação, resiliência, coragem, paciência, dentre tantas outras qualidades, não surgem do nada. As maiores escolas e clubes mundiais têm hoje, em seu quadro de profissionais, psicólogos encarregados de “turbinar” o cérebro de seus talentos, desde cedo.

Para entender melhor do assunto, fui atrás de recursos para mergulhar à fundo nesse universo de preparação de atletas de alta performance. E descobri, entre tantas técnicas utilizadas, o EMDR. A sigla, que em inglês significa Eye Movement Desensitization, pode ser definida como “Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares” e foi criada por uma estudante de Psicologia, no final da década de 80.

O nome dela? Francine Shapiro. Sua descoberta foi meio por “acaso”. Francine estava caminhando pelo parque da cidade de Los Gatos, na Califórnia. Os pensamentos perturbadores que ela tinha, de repente, começaram a desaparecer. Quando ela voltou a pensar neles, se deu conta que já não incomodavam como antes. Aos poucos, foi percebendo que, quando um pensamento perturbador vinha à mente, seus olhos começavam a se mexer rapidamente. Parecia que os movimentos oculares conseguiam fazer com que o pensamento incômodo “saísse” da sua mente consciente. Quando voltava a pensar naquilo, tinha perdido muito da sua carga negativa.

Então, ela começou a experimentar deliberadamente, pensando sobre coisas do seu passado e presente que lhe incomodavam enquanto ela mexia os olhos. Todas as vezes que fazia isso a perturbação cessava. Decidiu descobrir se isso funcionaria com outras pessoas e, então, fez experiências com seus amigos. Pedia que eles seguissem o movimento dos seus dedos como uma forma de ajudá-los a manter os movimentos oculares enquanto eles estivessem pensando em coisas perturbadoras. Depois de experimentar com mais de 70 pessoas, foi confirmado que o processo tinha dessensibilizado os pensamentos perturbadores.

Francine foi aperfeiçoando a técnica e chamou-a de EMD, Eye Movement Desensitization e, em 1990, expandiu o conceito para EMDR, Eye Movement Desensitization and Reprocessing, para incluir o conceito de processamento e aprendizagem. Estava convencida que os movimentos oculares poderiam processar as lembranças traumáticas, libertando a pessoa para que pudesse ter condutas mais adaptativas e funcionais.

Em 1998, a Dra. Shapiro experimentou seu novo método com 22 voluntários, veteranos da guerra do Vietnã ou vítimas de estupro, ou abuso sexual, e que tinham os sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. A metade do grupo recebeu uma sessão de EMDR, enquanto que ao outro grupo (grupo controle) se pediu apenas que contassem o seu trauma em detalhe. O grupo demonstrou melhorias significativas; o grupo controle, não. Por questões éticas, depois se aplicou também a terapia EMDR com o grupo controle. Ao averiguar um mês depois e aos três meses depois do tratamento, todos os pacientes tinham mantido os resultados positivos da sua sessão de EMDR.

Uma experiência surpreendente

Interessada em aprofundar meus conhecimentos sobre o tema, fui atrás de um profissional que aplicasse tal método. E, há seis meses, virei “cobaia” no consultório de Maury Braga, que – além de psicólogo – é praticante de atletismo. No começo, achei meio estranho ser estimulada através do método, no qual você acompanha os dedos do terapeuta com os olhos e fala o que vêm a mente, elegendo, a cada série de sessões, um tema. Por exemplo: se vai correr uma maratona, é simulado o ambiente de competição, as sensações, as emoções. Em resumo, você antecipa o ambiente de prova e processa mentalmente tudo o que vai enfrentar.

 

Quando fui à Mizuno Uphill Marathon, nesse ano, consegui verificar in loco a eficácia do EMDR. Tinha feito uma maratona seis dias antes e me preparei, durante um bom tempo, para ter confiança para cruzar a linha de chegada. Imaginei o vento cortando meu rosto; a voz de incentivo dos amigos; o som das minhas passadas no asfalto. Simulei a prova “perfeita”. Me fortaleci.

Recursos como esses, ao meu ver, são essenciais para incrementar o treinamento e deveriam ser incluídos na agenda de todo corredor, do amador ao profissional. Temos dias bons, dias ruins, mas quem compete sabe que o dia “D” (da competição) é o momento em que nos definimos como atletas. Nesse momento, mostramos a nós mesmos, primeiramente, do que somos capazes de fazer. Porém, antes disso, precisamos de perseverança e, principalmente, de confiança para chegar lá.

Recomendo que cada um busque esse “treinamento” mental, visando sua meta, seja ela qual for: começar a correr, correr 10k, 21k, 42k ou uma ultramaratona. Não só um atleta, mas todo ser humano, só evolui de verdade se estiver forte por fora – e, principalmente, por dentro.

 

Quer correr bem? Aprenda, primeiro, a comer

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Tenho notado, ao longo dos muitos anos de convivência com atletas de todo tipo, a quantidade de corredores que não dão importância para a alimentação adequada. Algo aparentemente tão banal, o ato de comer tem ganhado status de “problema”. Dietas restritivas, aquém das necessidades de uma pessoa com intensa atividade física, são bem mais comuns do que parecem – assim como as hipercalóricas. O cara treina 5km e come uma feijoada e cinco quindins, tudo acompanhado de 4 litros de chope, afinal, ele “merece”. Sinal disso é a quantidade de competidores passando mal em provas de todas as distâncias, desmaiando, vomitando ou repletos de lesões e complicações derivadas da má nutrição.

Nos bastidores de um esporte tão saudável, há um “lado B” pouco divulgado e debatido. E não estamos falando em atletas de elite, aqueles que estão sempre no pódio e contam, muitas vezes, com um aparato maior de profissionais cuidando de sua performance. Menciono, sobretudo, os “atletas intermediários”: aqueles que já correm bem, evoluíram nas distâncias e tempos; são vistos como bons corredores e, aparentemente, exibem corpos esguios e típicos de quem treina há longa data. Na pilha de serem leves e ganharem alguns minutos, abdicam de tudo o que foram acostumados a comer a vida inteira. Já negam o sagrado churrasco nos finais de semana, cortam qualquer tipo de gordura e controlam obsessivamente seu peso na balança – ao mesmo tempo que aumentam o volume e intensidade da sua planilha semanal, como se tivessem nascidos quenianos.

Claro que comer “até o pé da mesa” é prejudicial. Ninguém quer incentivar o consumo desenfreado de calorias a torto e a direito. Porém, o equilíbrio não é lá uma fórmula tão fácil de se alcançar. O assunto aqui é correr melhor. E para isso, é crucial ter atenção redobrada nos detalhes. Ah, os detalhes…

Para saber mais a respeito do assunto, fui atrás de fontes e dados consistentes. Numa conversa com a amiga Cláudia Webber, nutricionista e corredora das boas, confirmei minha tese. Não raro, pipocam pacientes em seu consultório beirando a desnutrição. Correm em jejum e descuidam das refeições, com a fantasia de que “irão correr melhor” se privarem seu corpo de qualquer coisa além de um punhado de frutas e legumes.

“Treinar sem uma alimentação adequada é como correr de All-Star”, resume Cláudia.

Para ambos os sexos, os reflexos a pequeno, médio e longo prazo são inúmeros. Vão de efeitos como cansaço, falta de energia, câimbras, tonturas e desmaios a problemas mais sérios, como fraturas de estresse e lesões repetidas, entre outras enfermidades. Meses de déficit nutricional potencializam o desgaste excessivo, que vai se acumulando e tornando a recuperação e evolução cada vez mais difícil. É o momento no qual o treino se volta contra o corredor. Assim como dormir bem, comer bem é pilar essencial de qualquer atleta que busca performance e qualidade de vida.

Buscar um profissional capacitado – nutricionista ou nutrólogo – é o passo certo para quem não consegue adequar a sua alimentação às necessidades diárias de treino.

Janete Neves, nutricionista, aposta numa dieta baseada nos alimentos funcionais: aqueles que, além de nutrir, também contribuem para a manutenção da saúde, e têm um papel fundamental na performance. São eles os responsáveis por fazer o corpo produzir energia de forma mais eficiente, além de otimizar a recuperação após os treinos.

“Eles ajudam a evitar o overtrainning e a deterioração celular causada pela peroxidação de lipídios (ação dos radicais livres), melhorando o fluxo sanguíneo e, ao mesmo tempo, previnem lesões por sobre-esforço, muito comuns em corredores”, explica.

Segundo ela, a carência desses nutrientes causa um desiquilíbrio e o organismo deixa de aproveitar seu potencial, sentindo-se fadigado e indisposto com mais frequência.

No caso dos corredores, que sofrem uma grande perda de vitaminas e minerais em decorrência do desgaste físico, a necessidade nutricional é ainda maior.

 

OS MANDAMENTOS DA BOA ALIMENTAÇÃO PARA CORREDORES

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A pedido do Santa Corrida, a nutricionista e maratonista Cláudia Webber preparou um material bastante útil para os praticantes desse esporte.

“Tais mandamentos, numa leitura rápida, podem soar um tanto genéricos, mas são universais, ainda mais que o foco desse texto é a informação para a maior parte dos corredores de rua, amadores e que muitas vezes não contam com acompanhamento de profissionais da saúde”, resume.

Segundo ela, os dois primeiros mandamentos relacionam-se com a conduta do corredor no momento que antecede a prova.

“Ele deve optar sempre por alimentos já habituais na sua dieta (uma sugestão aqui seria manter um diário ou uma planilha alimentar, assim como fazem dos treinos, identificando o que é melhor para si); o terceiro mandamento está ligado com os dois primeiros: geralmente o jantar na noite anterior a prova pode ter um acréscimo de carboidratos e redução de proteínas, se a prova da manhã seguinte for longa, com previsão acima de uma hora de prova”.

Por fim, ela lembra:

“A corrida de rua reúne grupos de amigos, é uma festividade, mas qualquer exagero ou derrapada nesses momentos pode trazer consequências indesejáveis. Evitar jantares pesados, com gordura em excesso, bebidas alcoólicas, facilitam uma boa noite de sono e afastam desconfortos na manhã de uma competição, por exemplo”.

A hidratação, conforme explica Cláudia, deve ser analisada individualmente, mas alguns critérios podem ser utilizados pela maioria dos corredores de rua, tais como: ingerir de 1,5 a 2,5L de água pura por dia, utilizar isotônicos ou água de coco em dias mais quentes e provas mais longas, evitar o exagero de bebidas a base de cafeína, já que o café e o chimarrão desidratam, ao contrário do que muitos pensam.

E não é só na hora de competir que os cuidados devem ser tomados. Encerrada a prova, os cuidados continuam.

“Dê preferência a refeições completas e nutritivas (o básico mesmo, arroz, feijão OU uma massa, carne, frango ou peixe, vegetais e um suco de frutas geladinho. Falo sempre que um corredor amador deve ter mais cuidados do que um profissional, já que não conta com uma equipe de profissionais da saúde como um atleta de elite”.

Dicas sagradas

1º. Não comer demais antes de uma prova;

2º. Não jejuar ou comer de menos antes de uma prova;

3º. Não inovar na refeição em véspera de uma prova;

4º. Ter uma correta hidratação antes e durante a prova;

5º. Ter uma adequada recuperação muscular através da alimentação.

Assim como um automóvel (e embora essa vontade exista, não somos um jipe 4 x 4), precisamos de bom combustível para rodar sem problemas. Treinando, descansando e comendo bem, tenho certeza que vamos “virar a quilometragem” com energia e saúde para dar e vender.

 

 

Corrida: esporte para todos os pesos

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Basta checar os números e dar uma olhada a sua volta. Nunca o brasileiro esteve tão gordo. Conforme dados recentes do Ministério da Saúde, 48,5% da população está acima do peso. Ao mesmo tempo, jamais vimos tamanho crescimento da quantidade de corredores nos quatro cantos do país. Hoje, esse já é o segundo esporte mais praticado no País, só ficando atrás do futebol (se bem que acho que há mais gente que apenas “curte”o esporte bretão, mas não joga toda a semana…).

A verdade é que a figura do corredor de alta performance, magrelo, estilo queniano, forte e esguio, é rara nas ruas. Corpos mais roliços e menos privilegiados, digamos assim, são a grande maioria, sobretudo quando formos falar de quem realiza treinos e compete nos 3, 5 e 10 quilômetros. Há, é claro, os que encaram os 21 e os 42 quilômetros – e entram naquela lista dos que “apenas querem completar”. O número de maratonistas brasileiros cresceu mais de 40% de 2009 a 2014, mesmo que ocupemos a 33ª posição na lista de 47 países, no que diz respeito à performance. A média de tempo que um brazuca leva para completar a distância é de 4h21min, bem acima dos espanhóis (3h55min), por exemplo.

Ou seja: a esmagadora maioria corre porque se sente bem. Para socializar, conhecer gente nova. O valor social da corrida é inegável e é muito em função dele que os atletas amadores, magros e gordos, se juntam nas dezenas de provas realizadas todo fim-de-semana. A saúde e a boa forma figuram como fatores importantes, sem dúvida, porém dar aquele “upgrade” na qualidade de vida é o que faz a grande diferença.

Ser gordinho ou não? Esse parece não ser um detalhe primordial quando falamos em corrida. É possível, sim, estar acima do peso e fazer bonito nas pistas. Com orientação profissional e parcimônia (e desde que realizados todos os exames de aptidão física), há ganhos inegáveis em todos os aspectos. Sinal disso é que revistas de grande circulação e credibilidade, como a Women’s Running estão fugindo do modelo-padrão e já estampam, como na atual capa, modelos como a plus size Erica Jean Schenk, na foto acima, praticante desse esporte desde criança. Na reportagem, ela conta que “adora correr para relaxar e pensar na vida” e coloca o dedo na ferida de muita garota “instafitness”: “garotas de todos os tamanhos têm o direito se serem valorizadas pelo público e pela mídia”.

Vou concordar em gênero, número e grau com a Erica. Está cheio de gente magra e que de saudável não tem nada – tanto física quanto psicologicamente. A genética não favorece todo mundo, o que jamais poderá ser um fator impeditivo. Atingir grandes marcas, figurar no pódio é para a minoria. A maioria não dorme sonhando com isso. Quer mais é descontrair, ter mais energia, bater papo com os amigos.

Como escreveu o colunista da revista O2 Marcos Caetano:

Eu admiro profundamente os gordinhos que continuam correndo, mesmo sem emagrecer. Eles têm a alma de corredor. Correm contra os próprios limites, contra si mesmos e não por glórias. Correm mesmo sob gritos jocosos dos bocós sedentários nas provas: “Corre, gordinho!”, “Tá magrinho, hein, bolão?!”… Os gordinhos corredores — esses seres grandes de tamanho e imensos de caráter — não ligam para a crueldade do bicho homem. Apenas seguem, passo após passo, rumo à faixa final. Todo o meu respeito a eles, que estão em outro estágio de compreensão da importância do esporte e do valor da determinação. E, talvez exatamente por isso, mereçam ser chamados de homo sapiens“.

O mais belo desse esporte, ao meu ver, é o caráter democrático. Sem ele, não haveria tanta graça. Viver mais e melhor todos queremos: gordo, magro, alto, baixo, pobre ou rico. O universo da corrida é assim: leve, real e sem preconceitos.

 

 

Mizuno Uphill Marathon 2015: missão ninja concluída

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Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Inacreditável. Essa é a palavra que resume o que vivi na terceira edição da maratona mais difícil do País, a Mizuno Uphill Marathon, realizada na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina (RS) no último sábado, 1º de agosto. E eu explico o porquê dessa afirmação.

Não é apenas porque são 42,1 quilômetros de corrida morro acima, num ambiente nada acolhedor. Nem porque você deve vencer 256 curvas para chegar no topo, situado a exatos 1.418 metros acima do nível do mar, com um ganho de elevação de 2.425 metros. Nem porque, dessa vez, a corrida foi realizada no final da tarde e ao longo da noite, quando você mal sabia onde estava pisando.

O que jamais esquecerei – e o que torna essa missão “ninja” – foi meu estado de ansiedade e insegurança ao saber o que enfrentaria pela terceira vez, já que participei das duas outras edições, com o detalhe de que havia corrido uma maratona há exatos seis dias. Isso mesmo. No domingo anterior, havia concluído a Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, e minhas pernas estavam ainda moídas. Mesmo que tivesse “segurado” a onda e feito a prova em 3h19min, sabia que vencer a insana Serra do Rio do Rastro era loucura nessa altura do campeonato. Uma verdadeira insanidade.

Nessa hora que vem a força do que, acredito, seja o maior patrimônio de todo corredor: a mente. Essa força interna que nos move e faz com que a gente siga adiante e supere os limites. Porque sim, há muito mais entre o céu e a terra e uma planilha de treinos e uma sessão de tiros na pista. Não compreendemos. Apenas sentimos.

O primeiro fator para que o plano “duas maratonas em seis dias” desse certo foi a parceria de amigos que viajaram para a odisseia comigo. Não citarei os nomes. O que sei é que mais de uma dúzia deles transformou o que seria um martírio numa festa jamais vista. Brincamos, pulamos, tiramos onda um do outro desde o dia anterior da competição, deixando tudo leve e repleto de vibrações positivas.

O segundo grande propulsor foi o contexto da Uphill. Todo o clima criado pela organização da prova (Mizuno + X3M, impecáveis em todos os quesitos) entrou em harmonia com a energia dos mais de 500 atletas inscritos, vindos de todas as partes do Brasil. A cidade de Criciúma, ao Sul de Santa Catarina, virou QG de gente apaixonada, simplesmente fissurada pelo esporte. Tenho certeza da extrema relevância da corrida na vida dessa gente que aceitou encarar o desafio. Se inscreveu, lutou por vagas que duraram cinco minutos na internet para esgotar. Pagaram para “sofrer”. Porque sabiam que, mesmo que seja história pra boi dormir, acreditamos piamente no tal de pote de ouro no final do horizonte.

Não posso deixar de citar meu “lastro” de corredora para que eu não só finalizasse – mas faturasse, mais uma vez, um dos cobiçados troféus da prova. Dessa vez, figurei como vice-campeã, atrás somente de Carla Moreno, triatleta profissional. Carla, que tem a minha idade (38 anos), já participou de duas olimpíadas (Sidney/2000 e Athenas/2004) e de três Panamericanos. Só isso. Essa sim é lenda. Respeito total desde sempre por ela, que merece o lugar mais alto do pódio, sem nenhuma discussão. Finalizei o percurso em exatas 4h e 3 segundos, 13 minutos abaixo do ano passado. Dos 495 concluintes, fui a 43ª colocada – sendo 42 homens e uma mulher.

A PROVA

A prova, ao meu ver, foi a mais fácil das três edições, apesar de todas as circunstâncias. Isso falando em termos climáticos, não considerando o nível dos competidores – esse sim, foi o mais elevado. Tanto que foram batidos os dois recordes (Carla, em 3h40min, e Marcelo Rocha, em 3h12min). O clima estava perfeito (nada de vento, nada de chuva, nada frio, quente mas suportável). Diante das demais (frio na primeira e tempestade na segunda), barbada. Quem foi ano passado sabe do que estou falando.

A escuridão foi o diferencial – mas não considero um fator que possa ter atrasado a chegada de qualquer corredor experiente. Ainda mais se formos falar em montanhistas. Creio que não enxergar nitidamente o “dragão da Serra”, sobretudo a partir do quilômetro 30, ameniza a situação. Visualizar o que temos que, literalmente, escalar até a linha de chegada, em Bom Jardim da Serra, conforta bem mais.

Resumindo: a Uphill de 2015 foi perfeita. O astral da prova é indescritível. No sábado à noite, quando cruzei o pórtico, às 20h30, passei pelo corredor humano dos últimos 50 metros, fechei os olhos, abri os braços, com lágrimas nos olhos, e só pude agradecer: “obrigada, meu bom Deus”!

A todos que enfrentaram a Mizuno Uphill Marathon 2015, meus parabéns. Essa é pra quem é osso duro de roer.

Para quem deseja fazê-la, meu incentivo extra. Experimente. Valerá cada passada.

Não sei se posso me considerar uma “ninja”. Mas que senti um clima de “Karatê Kid” na chegada….ah, isso senti. No caso, o tal de Senhor Miyagi acenou positivamente com a cabeça. Missão cumprida, Dani San.

 

Podio

 

Maratona do Rio: bela, grande e para os fortes

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RIOOO

Vinte e quatro horas após finalizar a Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro, realizada ontem, 26 de julho na Cidade Maravilhosa, relembro  tudo que vivi nas 3 horas e 19 minutos. A prova, considerada a mais importante do país, me deixou de boca aberta boa parte do tempo. Nunca senti tanta emoção correndo. Além da paisagem magnífica – corremos todo tempo contemplando a faixa litorânea -, há uma multidão vibrando nas ruas, numa festa imperdível e de arrepiar até o último fio de cabelo.

Ao todo, somente nos 42k, foram mais de 5 mil concluintes, número que coloca o evento no topo do ranking em solo brasileiro. No evento todo, são cerca de 26 mil pessoas, inscritas na maratona, meia maratona (21k) e Family Run (6km). A cidade congela para apreciar o oceano de gente de tudo quanto é tipo, dos iniciantes à elite que chega para dar show. A alegria, estampada no rosto de todos na linha de chegada, é mesclada com a expressão de dor ao longo do trajeto, nada “barbada” como  alguns imaginam.

Minha experiência foi incrível. Mesmo que não tenha feito um tempo megablaster (já que o convite para corrê-la ocorreu pouco tempo antes e coincidiu com outra prova do meu calendário), posso afirmar sem medo: a Maratona do Rio entrou para o meu coração como se fosse a primeira. Chorei em vários trechos. Como o do Túnel do Joá, quando visualizei o triatleta José Rosa das Neves levando seu filho, que nasceu com hidrocefalia, num carrinho. “Viva a amizade!”, gritava ele. Eu aplaudi. Visualizei a expressão de felicidade  do garoto, vibrante, e me fui com lágrimas nos olhos. Nessa hora, a força surge do nada. Quando você tenta desanimar, lá vem uma cena dessas: ou é turbinado pelo aplausos dos cariocas, ou “empurrado” pelas palavras de incentivo dos demais corredores. “Força, guerreira!”, ouvi muitas vezes. Noutras, morri de rir com tiradas como “tá doendo tudo mas tá bom demais!”. E não acreditei quando a triatleta Fernanda Keller falou “vamos lá! está muito bom o ritmo!” no quilômetro 17. Bem que ela podia aparecer no quilômetro 36, não?

Não sei descrever com maestria a sensação de entrar no corredor da linha de chegada, no Aterro do Flamengo. Você sai do ar. É tanta gritaria e zoeira que não se sente as pernas, nem os braços, nada. O coração quase pula pela garganta. E o pórtico demora a ser visualizado. Resumindo: os 42k da Maratona do Rio são grandões. Tão gigantes quanto a beleza da paisagem. Paisagem essa que ameniza, porém não isenta os atletas de muito esforço. É preciso ter pernas fortes e bastante treino.

divulgacao

Gostaria que todos pudessem ter o privilégio de conseguir levar para casa emoções como essas. Impossível não elevar as mãos aos céus e agradecer por ser maratonista. Ontem, ao olhar para aquele marzão maravilhoso, para aquela paisagem estonteante, fechei os olhos e lancei um “obrigada, meu Deus”. Como prega aquele ditado, “depois do quilômetro 35, não tem ateu”. No Rio de Janeiro, desde os primeiros 100 metros, impossível não crer que ele exista.

* Concluí a maratona em 3h19, figurando na 19ª colocação geral feminina e 2ª na categoria 35-39 anos, atrás da norte-americana Jamie Dawes. Fui a 14ª brasileira a concluir a prova. Ao todo, foram 1.164 mulheres que fizeram os 42k. O troféu virá pelo correio, em breve, já que não pude comparecer à cerimônia de premiação. Prometo que tirarei uma foto dele para vocês. ( :

Agradeço imensamente à Olympikus pelo convite para testar o modelo de tênis Rio 3, lançamento da marca.

Um obrigada a todos que torceram por mim e parabéns a todos que cumpriram seus objetivos no domingo. Aplausos extras aos organizadores, que foram impecáveis em todos sentidos.

 

Retomando os treinos: como voltar à forma sem drama

Publicado por | Gente que corre | Um Comentário

Dificilmente, um corredor mais experiente não conta na sua trajetória um tempo parado. Lesões, trabalho, viagens, estudos, família, filhos, doenças…enfim, uma infinidade de motivos e até “desculpas” são usadas para essa pausa. A intenção desse texto não é puxar as orelhas de quem deixa de se exercitar, por quaisquer fatos. É deixar claro que sim, é possível – e necessário – retomar a corrida assim que a poeira baixar.

Devemos ter em mente que o corpo é altamente adaptável. Assim como ele acostuma a ficar na inércia, acostuma a se mexer diariamente. O que importa é a atitude de jamais deixá-lo muito tempo na primeira situação que, comprovadamente, traz inúmeros malefícios ao corpo e à mente.

Conheço pessoas que começaram a correr, se apaixonaram pelo esporte e “puf!”, num passo de mágica, pararam e jamais recomeçaram. Em comum a todas elas, um profundo arrependimento. Se você teve (ou quis) parar por um tempo, seja ele qual for, saiba que é possível, sim, retomar os treinos e voltar ainda mais forte do que antes. Como? Ah, esse é o segredo!

Ter calma, parcimônia e muita persistência são regras básicas. Assim como iniciar qualquer atividade física, a prática requer habilidades, sim, mas muita perseverança e pensamento positivo. O corpo sentirá o “baque” dos meses sem fazer nada e pedirá água. Natural que ele queira sabotar você o tempo todo. Nessa hora, é preciso ter jogo-de-cintura para seguir com perseverança.

Li uma entrevista recentemente com uma treinadora de Los Angeles chamada Marissa Tiamfook. Ela falou algo com o que concordo:

“Você não deve se sentir culpado. Concentre-se no fato de que quer retornar e não se preocupe com a velocidade no início. É normal a gente se sentir pesado, com uma tonelada em cada perna…mas é um processo natural. Saiba que todos passam por isso. E conforme os treinos vão evoluindo, seu corpo voltará ao ritmo”.

Fugindo das lesões

A palavra “lesão”, ao lado da desmotivação e da preguiça, figuram no topo do ranking das palavras mais temidas por qualquer corredor em fase de reinício. Claro que isso não deve ser ignorado. Para tanto, a orientação de um profissional capacitado, no caso um professor de educação física, torna-se essencial.

O fortalecimento do corpo deve ser encarado como prioridade, de forma gradual e de acordo com cada caso. Outro ponto ressaltado por especialistas nessa fase é a avaliação da condição aeróbia básica, ou seja, o desempenho do coração e do pulmão. Saber a frequência cardíaca é um parâmetro referencial importantíssimo, com o qual o treinador terá condições de fazer seu “motor” funcionar a pleno vapor novamente em segurança.

Claro que nada são flores. Quando eu falo com quem está nesse momento, sempre tento ajudar falando que nada é definitivo. Essa dor do recomeço passa. E os treinos pesados do início fazem parte do processo. Ou achou que ia ser fácil? Ficar sem treinar não tira como mágica o lastro do corredor, mas jamais você recuperará em um mês a performance desmanchada ao longo de meses off.

Para deixar todo esse discurso mais “humano”, pedi para dois corredores contarem como foi sua retomada às pistas. A primeira entrevistada é a médica Juliana Kratochvil, de 36 anos, que deu um tempo em função da maternidade. O segundo é o campeão da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) André Reinert Brüch, engenheiro civil de 29 anos, que decidiu parar para dar um gás no lado profissional.

Ambos revelam como fizeram para seguir firme nos treinos após meses sem calçar os tênis de corrida e, atualmente, se preparam para novos desafios ainda mais fortalecidos. Confira!

“O esporte não pode ser secundário”

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação na Rústica de Estrela

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação de 3ª colocação na Rústica de Estrela (RS)

1)      Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Iniciei em 2012, procurando complementar a musculação com algum esporte que me envolvesse principalmente com a natureza. Logo fiquei superempolgada em superar minhas próprias dificuldades. Sempre achei que não conseguiria ter condições físicas para correr!

Aos poucos, fui me empolgando e seguindo a conquista. No início, não tive uma orientação tão focada na corrida e me mantive num treinamento mais misto com a musculação, na academia.

2)      Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Fiquei parada 11 meses, incluindo a gestação e mais 2 meses após a cesárea. Atualmente, minha maior dificuldade é na logística dos cuidados com meu filhinho de 1 ano e 4 meses!

3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Conto com meu marido, que é bem parceiro nos cuidados com o baby e um grande estimulador dos meus treinos. Também tenho suporte de uma funcionária uma vez por semana e de amigas queridas. Às vezes, em razão dos horários do trabalho de médica, a planilha de treinamentos acaba ficando prejudicada. Daí não tem jeito: temos que adaptar com o treinador.

4)      Como você costuma se preparar para as provas? Qual sua próxima meta?

Sempre traço um objetivo de provas e distâncias conforme minhas condições de treinamento para aquele período. Refaço as planilhas a cada dois ou três meses. Meu grande sonho é  correr uma meia maratona, e estou muito contente, pois estou muito próxima de realizá-lo.

5)      Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Amor, foco e, principalmente, colocar o esporte como prioridade. Não deve ser algo secundário, senão a coisa não anda!

6)      O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

Começar! O retorno é bem mais tranquilo, pelo menos para mim. Já tinha uma memória corporal. Só precisei melhor o condicionamento físico.

7)      Qual o significado da corrida em sua vida?

É fazer amigos, curtir a natureza…ter a sensação de superação e claro, manter a saúde!

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“Determinação e disciplina valem para tudo”

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

1)  Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Eu comecei a correr aos 14 anos com objetivo de perder peso. Nunca mais parei. A corrida foi realmente o esporte que se encaixou bem ao meu estilo de vida. Sempre mantive certa regularidade com as corridas, mas como o objetivo era só a saúde, não me preocupava muito com a evolução nos treinos. Apenas saía de casa e ia correr, entre 30 minutos e 1 hora.

Em 2007 estreei nas corridas de rua, participando de um octeto na Maratona de Porto Alegre, e então passei a procurar mais informações sobre treinamento. Também passei a participar cada vez mais dos eventos de corrida. Em 2009, resolvi correr minha primeira maratona, no Rio de Janeiro. Foi durante os treinos preparatórios para a maratona que eu encontrei o que eu realmente gostava de fazer: correr longas distâncias. Ainda em 2009, experimentei minha primeira corrida trail, fazendo o trecho do Vale da Ferradura, em Canela, durante a Gramado Adventure Running. A partir de então, comecei a focar em provas de trail run de longa distância.

2)    Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Regularidade eu sempre tive porque sempre gostei de correr. Quando não tenho um objetivo específico, me mantenho correndo sem muito compromisso, como fazia antigamente. E aí, é claro que perco bastante condicionamento. Mas acho saudável tirar o pé do acelerador com os treinos de vez em quando, tanto para o corpo quanto para a cabeça.

A parte do desafio e da superação dos próprios limites é algo que também gosto muito, então procuro sempre ter um objetivo novo para criar um compromisso com os treinos (principalmente os treinos de tiro, que não gosto de fazer). Procuro escolher 3 provas alvo por ano, montando meu planejamento de acordo com elas, e as vezes incluindo uma ou outra prova menor para manter a motivação e o contato com a galera da corrida que não costumo encontrar no dia a dia.

 3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Como não sou casado e nem tenho filhos, não tenho dificuldades em relação a casa/família. Durante a semana gosto de treinar no final do dia, uma vez que já cumpri com todos os meus compromissos. Treinando no final do dia consigo quebrar o ritmo de trabalho e descansar a cabeça. Já no final de semana é o contrário: gosto de fazer os treinos longos no sábado de manhã. Assim, fico livre para aproveitar o almoço em família, podendo comer e beber a vontade. Também posso fazer algum programa a noite sem me preocupar em ter de levantar cedo para fazer o longo no domingo, como a maioria que eu conheço faz.

4) Você foi campeão da TTT há dois anos. Como foi sua preparação para essa prova?

A preparação foi bem tranquila. Muitas pessoas acham que pra fazer uma prova dessas a pessoa tem que abrir mão de muita coisa, compromissos familiares, sociais…e não é bem assim. O volume e a adaptação do corpo é algo que acontece com o tempo, com a experiência, e essa já era a minha 4ª participação individual na TTT.

Para esta edição eu já vinha de um ano forte em função de outras provas, e o foco na TTT foi apenas durante os meses de novembro e dezembro (no início de janeiro já estava baixando o volume). Então o que fiz basicamente foi aumentar o volume semanal, e direcionar os longos para a TTT: fazia os longos na praia, começando em torno das 10h, para me adaptar ao terreno e a possível alta temperatura no dia da prova. Nesta fase, foram 8 treinos longos aumentando o volume progressivamente, e 3 treinos longos baixando o volume, até a prova.

5) Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Acho que determinação e disciplina. E isso vale pra tudo, não só para o esporte. Determinação para estar disposto a fazer o que tem que ser feito. E disciplina para fazer da forma correta.

6) O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

O grande problema para retomar os treinos após uma pausa significativa é que nos frustramos com a perda de performance que esta pausa proporcionou, e isso acaba abalando bastante o emocional durante a retomada, dando uma certa preguiça para trilhar todo o caminho novamente até atingir o condicionamento que perdeu. Mas quem já treinou bastante e está voltando de um tempo parado conhece o caminho que precisa percorrer para atingir seus objetivos. Daí, basta manter o foco novamente. Além da memória muscular do corpo, que facilita a retomada.

Por outro lado, para quem está começando, cada degrau que a pessoa sobe no seu condicionamento físico é uma vitória, uma superação, e acho que a pessoa se motiva mais facilmente. Penso também que o iniciante é mais aberto a aprender as técnicas de corrida e os diferentes treinamentos que o seu professor passa, já que ainda não desenvolveu seus hábitos e manias.

No entanto, pelo que sempre observei, o grande problema com atletas iniciantes é conseguir segurar o seu ímpeto e conscientizá-los de que a evolução deve ser gradual, para que todo o corpo possa se adaptar ao treinamento, evitando o desenvolvimento de lesões. Por este motivo eu creio que para uma pessoa com certa experiência retomar os treinos é mais simples do que para uma pessoa inexperiente iniciar no esporte, pois o primeiro conhece melhor o seu corpo e os seus limites, o que ajuda na evolução dos treinamentos e na prevenção de lesões.

7) Qual o significado da corrida em sua vida?

Correr é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Corro há 15 anos e pretendo continuar correndo a vida inteira, conhecendo novos lugares, me propondo e superando desafios cada vez maiores e mais difíceis. Correr me possibilita descarregar todo desgaste psicológico/emocional do dia a dia. É uma válvula de escape muito potente para mim.

Quando faço treinos longos eu realmente desligo a cabeça. Às vezes, 2 horas se passam durante um treino longo e nem percebo. O corpo faz tudo no automático: olho o relógio, me alimento, cuido onde vou pisar, mas a cabeça fica longe, viajando. Coisa boa que é botar uma mochila com água e comida nas costas e sair pra correr durante horas.

 

 

Pipoca ou bandido?

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pipoca

Quinta-feira, meio-dia. Visualizo um post de Gustavo Maia, de Jundiaí (SP), corredor e organizador de corridas de rua. No texto dele, uma defesa de quem está do lado de trás do balcão. Ele organiza um evento noturno na cidade. E é enfático.

“Reunir tanta gente em torno de um esporte, requer muito trabalho, muita atenção aos detalhes e principalmente, muita calma e paciência. Afinal, como qualquer procedimento que envolve uma venda e um consumidor, não pode haver falhas. Mais: a despeito da relação comercial, é imperativo pensar que a reunião de pessoas em torno de uma prática esportiva pode ser perigoso. Ambulâncias, médicos socorristas, enfermeiros e equipes de apoio devem estar a postos para evitar quaisquer eventualidades, sempre priorizando a segurança dos atletas”.

Parei e pensei. Ele organiza corridas. Está defendendo seu ponto-de-vista. OK. Nada mais natural. Porém, nunca tinha parado para analisar a quantidade de fatores envolvidos numa corrida de rua. E aí, ele elucida de forma extremamente clara.

“Quer um troféu imponente e uma medalha bonita, para ele pendurar na prateleira. E por tudo isso, ele quer pagar bem barato. Quem não quer? Eu também quero. Agora vamos fazer uma conta matemática simples. Tomemos por base o kit desta prova de hoje. Dentro da sacola plástica de 50 centavos, cada corredor leva pra casa uma camiseta de R$ 25,00, um par de meias que custaria cerca de R$20,00, mais uma toalhinha de cerca de R$ 10,00 e um vale sorvete, um vidro de vinagre balsâmico, um vale de sete dias para treinar na principal academia da cidade (1/4 da mensalidade de 129 reais); cerca de R$32,00. Um gel de carboidrato de R$ 5,00. Sem falar que em cada sacolinha ele ainda ganha um numeral de peito personalizado, com um chip de cronometragem que não sai por menos de R$6,00 por dia de aluguel. Só no kit do atleta então, gastamos até agora cerca de cem reais.

Aí, temos que começar a contabilizar a prova em si. Afinal, não é só de kit que se faz uma prova: Seguro de responsabilidade civil. Seguro dos participantes (ambas obrigatoriedades da federação de atletismo). Taxa da Federação, fiscal com moto, aluguel de pórticos, grades, backdrops, pódio, som. Aluguel das ambulâncias, do locutor, dos banheiros químicos, dos cones, das barracas de guarda volume, das tendas médicas, da cronometragem. Transporte de todo o material para a largada e, antes disso, para a entrega de kit. Ainda tem os gastos com a empresa que vende as inscrições, com a agência que produz os logos, com os outdoors que divulgam o evento para a cidade. Os gastos com o vídeo promocional, com os cartazes, filipetas, email marketing. Os custos com as faixas que avisam da interdição da avenida, assim como as placas de desvio do trânsito. Sem contabilizar a hora extra do funcionário do Trânsito (esta, absorvida pelo apoio da Prefeitura) das pessoas envolvidas no preparo deste evento, que passam o feriado trabalhando para que os corredores desfrutem desta engrenagem…”

POLÊMICA FORTE

Gente, como não pensar nisso? Como não questionar?

Resolvi fazer uma enquete. Em menos de 12 horas, mais de 70 comentários no Facebook me deixaram tonta. As opiniões foram deveras divergentes. Minha indagação foi: Você já correu de “pipoca”? Você acha essa atitude correta? Justifique”. Muitas das respostas se resumiam às seguintes frases: “as provas são caras”, “a rua é pública”, “não vou atrapalhar”, “não usufruo da infraestrutura da prova, como hidratação”, “não cruzo o pórtico de chegada e não pega medalha”, “vou só para acompanhar”, entre outras justificativas.

O que será, afinal, que está em questão?

Ao entrevistar treinadores, organizadores de prova e atletas que participam de provas frequentemente, não obtive um veredicto. Os que defendem a participação em eventos sem número acreditam que isso é algo irrelevante, que jamais serão notados ou punidos por tal prática. E, no caso dos treinadores, há uma saia-justa clara: como impedir que seus alunos frequentem a barraca da assessoria, estejam treinando mas não inscritos?

Tauro Bonorino, educador físico de larga experiência, atleta de primeira, dá sua opinião.

“Se fomos considerar que é um evento, destinado a pessoas que se inscreveram pra ele, não é correto. Por outro lado, os altos custos das inscrições contribuem para que os corredores resolvam “correr por fora” ou por dentro mesmo. Também o fato de não podermos impedir o principal direito constitucional (de ir e vir) seja exercido. Claro, o “jeitinho brasileiro” acaba sendo utilizado em alguns casos, quando pessoas que não pagaram, usam de toda a estrutura e ainda pegam a medalha de finisher. Sendo assim, sou da opinião de que o atleta que não se inscreveu tem o direito de correr no percurso, pois a organização não é dona daquele espaço. Também não acho problema ele pegar água, pois não se nega isso nem a um inimigo, pois normalmente chegam a sobrar caixas dela. Porém, não concordo quando o “invasor” atrapalha outros corredores e no final entra na arena para receber medalha”.

Há, porém, os que são totalmente contra a prática. É o caso de Harry Thomas (SP), um dos mais influentes blogueiros do país, fundador da WebRun e criador da RunningNews:

“Compito desde 1994 e NUNCA corri de pipoca. Acho a pratica totalmente errada. E não há nenhuma justificativa convincente para que seja usada de desculpa para os que defendem os “bandits”. Um exemplo claro que ela é ilegal? Na Corrida de São Silvestre, milhões de pessoas assistem pela televisão os batedores de caminho da PM tirarem os pipocas que aparecem ao lado dos líderes”.

Harry se refere aos “bandits”: nos Estados Unidos, qualquer corredor sem número é considerado um pirata. No Brasil, ainda é uma prática corriqueira, defendida por muitos.

Minha posição? Não pulo muro de festa. Não entro em festa na qual não sou convidada. Adoro ter meu número no peito e brigar por ele.

Não sou arroz-de-festa e se quero treinar forte, elejo percursos alternativos e muito mais produtivos. Para mim, treino é tarefa de casa.

Respeito todo corredor que sai de casa cedo para treinar: mas convenhamos, há muitos mais trajetos do que a Beira-Rio, por exemplo, às 7h da manhã dum domingo.

O que vale é correr sempre. Se você é pipoca ou não…detalhe ético/cultural. Enfim.

Sabe o que importa? O amor pelo esporte. Ninguém está cometendo crime algum. Apenas vamos deixar claro nossa real intenção. O espírito da corrida: democrática, apaixonante…e nada xiita.