Suplementar ou não: eis a questão

Publicado por | abril 20, 2014 | Nutrição esportiva | Nenhum Comentário

suplemento

Para quem começa a intensificar os treinos, difícil não ter dúvida sobre a utilização de suplementos para otimizar os resultados. Muito comum entre o pessoal “que puxa ferro” nas academias, essas substâncias já foram muito confundidas com “bombas” e totalmente criticadas por nutricionistas e médicos. Porém, felizmente, a realidade mudou, e muito. Isso devido a tecnologia dos novos produtos e a melhor disseminação de informações sobre sua composição, uso, indicação e resultados – além, é claro, de uma intensificação na fiscalização pela Anvisa (que inclusive tirou do mercado uma série de marcas nos últimos meses, após denúncias de composição não condizente com as informações exibidas nos rótulos) . Hoje, atletas de diversos níveis de perfis e condicionamento conseguem obter ganhos expressivos, complementando sua dieta diária e usufruindo, no caso dos corredores de alto rendimento, como maratonistas, ultramaratonistas e triatletas, de uma recuperação muscular eficaz e segura.

Para entender um pouco mais sobre o assunto, convidei uma nutricionista especialista no tema: Débora Finger, que além de estudar muito sobre nutrição esportiva, é vice-campeã estadual de duathlon, tendo conquistado seu último título em 2013.

Confira!

 ENTREVISTA – Débora Finger, nutricionista e atleta

de

 

Santa Corrida – Quando é indicado, em termos gerais, usar suplementos?
Débora Finger - Suplementar, não suplementar, o que suplementar…essa tem sido a grande discussão atualmente. A finalidade da suplementação é reforçar e/ou complementar a dieta alimentar, principalmente de esportistas e praticantes de atividades físicas. O desgaste físico provocado pelo exercício torna indispensável uma alimentação balanceada para repor os nutrientes perdidos, além de manter o indivíduo sempre disposto e forte para os treinos. O suplemento pode significar uma forma mais conveniente de você oferecer algum tipo de composto ou nutriente.
É imprescindível, no entanto, fazer uma avaliação pessoal, analisar a alimentação, rotina e intensidade de treinamento de cada indivíduo, antes de se iniciar o uso de uma suplementação. Deve-se ter cuidado e cautela na escolha dos produtos, bem como de suas doses e o momento de tomá-los.

SC – Quer dizer que a suplementação deve ter uma justificativa?
Débora – Sim. A suplementação deve ser justificada. Sempre. Em muitos casos, o suplemento torna-se fundamental, como, por exemplo em atletas de alta performance, que possuem um gasto calórico muito elevado e a alimentação sozinha, muitas vezes, não consegue suprir as necessidades energéticas ou proteicas. O uso deve ser indicado por um profissional capacitado para tal, a fim de evitar o consumo superior às necessidades e garantir escolhas corretas. Além disso, alguns suplementos que são vendidos indiscriminalmente no mercado podem conter substâncias ou ingredientes não seguros para o consumo, ou, ainda, podem ser vendidos mesmo não estando regularizados junto à Anvisa.
Atletas que desejam usar suplementos devem considerar sua eficácia, seus custos e o risco para a saúde. Infelizmente, carecemos de estudos científicos. E a discussão não se encerra nos atletas de elite. O principal problema está nos amadores, o pessoal que frequenta academias e que pratica esportes esporadicamente. Esse é o grupo que menos precisa e que mais consome. O suplemento é uma solução rápida e instantânea, mas não deve, de forma alguma, ser utilizado para substituir refeições. É importante acompanhar sempre as recomendações elaboradas pela ISSN (International Society of Sports Nutrition).

Santa Corrida – Há uma certa “febre” no uso de produtos como o whey protein e o BCAA. Qual a realidade dos benefícios comprovados do uso deles?
Débora – O whey protein é o “queridinho” da nutrição esportiva e, muito provavelmente, o suplemento de uso mais prevalente atualmente.
Nas últimas décadas, numerosas pesquisas vêm demonstrando as qualidades nutricionais das “proteínas solúveis do soro do leite”. Essas proteínas, que durante décadas eram dispensadas pela indústria de alimentos, são extraídas mais comumente da porção aquosa do leite, gerada durante o processo de fabricação do queijo. Outras fontes podem ser utilizadas, como a soja e a carne bovina.
Evidências recentes sustentam a teoria de que o “whey”, além de apresentar um excelente perfil de aminoácidos, caracterizando-o como proteína de alto valor biológico (contém todos os aminoácidos essencias – aqueles que nosso corpo não é capaz de produzir e precisam vir da dieta), possui diferentes propriedades funcionais. Os aminoácidos essenciais, com destaque para os de cadeia ramificada, favorecem o anabolismo, assim como a redução do catabolismo protéico, favorecendo o ganho de força muscular e reduzindo a perda de massa muscular durante a perda de peso. O alto teor de cálcio favorece a redução da gordura corporal. Melhoram, também, o desempenho muscular, por elevarem as concentrações de glutationa, diminuindo, assim, a ação dos agentes oxidantes nos músculos esqueléticos. Exercem papel importante no controle da pressão sanguínea e como agente redutor do risco cardíaco.A suplementação com whey protein após exercícios físicos favorece a recuperação e a síntese protéica muscular. Além disso, quanto menor o intervalo entre o término do exercício e a ingestão protéica, melhor será a resposta anabólica ao exercício.

SC – Qual a principal diferença entre os diferentes “wheys”?
Débora – Três tipos podem ser encontrados no mercado: concentrado, isolado e hidrolisado. A escolha vai de encontro ao objetivo e ao estilo de vida do indivíduo. O concentrado geralmente é indicado para pessoas que não tomam leite e, portanto, ingerem pouco cálcio. O whey isolado não contém qualquer outra substância além da proteína e é utilizado para hipertrofia pesada e emagrecimento. Já o hidrolisado é o menos alergênico, mas com um custo mais elevado. É utilizado principalmente para atletas que tem intolerância à lactose, mas precisam de um aporte proteico em função dos treinamentos. Independentemente do tipo, a dose não deve exceder 25g de proteína e ele deve ser ingerido com água, de preferência gelada.

SC – E o famoso BCAA? Realmente adianta?
Débora - Existem pouquíssimos estudos que mostram benefícios da suplementação de BCAA (aminoácidos de cadeia
ramificada: leucina, isoleucina e valina). Nas diretrizes o grau de recomendação e o nível de evidência são sempre baixos. Se for oferecido, a dose deve ser de 2-4g/dia e a relação leucina-isoleucina-valina não segue o princípio de “quanto mais melhor” e deve ser na proporção 2:1:1.

SC –  Quais os problemas que atletas podem ter ao usar essas substâncias sem orientação?
Débora - A dose da suplementação deve ser calculada para cada caso específico. O que funciona para um indivíduo pode não funcionar para outros. É preciso levar em consideração a planilha de treinos do indivíduo e planejar muito bem o momento/timing que o suplemento será ofertado. A prescrição é sempre personalizada e o uso indiscriminado ou sem acompanhamento por um nutricionista pode ser perigoso. O suplemento não vai substituir uma dieta que é inadequada. O uso incorreto dessas substâncias pode prejudicar o metabolismo do atleta, pode comprometer órgãos (principalmente rins e fígado), causar danos cardiovasculares e alterações do sistema nervoso central, e em casos mais extremos levar à morte. Obviamente, se a quantidade energética (calórica) total do indivíduo ultrapassar suas necessidades, o suplemento pode levar também ao ganho de peso.
Não faz sentido tomar um suplemento que é ineficaz, não melhora a performance, e ainda pode te trazer malefícios/efeitos negativos. Para muitos suplementos, faltam evidências de que eles realmente tenham um efeito ergogênico. Outros tantos são estudados e apresentam resultados contraditórios. Muitas discussões ainda são recentes e precisam ser aprofundadas.

 

Quer entender um pouco mais sobre whey protein? Veja esse vídeo de Giovana Guido, nutricionista da NewMillen.