Corrida

Dependentes da corrida: quando correr vira um problema

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Se você é um atleta experiente, já deve ter respondido para alguém “se correr realmente vicia”. Nada mais natural a curiosidade. Afinal, para quem olha de fora, como explicar a rotina exaustiva de treinos dum maratonista? Ao longo das mais de duas décadas de prática desse esporte, posso afirmar que sim, vicia. E muito. Até chegar ao ponto de mais atrapalhar do que ajudar a vida. E é justamente sobre isso que falarei nesse texto.

Nessa manhã, ao ligar no canal OFF, deparei com um documentário muito interessante (Wild Surf), filmado com mulheres que pegavam onda na década de 80/90 nos Estados Unidos e que viviam o lifestyle do surf na veia, mesmo depois de décadas. Todas elas, na faixa dos 50 anos de idade, falavam, nostálgicas, o que o mar significava para elas. Uma das entrevistadas revelou ter feito terapia para curar a dependência no esporte, que passou a atrapalhar sua rotina. “Tinha dias que eu estava trabalhando e identificava um swell entrando de Sul. Não conseguia fazer mais nada a não ser pensar nas ondas que estava perdendo dentro do escritório”. E é justamente nesse ponto que quero chegar.

Quem aí já faltou um compromisso importante porque “tinha” que treinar? Deixou de aproveitar um encontro familiar ou amoroso para cumprir na íntegra a planilha? Ou ficou com um beiço deeeesse tamanho porque não conseguiu calçar os tênis pra rodar “pelo menos 10 quilometrozinhos”? Ah, pois é. Eu me enquadro perfeitamente no grupo que levanta a mão pra dizer que sim, já deixei de fazer muita coisa por causa da corrida. É claro que treinar é necessário, e dependendo da prova-foco, tem que treinar MUITO. Ultramaratonistas e triatletas que o digam.

Quando passa do ponto

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Há um limiar muito pequeno entre o saudável e o doentio, objeto de estudo de teses como essa, publicada há vários anos na Revista Brasileira de Medicina do Esporte – “Dependência da Prática de Exercícios Físicos: Estudo com Maratonistas Brasileiros“.  Ali, é possível ler a respeito da chamada negative addiction - ou seja, quando “a prática excessiva de exercícios está associada a aspectos prejudiciais à saúde física e mental do indivíduo”. O estudo, realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, avaliou o grau de dependência de 59 corredores. A conclusão bate com o que observo hoje, após ter observado centenas de atletas amadores. “Alguns corredores apresentavam sintomas de abstinência, tais como irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos de culpa, quando eram impedidos de participar de suas rotinas de corridas regulares. Entre as evidências que fortalecem a hipótese da existência de dependência de exercício, encontram-se relatos de corredores sobre a interferência da prática regular de corrida no convívio familiar, social e no ambiente de trabalho”.

Os sintomas de que a coisa está passando do ponto são evidentes.  Vamos a alguns deles:

1) Deixar de realizar outras atividades para manter o padrão de treino;

2) Aumentar a tolerância à quantidade e frequência dos exercícios físicos ao decorrer dos anos;

3) Ter sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade) quando interrompida a rotina de exercícios e consequente alívio ou prevenção ao praticar a atividade;

4) Seguir realizando a atividade física mesmo quando lesionado, doente ou com qualquer indicação médica;

5) Se isolar socialmente, afetando relacionamentos com amigos, familiares ou com companheiros de trabalho;

6) Fazer dieta alimentar para perder peso como uma forma de melhorar o desempenho.

Em busca da harmonia

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Se você se identificou com esse perfil de “dependente da corrida”, vale refletir o quanto isso está afetando a sua vida. Assim como a surfista do documentário, que foi atrás de um psiquiatra para tirar o pé e encontrar o equilíbrio entre o esporte, o trabalho e a família, creio que é válido buscarmos uma ajuda profissional caso você tenha a consciência de que a corrida virou mais um problema do que um prazer. Afinal, não estamos aqui nessa vida para pagar penitência, certo?

Sou um caso típico. Numa época, não conseguia passar um dia sem treinar. A ideia era capotar na cama, ao ponto de desligar a chave-geral. Essa válvula de escape até funciona, porém pode ter consequências graves, como overtraining, queda no rendimento físico e mental – sem contar no vasto rol de lesões.

Fui buscar terapia. Estava chegando no ponto perigoso da obsessão. A sorte é que consegui puxar o freio antes que algo mais grave ocorresse. A boa notícia: correndo menos, melhorei meu desempenho. Descobri que qualidade é muito mais importante do que quilometragem. Que descanso também é treino. Ao meu ver, a corrida pode ser uma grande aliada para um envelhecimento saudável. Para isso, é preciso investir bastante em autoconhecimento: a chave de tudo. É preciso descobrir os motivos  dessa fuga (não adianta correr, os problemas seeeeempre são quenianos, kkkkk). Buscar o real sentido da corrida, que é colaborar para nos tornarmos seres mais completos e saudáveis.

Pretendo ser uma velhinha beeeeem doidinha, amarrando meus cadarços para aquele trotezinho matinal. Creio estar no caminho certo. Ouvindo meu corpo, sabendo dos meus limites, dos meus objetivos e prioridades. A corrida significa muito, mas não é absolutamente tudo. Vamos correr, sem exagerar na dose – afinal,  a diferença entre o remédio e o veneno é bem pequenina.

Bons treinos a todos!

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Fuja do Leão de Treino

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :

 

 

 

 

 

Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

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O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

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Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

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Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km

 

 

 

 

Corrida: um dos segredos de Mick Jagger

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Já tinha ouvido falar da impressionante boa forma de um dos maiores astros do rock mundial, Mick Jagger, dos Rolling Stones – que passa por Porto Alegre hoje, na sequência de shows da tour brasileira. Aos 70 e lá vai picos, o magrelinho (que já é bisavô), pula o tempo todo, vai de um lado ao outro do palco em segundos, dança feito uma enguia com coceira, brinca e interage com a platéia…enfim, dá um cansaço em muito jovenzinho por aí.

Uma matéria (publicada em 2011, muito lida) a respeito da forma física de Jagger foi publicada há algum tempo no jornal Daily Mail (que você pode ler na íntegra clicando aqui). Na reportagem, são citados os costumes do músico (alguns nada comuns, como aulas de ballet e creme facial de caviar), no qual estão incluídos impressionantes 12 quilômetros diários de corrida. Sim. Mick Jagger deve a esse esporte grande parte do seu fôlego, energia e boa forma. Em cada apresentação, ele chega a percorrer quase 20 quilômetros.

O costume, segundo o jornal, vem de infância: seu pai, Basil Joseph Jagger, era professor de educação física e determinava uma rotina severa de treinamento para o filho desde a década de 1960.

Taí mais um motivo pra amar Jagger – e pra ficar convencido de que correr é, definitivamente, um esporte engrandecedor!

Rock n’run, babe!

 

 

 

Repetição: a mãe da habilidade

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Você conhece alguém que já obteve bons resultados não só na corrida, mas em qualquer outro esporte, sem treinar muito? Já viu alguém superar um recorde sem afirmar que foram precisos meses de preparo? OK. Há quem atribua grandes marcas à genética, assim como há quem afirme que aquele empresário bem-sucedido teve muita “sorte”. Ahãm.

Não tem fórmula mágica: é repetição. Repetição. Repetição. Perseverança. Rotina. Disciplina. Ralação pura e crua.

Porém, como fazer para achar isso bom?

Cada um tem suas estratégias. Prefiro ser bastante prática e resumir: é um mal necessário. E ponto. Quem disse que seria fácil? ( :

Treinando para algumas provas cascas-grossas, tento mentalizar, sobretudo nos longões solitários, que essa rotina muita vezes estafante faz parte do jogo – e que se eu não acostumar meu corpo e cérebro a aguentar o tranco no osso, jamais vou evoluir ou ter a sensação de missão cumprida.

Penso que, mesmo não tendo certeza do melhor resultado, saberemos que estamos no caminho certo: no caso da corrida, treinando, simulando provas, fazendo pista, aumentando progressivamente a velocidade. E tudo isso com um planejamento adequado, otimizando tempo e recursos. Na hora do “pega pra capar”, se você sabe que treinou o bastante e que seu corpo está preparado para tal estímulo, as chances de ter êxito são bem maiores.

Pode parecer óbvio, mas a prática não costuma ser fiel à teoria. Cada vez mais, vejo atletas amadores priorizarem as provas do que o treinamento rotineiro. São os famosos “leões (ou campeões) de treino” . Mas vem cá, você treina para competir ou é ao contrário? Ah, não tem tempo? Então não exija do pobre do seu corpo o que ele não pode dar sem sofrer até quase sair sangue dos olhos ou estourar as coronárias.

Treinar é, sim, muitas vezes chato. Inúmeras vezes saí para a rua sem a mínima vontade. E o que ocorreu? Voltei, sempre, feliz da vida. Mesmo que não tivesse feito aqueeeeele treino, eu fui. E isso que importa.

Correr é lindo, correr é bom, correr virou uma coqueluche. Mas, se você tem um perfil como o meu, que adora superar a si mesmo, em primeiro lugar, o conselho é um só: treine sério. Treine duro. Repita. Repita. Repita. E quando você ficar bom, prepare-se para ouvir: “ah, é genético”.

Tá certo.

 

 

 

Corrida: esporte para todos os pesos

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Basta checar os números e dar uma olhada a sua volta. Nunca o brasileiro esteve tão gordo. Conforme dados recentes do Ministério da Saúde, 48,5% da população está acima do peso. Ao mesmo tempo, jamais vimos tamanho crescimento da quantidade de corredores nos quatro cantos do país. Hoje, esse já é o segundo esporte mais praticado no País, só ficando atrás do futebol (se bem que acho que há mais gente que apenas “curte”o esporte bretão, mas não joga toda a semana…).

A verdade é que a figura do corredor de alta performance, magrelo, estilo queniano, forte e esguio, é rara nas ruas. Corpos mais roliços e menos privilegiados, digamos assim, são a grande maioria, sobretudo quando formos falar de quem realiza treinos e compete nos 3, 5 e 10 quilômetros. Há, é claro, os que encaram os 21 e os 42 quilômetros – e entram naquela lista dos que “apenas querem completar”. O número de maratonistas brasileiros cresceu mais de 40% de 2009 a 2014, mesmo que ocupemos a 33ª posição na lista de 47 países, no que diz respeito à performance. A média de tempo que um brazuca leva para completar a distância é de 4h21min, bem acima dos espanhóis (3h55min), por exemplo.

Ou seja: a esmagadora maioria corre porque se sente bem. Para socializar, conhecer gente nova. O valor social da corrida é inegável e é muito em função dele que os atletas amadores, magros e gordos, se juntam nas dezenas de provas realizadas todo fim-de-semana. A saúde e a boa forma figuram como fatores importantes, sem dúvida, porém dar aquele “upgrade” na qualidade de vida é o que faz a grande diferença.

Ser gordinho ou não? Esse parece não ser um detalhe primordial quando falamos em corrida. É possível, sim, estar acima do peso e fazer bonito nas pistas. Com orientação profissional e parcimônia (e desde que realizados todos os exames de aptidão física), há ganhos inegáveis em todos os aspectos. Sinal disso é que revistas de grande circulação e credibilidade, como a Women’s Running estão fugindo do modelo-padrão e já estampam, como na atual capa, modelos como a plus size Erica Jean Schenk, na foto acima, praticante desse esporte desde criança. Na reportagem, ela conta que “adora correr para relaxar e pensar na vida” e coloca o dedo na ferida de muita garota “instafitness”: “garotas de todos os tamanhos têm o direito se serem valorizadas pelo público e pela mídia”.

Vou concordar em gênero, número e grau com a Erica. Está cheio de gente magra e que de saudável não tem nada – tanto física quanto psicologicamente. A genética não favorece todo mundo, o que jamais poderá ser um fator impeditivo. Atingir grandes marcas, figurar no pódio é para a minoria. A maioria não dorme sonhando com isso. Quer mais é descontrair, ter mais energia, bater papo com os amigos.

Como escreveu o colunista da revista O2 Marcos Caetano:

Eu admiro profundamente os gordinhos que continuam correndo, mesmo sem emagrecer. Eles têm a alma de corredor. Correm contra os próprios limites, contra si mesmos e não por glórias. Correm mesmo sob gritos jocosos dos bocós sedentários nas provas: “Corre, gordinho!”, “Tá magrinho, hein, bolão?!”… Os gordinhos corredores — esses seres grandes de tamanho e imensos de caráter — não ligam para a crueldade do bicho homem. Apenas seguem, passo após passo, rumo à faixa final. Todo o meu respeito a eles, que estão em outro estágio de compreensão da importância do esporte e do valor da determinação. E, talvez exatamente por isso, mereçam ser chamados de homo sapiens“.

O mais belo desse esporte, ao meu ver, é o caráter democrático. Sem ele, não haveria tanta graça. Viver mais e melhor todos queremos: gordo, magro, alto, baixo, pobre ou rico. O universo da corrida é assim: leve, real e sem preconceitos.

 

 

Retomando os treinos: como voltar à forma sem drama

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Dificilmente, um corredor mais experiente não conta na sua trajetória um tempo parado. Lesões, trabalho, viagens, estudos, família, filhos, doenças…enfim, uma infinidade de motivos e até “desculpas” são usadas para essa pausa. A intenção desse texto não é puxar as orelhas de quem deixa de se exercitar, por quaisquer fatos. É deixar claro que sim, é possível – e necessário – retomar a corrida assim que a poeira baixar.

Devemos ter em mente que o corpo é altamente adaptável. Assim como ele acostuma a ficar na inércia, acostuma a se mexer diariamente. O que importa é a atitude de jamais deixá-lo muito tempo na primeira situação que, comprovadamente, traz inúmeros malefícios ao corpo e à mente.

Conheço pessoas que começaram a correr, se apaixonaram pelo esporte e “puf!”, num passo de mágica, pararam e jamais recomeçaram. Em comum a todas elas, um profundo arrependimento. Se você teve (ou quis) parar por um tempo, seja ele qual for, saiba que é possível, sim, retomar os treinos e voltar ainda mais forte do que antes. Como? Ah, esse é o segredo!

Ter calma, parcimônia e muita persistência são regras básicas. Assim como iniciar qualquer atividade física, a prática requer habilidades, sim, mas muita perseverança e pensamento positivo. O corpo sentirá o “baque” dos meses sem fazer nada e pedirá água. Natural que ele queira sabotar você o tempo todo. Nessa hora, é preciso ter jogo-de-cintura para seguir com perseverança.

Li uma entrevista recentemente com uma treinadora de Los Angeles chamada Marissa Tiamfook. Ela falou algo com o que concordo:

“Você não deve se sentir culpado. Concentre-se no fato de que quer retornar e não se preocupe com a velocidade no início. É normal a gente se sentir pesado, com uma tonelada em cada perna…mas é um processo natural. Saiba que todos passam por isso. E conforme os treinos vão evoluindo, seu corpo voltará ao ritmo”.

Fugindo das lesões

A palavra “lesão”, ao lado da desmotivação e da preguiça, figuram no topo do ranking das palavras mais temidas por qualquer corredor em fase de reinício. Claro que isso não deve ser ignorado. Para tanto, a orientação de um profissional capacitado, no caso um professor de educação física, torna-se essencial.

O fortalecimento do corpo deve ser encarado como prioridade, de forma gradual e de acordo com cada caso. Outro ponto ressaltado por especialistas nessa fase é a avaliação da condição aeróbia básica, ou seja, o desempenho do coração e do pulmão. Saber a frequência cardíaca é um parâmetro referencial importantíssimo, com o qual o treinador terá condições de fazer seu “motor” funcionar a pleno vapor novamente em segurança.

Claro que nada são flores. Quando eu falo com quem está nesse momento, sempre tento ajudar falando que nada é definitivo. Essa dor do recomeço passa. E os treinos pesados do início fazem parte do processo. Ou achou que ia ser fácil? Ficar sem treinar não tira como mágica o lastro do corredor, mas jamais você recuperará em um mês a performance desmanchada ao longo de meses off.

Para deixar todo esse discurso mais “humano”, pedi para dois corredores contarem como foi sua retomada às pistas. A primeira entrevistada é a médica Juliana Kratochvil, de 36 anos, que deu um tempo em função da maternidade. O segundo é o campeão da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) André Reinert Brüch, engenheiro civil de 29 anos, que decidiu parar para dar um gás no lado profissional.

Ambos revelam como fizeram para seguir firme nos treinos após meses sem calçar os tênis de corrida e, atualmente, se preparam para novos desafios ainda mais fortalecidos. Confira!

“O esporte não pode ser secundário”

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação na Rústica de Estrela

Juliana pouco tempo após dar à luz, recebendo premiação de 3ª colocação na Rústica de Estrela (RS)

1)      Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Iniciei em 2012, procurando complementar a musculação com algum esporte que me envolvesse principalmente com a natureza. Logo fiquei superempolgada em superar minhas próprias dificuldades. Sempre achei que não conseguiria ter condições físicas para correr!

Aos poucos, fui me empolgando e seguindo a conquista. No início, não tive uma orientação tão focada na corrida e me mantive num treinamento mais misto com a musculação, na academia.

2)      Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Fiquei parada 11 meses, incluindo a gestação e mais 2 meses após a cesárea. Atualmente, minha maior dificuldade é na logística dos cuidados com meu filhinho de 1 ano e 4 meses!

3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Conto com meu marido, que é bem parceiro nos cuidados com o baby e um grande estimulador dos meus treinos. Também tenho suporte de uma funcionária uma vez por semana e de amigas queridas. Às vezes, em razão dos horários do trabalho de médica, a planilha de treinamentos acaba ficando prejudicada. Daí não tem jeito: temos que adaptar com o treinador.

4)      Como você costuma se preparar para as provas? Qual sua próxima meta?

Sempre traço um objetivo de provas e distâncias conforme minhas condições de treinamento para aquele período. Refaço as planilhas a cada dois ou três meses. Meu grande sonho é  correr uma meia maratona, e estou muito contente, pois estou muito próxima de realizá-lo.

5)      Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Amor, foco e, principalmente, colocar o esporte como prioridade. Não deve ser algo secundário, senão a coisa não anda!

6)      O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

Começar! O retorno é bem mais tranquilo, pelo menos para mim. Já tinha uma memória corporal. Só precisei melhor o condicionamento físico.

7)      Qual o significado da corrida em sua vida?

É fazer amigos, curtir a natureza…ter a sensação de superação e claro, manter a saúde!

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“Determinação e disciplina valem para tudo”

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

André na Lagoinha do Leste, em Florianópolis, no Desafio Praias & Trilhas 2013

1)  Conte um pouco sobre tua iniciação na corrida. Começou a correr quando e por quais motivos?

Eu comecei a correr aos 14 anos com objetivo de perder peso. Nunca mais parei. A corrida foi realmente o esporte que se encaixou bem ao meu estilo de vida. Sempre mantive certa regularidade com as corridas, mas como o objetivo era só a saúde, não me preocupava muito com a evolução nos treinos. Apenas saía de casa e ia correr, entre 30 minutos e 1 hora.

Em 2007 estreei nas corridas de rua, participando de um octeto na Maratona de Porto Alegre, e então passei a procurar mais informações sobre treinamento. Também passei a participar cada vez mais dos eventos de corrida. Em 2009, resolvi correr minha primeira maratona, no Rio de Janeiro. Foi durante os treinos preparatórios para a maratona que eu encontrei o que eu realmente gostava de fazer: correr longas distâncias. Ainda em 2009, experimentei minha primeira corrida trail, fazendo o trecho do Vale da Ferradura, em Canela, durante a Gramado Adventure Running. A partir de então, comecei a focar em provas de trail run de longa distância.

2)    Qual sua principal dificuldade em manter regularidade dos treinos?

Regularidade eu sempre tive porque sempre gostei de correr. Quando não tenho um objetivo específico, me mantenho correndo sem muito compromisso, como fazia antigamente. E aí, é claro que perco bastante condicionamento. Mas acho saudável tirar o pé do acelerador com os treinos de vez em quando, tanto para o corpo quanto para a cabeça.

A parte do desafio e da superação dos próprios limites é algo que também gosto muito, então procuro sempre ter um objetivo novo para criar um compromisso com os treinos (principalmente os treinos de tiro, que não gosto de fazer). Procuro escolher 3 provas alvo por ano, montando meu planejamento de acordo com elas, e as vezes incluindo uma ou outra prova menor para manter a motivação e o contato com a galera da corrida que não costumo encontrar no dia a dia.

 3)      Como conciliar estudos, casa/família e treinos? Qual sua tática?

Como não sou casado e nem tenho filhos, não tenho dificuldades em relação a casa/família. Durante a semana gosto de treinar no final do dia, uma vez que já cumpri com todos os meus compromissos. Treinando no final do dia consigo quebrar o ritmo de trabalho e descansar a cabeça. Já no final de semana é o contrário: gosto de fazer os treinos longos no sábado de manhã. Assim, fico livre para aproveitar o almoço em família, podendo comer e beber a vontade. Também posso fazer algum programa a noite sem me preocupar em ter de levantar cedo para fazer o longo no domingo, como a maioria que eu conheço faz.

4) Você foi campeão da TTT há dois anos. Como foi sua preparação para essa prova?

A preparação foi bem tranquila. Muitas pessoas acham que pra fazer uma prova dessas a pessoa tem que abrir mão de muita coisa, compromissos familiares, sociais…e não é bem assim. O volume e a adaptação do corpo é algo que acontece com o tempo, com a experiência, e essa já era a minha 4ª participação individual na TTT.

Para esta edição eu já vinha de um ano forte em função de outras provas, e o foco na TTT foi apenas durante os meses de novembro e dezembro (no início de janeiro já estava baixando o volume). Então o que fiz basicamente foi aumentar o volume semanal, e direcionar os longos para a TTT: fazia os longos na praia, começando em torno das 10h, para me adaptar ao terreno e a possível alta temperatura no dia da prova. Nesta fase, foram 8 treinos longos aumentando o volume progressivamente, e 3 treinos longos baixando o volume, até a prova.

5) Na sua visão, quais os principais atributos necessários para avançar na corrida e em qualquer outro esporte?

Acho que determinação e disciplina. E isso vale pra tudo, não só para o esporte. Determinação para estar disposto a fazer o que tem que ser feito. E disciplina para fazer da forma correta.

6) O que é mais complicado: começar a correr ou retomar os treinos após uma pausa grande?

O grande problema para retomar os treinos após uma pausa significativa é que nos frustramos com a perda de performance que esta pausa proporcionou, e isso acaba abalando bastante o emocional durante a retomada, dando uma certa preguiça para trilhar todo o caminho novamente até atingir o condicionamento que perdeu. Mas quem já treinou bastante e está voltando de um tempo parado conhece o caminho que precisa percorrer para atingir seus objetivos. Daí, basta manter o foco novamente. Além da memória muscular do corpo, que facilita a retomada.

Por outro lado, para quem está começando, cada degrau que a pessoa sobe no seu condicionamento físico é uma vitória, uma superação, e acho que a pessoa se motiva mais facilmente. Penso também que o iniciante é mais aberto a aprender as técnicas de corrida e os diferentes treinamentos que o seu professor passa, já que ainda não desenvolveu seus hábitos e manias.

No entanto, pelo que sempre observei, o grande problema com atletas iniciantes é conseguir segurar o seu ímpeto e conscientizá-los de que a evolução deve ser gradual, para que todo o corpo possa se adaptar ao treinamento, evitando o desenvolvimento de lesões. Por este motivo eu creio que para uma pessoa com certa experiência retomar os treinos é mais simples do que para uma pessoa inexperiente iniciar no esporte, pois o primeiro conhece melhor o seu corpo e os seus limites, o que ajuda na evolução dos treinamentos e na prevenção de lesões.

7) Qual o significado da corrida em sua vida?

Correr é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Corro há 15 anos e pretendo continuar correndo a vida inteira, conhecendo novos lugares, me propondo e superando desafios cada vez maiores e mais difíceis. Correr me possibilita descarregar todo desgaste psicológico/emocional do dia a dia. É uma válvula de escape muito potente para mim.

Quando faço treinos longos eu realmente desligo a cabeça. Às vezes, 2 horas se passam durante um treino longo e nem percebo. O corpo faz tudo no automático: olho o relógio, me alimento, cuido onde vou pisar, mas a cabeça fica longe, viajando. Coisa boa que é botar uma mochila com água e comida nas costas e sair pra correr durante horas.

 

 

Volta à Ilha: uma lição de parceria e espírito de equipe

Publicado por | Por Aí | Nenhum Comentário

 

A chegada triunfal, após 11h de prova

A chegada triunfal, após 11h de prova

 

Não sei a quanto tempo não fazia uma prova de revezamento. A última, que lembro, foi em dupla, numa TTT insana de 2011. Mas revezar com 7 atletas – o famoso octeto -. e dessa vez misto (5 homens, 3 mulheres), na maior prova do gênero da América Latina, a Volta à Ilha, em Florianópolis, realizada sábado na capital catarinense, deixou uma herança inesquecível.

Sou virginiana. Não entendo chonga da mironga de astrologia, mas sei que essa raça é braba. Perfeccionista ao extremo, intolerante aos defeitos pessoais (mas hipernaboa com o alheio), é um verdadeiro pandemônio.

Prefiro correr 7h a fio, sem parar, do que depender de uma logística que milagrosamente dá certo, sobretudo em distâncias como a competição em questão. Mas enfim…fazia muito tempo que não encarava algo similar. Fui intimada por um amigo a fazer três trechos (abrindo a e fechando a prova, totalizando menos de 20 km no total dos percursos).
Sinceramente: o que vale nessas provas é a festa.
O espírito do bem coletivo. É o conceito mais básico  (somos todos irmãos) na prática – e no sentido mais dinâmico possível.

Porque de corrida mesmo, há pouco.
Defini, toscamente, que é uma gincana.
Imaginei a próxima tarefa: quem coloca mais gente num Fusca?
Critico a falta de hidratação (vi 3 atletas desmaiando). Elogio o staff, supersimpático. A janta pré-prova (que daria pra correr 2 ultras folgado).

Mas os problemas existiram, sobretudo na chipagem, manual. Divulgaram um aplicativo com tempos e, um dia após, tudo estava diferente.
Se não há garantia de exatidão, por favor, não nos façam comemorar um resultado fictício. Num dos trechos, muitas equipes esperaram de 9 a 15 minutos por uma banana boat para seguir. E esse tempo sumiu. Só foi divulgado e premiado o que se viu na chegada: o resultado “visual”, sem descontos dos trâmites de logística.

Faço a crítica mas dou a sentença: prova de revezamento igual a essa….não tem igual!
Me diverti muito, fiz muitos amigos e relembrei o quanto é lindo esse espírito de equipe.

Todo mundo bem normal. Só que não...

Todo mundo bem normal. Só que não…

Parabéns a todos que completaram os 140km em sintonia. É para poucos!