Daniela Santarosa

Correr: a arte de seguir sem olhar pra trás

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Mick Jagger já disse em entrevista que deve a sua excelente forma física às corridas diárias

Mick Jagger já disse em entrevista que deve a sua excelente forma física às corridas diárias

If it’s love that you’re running from (se é do amor que você está fugindo)
There is no hiding place (não há esconderijo)
Just your problems, no one else’s problems (são os seus problemas, não os de mais ninguém)
You just have to face (você terá que encarar)

If you just put your hand in mine (Se você colocar suas mãos nas minhas)
We’re gonna leave all our troubles behind (nós iremos deixar todas as nossas encrencas pra trás)
Gonna walk and don’t look back (Vamos andar e não olhar para trás)

……

Em muitos longões (corridas mais longas), carrego essa trilha cantada magnificamente pelo mestre do reggae Peter Tosh e pelo ícone Mick Jagger (confira no Youtube clicando aqui). Embora tenhamos o vício de revisitar nossos erros com frequência – essencial para refletirmos e tentarmos fazer diferente na próxima vez -, creio que a vida só segue com dinamismo se exercitarmos a arte de preferir olhar pra frente e não se deter tanto no que já fizemos ou já ocorreu. Afinal, só podemos mudar o hoje, o agora, e o que irá ocorrer daqui pra diante será fruto dessas atitudes, tomadas com a cabeça erguida, olhando pro horizonte.

Tudo isso tem a ver com autoconhecimento e engloba um tanto mais de filosofia e de psicologia. Será que estou “viajando”? Bem, sempre….kkkkk….(((( ;

Vou tentar ser mais clara.

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Defendo a teoria de que correr é meditar. Muito mais do exercício físico, a corrida envolve um encontro mental e até espiritual. Por essência, é um esporte individual, característica que, ao meu ver, a tem catapultado, na última década, para o topo do ranking das modalidades mais praticadas no mundo.

Para mim, o que vicia nesta modalidade não é o simples benefício muscular, estético ou cardiovascular. Não há médico que explique. Quem descobre a corrida, descobre uma nova forma de ver o mundo. E é uma maneira simples, mas genuína e intensa, que apaixona tanta gente.

Ao longo de mais de 20 anos de prática da corrida de rua, conheci gente de todo tipo: de atletas profissionais a praticantes de “corridinhas” de final de semana. Em comum, todos eles revelaram nos olhos, brilhantes e energizados, uma sensação de prazer extremo. Me confessaram não saber viver mais sem o prazer do dever cumprido, da planilha executada na íntegra, na alegria de completar essa ou aquela prova. São garotos-propaganda voluntários, fazem questão de compartilhar suas experiências e incentivar aqueles que nunca experimentaram a alegria de uma hora de corrida intensa.

O que mais me alegra, sendo uma atleta amadora dedicada e tão apaixonada por esse esporte, é ver o crescimento em escala geométrica de corredores de norte a sul do Brasil. Graças às redes sociais e à bendita internet (que, quando não atrapalha, ajuda demais a vida da gente), tenho me comunicado com gente de todo canto, que me pede dicas, conta histórias inesquecíveis, planeja junto provas ao redor do mundo e vibra a cada conquista. Porque, depois de olhar pra frente, a gente olha pros lados pra ver quanta gente bacana tem nesse mundo (ainda!).

Cada um tem uma missão na vida. Não vim aqui para passeio no shopping. Vim pra passeio ao ar livre, com vento batendo no rosto e adrenalina correndo nas veias!  Mesmo não sendo uma atleta tão gabaritada e ter uma série de defeitos e limitações, acredito que consigo plantar uma semente na cabeça de pessoas que desejam sentir o lado, ao meu ver, mais bacana de ver a vida: com os pés no chão, os olhos no céu, a mente aberta e, principalmente, o coração sedento de novos desafios.

Keep walking…ou melhor, keep running!

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Um abraço e bons treinos a todos!

 

 

TTT 2018: carta de uma veterana de guerra

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Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros "ultraloucos"

Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros “ultraloucos”

Sábado que vem, a essa hora (perto das 20h), a esmagadora maioria dos atletas que enfrentarão a 14ª edição da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) - uma das mais célebres provas de revezamento do Sul do Brasil – estará com um irritante sorriso no rosto, daqueles que só exibem aqueles que são adeptos da máxima “missão dada, missão cumprida”. Na peleia, quase 3 mil atletas dos mais diversos níveis de condicionamento, idades e perfis – dos iniciantes, recrutados para revezamentos em octetos e quartetos -, aos mais calejados, que enfrentam os 82 quilômetros na beira da praia em duplas e individualmente com sangue nos zóios, como é de praxe no evento esportivo mais disputado do verão gaúcho.

Será minha oitava participação na TTT. Venci 5 vezes solo, 1 vez em dupla, e fiz mais uma vez não sei há quanto tempo, em quarteto (quando achava aquilo tudo uma doidera, tipo gincana de colégio). Devo a essa competição meu pontapé inicial nas ultramaratonas. Nunca, jamais, imaginei estar no posto de recordista feminina da prova (com 7h21min, cravados ano passado), e hoje, aos 41 anos, ainda ter tesão de varar a imensa faixa litorânea, monótona e invariavelmente insalubre que separa as cidades de Torres, na divisa com Santa Catarina, com a Barra do Imbé, balneário onde veraneio há 3 décadas (sim, cruzo a chegada a 500 metros de casa, onde minha mamãe me espera com uma sopa de legumes que levanta até defunto). <3

E, afinal, o que posso dizer dessa doidêra toda? Dicas, curiosidades, o que tenho a declarar?

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Sou a prova viva, véia, seca, esturricada e toda fia da mãe (kkkkkkkkkkk) de que não há mágica nessa brincadeira toda. Tudo o que conquistei foi suado pra caramba, e fruto de anos e anos de treinamento incessante, um DNA favorável, um lastro respeitável no esporte desde muito cedo (já pratiquei de tudo um pouco, desde os 3 anos de idade) e, sobretudo – e é sobre isso que que quero focar -, de uma cabeça dura pra dedéu. A prática da resiliência (a arte de se ferrar, tomar pancada e seguir em pé) é o que me trouxe até aqui. Absoluta certeza.

Tenho receio de dar dicas genéricas. Até porque hoje, como profissional de Educação Física, tenho compromisso de incentivar a todos os que buscam ter uma vida longeva e consistente no esporte busquem orientação, já que cada organismo reage de forma distinta e o princípio da individualidade biológica deve ser respeitado.

…o que não me priva de dar um conselho que já me serviu muito na hora do aperto: não vamos nos acadelar. ((((:

“Você é uma mulher ou um verme?” às vezes é muito mais válido do que o famigerado e inútil “falta pouco!” (só se for pra você, desgraçado!). kkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!

No sábado, quando a coisa estiver russa, o urso sentar nas costas e aquele paredão desgraçado surgir na sua frente, lembre que no final é tudo alegria.

Desejo a todos uma excelente prova. Corram com paixão e alegria. Afinal, é por isso que estamos aqui, certo?

Quando cruzarem com a veterana de guerra que vos fala, tenham certeza que estou torcendo por cada um de vocês. De coração.

 

Até lá!

Um forte abraço!

(((( :

 

 

 

 

 

Dependentes da corrida: quando correr vira um problema

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Se você é um atleta experiente, já deve ter respondido para alguém “se correr realmente vicia”. Nada mais natural a curiosidade. Afinal, para quem olha de fora, como explicar a rotina exaustiva de treinos dum maratonista? Ao longo das mais de duas décadas de prática desse esporte, posso afirmar que sim, vicia. E muito. Até chegar ao ponto de mais atrapalhar do que ajudar a vida. E é justamente sobre isso que falarei nesse texto.

Nessa manhã, ao ligar no canal OFF, deparei com um documentário muito interessante (Wild Surf), filmado com mulheres que pegavam onda na década de 80/90 nos Estados Unidos e que viviam o lifestyle do surf na veia, mesmo depois de décadas. Todas elas, na faixa dos 50 anos de idade, falavam, nostálgicas, o que o mar significava para elas. Uma das entrevistadas revelou ter feito terapia para curar a dependência no esporte, que passou a atrapalhar sua rotina. “Tinha dias que eu estava trabalhando e identificava um swell entrando de Sul. Não conseguia fazer mais nada a não ser pensar nas ondas que estava perdendo dentro do escritório”. E é justamente nesse ponto que quero chegar.

Quem aí já faltou um compromisso importante porque “tinha” que treinar? Deixou de aproveitar um encontro familiar ou amoroso para cumprir na íntegra a planilha? Ou ficou com um beiço deeeesse tamanho porque não conseguiu calçar os tênis pra rodar “pelo menos 10 quilometrozinhos”? Ah, pois é. Eu me enquadro perfeitamente no grupo que levanta a mão pra dizer que sim, já deixei de fazer muita coisa por causa da corrida. É claro que treinar é necessário, e dependendo da prova-foco, tem que treinar MUITO. Ultramaratonistas e triatletas que o digam.

Quando passa do ponto

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Há um limiar muito pequeno entre o saudável e o doentio, objeto de estudo de teses como essa, publicada há vários anos na Revista Brasileira de Medicina do Esporte – “Dependência da Prática de Exercícios Físicos: Estudo com Maratonistas Brasileiros“.  Ali, é possível ler a respeito da chamada negative addiction - ou seja, quando “a prática excessiva de exercícios está associada a aspectos prejudiciais à saúde física e mental do indivíduo”. O estudo, realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, avaliou o grau de dependência de 59 corredores. A conclusão bate com o que observo hoje, após ter observado centenas de atletas amadores. “Alguns corredores apresentavam sintomas de abstinência, tais como irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos de culpa, quando eram impedidos de participar de suas rotinas de corridas regulares. Entre as evidências que fortalecem a hipótese da existência de dependência de exercício, encontram-se relatos de corredores sobre a interferência da prática regular de corrida no convívio familiar, social e no ambiente de trabalho”.

Os sintomas de que a coisa está passando do ponto são evidentes.  Vamos a alguns deles:

1) Deixar de realizar outras atividades para manter o padrão de treino;

2) Aumentar a tolerância à quantidade e frequência dos exercícios físicos ao decorrer dos anos;

3) Ter sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade) quando interrompida a rotina de exercícios e consequente alívio ou prevenção ao praticar a atividade;

4) Seguir realizando a atividade física mesmo quando lesionado, doente ou com qualquer indicação médica;

5) Se isolar socialmente, afetando relacionamentos com amigos, familiares ou com companheiros de trabalho;

6) Fazer dieta alimentar para perder peso como uma forma de melhorar o desempenho.

Em busca da harmonia

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Se você se identificou com esse perfil de “dependente da corrida”, vale refletir o quanto isso está afetando a sua vida. Assim como a surfista do documentário, que foi atrás de um psiquiatra para tirar o pé e encontrar o equilíbrio entre o esporte, o trabalho e a família, creio que é válido buscarmos uma ajuda profissional caso você tenha a consciência de que a corrida virou mais um problema do que um prazer. Afinal, não estamos aqui nessa vida para pagar penitência, certo?

Sou um caso típico. Numa época, não conseguia passar um dia sem treinar. A ideia era capotar na cama, ao ponto de desligar a chave-geral. Essa válvula de escape até funciona, porém pode ter consequências graves, como overtraining, queda no rendimento físico e mental – sem contar no vasto rol de lesões.

Fui buscar terapia. Estava chegando no ponto perigoso da obsessão. A sorte é que consegui puxar o freio antes que algo mais grave ocorresse. A boa notícia: correndo menos, melhorei meu desempenho. Descobri que qualidade é muito mais importante do que quilometragem. Que descanso também é treino. Ao meu ver, a corrida pode ser uma grande aliada para um envelhecimento saudável. Para isso, é preciso investir bastante em autoconhecimento: a chave de tudo. É preciso descobrir os motivos  dessa fuga (não adianta correr, os problemas seeeeempre são quenianos, kkkkk). Buscar o real sentido da corrida, que é colaborar para nos tornarmos seres mais completos e saudáveis.

Pretendo ser uma velhinha beeeeem doidinha, amarrando meus cadarços para aquele trotezinho matinal. Creio estar no caminho certo. Ouvindo meu corpo, sabendo dos meus limites, dos meus objetivos e prioridades. A corrida significa muito, mas não é absolutamente tudo. Vamos correr, sem exagerar na dose – afinal,  a diferença entre o remédio e o veneno é bem pequenina.

Bons treinos a todos!

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Pré-TTT 2016: pra vencer a guerra

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Pouquinho mais de uma semana pra largada de uma das provas mais aguardadas do Sul do País, a Travessia Torres-Tramandaí (TTT), já vejo gente nervosa. Não há como negar, e pouco importa se você é iniciante ou corredor mais calejado. Sempre rola aquela ansiedade e “friozinho na barriga” – o que acho maravilhoso. Afinal, quando perdemos esse brilho no olho, é porque tem algo errado!

Dessa vez, estarei curtindo apenas como torcedora, do lado de fora, na beira da praia. Participei das seis últimas edições. Venci uma vez em dupla mista, mais quatro vezes na categoria solo. Decidi, após erguer o troféu em 2015, que daria um tempo. Já expliquei os motivos anteriormente. A vontade de encarar a ultra novamente se foi, mas a de incentivar os atletas que ainda acham a competição sensacional – ou que irão estrear nesse ano – segue forte como nunca.

Então lá vamos! Deixarei de lado os aspectos de treinamento físico dessa vez, até porque, se você não treinou até essa altura do campeonato…só lamento! Minha colaboração será para aqueles que curtem um incentivo psicológico, uma palavra de conforto e que acreditam, assim como eu, no poder da mente para a conquista dos objetivos.

A arte da guerra

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Contarei com a ajuda de um amigo psicólogo, já experiente nessa prova, com quem costumo trocar ideias a respeito desse tema com frequência. O Rafael (Homem de Carvalho) cita algo que considero extremamente importante. Ele preparou um artigo, batizado de “TTT termina na hora da largada”. Pode parecer confuso, mas é facilmente explicável:

“Ao ler alguns conceitos do livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, caiu a ficha sobre a relação de um deles com nossa realidade. Tzu fala que ‘a guerra é vencida antes mesmo do início da batalha, na escolha da estratégia’. Em outras palavras, o autor diz que os vitoriosos seriam aqueles que teriam planos de guerra melhores elaborados do que seus adversários. A guerra, em si, seria apenas o momento da execução deste ou daquele plano. E quanto mais fiel esta execução ao seu plano, maiores a chance de êxito”.

Não faz todo sentido? E ele segue, relembrando experiências passadas:

“Depois de algumas TTTs feitas, procuro já não alimentar expectativas além das minhas reais condições, do planejamento como um todo. Mas tenho que confessar que, volta e meia, ainda vem um tal de pensamento mágico que conseguirei resultados melhores. De que na hora H vai vir uma força extra – e eu sigo no aguardo dela –, aquela que vai me fazer tornar o melhor dos melhores, um verdadeiro campeão! Porém, bem rapidinho, volto a realidade, apesar de acreditar que pensamentos desse tipo podem ajudar como um estímulo a mais, um gás extra. No final, vejo que se torna inviável permanecer nesse plano mágico, desconectado do mundo real. Na corrida, as realidades são verdadeiras, muito duras às vezes, mas puramente honestas, sinceras e individuais”.

Concordo em gênero, número e grau. Não espere por resultados bombásticos sem ter treinado para tal feito. Suba os degraus com segurança e parcimônia. Valentia em excesso pode ser um sinal de burrice e imaturidade. Quando falo que, na corrida não tem cesárea – aqui, o parto é normal, com dor e paciência -, procuro alertar aos que buscam atalhos. É natural desejarmos nos destacar em meio à multidão, triunfar, ser como nossos ídolos. Só que ninguém chega lá de forma artificial e dura por muito tempo. E é justamente por isso que o esporte é tão apaixonante: a seleção é natural. Pura, crua – e muitas vezes cruel.

Controlando as variáveis

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Traçada a estratégia – que é algo bem pessoal, e por isso mesmo não comentarei sobre a minha ou de qualquer outra pessoa -, é hora de pensar sobre as múltiplas variáveis. E se chover? E se ventar forte? E se meu tênis incomodar? E se tiver um sol de rachar? Claro que queremos sempre tudo 100% lindo e sob controle. Porém, numa prova como essa, realizada na areia, no verão (quando o tempo “vira” a todo momento), imaginar um cenário perfeito é muita pretensão. Rafael dá a barbada:

“Executar a estratégia planejada não é das tarefas mais fáceis, já que a TTT inclui uma série de variáveis externas – temperatura, areia dura, areia solta, com buraco sem buraco, vento contra ou a favor, logística, etc. – só para citar algumas, bem possível que ao longo do dia toda a estratégia planejada antecipadamente tenha que ser revista. Ainda assim, aprendi não abrir mão de contar com um plano real, executável. Mesmo que tenha que sofrer ajustes de última hora”.

Essa flexibilidade de mudar a estratégia de última hora, novamente, ao meu ver, é algo que vamos aprendendo ao longo do tempo. “Macaco véio” de prova sabe o que fazer quando pinta um imprevisto. Desistir, definitivamente, não é opção válida para os mais fortes – embora seja uma hipótese válida para os casos que colocam suas vidas em risco.

E você? Já tem sua estratégia em mente?

Para a TTT ou qualquer outra competição, seja na corrida ou em demais aspectos de nossas vidas, contar apenas com a sorte não costuma ser uma boa ideia.

Por isso, sempre desejo aos amigos, ao invés de “boa sorte” antes da buzina da largada, um singelo “boa prova”. É apenas o que precisamos pra vencer a “guerra” com um sorrisão no rosto e, claro, aquele gostinho de quero mais.

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Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

Rockyman 2015: uma saga para os brutos

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Dois dias após retornar do Rio de Janeiro, onde disputei o incrível Rockyman - maior competição multiesportiva do País -, ainda sinto o cansaço de dois dias intensos de competição. Convidada pelo capitão Chico Santos, montanhista experiente, fiz parte da equipe carioca Terra de Gigantes, formada por atletas de ponta nas suas diversas especialidades: surf, skate, BMX, mountain bike, corrida de montanha, maratona e canoagem. Uma gauchinha perdida lá no meio das feras!

Equipe quase completa. Da esquerda para a direita, os apoios "Lobinho" e Edgar, eu, Chico Santos, Amarildo Ferreira e Kaique Milani

Equipe quase completa.
Da esquerda para a direita, os apoios “Lobinho” e Edgar, eu, Chico Santos, Amarildo Ferreira e Kaique Milani

 

O que vivi nas 48 horas de aventura jamais sairá da cachola. Os flashes passam na cabeça como num filme. Desde que cheguei, foi emoção à flor da pele: tantos as positivas quanto negativas. E o que mais ficou evidente – e é sobre isso que irei enfocar nesse texto – é a definição que temos de atleta. Conheci gente de todo tipo. Cinco das 20 equipes que disputaram o Rockyman 2015 eram estrangeiras. Só “galo cinza”. Gente altamente qualificada, muitos deles atletas com índices olímpicos. Campeões de carteirinha. Embora, em meio a eles, alguns maus exemplos tenham surgido.

Um deles foi infiltrado por azar do destino justamente na Terra de Gigantes. Não citarei nomes, embora deveria. Um sujeito, selecionado a dedo para desempenhar nas provas de surf e de skate simplesmente decidiu não ir de última hora. E aí que começaram os problemas. Você imagina: viajar centenas de quilômetros para participar de um dos mais cobiçados eventos esportivos realizados em solo brasileiro e ter que se conformar com esse fato, indesculpável. É o tipo de atitude antidesportiva e antiética, que veio como uma notícia-bomba duas horas antes da largada oficial, no sábado, dia 7 de novembro. Como fazer? Todos da equipe, atletas e staff de apoio, não sabíamos como resolver o pepino. O cidadão simplesmente desligou o celular. Arregou. Nos deixou na mão. E estávamos sem atleta para duas importantes modalidades.

Conseguimos um skatista para o domingo. No sábado, tentamos preencher o furo, mas não chegamos a tempo de entrar no mar (gigante, por sinal, com mais de 2 metros de ondas na Barra) com um substituto. O que fazer? Lamentar. E seguir o baile. Não tem aquele ditado: “se não há solução, solucionado está”? Na prática, é assim mesmo que funciona.

Minha participação na maratona foi bem abaixo do esperado. Não bastasse o desfalque, sofri um tombo feio no dia anterior, resvalando e caindo de costas numa escada lotada de lodo – o que me deixou com várias escoriações, a coluna com um “ovo” e as costelas doloridas. Fui no arrasto. Mas cheguei. Isso não seria o que nos afundaria. Tivemos a impressionante participação dos campeões Kaique Milani (um dos melhores atletas de BMX do Brasil, que voou no Parque Radical de Deodoro, onde ocorrerão as Olimpíadas do Rio 2016) e de Amarildo Ferreira (veterano na mountain bike, pura garra e dedicação), além do capitão Chico Santos, que sempre arrasa nas corridas de montanha e ama uma pirambeira. Pra essa turma, tiro meu chapéu. Só gente fina, bem humorada e no estilo “topa todas”. Não tinha tempo ruim. Todos se ajudando, apoiando os nossos e demais integrantes e competidores…amigos que já entraram pro lado esquerdo do peito.

No domingo, a competição de skate, eletrizante, contou com a boa vontade de um atleta que estava “passeando” no bowl da pista Rio Sul e topou a roubada de mandar ver ao lado de feras como Felipe Foguinho e Raul Roger Magalhães Baracho. Um show de talentos que jamais presenciei!

Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

Canoa polinésia foi um dos momentos mais difíceis: 12km no mar revolto da Praia Vermelha

 

Finalizamos remando 12 km juntos na canoa polinésia (uma das experiências mais loucas da vida, sem dúvida), correndo mais 13km rumo ao topo do Morro Chapéu Mangueira e descendo pela favela, em meio à comunidade – outro momento que me dá arrepios e que dificilmente viveria desse jeito se não fosse esportista. Nós lá, bem longe da primeira colocação, e uma menina puxa um coro, do alto de uma janela dum barraco:

- Já ganhou! Já ganhou!

Juro que fiquei com lágrima nos olhos. No fundo, no fundo, essa era a realidade. Apesar de todas as adversidades, todos tinham triunfado: acrescentamos, no frigir dos ovos, uma experiência indescritível no currículo.

Saio do Rockyman reforçando algumas de minhas várias convicções. Vamos a elas.

A primeira delas: para ser atleta, não basta praticar um esporte. É preciso dedicação, comprometimento, respeito e, além do corpo, uma cabeça saudável. Quando o cara nasce pra ser “loser”, não tem jeito. Pode treinar, participar de provas, até subir no pódio. Mas não vai longe. É o caso do nosso surfista furão, que deu um exemplo de como não agir – e está, ao meu ver, numa distância anos-luz de tal definição acima.

A segunda delas: é preciso dar o melhor de si, mesmo que as coisas estejam indo de mal a pior. Tem que ser bruto (na definição heróica da palavra). Não se acadelar com merreca. Tem dias bons, dias ruins, outros piores ainda. Eu poderia ter entregado o jogo e não completado a maratona, diante de um cenário tão intimidador – e das inúmeras dores do meu tombo. Mas fui até o final. Sabia que se não cruzasse a linha de chegada, não estaria cumprindo com minha palavra. E, como diz um amigo meu: “não é do meu biotipo desistir” (rsrsrsrsrs).

A terceira e última: somente o esporte nos proporciona experiências tão únicas. É preciso agradecer ao universo, a Deus, ou a sei lá quem você queira, pela oportunidade de ser atleta. Só porque corro, e dediquei anos e anos da minha vida à corrida, cheguei onde cheguei. É o tipo de experiência que nenhum dinheiro pode comprar. Só quem pratica algum esporte com tamanha paixão consegue entender do que estou falando.

Iria acrescentar uma quarta, mas essa não nem preciso repetir: a vida é boa. Acredite nela. ( :

 

 

 

Zica na maratona: quando tudo dá errado

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Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Sabe aquele dia em que as coisas insistem em conspirar contra o pobre cidadão? Quando nada parece encaixar. Quando a maionese desanda. O pneu fura. Você não vê a hora de acordar no outro dia, para acabar com a zica? Pois esse dia – ou melhor, noite – foi ontem, na Maratona Caixa de Porto Alegre. A prova noturna (na qual levei o troféu de campeã no ano anterior) parecia um pesadelo, daqueles que costumam fazer você encharcar os lençóis.

Apesar de não ter a pretensão de ultrapassar feras como a multicampeã Rosa Jussara Barbosa ou Gracielle Pedroso, fui correndo sem medo até meados dos quilômetros 23 ou 24. Quando tudo parecia estar bom demais para ser verdade, vou passar num dos postos de hidratação e esbarro, não sei porque, numa das mesas. Dois dos carbogéis que carregava saltaram da cinta. Fiquei com apenas um para todo o restante da competição (sendo que um dos 4 que levei já havia tomado). Péssimo. Tentei não me abalar demais com o fato.

Dois quilômetros à frente, porém, o guampudo montou na garupa. Comecei a esboçar sintomas de hipotermia. Tremia feito bambu verde. E o pior ainda estava por vir: uma indisposição intestinal (prenunciando o famoso “churrio”, na língua tosca) me deixou extremamente incomodada. Não dava, não havia jeito de passar. Resultado: tive que parar três vezes nos matinhos da Beira-Rio. Sorte que estava escuro.

Notei que não só para mim o dia não estava pra peixe. Vi muitas pessoas parando para se aliviar. Pelo menos meia dúzia de amigos confessaram ter recebido a visita do famigerado “piriri”. O que fazer? Maldita maldição!

Nunca, nessas duas décadas de corrida, passei por tamanho sufoco. Mesmo que jamais tenha abandonado uma prova, algo me dizia que deveria obedecer o corpo e sair pela tangente. O problema é a cabeça-dura aqui obedecer. Fui “escutando os sinais” e afrouxei o pé total. Pensei: completar, apenas completar, na boa, sem passar mal. Vamos ver se dá.

E deu. Cruzei a linha de chegada dos 43.200 metros do percurso (sim, erraram a marcação – corremos um quilômetro a mais) na quarta posição, com pouco mais de 3h20min no cronômetro. Que situação. Mas enfim, foi o que deu.

Taí o que deu pra levar pra casa - 4º lugar no pódio geral feminino

Taí o que deu pra levar pra casa – 4º lugar no pódio geral feminino

A conclusão? Tem dias que não dá. Mesmo que você treine, tenha experiência, vá com fé, animado, tenha “sangue nos óio” e tantas outras qualidades.

A vida é isso aí: feita de altos e baixos, de certezas e incertezas.

Saber tirar proveito e aprender com cada um desses momentos é essencial.

Vamos pra próxima!

* Parabéns a todos que completaram a Maratona Caixa do Rio Grande do Sul na noite desse sábado. E um “puxão de orelhas” na Latin Sports, que não entregou medalhas para os concluintes dos 43,2 quilômetros (confirmei no meu Garmin e no de muitas outras pessoas). Eu não dou lá tanta importância, mas penso em quem fez sua primeira maratona, treinou duro para tanto, e chegou em casa com um papelzinho chinfrim tentando justificar tal vacilada. Não sei se foi a fábrica de medalhas, o caminhão da transportadora, o Zé da Esquina. O fato é que pegou bastante mal.

Uma pena. Outro desrespeito aos atletas é errar o percurso: ninguém achou legal ter que fazer mais de 1.000 metros além dos 42,1. Não estamos falando de 200, 300 ou 600 metros. É um quilômetro de diferença. Francamente.

 

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

 

 

 

Mizuno Uphill Marathon 2015: missão ninja concluída

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Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Inacreditável. Essa é a palavra que resume o que vivi na terceira edição da maratona mais difícil do País, a Mizuno Uphill Marathon, realizada na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina (RS) no último sábado, 1º de agosto. E eu explico o porquê dessa afirmação.

Não é apenas porque são 42,1 quilômetros de corrida morro acima, num ambiente nada acolhedor. Nem porque você deve vencer 256 curvas para chegar no topo, situado a exatos 1.418 metros acima do nível do mar, com um ganho de elevação de 2.425 metros. Nem porque, dessa vez, a corrida foi realizada no final da tarde e ao longo da noite, quando você mal sabia onde estava pisando.

O que jamais esquecerei – e o que torna essa missão “ninja” – foi meu estado de ansiedade e insegurança ao saber o que enfrentaria pela terceira vez, já que participei das duas outras edições, com o detalhe de que havia corrido uma maratona há exatos seis dias. Isso mesmo. No domingo anterior, havia concluído a Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, e minhas pernas estavam ainda moídas. Mesmo que tivesse “segurado” a onda e feito a prova em 3h19min, sabia que vencer a insana Serra do Rio do Rastro era loucura nessa altura do campeonato. Uma verdadeira insanidade.

Nessa hora que vem a força do que, acredito, seja o maior patrimônio de todo corredor: a mente. Essa força interna que nos move e faz com que a gente siga adiante e supere os limites. Porque sim, há muito mais entre o céu e a terra e uma planilha de treinos e uma sessão de tiros na pista. Não compreendemos. Apenas sentimos.

O primeiro fator para que o plano “duas maratonas em seis dias” desse certo foi a parceria de amigos que viajaram para a odisseia comigo. Não citarei os nomes. O que sei é que mais de uma dúzia deles transformou o que seria um martírio numa festa jamais vista. Brincamos, pulamos, tiramos onda um do outro desde o dia anterior da competição, deixando tudo leve e repleto de vibrações positivas.

O segundo grande propulsor foi o contexto da Uphill. Todo o clima criado pela organização da prova (Mizuno + X3M, impecáveis em todos os quesitos) entrou em harmonia com a energia dos mais de 500 atletas inscritos, vindos de todas as partes do Brasil. A cidade de Criciúma, ao Sul de Santa Catarina, virou QG de gente apaixonada, simplesmente fissurada pelo esporte. Tenho certeza da extrema relevância da corrida na vida dessa gente que aceitou encarar o desafio. Se inscreveu, lutou por vagas que duraram cinco minutos na internet para esgotar. Pagaram para “sofrer”. Porque sabiam que, mesmo que seja história pra boi dormir, acreditamos piamente no tal de pote de ouro no final do horizonte.

Não posso deixar de citar meu “lastro” de corredora para que eu não só finalizasse – mas faturasse, mais uma vez, um dos cobiçados troféus da prova. Dessa vez, figurei como vice-campeã, atrás somente de Carla Moreno, triatleta profissional. Carla, que tem a minha idade (38 anos), já participou de duas olimpíadas (Sidney/2000 e Athenas/2004) e de três Panamericanos. Só isso. Essa sim é lenda. Respeito total desde sempre por ela, que merece o lugar mais alto do pódio, sem nenhuma discussão. Finalizei o percurso em exatas 4h e 3 segundos, 13 minutos abaixo do ano passado. Dos 495 concluintes, fui a 43ª colocada – sendo 42 homens e uma mulher.

A PROVA

A prova, ao meu ver, foi a mais fácil das três edições, apesar de todas as circunstâncias. Isso falando em termos climáticos, não considerando o nível dos competidores – esse sim, foi o mais elevado. Tanto que foram batidos os dois recordes (Carla, em 3h40min, e Marcelo Rocha, em 3h12min). O clima estava perfeito (nada de vento, nada de chuva, nada frio, quente mas suportável). Diante das demais (frio na primeira e tempestade na segunda), barbada. Quem foi ano passado sabe do que estou falando.

A escuridão foi o diferencial – mas não considero um fator que possa ter atrasado a chegada de qualquer corredor experiente. Ainda mais se formos falar em montanhistas. Creio que não enxergar nitidamente o “dragão da Serra”, sobretudo a partir do quilômetro 30, ameniza a situação. Visualizar o que temos que, literalmente, escalar até a linha de chegada, em Bom Jardim da Serra, conforta bem mais.

Resumindo: a Uphill de 2015 foi perfeita. O astral da prova é indescritível. No sábado à noite, quando cruzei o pórtico, às 20h30, passei pelo corredor humano dos últimos 50 metros, fechei os olhos, abri os braços, com lágrimas nos olhos, e só pude agradecer: “obrigada, meu bom Deus”!

A todos que enfrentaram a Mizuno Uphill Marathon 2015, meus parabéns. Essa é pra quem é osso duro de roer.

Para quem deseja fazê-la, meu incentivo extra. Experimente. Valerá cada passada.

Não sei se posso me considerar uma “ninja”. Mas que senti um clima de “Karatê Kid” na chegada….ah, isso senti. No caso, o tal de Senhor Miyagi acenou positivamente com a cabeça. Missão cumprida, Dani San.

 

Podio

 

TTT 2015: porque eu não vou correr em 2016

Publicado por | Mente de corredor, Sem categoria | 49 Comentários

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Dizem que uma das sabedorias necessárias para qualquer atleta é planejar quais competições irá participar e, mais a longo prazo, qual o momento exato de sair de cena. Para profissionais (o que não é meu caso, e o da maioria), isso é mais difícil e doloroso. Fico imaginando a frustração de ter ido ao auge e, em função de lesões ou desgaste físico e também psicológico, ter que anunciar a aposentadoria.

No final de semana passado, quando corri pela quarta vez a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) na categoria solo (82km pela beira da praia), pensei muito sobre isso. Conquistei um tetracampeonato bonito, sofri, chorei e me diveti para caramba. Porém, quando cheguei em casa e olhei para o troféu feioso de 1° lugar, cinzento e sem graça, me questionei se realmente valeu a pena tanto esforço.

Nessa e em outras competições realizadas no Rio Grande do Sul (e creio que o mesmo ocorre em outras regiões brasileiras), somos tratados como meros coadjuvantes em “festas promocionais” mal organizadas. Pagamos inscrições com valores altos, investimos em equipamentos, em toda infraestrutura para fazer bonito.

Treinamos feito doidos o ano inteiro. Ficamos ansiosos, abrimos mão de uma série de coisas para correr.

E o que ganhamos em troca?

Não estou tirando o mérito de quem cria e realiza tais eventos. Sei que dá trabalho. Mas é um negócio: e um negócio cada vez mais lucrativo. Hoje a corrida é o segundo esporte mais praticado do País. Do Oiapoque ao Chuí, milhares de corredores de todas as idades e classes sociais invadem as ruas com seus tênis coloridos e gastam uma babilônia de grana para alimentar esse “vício” do bem.

Mas a meu ver – e me corrijam se estiver errada -, nos contentamos com migalhas. No caso dum evento como a TTT, que reuniu mais de 2 mil corredores (que desembolsaram, cada um, 130 paus), as falhas ficaram evidentes e decepcionaram muita gente. Falando com colegas que correram a prova, foram apontadas uma série de problemas.

Eu percebi erros graves nos pontos de hidratação (como estava na dianteira, notei que o staff não conseguiu sequer oferecer água gelada em vários pontos, sobretudo após o meio-dia, após a plataforma de Atlântida), algo essencial e básico para todo ultramaratonista. O kit da prova, mais uma vez, decepcionou muita gente. E a premiação, então…sem comentários.

Após correr 82km em 7h44min, batendo o recorde da prova, ganhei um troféu igual a todos os demais (nada criativo e muito feio, no formato da bandeira do Rio Grande do Sul. Mais brochante, impossível). A impressão que tive é que foi feito sem um tesão. Muito, mas muito aquém da dimensão dada pelo público ao evento.

O que ganhei de premiação? Um boné.

Quando digo isso a leigos, que nada entendem de corrida, o espanto é geral. “Mas como pode? Não pode ser! Correr 82km e ganhar um boné! Como tu ainda vai nisso?”, me perguntaram ontem.

Eu não soube responder.

Será que o que vimos no último final semana no litoral não vale para uma reflexão?

O quanto estão valorizando quem se dedica tanto a esse esporte? Onde está o profissionalismo, a consideração com os atletas? Será que merecemos comer pão seco com queijo, quando merecemos (e pagamos para ter) um rango que tenha o sabor da superação, gostoso como um croissant quentinho?

É por essa e outras que, em 2016, decidi não correr mais essa competição e todas as demais que, ao meu ver, não primam pelo profissionalismo e deixam a desejar em vários aspectos.

Quer ver como funciona? Vá para qualquer evento esportivo na Europa e Estados Unidos ou, mais perto ainda, na Argentina.

Somos os principais personagens. E exigir qualidade não é ofensa ou crime. É nosso direito.

Espero que tenhamos uma evolução nos próximos anos, pois do jeito que as coisas andam, dá mais vontade de investir essa grana preta das inscrições em um bom vinho – pelo menos, o retorno é garantido.

 

 

 

TTT 2015: dicas para enfrentar o desafio

Publicado por | Caminho das pedras | 3 Comentários

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31 de janeiro de 2015. Esta é a data para a 11ª edição da clássica Travessia Torres-Tramandaí (TTT), uma das mais cobiçadas provas de revezamento do Rio Grande do Sul e, para os ultramaratonistas, desafio obrigatório pelo menos uma vez na vida. Já corri três vezes a prova sozinha e uma em duplas, e em todas elas saí com um troféu de campeã. Achei que não iria enfrentar novamente o perrengue, mas quando vi, estava inscrita.

Para quem irá debutar na orla gaúcha nas distâncias menores – quartetos e octetos -, bem como quem for mais arrojado e se inscreveu em duplas ou na categoria solo, há dicas e macetes que poderão ajudar bastante e dar mais segurança para cruzar a linha de chegada exibindo aquele sorrisão. Irei mesclar algumas impressões e dar detalhes da minha experiência, porém contarei com a ajuda de professores de educação física experientes em montar planilhas de treino e, claro, que já enfiaram seus lindos pés na areia fofa que separa os dois balneários ao longo de seus 82 quilômetros.

Um deles é Luciano D’Arriaga, da Integra Pró-Saúde, ultramaratonista dos bons. O “Lu” tem no currículo provas de peso como a Patagônia Run 100km, já correu a TTT sozinho em menos de oito horas – tendo ficado entre os 10 primeiros -, ganhou o desafio 24 Horas na Esteira em 2013 e atualmente divulga os resultados de um estudo inédito com ultras presentes na edição de 2013 (inclusive, ele não correu para ficar tirando amostras de sangue dos atletas com seus colegas do mestrado). Outro é Claiton Lenz, do grupo Galgos, de Lajeado, maratonista sub-3h em Santiago 2014 e colaborador da revista Contra-Relógio.

Claro que haverá outros profissionais que serão consultados, mas para o início é isso. Peço que todos enviem suas dúvidas e comentários para que possamos enriquecer ao máximo essa troca de experiências.

A partir de amanhã, vocês poderão conferir dicas de treinamento aqui no blog Santa Corrida nesse período pré-TTT, primeiramente com foco nos quartetos e octetos. A ideia é otimizar ao máximo o tempo nesses três meses que faltam e dar todas as “barbadas” que só amigo dá!

Vamos nessa?

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Quando a carcaça pede a conta

Publicado por | Oxigenando | 3 Comentários

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O calendário de corridas no Brasil e exterior, a cada ano, lota mais e mais com provas que são uma tentação para aficionados nesse esporte. A ideia de aliar turismo com o hobby esportivo tem dado muito certo: basta ver a quantidade de pacotes oferecidos por agências de turismo especializadas nesse promissor filão de mercado.

O problema é: para quem não tem tantas limitações de tempo e no bolso, como fazer para que a “carcaça” sobreviva a tanto maltrato? Sim, porque correr uma maratona seguida da outra não é, de forma alguma, do ponto de vista fisiológico, algo saudável.

Que digam os cabeças que estudam isso a fundo, com seriedade, há décadas.

Em agosto desse ano, estive na 26ª edição anual do Congresso Brasileiro de Medicina do Exercício, realizada em Belo Horizonte (Minas Gerais). Passei quatro dias inteiros assistindo palestras com autoridades em diversos assuntos, incluindo esportes de alto impacto e rendimento como a corrida. Quando falei o que fazia, recebi muitos olhares de reprovação.

“Ultramaratonista? Ih, admiro, respeito, mas teu corpo vai pedir a conta”. Esse foi o resumo do pensamento de profissionais que acompanham há décadas atletas como eu. Estou falando de treinadores de seleções olímpicas, de privilegiados que têm o acompanhamento médico, nutricional, psicológico e toda parafernália tecnológica para minimizar os danos de anos a fio exigindo do corpo até o caroço. Como se fôssemos máquinas.

Sejamos racionais: para um atleta de alto rendimento, duas maratonas seguidas, com 6 dias de intervalo, já são insalubres.  Porque há sequelas que não enxergamos, Para se ter uma ideia,  internamente, apenas para o rim voltar a funcionar novamente pós-prova, demora 48 horas.  Os maratonistas entram em insuficiência renal depois de enfrentar os 42,1 km de uma competição. Sinceramente, isso me impressionou. É só falar com um “papa” do ramo, que tenha acesso às pesquisas a respeito do assunto (a maior parte norte-americanas), para começar a olhar todo contexto de outra forma.

Embora existam exceções, de pessoas geneticamente abençoadas (uma ínfima parcela), as análises são contundentes, unânimes e devem ser respeitadas: há reflexos muito graves, irreversíveis, do exagero de atividade física em pessoas “comuns”. Infelizmente, a realidade é essa.

O mais sinistro é que nada aparece quando temos 20 ou 30 anos. Raramente.

O bicho pega quando os 40 começam a dar as caras. E depois que estragou, só lamento.

Vejo muitos corredores, principalmente os de primeira viagem (0s deslumbrarunners) se gabarem de correr 768 provas por ano. Mas esquecem que o descanso, o tempo de destreinamento, de pausa, seja para o corpo ou para a cabeça, são primordiais.

Já exagerei demais, não vou dar moral de cueca (ou melhor, calcinha).

Mas decidi que quero chegar aos 80 anos correndo, sem prótese de quadril nem pinos no joelho ou 456 hérnias de disco.

Que eu possa ter a companhia desse tantão de amigos que correm, começaram a correr ou ainda irão se aventurar nesse apaixonante esporte. Devagarito, mas sempre.