maratona

Correr é aprender a sofrer

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A frase pode parecer um mantra de masoquista. Calma. Não pense que todo corredor é um sofredor por natureza. Deixe explicar minha teoria.

Corro há quase duas décadas, continuamente. Isso não quer dizer um mês sim, outro não. Falo de treino diário, suado, faça chuva, faça sol. Inverno ou verão. Com céu de brigadeiro ou tomando canivete nas paletas. O que me dá um respaldo suficiente para resumir (toscamente, ok), o que é esse esporte para mim. Se fosse escolher três palavrinhas, tascaria de prima: “aprender a sofrer”. Sim. Porque não pense aí você, que vê um maratonista de longa data rodando feito lebre, que o negócio é fácil e “está no DNA”.

Alguma dúvida do perrengue?

Alguma dúvida do perrengue?

Embora há inúmeros estudos comprovando a influência dos genes paternos e maternos na nossa eficiência biomecânica e energética, jamais poderemos esquecer do que está na base de tudo, e que – ao meu ver, tem TODA diferença. É a capacidade de tolerarmos a dor e seguirmos adiante. Mesmo nos dias ruins.

Esses dias, por acaso, li um artigo muito interessante na revista Gracie Mag, falando sobre os ensinamentos para os lutadores de jiu-jitsu (que admiro muito). No texto, uma citação chamou atenção:

“Acostume-se com a adversidade. Treinar cansado, sem vaidade e sem pensar no resultado, faz parte do caminho do guerreiro. Em breve, isso será normal para você e fará toda a diferença numa eventual competição. Entender como você se porta cansado vai ajudar no seu autoconhecimento”.

Precisa falar algo mais?

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Resiliência – a “arte de se f*** e seguir em pé, resumindo – segue norteando toda a base do bom treinamento. Qualquer atleta que se preze, amador ou profissional, aprende (na marra ou não), que saber aguentar no osso o tranco é a chave do sucesso. Há dias ruins, dias bons, dias péssimos e outros nem queremos comentar de tão sofríveis. E é por isso mesmo que tem graça. Se fosse tão barbada, qualquer um corresse uma maratona como vai no supermercado comprar bananas…

A meritocracia do maratonista é um patrimônio valioso. Todos que já correram 42.195 metros sabem do que estou falando. Não menosprezando as distâncias menores – afinal, os velocistas estouram as coronárias por um motivo muito nobre. Independente da distância, tempo ou qualquer outro parâmetro, estamos falando aqui de superação construída diariamente, mental e fisicamente.

Na manjada e inevitável metáfora da corrida com a vida, mais uma afirmação que faço sem pestanejar: os mais fortes triunfam.

Quem disse que viver seria lomba abaixo, com vento a favor?

É vento contra. Lomba acima.

Mas a gente guenta.

Pode mandar mais, que estamos com muita sede de vida – e de corrida, até o fim dos nossos dias!

* Keep Running!

Bons treinos a todos. ( ;

 

 

Zica na maratona: quando tudo dá errado

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Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Aquela sensação de que você deveria ter ficado em casa

Sabe aquele dia em que as coisas insistem em conspirar contra o pobre cidadão? Quando nada parece encaixar. Quando a maionese desanda. O pneu fura. Você não vê a hora de acordar no outro dia, para acabar com a zica? Pois esse dia – ou melhor, noite – foi ontem, na Maratona Caixa de Porto Alegre. A prova noturna (na qual levei o troféu de campeã no ano anterior) parecia um pesadelo, daqueles que costumam fazer você encharcar os lençóis.

Apesar de não ter a pretensão de ultrapassar feras como a multicampeã Rosa Jussara Barbosa ou Gracielle Pedroso, fui correndo sem medo até meados dos quilômetros 23 ou 24. Quando tudo parecia estar bom demais para ser verdade, vou passar num dos postos de hidratação e esbarro, não sei porque, numa das mesas. Dois dos carbogéis que carregava saltaram da cinta. Fiquei com apenas um para todo o restante da competição (sendo que um dos 4 que levei já havia tomado). Péssimo. Tentei não me abalar demais com o fato.

Dois quilômetros à frente, porém, o guampudo montou na garupa. Comecei a esboçar sintomas de hipotermia. Tremia feito bambu verde. E o pior ainda estava por vir: uma indisposição intestinal (prenunciando o famoso “churrio”, na língua tosca) me deixou extremamente incomodada. Não dava, não havia jeito de passar. Resultado: tive que parar três vezes nos matinhos da Beira-Rio. Sorte que estava escuro.

Notei que não só para mim o dia não estava pra peixe. Vi muitas pessoas parando para se aliviar. Pelo menos meia dúzia de amigos confessaram ter recebido a visita do famigerado “piriri”. O que fazer? Maldita maldição!

Nunca, nessas duas décadas de corrida, passei por tamanho sufoco. Mesmo que jamais tenha abandonado uma prova, algo me dizia que deveria obedecer o corpo e sair pela tangente. O problema é a cabeça-dura aqui obedecer. Fui “escutando os sinais” e afrouxei o pé total. Pensei: completar, apenas completar, na boa, sem passar mal. Vamos ver se dá.

E deu. Cruzei a linha de chegada dos 43.200 metros do percurso (sim, erraram a marcação – corremos um quilômetro a mais) na quarta posição, com pouco mais de 3h20min no cronômetro. Que situação. Mas enfim, foi o que deu.

Taí o que deu pra levar pra casa - 4º lugar no pódio geral feminino

Taí o que deu pra levar pra casa – 4º lugar no pódio geral feminino

A conclusão? Tem dias que não dá. Mesmo que você treine, tenha experiência, vá com fé, animado, tenha “sangue nos óio” e tantas outras qualidades.

A vida é isso aí: feita de altos e baixos, de certezas e incertezas.

Saber tirar proveito e aprender com cada um desses momentos é essencial.

Vamos pra próxima!

* Parabéns a todos que completaram a Maratona Caixa do Rio Grande do Sul na noite desse sábado. E um “puxão de orelhas” na Latin Sports, que não entregou medalhas para os concluintes dos 43,2 quilômetros (confirmei no meu Garmin e no de muitas outras pessoas). Eu não dou lá tanta importância, mas penso em quem fez sua primeira maratona, treinou duro para tanto, e chegou em casa com um papelzinho chinfrim tentando justificar tal vacilada. Não sei se foi a fábrica de medalhas, o caminhão da transportadora, o Zé da Esquina. O fato é que pegou bastante mal.

Uma pena. Outro desrespeito aos atletas é errar o percurso: ninguém achou legal ter que fazer mais de 1.000 metros além dos 42,1. Não estamos falando de 200, 300 ou 600 metros. É um quilômetro de diferença. Francamente.

 

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

Após mais de 43 quilômetros de prova, essa foi a medalha.

 

 

 

Mizuno Uphill Marathon 2015: missão ninja concluída

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Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Inacreditável. Essa é a palavra que resume o que vivi na terceira edição da maratona mais difícil do País, a Mizuno Uphill Marathon, realizada na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina (RS) no último sábado, 1º de agosto. E eu explico o porquê dessa afirmação.

Não é apenas porque são 42,1 quilômetros de corrida morro acima, num ambiente nada acolhedor. Nem porque você deve vencer 256 curvas para chegar no topo, situado a exatos 1.418 metros acima do nível do mar, com um ganho de elevação de 2.425 metros. Nem porque, dessa vez, a corrida foi realizada no final da tarde e ao longo da noite, quando você mal sabia onde estava pisando.

O que jamais esquecerei – e o que torna essa missão “ninja” – foi meu estado de ansiedade e insegurança ao saber o que enfrentaria pela terceira vez, já que participei das duas outras edições, com o detalhe de que havia corrido uma maratona há exatos seis dias. Isso mesmo. No domingo anterior, havia concluído a Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, e minhas pernas estavam ainda moídas. Mesmo que tivesse “segurado” a onda e feito a prova em 3h19min, sabia que vencer a insana Serra do Rio do Rastro era loucura nessa altura do campeonato. Uma verdadeira insanidade.

Nessa hora que vem a força do que, acredito, seja o maior patrimônio de todo corredor: a mente. Essa força interna que nos move e faz com que a gente siga adiante e supere os limites. Porque sim, há muito mais entre o céu e a terra e uma planilha de treinos e uma sessão de tiros na pista. Não compreendemos. Apenas sentimos.

O primeiro fator para que o plano “duas maratonas em seis dias” desse certo foi a parceria de amigos que viajaram para a odisseia comigo. Não citarei os nomes. O que sei é que mais de uma dúzia deles transformou o que seria um martírio numa festa jamais vista. Brincamos, pulamos, tiramos onda um do outro desde o dia anterior da competição, deixando tudo leve e repleto de vibrações positivas.

O segundo grande propulsor foi o contexto da Uphill. Todo o clima criado pela organização da prova (Mizuno + X3M, impecáveis em todos os quesitos) entrou em harmonia com a energia dos mais de 500 atletas inscritos, vindos de todas as partes do Brasil. A cidade de Criciúma, ao Sul de Santa Catarina, virou QG de gente apaixonada, simplesmente fissurada pelo esporte. Tenho certeza da extrema relevância da corrida na vida dessa gente que aceitou encarar o desafio. Se inscreveu, lutou por vagas que duraram cinco minutos na internet para esgotar. Pagaram para “sofrer”. Porque sabiam que, mesmo que seja história pra boi dormir, acreditamos piamente no tal de pote de ouro no final do horizonte.

Não posso deixar de citar meu “lastro” de corredora para que eu não só finalizasse – mas faturasse, mais uma vez, um dos cobiçados troféus da prova. Dessa vez, figurei como vice-campeã, atrás somente de Carla Moreno, triatleta profissional. Carla, que tem a minha idade (38 anos), já participou de duas olimpíadas (Sidney/2000 e Athenas/2004) e de três Panamericanos. Só isso. Essa sim é lenda. Respeito total desde sempre por ela, que merece o lugar mais alto do pódio, sem nenhuma discussão. Finalizei o percurso em exatas 4h e 3 segundos, 13 minutos abaixo do ano passado. Dos 495 concluintes, fui a 43ª colocada – sendo 42 homens e uma mulher.

A PROVA

A prova, ao meu ver, foi a mais fácil das três edições, apesar de todas as circunstâncias. Isso falando em termos climáticos, não considerando o nível dos competidores – esse sim, foi o mais elevado. Tanto que foram batidos os dois recordes (Carla, em 3h40min, e Marcelo Rocha, em 3h12min). O clima estava perfeito (nada de vento, nada de chuva, nada frio, quente mas suportável). Diante das demais (frio na primeira e tempestade na segunda), barbada. Quem foi ano passado sabe do que estou falando.

A escuridão foi o diferencial – mas não considero um fator que possa ter atrasado a chegada de qualquer corredor experiente. Ainda mais se formos falar em montanhistas. Creio que não enxergar nitidamente o “dragão da Serra”, sobretudo a partir do quilômetro 30, ameniza a situação. Visualizar o que temos que, literalmente, escalar até a linha de chegada, em Bom Jardim da Serra, conforta bem mais.

Resumindo: a Uphill de 2015 foi perfeita. O astral da prova é indescritível. No sábado à noite, quando cruzei o pórtico, às 20h30, passei pelo corredor humano dos últimos 50 metros, fechei os olhos, abri os braços, com lágrimas nos olhos, e só pude agradecer: “obrigada, meu bom Deus”!

A todos que enfrentaram a Mizuno Uphill Marathon 2015, meus parabéns. Essa é pra quem é osso duro de roer.

Para quem deseja fazê-la, meu incentivo extra. Experimente. Valerá cada passada.

Não sei se posso me considerar uma “ninja”. Mas que senti um clima de “Karatê Kid” na chegada….ah, isso senti. No caso, o tal de Senhor Miyagi acenou positivamente com a cabeça. Missão cumprida, Dani San.

 

Podio

 

Maratona do Rio: bela, grande e para os fortes

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RIOOO

Vinte e quatro horas após finalizar a Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro, realizada ontem, 26 de julho na Cidade Maravilhosa, relembro  tudo que vivi nas 3 horas e 19 minutos. A prova, considerada a mais importante do país, me deixou de boca aberta boa parte do tempo. Nunca senti tanta emoção correndo. Além da paisagem magnífica – corremos todo tempo contemplando a faixa litorânea -, há uma multidão vibrando nas ruas, numa festa imperdível e de arrepiar até o último fio de cabelo.

Ao todo, somente nos 42k, foram mais de 5 mil concluintes, número que coloca o evento no topo do ranking em solo brasileiro. No evento todo, são cerca de 26 mil pessoas, inscritas na maratona, meia maratona (21k) e Family Run (6km). A cidade congela para apreciar o oceano de gente de tudo quanto é tipo, dos iniciantes à elite que chega para dar show. A alegria, estampada no rosto de todos na linha de chegada, é mesclada com a expressão de dor ao longo do trajeto, nada “barbada” como  alguns imaginam.

Minha experiência foi incrível. Mesmo que não tenha feito um tempo megablaster (já que o convite para corrê-la ocorreu pouco tempo antes e coincidiu com outra prova do meu calendário), posso afirmar sem medo: a Maratona do Rio entrou para o meu coração como se fosse a primeira. Chorei em vários trechos. Como o do Túnel do Joá, quando visualizei o triatleta José Rosa das Neves levando seu filho, que nasceu com hidrocefalia, num carrinho. “Viva a amizade!”, gritava ele. Eu aplaudi. Visualizei a expressão de felicidade  do garoto, vibrante, e me fui com lágrimas nos olhos. Nessa hora, a força surge do nada. Quando você tenta desanimar, lá vem uma cena dessas: ou é turbinado pelo aplausos dos cariocas, ou “empurrado” pelas palavras de incentivo dos demais corredores. “Força, guerreira!”, ouvi muitas vezes. Noutras, morri de rir com tiradas como “tá doendo tudo mas tá bom demais!”. E não acreditei quando a triatleta Fernanda Keller falou “vamos lá! está muito bom o ritmo!” no quilômetro 17. Bem que ela podia aparecer no quilômetro 36, não?

Não sei descrever com maestria a sensação de entrar no corredor da linha de chegada, no Aterro do Flamengo. Você sai do ar. É tanta gritaria e zoeira que não se sente as pernas, nem os braços, nada. O coração quase pula pela garganta. E o pórtico demora a ser visualizado. Resumindo: os 42k da Maratona do Rio são grandões. Tão gigantes quanto a beleza da paisagem. Paisagem essa que ameniza, porém não isenta os atletas de muito esforço. É preciso ter pernas fortes e bastante treino.

divulgacao

Gostaria que todos pudessem ter o privilégio de conseguir levar para casa emoções como essas. Impossível não elevar as mãos aos céus e agradecer por ser maratonista. Ontem, ao olhar para aquele marzão maravilhoso, para aquela paisagem estonteante, fechei os olhos e lancei um “obrigada, meu Deus”. Como prega aquele ditado, “depois do quilômetro 35, não tem ateu”. No Rio de Janeiro, desde os primeiros 100 metros, impossível não crer que ele exista.

* Concluí a maratona em 3h19, figurando na 19ª colocação geral feminina e 2ª na categoria 35-39 anos, atrás da norte-americana Jamie Dawes. Fui a 14ª brasileira a concluir a prova. Ao todo, foram 1.164 mulheres que fizeram os 42k. O troféu virá pelo correio, em breve, já que não pude comparecer à cerimônia de premiação. Prometo que tirarei uma foto dele para vocês. ( :

Agradeço imensamente à Olympikus pelo convite para testar o modelo de tênis Rio 3, lançamento da marca.

Um obrigada a todos que torceram por mim e parabéns a todos que cumpriram seus objetivos no domingo. Aplausos extras aos organizadores, que foram impecáveis em todos sentidos.

 

Pipoca ou bandido?

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pipoca

Quinta-feira, meio-dia. Visualizo um post de Gustavo Maia, de Jundiaí (SP), corredor e organizador de corridas de rua. No texto dele, uma defesa de quem está do lado de trás do balcão. Ele organiza um evento noturno na cidade. E é enfático.

“Reunir tanta gente em torno de um esporte, requer muito trabalho, muita atenção aos detalhes e principalmente, muita calma e paciência. Afinal, como qualquer procedimento que envolve uma venda e um consumidor, não pode haver falhas. Mais: a despeito da relação comercial, é imperativo pensar que a reunião de pessoas em torno de uma prática esportiva pode ser perigoso. Ambulâncias, médicos socorristas, enfermeiros e equipes de apoio devem estar a postos para evitar quaisquer eventualidades, sempre priorizando a segurança dos atletas”.

Parei e pensei. Ele organiza corridas. Está defendendo seu ponto-de-vista. OK. Nada mais natural. Porém, nunca tinha parado para analisar a quantidade de fatores envolvidos numa corrida de rua. E aí, ele elucida de forma extremamente clara.

“Quer um troféu imponente e uma medalha bonita, para ele pendurar na prateleira. E por tudo isso, ele quer pagar bem barato. Quem não quer? Eu também quero. Agora vamos fazer uma conta matemática simples. Tomemos por base o kit desta prova de hoje. Dentro da sacola plástica de 50 centavos, cada corredor leva pra casa uma camiseta de R$ 25,00, um par de meias que custaria cerca de R$20,00, mais uma toalhinha de cerca de R$ 10,00 e um vale sorvete, um vidro de vinagre balsâmico, um vale de sete dias para treinar na principal academia da cidade (1/4 da mensalidade de 129 reais); cerca de R$32,00. Um gel de carboidrato de R$ 5,00. Sem falar que em cada sacolinha ele ainda ganha um numeral de peito personalizado, com um chip de cronometragem que não sai por menos de R$6,00 por dia de aluguel. Só no kit do atleta então, gastamos até agora cerca de cem reais.

Aí, temos que começar a contabilizar a prova em si. Afinal, não é só de kit que se faz uma prova: Seguro de responsabilidade civil. Seguro dos participantes (ambas obrigatoriedades da federação de atletismo). Taxa da Federação, fiscal com moto, aluguel de pórticos, grades, backdrops, pódio, som. Aluguel das ambulâncias, do locutor, dos banheiros químicos, dos cones, das barracas de guarda volume, das tendas médicas, da cronometragem. Transporte de todo o material para a largada e, antes disso, para a entrega de kit. Ainda tem os gastos com a empresa que vende as inscrições, com a agência que produz os logos, com os outdoors que divulgam o evento para a cidade. Os gastos com o vídeo promocional, com os cartazes, filipetas, email marketing. Os custos com as faixas que avisam da interdição da avenida, assim como as placas de desvio do trânsito. Sem contabilizar a hora extra do funcionário do Trânsito (esta, absorvida pelo apoio da Prefeitura) das pessoas envolvidas no preparo deste evento, que passam o feriado trabalhando para que os corredores desfrutem desta engrenagem…”

POLÊMICA FORTE

Gente, como não pensar nisso? Como não questionar?

Resolvi fazer uma enquete. Em menos de 12 horas, mais de 70 comentários no Facebook me deixaram tonta. As opiniões foram deveras divergentes. Minha indagação foi: Você já correu de “pipoca”? Você acha essa atitude correta? Justifique”. Muitas das respostas se resumiam às seguintes frases: “as provas são caras”, “a rua é pública”, “não vou atrapalhar”, “não usufruo da infraestrutura da prova, como hidratação”, “não cruzo o pórtico de chegada e não pega medalha”, “vou só para acompanhar”, entre outras justificativas.

O que será, afinal, que está em questão?

Ao entrevistar treinadores, organizadores de prova e atletas que participam de provas frequentemente, não obtive um veredicto. Os que defendem a participação em eventos sem número acreditam que isso é algo irrelevante, que jamais serão notados ou punidos por tal prática. E, no caso dos treinadores, há uma saia-justa clara: como impedir que seus alunos frequentem a barraca da assessoria, estejam treinando mas não inscritos?

Tauro Bonorino, educador físico de larga experiência, atleta de primeira, dá sua opinião.

“Se fomos considerar que é um evento, destinado a pessoas que se inscreveram pra ele, não é correto. Por outro lado, os altos custos das inscrições contribuem para que os corredores resolvam “correr por fora” ou por dentro mesmo. Também o fato de não podermos impedir o principal direito constitucional (de ir e vir) seja exercido. Claro, o “jeitinho brasileiro” acaba sendo utilizado em alguns casos, quando pessoas que não pagaram, usam de toda a estrutura e ainda pegam a medalha de finisher. Sendo assim, sou da opinião de que o atleta que não se inscreveu tem o direito de correr no percurso, pois a organização não é dona daquele espaço. Também não acho problema ele pegar água, pois não se nega isso nem a um inimigo, pois normalmente chegam a sobrar caixas dela. Porém, não concordo quando o “invasor” atrapalha outros corredores e no final entra na arena para receber medalha”.

Há, porém, os que são totalmente contra a prática. É o caso de Harry Thomas (SP), um dos mais influentes blogueiros do país, fundador da WebRun e criador da RunningNews:

“Compito desde 1994 e NUNCA corri de pipoca. Acho a pratica totalmente errada. E não há nenhuma justificativa convincente para que seja usada de desculpa para os que defendem os “bandits”. Um exemplo claro que ela é ilegal? Na Corrida de São Silvestre, milhões de pessoas assistem pela televisão os batedores de caminho da PM tirarem os pipocas que aparecem ao lado dos líderes”.

Harry se refere aos “bandits”: nos Estados Unidos, qualquer corredor sem número é considerado um pirata. No Brasil, ainda é uma prática corriqueira, defendida por muitos.

Minha posição? Não pulo muro de festa. Não entro em festa na qual não sou convidada. Adoro ter meu número no peito e brigar por ele.

Não sou arroz-de-festa e se quero treinar forte, elejo percursos alternativos e muito mais produtivos. Para mim, treino é tarefa de casa.

Respeito todo corredor que sai de casa cedo para treinar: mas convenhamos, há muitos mais trajetos do que a Beira-Rio, por exemplo, às 7h da manhã dum domingo.

O que vale é correr sempre. Se você é pipoca ou não…detalhe ético/cultural. Enfim.

Sabe o que importa? O amor pelo esporte. Ninguém está cometendo crime algum. Apenas vamos deixar claro nossa real intenção. O espírito da corrida: democrática, apaixonante…e nada xiita.

TTT 2015: preparando a mente

Publicado por | Mente de corredor | Um Comentário

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Quem acha que é preciso apenas pernas e pulmões fortes para encarar uma corrida na areia – sobretudo se essa corrida durar mais de quatro horas, caso da maioria que disputará a Travessia Torres-Tramandaí (TTT) no próximo dia 31 -, está muito, mas muito enganado. Minha convicção é de que os treinos são fundamentais, tanto físicos quanto mentais. E é dessa segunda parte (o condicionamento psicológico) do qual tratarei dessa vez.

Apesar de já ser “macaca-véia” no esporte, fui atrás de um corredor pra lá de gente-fina para discorrer a respeito do tema. Rafael Homem de Carvalho, psicólogo e consultor de empresas familiares, é um baita exemplo para muita gente: perdeu 42 quilos com a corrida e hoje, aos 40 anos, é um desses magrelos loucos fissurados por um dos esportes mais antigos da humanidade.

Pedi para ele escrever um texto, que reproduzo abaixo e creio que vem muito a calhar nesse momento de concentração pré-prova – e também para tantos outros momentos da vida.

Se quiserem saber mais sobre esse psicólogo-amigo-corredor, vale conferir o blog Vida Mais Saudável, que ele inaugurou há pouco para dividir suas ideias hiperbacanas.

Espero que gostem! Eu curti pacas! ( :

Quando os fantasmas se divertem

Rafa empolgadão na chegada da Mountain Do

Rafa empolgadão na chegada da Mountain Do

 

Ainda que de forma um tanto empírica, à medida em que passei a me dedicar mais aos treinos e provas de corrida, passei a procurar conciliar e aproximar os aspectos físicos e orgânicos de alguns fatores psicológicos. Diria que comecei a prestar mais atenção nas influências positivas e negativas da cabeça em relação ao corpo.

Ressalto que não sou especialista nem trabalho com psicologia do esporte, mas apesar disso, nos últimos dois anos tenho tido descobertas interessantes nas – aqui vem um primeiro aprendizado – “conversas”e “negociações” mente e corpo. E são muitas conversas que envolvem uma série de negociações.

Destacarei duas delas, sendo que a primeira foi quando treinava e me preparava para a maratona de Porto Alegre neste ano de 2014. A rotina e o volume de treinos para uma maratona são estressantes em dado momento e se tornam cansativos. Ainda mais para amadores como eu. E em um desses treinos comecei a ter uma perda de rendimento considerável. Notem que não se tratava de algo novo e diferente que fazia naquele momento. Pelo contrário. Já havia realizado em semanas anteriores treino semelhante e com nível de exigência mais forte. Terminei completamente exaurido e com uma sensação muito ruim de quase ter voltado pra estaca zero. Fui então examinar o que poderia ter havido. Me dei conta que durante quase todo o tempo em que fazia a série de tiros na pista, não conseguia deixar de pensar em um problema pessoal que teria que resolver no dia seguinte. Mas o interessante é que durante o treino, o tal problema ia e vinha, mas não me deixava. Me assombrando mesmo. E não fui capaz de perceber que o a ser feito não era tentar ignorar ou esquecer, mas encará-lo de outra forma.

O aprendizado aqui teve um custo, o do desgaste, mas serviu para que eu me preparasse para situações semelhantes que certamente surgiriam não só em treinos, como na própria maratona. Mas a diferença que eles, esses fantasmas já não me assombrariam mais como da primeira vez.

A segunda situação foi mais recente, quando com o término da temporada, direcionei o foco para os treinos para a TTT.

Dezembro é o mês que estamos envolvidos com uma série de eventos sociais e familiares, conclusões e início de novas etapas e ciclos, promessas com novos compromissos assumidos e retrospectivas. E foi justamente numa dessas que veio o segundo aprendizado.

Foi um treino de ritmo, onde para cada distância determinada um ritmo de velocidade pré determinado deveria ser feito. De novo, nada diferente ou acima do que já estava acostumado a fazer.

Lá pelas tantas, Gasômetro vai, Gasômetro vem, começo a perder ritmo. Mas perder feio. Surgem primeiras hipóteses de checagem: Estou bem hidratado? Sim.; Alimentado e suplementado? Ok.; Quente, úmido, vento contra ou a favor? Nada anormal. E a vontade de parar e ir embora só aumentava.

O que aconteceu? De forma não proposital, ao natural, comecei a relembrar de alguns fatos do meu ano. Uma breve retrospectiva. Especialmente das provas em que corri naquele percurso onde estava treinando. Mas assim como vieram uma série de lembranças agradáveis e bacanas, outras nem tanto também estavam nesse pacote. E se encarregaram de passar a assombrar o meu treino. O cansaço e o desgaste potencializam a presença destes pensamentos desagradáveis, sem dúvida alguma.

Os treinos para a TTT tendem a se intensificar passadas as festas de fim de ano. Não só treinos mas o foco na prova, a preocupação em ter um bom rendimento independente do nível, ainda mais que a grande maioria assume compromisso mútuo com parceiros e parceiras de equipe.

Focar numa prova como esta significa, além dos cuidados e preparação com o físico, estar com a mente tranquila. Tenho me policiado para não abrir espaço para que os fantasmas que habitam as nossas mentes festejem e se divirtam em cima dos nossos medos, angústias, preocupações e problemas. Afinal, humanos todos somos. E eles estão lá no aguardo de oportunidades para assumirem o comando.

A ideia é outra: que nos momentos dos treinos e das provas se esteja inteiro. Que se assuma o comando do início ao fim sem dar margem para outra coisa que não seja concluir e bem o que se planejou. Isto nos tornará e deixará com que fiquemos cada vez mais fortes e por consequência, com cada vez menos espaço para fantasmas e assombrações.

 

Quando a carcaça pede a conta

Publicado por | Oxigenando | 3 Comentários

idoso-correndo

O calendário de corridas no Brasil e exterior, a cada ano, lota mais e mais com provas que são uma tentação para aficionados nesse esporte. A ideia de aliar turismo com o hobby esportivo tem dado muito certo: basta ver a quantidade de pacotes oferecidos por agências de turismo especializadas nesse promissor filão de mercado.

O problema é: para quem não tem tantas limitações de tempo e no bolso, como fazer para que a “carcaça” sobreviva a tanto maltrato? Sim, porque correr uma maratona seguida da outra não é, de forma alguma, do ponto de vista fisiológico, algo saudável.

Que digam os cabeças que estudam isso a fundo, com seriedade, há décadas.

Em agosto desse ano, estive na 26ª edição anual do Congresso Brasileiro de Medicina do Exercício, realizada em Belo Horizonte (Minas Gerais). Passei quatro dias inteiros assistindo palestras com autoridades em diversos assuntos, incluindo esportes de alto impacto e rendimento como a corrida. Quando falei o que fazia, recebi muitos olhares de reprovação.

“Ultramaratonista? Ih, admiro, respeito, mas teu corpo vai pedir a conta”. Esse foi o resumo do pensamento de profissionais que acompanham há décadas atletas como eu. Estou falando de treinadores de seleções olímpicas, de privilegiados que têm o acompanhamento médico, nutricional, psicológico e toda parafernália tecnológica para minimizar os danos de anos a fio exigindo do corpo até o caroço. Como se fôssemos máquinas.

Sejamos racionais: para um atleta de alto rendimento, duas maratonas seguidas, com 6 dias de intervalo, já são insalubres.  Porque há sequelas que não enxergamos, Para se ter uma ideia,  internamente, apenas para o rim voltar a funcionar novamente pós-prova, demora 48 horas.  Os maratonistas entram em insuficiência renal depois de enfrentar os 42,1 km de uma competição. Sinceramente, isso me impressionou. É só falar com um “papa” do ramo, que tenha acesso às pesquisas a respeito do assunto (a maior parte norte-americanas), para começar a olhar todo contexto de outra forma.

Embora existam exceções, de pessoas geneticamente abençoadas (uma ínfima parcela), as análises são contundentes, unânimes e devem ser respeitadas: há reflexos muito graves, irreversíveis, do exagero de atividade física em pessoas “comuns”. Infelizmente, a realidade é essa.

O mais sinistro é que nada aparece quando temos 20 ou 30 anos. Raramente.

O bicho pega quando os 40 começam a dar as caras. E depois que estragou, só lamento.

Vejo muitos corredores, principalmente os de primeira viagem (0s deslumbrarunners) se gabarem de correr 768 provas por ano. Mas esquecem que o descanso, o tempo de destreinamento, de pausa, seja para o corpo ou para a cabeça, são primordiais.

Já exagerei demais, não vou dar moral de cueca (ou melhor, calcinha).

Mas decidi que quero chegar aos 80 anos correndo, sem prótese de quadril nem pinos no joelho ou 456 hérnias de disco.

Que eu possa ter a companhia desse tantão de amigos que correm, começaram a correr ou ainda irão se aventurar nesse apaixonante esporte. Devagarito, mas sempre.

 

Maratona de Punta: a vitória do vento

Publicado por | Mente de corredor | Nenhum Comentário
Vai, pangaré, sente esse ventinho nas palhetas

Vai, pangaré, sente esse ventinho nas palhetas

 

Nunca, mas nunca mesmo, trilhar os 42mil, 195 metros de uma maratona é missão de Zé Pequeno. Tudo bem que há um certo exagero, em considerar ser um feito sobrehumano (porque creio que é possível, sim, para qualquer mortal completar a distância), mas tem vezes que você se considera um cidadão privilegiado em cruzar a linha de chegada.

Foi assim no último domingo, quando coloquei na conta mais uma prova nada fácil, a Maratona Internacional de Punta del Este. Há quem vá para o país vizinho esperando melzinho na chupeta. Balneário burguês, onde nove entre dez frequentadores se gabam de frequentá-lo no verão, quando uma Coca-Cola custa quase 10 contos, Punta está incluída no rol daquelas maratonas que são verdadeiras “pegadinhas”. Ano passado, menos de um mês após uma ultramaratona de 24 horas na esteira, cheguei lá toda esgualepada. Não tinha cinco unhas nos pés e consegui um quarto lugar sofrido, mirrado, com 3h16min. O tempo alto foi engolido com naturalidade, afinal, nem esperava conseguir completar a competição naquele estadinho lamentável.

Neste ano, me preparei devidamente, fiz os longões, treinos de pista, de ritmo. Esperava sim, completar, e completar bem abaixo da edição anterior. Mas a realidade foi bem outra.

Na largada, tudo parecia uma maravilha. Consegui administrar um pace abaixo dos 4min30segundos frouxo, até mais ou menos metade da prova, fechando a primeira perna com pouco mais de 1h30min. Porém, depois disso, a coisa degringolou. Há uma certa alimetria, mas o que mais tira o fôlego é o vento, que dá as caras em boa parte da prova. Até os 33km, é administrável. Após, uma briga de foice. A força para manter a passada se torna crescente. Na reta final, não sei a quantos nós estava aquela josca. Só sei que pra kite surfe tava uma maravilha.

Não é por nada que a Maratona de Punta não é procurada por quem quer fazer tempo ou índices de estampar no mural. O evento uruguaio é feito para quem come bastante parilla e doce de leite, não para quem vive no déficit calórico de pratinhos frugais repletos de alface postados no Instagram. É batalha pra forçudos. Feito a personalidade e porte forte e enérgico dos uruguaios e argentinos.

Conquistei o primeiro lugar com folga, 16 minutos acima da segunda colocada (com 3h12min, e tendo que voltar para cortar a fita, pois as meninas que estavam no pórtico mosquearam e não me viram chegar), mas minha dor nas pernas sinalizam a necessidade duma musculação redobrada antes de enfrentá-la outra vez. Não vou lamentar nada, apenas comemorar, mas deixar bem claro para quem perguntar: não, não venci em Punta. Quem deu um vareio foi ele, o vento.

 

 

 

 

Quem disse que é tarde pra começar?

Publicado por | Por Aí | Um Comentário

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Dando uma olhada geral nas movimentações “maratonísticas” do último final de semana – que teve como ponto alto a realização de mais uma edição da mais famosa ultramaratona do planeta, a Comrades -, deparo com uma notícia que me chamou mais atenção do que os tempos dos brasileiros que encararam a prova africana: aos 91 anos, Hariette Thompson (essa aí acima na foto) finalizou a Suja Rock ‘n’ Roll San Diego Marathon em 7h07min42seg, quebrando um novo recorde em solo americano na sua faixa etária. O mais surpreendente é que essa senhorinha se aventurou na primeira maratona aos 76 anos. Isso mesmo.

O feito de Hariette me faz pensar sobre o quanto somos preconceituosos contra nós mesmos. O quanto ficamos presos em nossas “limitações” bestas e passamos boa parte da vida buscando desculpas para não aprender algo novo, como tocar um instrumento musical, estudar uma língua estrangeira, economizar para fazer a viagem dos sonhos ou persistir em um emprego burocrático e emburrecedor.

Quando o repórter da Runner’s World indagou se ela acreditava que havia uma idade certa para iniciar na corrida, a velhinha respondeu, prontamente: “você nunca será velho para fazer qualquer coisa”. Mesmo não podendo treinar de forma consistente devido a um tratamento contra um câncer, Hariette prometeu estar novamente no front de batalha em 2015, desta vez, “em melhor forma”.

Quantas vezes eu ouço reclamações e ladainhas de pessoas saudáveis, com plenas condições de se exercitarem e, porque não, incorporar uma atividade física tão engrandecedora quanto a corrida. “Ah, me falta tempo”. “Poxa, tenho problema no joelho”. “Ixi, me lesionei no futebol”. “Não tenho biotipo”. Hein? Prefiro os mais sinceros e caras-de-pau, que já vão assumindo que “quando tem vontade de fazer ginástica, deitam e esperam passar”. Fazer o quê. Pelo menos não estão tentando se enganar – e engrupir os outros.

Hoje de manhã, quando fui treinar pelas ruas de Porto Alegre, já notei o quanto a preguiça é uma dessas desculpas infalíveis. Tudo bem que o inverno nos deixa com bem mais vontade de passar o dia na cama king size do que tomar vento frio nas orelhas, mas tchê, vamos combinar: um churrasco de domingo tem muito mais sabor depois de um longo bem feito nesse friozinho.

Não é preciso esperar 76 anos para correr pela primeira vez 42,1 quilômetros, mas como diz aquele ditado: “antes tarde do que nunca”. Quando falamos em corrida, a frase “nunca diga nunca” é mais do que genuína.