Mizuno

Mizuno Uphill Marathon 2015: missão ninja concluída

Publicado por | Por Aí | 3 Comentários
Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Vestígios das três edições da Uphill Marathon: dois troféus e três medalhas de Survivor

Inacreditável. Essa é a palavra que resume o que vivi na terceira edição da maratona mais difícil do País, a Mizuno Uphill Marathon, realizada na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina (RS) no último sábado, 1º de agosto. E eu explico o porquê dessa afirmação.

Não é apenas porque são 42,1 quilômetros de corrida morro acima, num ambiente nada acolhedor. Nem porque você deve vencer 256 curvas para chegar no topo, situado a exatos 1.418 metros acima do nível do mar, com um ganho de elevação de 2.425 metros. Nem porque, dessa vez, a corrida foi realizada no final da tarde e ao longo da noite, quando você mal sabia onde estava pisando.

O que jamais esquecerei – e o que torna essa missão “ninja” – foi meu estado de ansiedade e insegurança ao saber o que enfrentaria pela terceira vez, já que participei das duas outras edições, com o detalhe de que havia corrido uma maratona há exatos seis dias. Isso mesmo. No domingo anterior, havia concluído a Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, e minhas pernas estavam ainda moídas. Mesmo que tivesse “segurado” a onda e feito a prova em 3h19min, sabia que vencer a insana Serra do Rio do Rastro era loucura nessa altura do campeonato. Uma verdadeira insanidade.

Nessa hora que vem a força do que, acredito, seja o maior patrimônio de todo corredor: a mente. Essa força interna que nos move e faz com que a gente siga adiante e supere os limites. Porque sim, há muito mais entre o céu e a terra e uma planilha de treinos e uma sessão de tiros na pista. Não compreendemos. Apenas sentimos.

O primeiro fator para que o plano “duas maratonas em seis dias” desse certo foi a parceria de amigos que viajaram para a odisseia comigo. Não citarei os nomes. O que sei é que mais de uma dúzia deles transformou o que seria um martírio numa festa jamais vista. Brincamos, pulamos, tiramos onda um do outro desde o dia anterior da competição, deixando tudo leve e repleto de vibrações positivas.

O segundo grande propulsor foi o contexto da Uphill. Todo o clima criado pela organização da prova (Mizuno + X3M, impecáveis em todos os quesitos) entrou em harmonia com a energia dos mais de 500 atletas inscritos, vindos de todas as partes do Brasil. A cidade de Criciúma, ao Sul de Santa Catarina, virou QG de gente apaixonada, simplesmente fissurada pelo esporte. Tenho certeza da extrema relevância da corrida na vida dessa gente que aceitou encarar o desafio. Se inscreveu, lutou por vagas que duraram cinco minutos na internet para esgotar. Pagaram para “sofrer”. Porque sabiam que, mesmo que seja história pra boi dormir, acreditamos piamente no tal de pote de ouro no final do horizonte.

Não posso deixar de citar meu “lastro” de corredora para que eu não só finalizasse – mas faturasse, mais uma vez, um dos cobiçados troféus da prova. Dessa vez, figurei como vice-campeã, atrás somente de Carla Moreno, triatleta profissional. Carla, que tem a minha idade (38 anos), já participou de duas olimpíadas (Sidney/2000 e Athenas/2004) e de três Panamericanos. Só isso. Essa sim é lenda. Respeito total desde sempre por ela, que merece o lugar mais alto do pódio, sem nenhuma discussão. Finalizei o percurso em exatas 4h e 3 segundos, 13 minutos abaixo do ano passado. Dos 495 concluintes, fui a 43ª colocada – sendo 42 homens e uma mulher.

A PROVA

A prova, ao meu ver, foi a mais fácil das três edições, apesar de todas as circunstâncias. Isso falando em termos climáticos, não considerando o nível dos competidores – esse sim, foi o mais elevado. Tanto que foram batidos os dois recordes (Carla, em 3h40min, e Marcelo Rocha, em 3h12min). O clima estava perfeito (nada de vento, nada de chuva, nada frio, quente mas suportável). Diante das demais (frio na primeira e tempestade na segunda), barbada. Quem foi ano passado sabe do que estou falando.

A escuridão foi o diferencial – mas não considero um fator que possa ter atrasado a chegada de qualquer corredor experiente. Ainda mais se formos falar em montanhistas. Creio que não enxergar nitidamente o “dragão da Serra”, sobretudo a partir do quilômetro 30, ameniza a situação. Visualizar o que temos que, literalmente, escalar até a linha de chegada, em Bom Jardim da Serra, conforta bem mais.

Resumindo: a Uphill de 2015 foi perfeita. O astral da prova é indescritível. No sábado à noite, quando cruzei o pórtico, às 20h30, passei pelo corredor humano dos últimos 50 metros, fechei os olhos, abri os braços, com lágrimas nos olhos, e só pude agradecer: “obrigada, meu bom Deus”!

A todos que enfrentaram a Mizuno Uphill Marathon 2015, meus parabéns. Essa é pra quem é osso duro de roer.

Para quem deseja fazê-la, meu incentivo extra. Experimente. Valerá cada passada.

Não sei se posso me considerar uma “ninja”. Mas que senti um clima de “Karatê Kid” na chegada….ah, isso senti. No caso, o tal de Senhor Miyagi acenou positivamente com a cabeça. Missão cumprida, Dani San.

 

Podio

 

Mizuno Uphill Marathon: o relato da insanidade

Publicado por | Por Aí | 8 Comentários

curvas da Serra do Rio do Rastro

Insana. Dura. Cruel. E magnífica. Assim eu posso resumir o que foi encarar pela segunda vez o desafio de subir a imponente Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. Hoje, um dia após a prova patrocinada pela gigante marca esportiva japonesa, a Mizuno Uphill Marathon 2014, a sensação é de que uma patrola passou por cima de mim. Tenho algumas boas competições difíceis no currículo, incluindo provas de subida e ultratrail, como os 100 quilômetros da Patagonia Run. A Travessia Torres-Tramandaí, com seus 82 quilômetros na beira da praia, areia fofa e vento contra. Já corri 24 horas numa esteira. Mas essa foi de lascar.

O sofrimento começou cedo. Depois de dormir apenas 3 horas e tentar conectar meu cérebro com o horário de verão de sábado para domingo, acordei às 4h30 da madrugada. Tomei café e peguei a van com os demais jornalistas que cobriam a prova. Uma hora antes, perto das 6h, estávamos em Treviso, local onde o pórtico de largada foi montado. E também onde foi armado um temporal muito, mas muito feio, 20 minutos antes do estouro da boiada. Às 6h40, caía o mundo naquele vilarejo de 3.500 habitantes do Estado catarinense. A reviravolta de São Pedro dava o prenúncio de uma missão sinistra: sair daquele local e correr nada menos do que 42,1 mil metros, subindo cerca de 1.400 metros de altitude, até o topo da famosa estrada da Serra do Rio do Rastro, eleita como uma das mais belas do mundo.

Sul em Foco

Me posicionei junto a outros atletas batizados de “survivors” (sobreviventes), concluintes da primeira edição da prova, em 2013. Poucos dos 50 atletas convidados ano passado puderam (ou quiseram, por razões múltiplas e, ao meu ver, óbvias), repetir o feito. Ao som de “Higway to Hell”, de AC/DC, fomos fazer despertar o gigante. Lá foram os 300 loucos desvairados, a maioria sem ter a mínima noção do encontrariam pela frente. Incluindo eu.

blog_mizuno_uphill_2014_manuel_martins_01

Mesmo sabendo que era extremamente difícil chegar no topo, larguei forte. Sou péssima como montanhista e não treino em subidas com a frequência necessária para tal perfil de prova, e essa é a maneira que encontro de não deixar meu tempo ser tão ruim. Eu vou me ralar igual. Então tentei manter um pace de 4min/30 segundos (cerca de 13,5 km/h) no plano e nas descidas, e tentar implementar um ritmo de 10km/h nas subidas menores, até quando eu aguentasse. E isso durou pouco.

Uma dor nas solas dos pés lancinante, atormentante, me desconcentrou por volta do quilômetro 25. Não sei explicar o que exatamente ocorreu, mas posso descrever que é como se uma faca bem afiada e fagulhas bombardeassem as solas sem trégua. Conto nos dedos as vezes que parei para chorar e espremi os olhos de tanto sofrimento. Outros corredores me ofereciam sprays, balas de sal, davam palavras de incentivo. Mas eu não queria saber de nada. Só que aquilo passasse porque eu nunca, na vida, desisti no meio de uma corrida – e aquela não seria a vez.

df088cd6ca392ace1dbc8f9ad9a93f0d (1)

No quilômetro 30, em Lauro Müller, no pé da montanha, a tragédia estava feita. Simplesmente acabada, pensei em pedir arrego. E um milagre aconteceu: as dores nos pés amenizaram um pouco. Resolvi seguir e enfrentar o pior, pois é ali que a corrida começa de verdade. Os 12 quilômetros finais são para gente grande. Só subidas, com curvas em cotovelos, e desta vez, para piorar, com chuva e vento que, pelos meus cálculos e de outros colegas, chegava a 90 km/h. Placas chumbadas no concreto voavam. Correr era impossível em alguns momentos. A água gelada que descia da serra devia medir cerca de 3 graus. A cena, sem exagerar, era de terror e pânico.

Mas é aí que há a divisão “dos homens e das galinhas”, como diz um amigo meu.

Fiquei com raiva. “Ou eu subo essa joça ou eu não me chamo Daniela”. Fala sério. Que baita ameaça! Enfim, é aquela briga mental ferrenha. Esqueci o ritmo, o relógio, o pé congelando, o frio…só não esqueci da ventania porque não dava. Corria agachada, o que não adiantava porcaria nenhuma. Caminhava uns trechos, corria outros…e os quilômetros foram sendo engolidos.

Quando enxerguei o final da estrada, no quilômetro 40, uma sensação de conquista indescritível tomou conta. Pouco mais de um quilômetro adiante, um batedor me aguardava, anunciando o terceiro lugar feminino. A sirene da motocicleta foi acionada. Comecei a desabar em choro. O policial brinca: “vai lá, tu é a terceira mulher, vai ganhar uma rapadura!”. Eu tive forças para gargalhar.

Cruzei a linha de chegada em prantos, de boca roxa e com uma hipotermia – fui para a ambulância com 34,6 graus de temperatura, o que ocorreu com vários outros atletas. Cheguei depois de duas “monstrengas” da montanha, Letícia Saltori Mirlene “Mika” Picin, legítimas “Hammers”, enquanto eu, aqui, sou aquele fusqueta de asfalto.

A sensação hoje é de que sou boa de perna, mas melhor ainda de insistência. Ser osso duro assim de roer deve ser algo a ser estudado. Digo o mesmo para boa parte que chegou lá em cima, onde a ventorréia derrubou até banheiro químico e o pórtico de chegada.

É…a Uphill 2014 deixou um rastro de lágrimas. Isso foi o detalhe, talvez, que tenha feito toda diferença. Quanto pior, melhor? Não sei. Mas que essa sensação de conquista e superação tá difícil de tirar da cabeça, tá.

107_2034-uphill-2014-30

* Parabéns a todos que enfrentaram o desafio e à organização da prova, impecável.

 

 

Uphill Marathon: relato do desafio

Publicado por | Por Aí | 4 Comentários

Serra-do-Rio-do-Rastro1

Creio que ninguém imaginava o quanto seria duro completar essa prova. Assim como eu, que estou sentindo as pernas doloridas, acredito que grande parte de quem subiu os 42,1 quilômetros da Uphill Marathon – realizada pela Mizuno no sábado em Santa Catarina – deve estar relembrando, em flashes, o que passamos no fantástico final de semana.

Tentarei resumir, com alguns detalhes, as sensações de “escalar” a Serra do Rio do Rastro. Certamente, não conseguirei passar a emoção de chegar no topo, tampouco descrever as dores num corpo pouco acostumado a enfrentar subidas tão íngremes.

Confirmando a previsão de tempo fechado, saímos de Criciúma antes do sol raiar com um chuvisco atravessado, aquele que entra nos olhos e para o qual guarda-chuva não adianta. Havia passado a noite sem dormir, o que me deixou bastante cansada mas não tirou minha euforia. Às 4h15, já estávamos tomando café no hotel, e uma hora depois sacolejávamos na van que nos levou até o município de Treviso, local de início da competição. Chegamos por volta das 6h30 no pórtico e o clima era de festa. Os 50 atletas estavam ansiosos e sorridentes para a largada, que ocorreu às 7h. O prefeito da cidade tocou a corneta. Saí em disparada. Pensei: “vou me garantir no plano, depois na subida eu me viro como der”. Embora não seja uma estratégia inteligente, é o que eu poderia fazer para não passar vergonha e ser recolhida no tempo de corte da Uphill. Tinha que chegar na metade do percurso em duas horas e meia. Com 1h40, eu havia cruzado esse ponto. Imaginei: “ai meu Deus, o que me espera”, visto que o limite estabelecido pela organização para cruzar a linha de chegada era de seis horas.

Conferi o mapa de altimetria, fixado no número do peito (aliás, uma ótima ideia da Mizuno). Verifiquei que estava lascada. Com as pirambeiras que havia enfrentado naquele momento, com descidas alucinantes e algumas exigentes subidas, as pernas já pediam trégua. Para meu desespero, a prova não tinha começado. Eu sabia que “o que separava os homens das galinhas”, como comentou um engraçado colega, se pronunciaria após o quilômetro 30. Aliás, mesmo no plano, é aí que o bicho pega. E ele não pegou: o tal bicho sentou nas costas e ali ficou. E o bicho pesava 500 toneladas.

A placa dando boas-vindas aos turistas na “estrada mais bela do mundo” provocou lágrimas nos olhos. “Bela para quem está de moto”, pensei eu. A neblina, que já era forte, fechou a paisagem – uma infelicidade para alguns, mas alegria para outros, pois nessas condições, enxergar tudo o que tínhamos de subir era impossível.

A imponência da Serra do Rio do Rastro começava a dar as caras. Como uma serpente furiosa, a estrada engole todos que arriscam vencê-la, seja a pé, com duas ou quatro rodas. Não dá trégua em nenhum momento. A força da natureza impressiona e dá a sensação de que somos tão pequenos, tão frágeis. O frio e o ar gelado, somado ao chuvisco e à água que cruzava os pés, escorrendo de cachoeiras ao longo do trajeto, transformaram os corredores em picolés ambulantes. Respirávamos num aquário.

No quilômetro 38, eu estava entregue. Caminhava bem mais do que corria – e caminhava fazendo MUITA força –, e o pace foi pras cucuias. Esqueci o relógio e só pensei em chegar. O cronômetro marcava 3 horas e 30 minutos de prova, aproximadamente. Fui avançando, falando com atletas que se aproximavam. Todos mortos de cansados,  também caminhando. Trotar numa altimetria dessas, para mim, era impossível. Meu pé esquerdo, judiado por uma metatarsalgia (inflamação na sola) latejava. Eu tremia de frio. Era hora de acabar.

Dentro das minhas previsões, me aproximei da linha de chegada na casa das 4 horas. Com 4h12min, adentrei no pórtico (que não enxergávamos a mais de 30 metros de distância, devido à neblina fechada), a 1.418 metros acima do nível do mar, na pequena cidade de Bom Jardim da Serra. Na minha frente, já haviam cruzado quatro experientes mulheres. Finalizei em quinto lugar na categoria feminina. Para quem não treinou quase nada em subidas, não tem boa experiência em provas de montanha e ficou quase um mês sem treinar…lambi os beiços!

O mais bacana de toda a experiência, fora a prova, que avaliei como nota 10 no quesito organização/hidratação/apoio/sinalização, foi o clima de amizade e parceria do grupo de atletas selecionados para o evento. Embora seja um evento “fechado” e que tenha provocado certa ciumeira e até antipatia de outros atletas, vi que o formato agradou muito e, certamente, será muito concorrido nas próximas edições. A diversidade de perfis foi excelente, pois envolvia não só atletas com um bom background, mas também pessoas menos experientes. Entre todos, ficou latente uma característica: a paixão pela corrida.

Os 50 guerreiros estão de parabéns. A experiência de deixar nosso rastro na exuberante serra catarinense ficará para sempre na memória. Para quem gosta de desafios, a Uphill não é um prato cheio: é um baquete!

* Para ver resultados, clique aqui.