Olimpíadas

Entre o céu e o inferno: o carma de ser atleta no Brasil

Publicado por | Mente de corredor | Nenhum Comentário
O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

O brasiliense Caio Bonfim ficou entre os 4 melhores do mundo na sua modalidade

Olimpíadas rolando. Todos em polvorosa conferindo o desempenho de atletas dos quatro cantos do mundo ao vivo, nas lindas arenas cariocas, ou pela telinha da TV, que transmite durante as 24 horas imagens incríveis das competições. Impossível ficar indiferente diante de cenas tão lindas. A cada vitória, grito de de superação dos atletas e quebra de recorde, vidramos os olhos e, muitas vezes, nos emocionamos – mesmo que jamais tenhamos ouvido o nome do campeão.

Embora tenhamos uma simpatia absurda com o Esporte, vivemos num País que, infelizmente, não sabe torcer. Pelo menos essa é a conclusão que tiro ao conferir a reação de nosso povo com o desempenho de nossos atletas. Claro que há exceções, mas a tendência é colocar o sujeito que não conquistou uma das três medalhas no status “abaixo da mosca que pousou no cocô do cavalo do bandido”. Aceitamos que o inglês perca, que o norte-americano falhe, que o francês desista. Mas quando testemunhamos algum atleta falhar, e esse alguém é made in Brazil…ah, que drama! Logo vem as críticas: “só podia ser brasileiro”, “incompetente”, “tá gastando o dinheiro do governo pra isso?”, “macaca”, entre outras frases menos classudas.

Ou você é herói, ou é um lixo. Esse é o carma de ser atleta nessa terra. Do céu ao inferno, é um passinho bem curto.

Joanna Maranhão, da natação, Rafaela Silva, do Judô e Diego Hypolito, da ginástica (sem falar de Caio Bomfim, da marcha atlética, que confessou ter sido xingado todos os dias enquanto treinava), são alguns exemplos nítidos desse verdadeiro carma de ser atleta no Brasil. Claro que todos tem o compromisso e responsabilidade de competir com afinco e dedicação, afinal, essa é a sua profissão. Porém, nem sempre as coisas são tão simples numa Olimpíada: estar ali, por si só, já é um grande feito. Ter índice para participar comprova que o sujeito está entre os melhores do mundo e, como tal, deve ser respeitado.

Assim como outros aspectos da vida, no Esporte há dias bons, dias ruins. E, se desabamos, temos que ter a chance de levantar, tentar novamente, até acertar. Nossa cultura esportiva, capenga, racista, homofóbica, descriminatória e elitista, ainda privilegia astros e esquece de que, para conquistar uma medalha de ouro, é necessário muito mais do que quatro anos entre um e outro Mundial.

O feito de Hypolito – que você pode conferir aqui nesse link, numa entrevista para a SporTV – resume o quanto devemos apoiar e acreditar no potencial de nossos talentos. Mesmo (e principalmente) quando eles não estão lá no topo.

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Os ginastas Diego Hypolito e Arthur Nory exibem suas medalhas

Atletas de verdade costumam ter um plano para quando o fracasso ocorrer, afinal, ele faz parte do árduo preparo para a vitória. Não importa quantas quedas teremos na vida. Provavelmente, serão muitas. Quantas? Ninguém sabe. O certo é que teremos que somar “um” após cada uma delas. Caiu 500? Vai ter que levantar 501 vezes. O sonho da vitória só rola quando há aprendizado com cada derrota.

 

 

As lições que o esporte nos dá

Publicado por | Oxigenando | Nenhum Comentário

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Há uma imensidade de coisas que aprendemos ao inserir o esporte na nossa vida. Disciplina, humildade, concentração, resistência, gratidão, paciência, companheirismo, competitividade saudável, meritocracia, entre muitos outros valores jamais possíveis de assimilar via osmose, numa sala de aula de aula ou até em Harvard.

Fora essa revolução pessoal, existe a poderosa força de transformação social. Quem estuda o assunto é unânime em afirmar que criamos uma sociedade melhor, mais justa e mais saudável quando fortalecemos esse pilar, já que com o esporte vem a inclusão, a fuga das drogas e da criminalidade, o resgate da cidadania.

Na época que precede grandes eventos, como as Olimpíadas – que ocorre pela primeira vez na magnífica e despreparada cidade do Rio -, alguns lembram de mencionar a importância de incentivar o esporte desde cedo e enaltecem a capacidade do brasileiro de se sair bem em diversas modalidades, do vôlei ao tênis, passando pela natação e pelo atletismo, sem esquecer, é claro, do velho e bom futebol.

A “pátria de chuteiras”, porém, só tem investido fortemente nas últimas décadas na formação de jogadores do esporte bretão. Uma meia dúzia de patrocinadores são disputados taco a taco por todo o “resto”. Quantos talentos já foram desperdiçados por conta da falta de visão empresarial e de incentivos governamentais?

Um dos ídolos máximos do tênis mundial, Gustavo Kuerten, criticou recentemente, em entrevista ao Esporte Espetacular, exatamente esta carência em solo brazuca: falta o trabalho nas categorias de base, algo só feito com mais consistência nos aspirantes a Neymar. Como ele, vários outros atletas que enfrentaram, em algum momento da vida, essa dificuldade de obter recursos para treinar e disputar provas, lamentam o quanto jogamos fora chances de ouro.

O atletismo — ao meu ver, o rei de todos os esportes — é um dos que sofrem fortemente com a carência de incentivos precoces. Não se forma um atleta do dia pra noite. Uma medalha de ouro só é conquistada com anos e anos de treino diário, com treinadores qualificados e uma infraestrutura adequada. De nada adianta querer colher uma lavoura linda sem plantar — e cuidar dela diariamente, sem trégua. Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, César Cielo, da natação, Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo e Ibrahimovic do futebol, Federer e Nadal do tênis, Sheilla e Giba, do vôlei e tantos outros.

Nenhum deles é um milagre. Todos são resultado de um trabalho contínuo, sério e árduo e, obviamente, de quantias razoáveis de tempo e dinheiro aplicados constantemente, desde a infância.

No dia em que esta consciência estiver arraigada na mente de quem cria as políticas de incentivo ao esporte — e que fique claro, não só na véspera de megaeventos como a Olimpíadas — daremos um grande passo à frente.

Acreditar no poder de transformação do esporte jamais será um mau investimento.

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