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Pipoca ou bandido?

Publicado por | Gente que corre | 3 Comentários

pipoca

Quinta-feira, meio-dia. Visualizo um post de Gustavo Maia, de Jundiaí (SP), corredor e organizador de corridas de rua. No texto dele, uma defesa de quem está do lado de trás do balcão. Ele organiza um evento noturno na cidade. E é enfático.

“Reunir tanta gente em torno de um esporte, requer muito trabalho, muita atenção aos detalhes e principalmente, muita calma e paciência. Afinal, como qualquer procedimento que envolve uma venda e um consumidor, não pode haver falhas. Mais: a despeito da relação comercial, é imperativo pensar que a reunião de pessoas em torno de uma prática esportiva pode ser perigoso. Ambulâncias, médicos socorristas, enfermeiros e equipes de apoio devem estar a postos para evitar quaisquer eventualidades, sempre priorizando a segurança dos atletas”.

Parei e pensei. Ele organiza corridas. Está defendendo seu ponto-de-vista. OK. Nada mais natural. Porém, nunca tinha parado para analisar a quantidade de fatores envolvidos numa corrida de rua. E aí, ele elucida de forma extremamente clara.

“Quer um troféu imponente e uma medalha bonita, para ele pendurar na prateleira. E por tudo isso, ele quer pagar bem barato. Quem não quer? Eu também quero. Agora vamos fazer uma conta matemática simples. Tomemos por base o kit desta prova de hoje. Dentro da sacola plástica de 50 centavos, cada corredor leva pra casa uma camiseta de R$ 25,00, um par de meias que custaria cerca de R$20,00, mais uma toalhinha de cerca de R$ 10,00 e um vale sorvete, um vidro de vinagre balsâmico, um vale de sete dias para treinar na principal academia da cidade (1/4 da mensalidade de 129 reais); cerca de R$32,00. Um gel de carboidrato de R$ 5,00. Sem falar que em cada sacolinha ele ainda ganha um numeral de peito personalizado, com um chip de cronometragem que não sai por menos de R$6,00 por dia de aluguel. Só no kit do atleta então, gastamos até agora cerca de cem reais.

Aí, temos que começar a contabilizar a prova em si. Afinal, não é só de kit que se faz uma prova: Seguro de responsabilidade civil. Seguro dos participantes (ambas obrigatoriedades da federação de atletismo). Taxa da Federação, fiscal com moto, aluguel de pórticos, grades, backdrops, pódio, som. Aluguel das ambulâncias, do locutor, dos banheiros químicos, dos cones, das barracas de guarda volume, das tendas médicas, da cronometragem. Transporte de todo o material para a largada e, antes disso, para a entrega de kit. Ainda tem os gastos com a empresa que vende as inscrições, com a agência que produz os logos, com os outdoors que divulgam o evento para a cidade. Os gastos com o vídeo promocional, com os cartazes, filipetas, email marketing. Os custos com as faixas que avisam da interdição da avenida, assim como as placas de desvio do trânsito. Sem contabilizar a hora extra do funcionário do Trânsito (esta, absorvida pelo apoio da Prefeitura) das pessoas envolvidas no preparo deste evento, que passam o feriado trabalhando para que os corredores desfrutem desta engrenagem…”

POLÊMICA FORTE

Gente, como não pensar nisso? Como não questionar?

Resolvi fazer uma enquete. Em menos de 12 horas, mais de 70 comentários no Facebook me deixaram tonta. As opiniões foram deveras divergentes. Minha indagação foi: Você já correu de “pipoca”? Você acha essa atitude correta? Justifique”. Muitas das respostas se resumiam às seguintes frases: “as provas são caras”, “a rua é pública”, “não vou atrapalhar”, “não usufruo da infraestrutura da prova, como hidratação”, “não cruzo o pórtico de chegada e não pega medalha”, “vou só para acompanhar”, entre outras justificativas.

O que será, afinal, que está em questão?

Ao entrevistar treinadores, organizadores de prova e atletas que participam de provas frequentemente, não obtive um veredicto. Os que defendem a participação em eventos sem número acreditam que isso é algo irrelevante, que jamais serão notados ou punidos por tal prática. E, no caso dos treinadores, há uma saia-justa clara: como impedir que seus alunos frequentem a barraca da assessoria, estejam treinando mas não inscritos?

Tauro Bonorino, educador físico de larga experiência, atleta de primeira, dá sua opinião.

“Se fomos considerar que é um evento, destinado a pessoas que se inscreveram pra ele, não é correto. Por outro lado, os altos custos das inscrições contribuem para que os corredores resolvam “correr por fora” ou por dentro mesmo. Também o fato de não podermos impedir o principal direito constitucional (de ir e vir) seja exercido. Claro, o “jeitinho brasileiro” acaba sendo utilizado em alguns casos, quando pessoas que não pagaram, usam de toda a estrutura e ainda pegam a medalha de finisher. Sendo assim, sou da opinião de que o atleta que não se inscreveu tem o direito de correr no percurso, pois a organização não é dona daquele espaço. Também não acho problema ele pegar água, pois não se nega isso nem a um inimigo, pois normalmente chegam a sobrar caixas dela. Porém, não concordo quando o “invasor” atrapalha outros corredores e no final entra na arena para receber medalha”.

Há, porém, os que são totalmente contra a prática. É o caso de Harry Thomas (SP), um dos mais influentes blogueiros do país, fundador da WebRun e criador da RunningNews:

“Compito desde 1994 e NUNCA corri de pipoca. Acho a pratica totalmente errada. E não há nenhuma justificativa convincente para que seja usada de desculpa para os que defendem os “bandits”. Um exemplo claro que ela é ilegal? Na Corrida de São Silvestre, milhões de pessoas assistem pela televisão os batedores de caminho da PM tirarem os pipocas que aparecem ao lado dos líderes”.

Harry se refere aos “bandits”: nos Estados Unidos, qualquer corredor sem número é considerado um pirata. No Brasil, ainda é uma prática corriqueira, defendida por muitos.

Minha posição? Não pulo muro de festa. Não entro em festa na qual não sou convidada. Adoro ter meu número no peito e brigar por ele.

Não sou arroz-de-festa e se quero treinar forte, elejo percursos alternativos e muito mais produtivos. Para mim, treino é tarefa de casa.

Respeito todo corredor que sai de casa cedo para treinar: mas convenhamos, há muitos mais trajetos do que a Beira-Rio, por exemplo, às 7h da manhã dum domingo.

O que vale é correr sempre. Se você é pipoca ou não…detalhe ético/cultural. Enfim.

Sabe o que importa? O amor pelo esporte. Ninguém está cometendo crime algum. Apenas vamos deixar claro nossa real intenção. O espírito da corrida: democrática, apaixonante…e nada xiita.