Santa Corrida

Dependentes da corrida: quando correr vira um problema

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Jogging injury.

Se você é um atleta experiente, já deve ter respondido para alguém “se correr realmente vicia”. Nada mais natural a curiosidade. Afinal, para quem olha de fora, como explicar a rotina exaustiva de treinos dum maratonista? Ao longo das mais de duas décadas de prática desse esporte, posso afirmar que sim, vicia. E muito. Até chegar ao ponto de mais atrapalhar do que ajudar a vida. E é justamente sobre isso que falarei nesse texto.

Nessa manhã, ao ligar no canal OFF, deparei com um documentário muito interessante (Wild Surf), filmado com mulheres que pegavam onda na década de 80/90 nos Estados Unidos e que viviam o lifestyle do surf na veia, mesmo depois de décadas. Todas elas, na faixa dos 50 anos de idade, falavam, nostálgicas, o que o mar significava para elas. Uma das entrevistadas revelou ter feito terapia para curar a dependência no esporte, que passou a atrapalhar sua rotina. “Tinha dias que eu estava trabalhando e identificava um swell entrando de Sul. Não conseguia fazer mais nada a não ser pensar nas ondas que estava perdendo dentro do escritório”. E é justamente nesse ponto que quero chegar.

Quem aí já faltou um compromisso importante porque “tinha” que treinar? Deixou de aproveitar um encontro familiar ou amoroso para cumprir na íntegra a planilha? Ou ficou com um beiço deeeesse tamanho porque não conseguiu calçar os tênis pra rodar “pelo menos 10 quilometrozinhos”? Ah, pois é. Eu me enquadro perfeitamente no grupo que levanta a mão pra dizer que sim, já deixei de fazer muita coisa por causa da corrida. É claro que treinar é necessário, e dependendo da prova-foco, tem que treinar MUITO. Ultramaratonistas e triatletas que o digam.

Quando passa do ponto

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Há um limiar muito pequeno entre o saudável e o doentio, objeto de estudo de teses como essa, publicada há vários anos na Revista Brasileira de Medicina do Esporte – “Dependência da Prática de Exercícios Físicos: Estudo com Maratonistas Brasileiros“.  Ali, é possível ler a respeito da chamada negative addiction - ou seja, quando “a prática excessiva de exercícios está associada a aspectos prejudiciais à saúde física e mental do indivíduo”. O estudo, realizado pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, avaliou o grau de dependência de 59 corredores. A conclusão bate com o que observo hoje, após ter observado centenas de atletas amadores. “Alguns corredores apresentavam sintomas de abstinência, tais como irritabilidade, ansiedade, depressão e sentimentos de culpa, quando eram impedidos de participar de suas rotinas de corridas regulares. Entre as evidências que fortalecem a hipótese da existência de dependência de exercício, encontram-se relatos de corredores sobre a interferência da prática regular de corrida no convívio familiar, social e no ambiente de trabalho”.

Os sintomas de que a coisa está passando do ponto são evidentes.  Vamos a alguns deles:

1) Deixar de realizar outras atividades para manter o padrão de treino;

2) Aumentar a tolerância à quantidade e frequência dos exercícios físicos ao decorrer dos anos;

3) Ter sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade) quando interrompida a rotina de exercícios e consequente alívio ou prevenção ao praticar a atividade;

4) Seguir realizando a atividade física mesmo quando lesionado, doente ou com qualquer indicação médica;

5) Se isolar socialmente, afetando relacionamentos com amigos, familiares ou com companheiros de trabalho;

6) Fazer dieta alimentar para perder peso como uma forma de melhorar o desempenho.

Em busca da harmonia

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Se você se identificou com esse perfil de “dependente da corrida”, vale refletir o quanto isso está afetando a sua vida. Assim como a surfista do documentário, que foi atrás de um psiquiatra para tirar o pé e encontrar o equilíbrio entre o esporte, o trabalho e a família, creio que é válido buscarmos uma ajuda profissional caso você tenha a consciência de que a corrida virou mais um problema do que um prazer. Afinal, não estamos aqui nessa vida para pagar penitência, certo?

Sou um caso típico. Numa época, não conseguia passar um dia sem treinar. A ideia era capotar na cama, ao ponto de desligar a chave-geral. Essa válvula de escape até funciona, porém pode ter consequências graves, como overtraining, queda no rendimento físico e mental – sem contar no vasto rol de lesões.

Fui buscar terapia. Estava chegando no ponto perigoso da obsessão. A sorte é que consegui puxar o freio antes que algo mais grave ocorresse. A boa notícia: correndo menos, melhorei meu desempenho. Descobri que qualidade é muito mais importante do que quilometragem. Que descanso também é treino. Ao meu ver, a corrida pode ser uma grande aliada para um envelhecimento saudável. Para isso, é preciso investir bastante em autoconhecimento: a chave de tudo. É preciso descobrir os motivos  dessa fuga (não adianta correr, os problemas seeeeempre são quenianos, kkkkk). Buscar o real sentido da corrida, que é colaborar para nos tornarmos seres mais completos e saudáveis.

Pretendo ser uma velhinha beeeeem doidinha, amarrando meus cadarços para aquele trotezinho matinal. Creio estar no caminho certo. Ouvindo meu corpo, sabendo dos meus limites, dos meus objetivos e prioridades. A corrida significa muito, mas não é absolutamente tudo. Vamos correr, sem exagerar na dose – afinal,  a diferença entre o remédio e o veneno é bem pequenina.

Bons treinos a todos!

( ;

 

Correr é aprender a sofrer

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A frase pode parecer um mantra de masoquista. Calma. Não pense que todo corredor é um sofredor por natureza. Deixe explicar minha teoria.

Corro há quase duas décadas, continuamente. Isso não quer dizer um mês sim, outro não. Falo de treino diário, suado, faça chuva, faça sol. Inverno ou verão. Com céu de brigadeiro ou tomando canivete nas paletas. O que me dá um respaldo suficiente para resumir (toscamente, ok), o que é esse esporte para mim. Se fosse escolher três palavrinhas, tascaria de prima: “aprender a sofrer”. Sim. Porque não pense aí você, que vê um maratonista de longa data rodando feito lebre, que o negócio é fácil e “está no DNA”.

Alguma dúvida do perrengue?

Alguma dúvida do perrengue?

Embora há inúmeros estudos comprovando a influência dos genes paternos e maternos na nossa eficiência biomecânica e energética, jamais poderemos esquecer do que está na base de tudo, e que – ao meu ver, tem TODA diferença. É a capacidade de tolerarmos a dor e seguirmos adiante. Mesmo nos dias ruins.

Esses dias, por acaso, li um artigo muito interessante na revista Gracie Mag, falando sobre os ensinamentos para os lutadores de jiu-jitsu (que admiro muito). No texto, uma citação chamou atenção:

“Acostume-se com a adversidade. Treinar cansado, sem vaidade e sem pensar no resultado, faz parte do caminho do guerreiro. Em breve, isso será normal para você e fará toda a diferença numa eventual competição. Entender como você se porta cansado vai ajudar no seu autoconhecimento”.

Precisa falar algo mais?

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Resiliência – a “arte de se f*** e seguir em pé, resumindo – segue norteando toda a base do bom treinamento. Qualquer atleta que se preze, amador ou profissional, aprende (na marra ou não), que saber aguentar no osso o tranco é a chave do sucesso. Há dias ruins, dias bons, dias péssimos e outros nem queremos comentar de tão sofríveis. E é por isso mesmo que tem graça. Se fosse tão barbada, qualquer um corresse uma maratona como vai no supermercado comprar bananas…

A meritocracia do maratonista é um patrimônio valioso. Todos que já correram 42.195 metros sabem do que estou falando. Não menosprezando as distâncias menores – afinal, os velocistas estouram as coronárias por um motivo muito nobre. Independente da distância, tempo ou qualquer outro parâmetro, estamos falando aqui de superação construída diariamente, mental e fisicamente.

Na manjada e inevitável metáfora da corrida com a vida, mais uma afirmação que faço sem pestanejar: os mais fortes triunfam.

Quem disse que viver seria lomba abaixo, com vento a favor?

É vento contra. Lomba acima.

Mas a gente guenta.

Pode mandar mais, que estamos com muita sede de vida – e de corrida, até o fim dos nossos dias!

* Keep Running!

Bons treinos a todos. ( ;

 

 

Uphill Marathon 2017: brincadeira de gente grande

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SERRA

Por mais conhecimento que acumulemos na trajetória de atletas, jamais poderemos afirmar que já vimos de tudo. A cada treino – e a cada nova oportunidade de competir -, podemos nos surpreender com situações fantásticas. E foi exatamente isso que ocorreu no último final de semana, quando participei pela quinta vez da Mizuno Uphill Marathon, prova que ocorre anualmente na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina.

Ao todo, foram 67km suados em duas “pernas” – 42km de manhã e 25km à tarde. Desde o ano passado, é possível se inscrever em três modalidades: maratona, 25km ou na dobradinha. E, claro, a fominha aqui assinou o atestado de demência ao escolher o “Desafio Samurai”, afinal, correr “só” uma maratona na subida cansa pouco. kkkkk! (((( ; A ideia (além de prestigiar o evento, que reúne corredores do Brasil todo e do qual fui eleita embaixadora, por participar de todas edições desde 2013) era apenas chegar duas vezes lá no topo. Importante: com as duas pernas, dois braços e sem rastejar. Estava com o grito entalado na garganta desde ano passado, quando tentei o mesmo feito e parei no quilômetro 60, desidratada e chamando urubu de meu lôro. A primeira e única vez que retirei meus cadarços do asfalto.

Enfim, lá fui eu pra missão. Havia encaixado os treinos como nunca. A mente estava de “psicopata”. Me sentindo forte, segura e extremamente preparada pra escalar aquele paredão do demo. E fui. Peguei estrada já na sexta, antes do almoço, com meu parceiraço Marcinho Calcagnotto (do @gemeostri), triatleta de mão cheia, que dirigiria pra mim na volta, pois tinha um evento em Bento Gonçalves no domingo, o Grape Tea Country Run da Salton, um dia após o desafio. (Sim….corri mais 10km no dia seguinte. Vai entender! Mas foi só pra “puxar” a galera).

E foi aí que começou a odisseia duma das mais mágicas corridas da minha vida.

Maratona: segurando a onda

Acordo às 4h, tomo café em Nova Veneza, onde fiquei hospedada. Saímos antes das 6h em direção a Treviso, cidade que já abraçou a Uphill como evento oficial. Todas cidades da região, aliás, incluindo a maiorzinha delas, Lauro Müller, de onde sai a segunda perna, recebem a competição com excelentes olhos, já que vem gente de dezenas de cantinhos do Brasil, movimentando a economia e levando uma série de benefícios para os moradores. Prova de que, onde há esporte, todo mundo ganha! <3

Voltando a linha de largada dos 42k, foi aquela loucura de sempre: nervos à flor da pele. Coração acelerado. E a certeza de que teria que segurar muito a onda, afinal, não poderia cometer o erro grosseiro de arrebentar as coronárias na primeira etapa e ficar só no arame. Concentrei. Fui administrando o tempo todo, baseada muito mais no ritmo cardíaco do que no pace. Aumentava um pouco, eu puxava o freio. Parei em TODOS pontos de hidratação, com a intenção de realmente me poupar, hidratar e suplementar adequadamente.

Como já corri mais de 260 quilômetros, ao todo, nessa serpente que é a Serra do Rio do Rastro, sabia muito bem o que iria encontrar. Um minuto a mais, um a menos até o km 32, se for pra aliviar e deixar um gás pros últimos 10, faz pouca diferença. O importante é chegar no pé da Serra inteira, capaz de caminhar rápido, parar pouco e tentar mesclar com corrida. O famoso “o que dá pra fazer”. Se der pra correr é lucro.

Fui sorrindo, conversando com os guerreiros que encontrava pelo caminho. Num cenário estontante, daqueles de filme. Quem conhece aquilo ali sabe o que é de lindo. Mas a imponência daquelas montanhas estava inacreditável no sábado. O céu azul, a temperatura na largada amena. Um cenário perfeito….pra se lascar. Sim, porque é nesses dias nos quais você acha que vai dar tudo perfeito que a cobra fuma. Se o visual compensou, o termômetro fez questão de massacrar na segunda metade da prova. Vários atletas fizeram a mesma observação: a prova estava pesada, pois o calor maltrata quem faz força.

Tive que negociar o tempo todo com a dor no meu pé esquerdo (tenho um neuroma de Morton, uma praga que vai minando com aquela facadinha na sola). Como vi que a mulherada “alienígena” garantiu os 5 primeiros lugares, fiquei ali atrás, ainda entre as 10 primeiras, ciente das minhas limitações, porém obcecada em cruzar a linha de chegada inteira.

Na reta final, o meu maior presente, além do alívio da dor: vejo a corredora Lilian Olimpio (que também estava no Desafio Samurai) quebradinha, quebradinha (tanto quanto eu, claro! kkkk). Eu sabia que poderia passar por ela no quilômetro final.  E talvez muitas corredoras fariam isso, sem pestanejar. Mas, na hora, me deu um estalo. A plena sensação de que não deveria fazer aquilo. Encostei nela, preocupada com a situação de ser ultrapassada no finalzinho. Ela, ofegante, ouviu de mim um “calma que não vou te ultrapassar. Nós vamos chegar juntas. De mãos dadas. Eles nem vão saber quem chegou em sétimo ou oitavo lugar”. Ela, chorando…e eu falando: “…aliás, eles vão saber sim. Tu vais chegar na minha frente. Quando estivermos cruzando, tu vai meter o pé no tapete e eu vou chegar atrás”.

Quando adentramos no túnel que desemboca na Finish Line, presas uma a outra, embriagadas de emoção, ouvindo os gritos da galera que ovacionava aquele momento, tive uma sensação única. Indescritível. Chegamos juntas, nos abraçamos, e eu fiquei muito mais feliz por ela do que por mim. Dificilmente esqueceremos desse dia. Um presente de Deus.

O final: só no sapatinho

Se tem algo que quebra as pernas é ter que fazer uma ultramaratona em 2 etapas. Sim, é mais fácil duma vez só. Pelo menos para mim. Você para, esfria, tem que saber o que comer pra não se estufar, mas ainda assim ter energia estocada. Os 42km antes dos 25km nessa Uphill (ano passado foi de forma inversa) foi bem melhor. Porém, mesmo assim, o troço é punk.

Num resumo tosco, posso dizer que fiz os últimos 25km do jeito que deu. Senti muita dor, estourei o tempo planejado….corri mal os últimos 10km. Mas foi o que deu. Rale-se. Cheguei lá em cima duas vezes, num feito que poucas mulheres no Brasil tem coragem de arriscar, quiçá completar – e olha que não falta mulher forte nesses pagos. Basta dizer que apenas 24 homens e oito mulheres concluíram essa pedreira – e eu fui uma delas. Com reclamar do desempenho? Não dá, né!

Na semana em que completei 41 anos de vida, agradeço a Deus pela oportunidade de viver isso na pele. Creio que nada é por acaso, e a corrida resume tudo o que acredito. E acredito, cada vez mais, em muitas coisas: em primeiro lugar, na paixão e no amor que colocamos naquilo que fazemos. Também tenho plena certeza que somos uma força descomunal da natureza. Creio na força da amizade. E que a mente comanda tudo: ela pode nos levar para lugares inimagináveis. Um dia desses li que “o impossível é só uma questão de opinião”. Fato!

A Serra do Rio do Rastro está lá para mostrar que somos nada diante de tamanha imponência das montanhas e do tamanho desse universo. A vida é um sopro, já diria Niemeyer. Eu mesma prefiro uma ventania! ((( :

Quero deixar aqui meus parabéns a todos que enfrentaram o desafio de subir aquela serpente, independentemente do tempo ou distância. É para poucos! Definitivamente!

Agradeço a todos pelo carinho. À equipe da organização da Mizuno Uphill Marathon, meus sinceros agradecimentos. Aos meus patrocinadores e apoiadores – Skechers Performance Brasil, NewMillen Suplementos e Authen Brasil -, um obrigada gigante.

Até logo, guerreiros de fé!

#ninjarunners

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como lidar com a TPM: Tensão Pré-Maratona

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Estamos há exatos 11 dias da 34ª Maratona Internacional de Porto Alegre, marcada para o dia 11 de junho na capital dos gaúcho. Já começo a sentir a energia que paira no universo dos corredores que irão encarar os 42 quilômetros. Estreantes ou não, experientes ou menos calejados, todos acabam vivenciando algum grau de ansiedade. Aquele famigerado “friozinho na barriga” de quem tá descendo ladeira abaixo sem freio…

Tem aqueles que relatam alterações no sono, no apetite, no humor (que a família e os colegas de trabalho aguentem, kkkk!). Noooormal. Escrevo aqui justamente para esse time dos que “picam no lugar”, fritando no travesseiro, pensando nas quinhentas mil possibilidades de dar errado…eitaaa cabecinha difícil de controlar essa, hein?

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Primeira dica: pare com essa mania de olhar pro GPS do vizinho

Pois então. Senta aí. E vamos por partes – assim como a distância mais clássica do atletismo deve ser resolvida. Você treinou, certo? Cumpriu a planilha certinho. Cuidou da alimentação. Deu feedback pro treinador. Conversou com os parceiros. Pescou dicas. Deu um “Google” umas 567 mil vezes procurando temas relativos a sua preparação, equipamentos, alimentação. Isso bastaria, certo? Não. Pra você, que sofre de Tensão Pré-Maratona (TPM), é irresistível ficar de olho no longão do amigo no Facebook. Comparar seu pace com o do Fulano, do Sicrano. Começa a achar que tá fazendo pouco. Que não treinou o suficiente. E duvida do próprio treino. Se identificou? Rá!

Pra você, amiguinho maratonildo, tenho uma novidade. Deixa de besteira e vem ser feliz. Não importa se seu longão foi maior do que o do ninjarunner do Quinto dos Infernos, se seus tiros não foram tão bons quanto o do queniano dos pampas. Claro que há uma ciência por trás de todo treinamento e periodização de corrida (que seu treinador deve ter explicado), e o tema-de-casa deve ser feito. Mas, pera lá! Há muitos outros detalhes envolvidos. Um dos principais deles é, justamente, esse que abordo nesse texto: o fator psicológico. De nada adianta estar 110% na planilha, se chegar lá no dia se borrando nas calças, com medinho de não desempenhar o que você julga razoável. Uma mente tranquila e focada é item fundamental na hora do “pega pra capá”. Pode ter certeza que o motor vai fundir se não houver confiança. Aconteça o que acontecer, é preciso acreditar que tudo vai dar certo. Pelo menos, é assim que tenho feito desde sempre. ( :

 

Nessa altura do campeonato…quem treinou, treinou!

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Outro detalhe: nada adianta você ter feito um longo monstruoso de 38 km se não houve uma continuidade no seu treinamento. Aqui, estamos falando das 14 semanas que antecedem a Maratona. Sim, ininterruptos. E outra: meu véio, agora não é hora de fazer longo. Nessa altura do campeonato, há 11 dias do Dia “D”, esqueça treinos “pra estourar as coronárias”. Para tirar o atraso, muitos caem nessa roubada. Resultado: imunidade lá no pé e um risco altíssimo de lesões, o que pode colocar tudo a perder. Não, né?

Quando o controle vem com ela: sempre ela, a experiência

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Concordo em gênero, número e grau com o que pregam especialistas em Psicologia do Esporte, como William Falcão. Ele defende que “a ansiedade não é necessariamente ruim. Ela é até importante para o indivíduo reconhecer momentos estressantes onde o alto rendimento é necessário, como saber distinguir o ambiente de treino do ambiente de competição. São nesses momentos que atletas encontram a disposição para superar seus limites. Fundamental, no entanto, que o atleta encontre um grau de ‘ansiedade ideal’. Ela ajuda, inclusive, a sua performance, ao invés de prejudicá-la”.

Segundo o psicólogo, em entrevista recente ao site Globo Esporte, o controle de ansiedade se adquire com experiência. E é exatamente isso o que sinto. Nas minhas primeiras provas, sofria bastante. Me preocupava com meu sono, com minha dieta, com tudo – como se cada detalhe fosse fazer uma BAITA diferença. No final das contas, a verdade é que o que vale é o conjunto do que fazemos, meses a fio, e não num ou outro dia.

“Estar consciente do nível de ansiedade e das consequências do mesmo no seu corpo e mente podem acelerar este processo. Na medida em que se aprende a controlar o nível de ansiedade, o atleta pode também aprender a interpretar a ansiedade como um motivador. Temos inúmeros exemplos de atletas que depois de anos de experiência competindo em nível internacional relatam continuar sentindo “um frio na barriga” antes da competição. Este “frio na barriga” se torna um motivador ou um gatilho que os preparam para superar seus próprios limites. Seu corpo e mente interpretam este estímulo como um alerta para se preparar para a atividade”.

Ahá! E aí que está a chave de tudo. Não é que temos que anular a ansiedade, mas sim saber controlá-la – e cada deve encontrar seu mecanismo de controle. Esse “friozinho na barriga” é, ao meu ver, essencial. No dia em que eu não tiver mais isso, creio que vou parar de competir. Essa ansiedade, na medida, é saudável e totalmente compreensível.

Para os mais inexperientes – ou que irão estrear na distância dos 42,1 km em Porto Alegre -, minha dica é: respire fundo, esvazie sua mente e utilize sua energia para se concentrar e ganhar motivação para a corrida. Basta dois ou três quilômetros para a sensação de coração na boca e boca seca ir embora. E dali pra frente, você terá muito chão pra administrar.

Uma Maratona nunca é resolvida em meia dúzia de minutos. E por isso mesmo – por exigir tanta força, treino e preparo físico e mental – ela é tão mágica. De algo tenho absoluta certeza: depois de cruzar a linha de chegada, somos os ansiosos mais relax e de bem com a vida! Essa felicidade não tem preço nem explicação científica. E ninguém pode tirar isso da gente!

Desejo a todos corredores, de todas as distâncias uma excelente prova na Maratona Internacional de Porto Alegre. Nos vemos dia no domingão, dia 11, lá no BarraShoppingSul. Bora pra cima que o resto é só alegria!!!! ((( :

 

 

 

 

TTT 2017: pra começar – e terminar bem

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Foto: Guto Oliveira/Transpire

Foto: Guto Oliveira/Transpire

Após um ano fora da Travessia Torres-Tramandaí (TTT), que ocorre no próximo final de semana nas areias do litoral norte gaúcho, cá estou eu, ansiosa para percorrer os intermináveis 82 quilômetros que separam os dois balneários. Com a experiência de ter ganho por 4 anos consecutivos e sendo recordista feminina dessa competição, me arrisco a rabiscar alguns conselhos para quem irá encarar nessa edição. São bastante genéricos, mas talvez sejam úteis, sobretudo aos novatos.

1) Organize-se. Como é uma prova realizada na beira da praia, não espere um “mu-muzinho”. Por melhor que esteja a areia, o vento, o clima, jamais será como correr na Beira-Rio. Caso consiga, trace um plano B com sua equipe no que diz respeito à hidratação e suplementação. São várias horas de envolvimento no evento. Leve comida, isotônico, água, Coca-Cola, gel, paçoca, damasco, castanhas, sanduba, enfim, tudo aquilo que você esteja acostumado a comer. Jamais fique muito tempo sem se alimentar. Ter combustível constante é tudo!

2) Não se afobe. Tenha foco, bom-humor e paciência. Não importa a distância que você irá percorrer. Se vai na categoria solo, em dupla, quarteto ou octeto. Nada se resolve em 10 minutinhos. Vá trilhando quilômetro a quilômetro com base naquilo que você treinou. Milagre não existe e ficar dando uma de Usain Bolt em pista de tatuíra não vai te levar a lugar nenhum. Aliás, a chance de você quebrar é imensa. Lembre que é APENAS uma prova e que não tem vida ou morte em jogo. Estamos aí pra competir, sim, mas saudavelmente.

3) Concentre-se no ambiente. E curta cada momento. Caso a previsão se confirme – tempo bom, com sol -, fique mais atento ainda. Como a TTT é realizada em pleno veraneio, num sabadão, a chance da praia estar lotada é enorme. Crianças correndo pra lá e pra cá, guarda-sóis, vendedores ambulantes, bêbados, enfim, a fauna e a flora em atividade intensa. Tente seguir uma linha reta, não ficar em zigue-zague, pois, além de correr mais, a chance de acidentes fica maior. Numa única direção, sua concentração fica maior. Analise o estado da areia – quanto mais solta e clara, mais desgaste, pois não há retorno de passada e o sol reflete, aumentando a temperatura. Confira se mais perto da água a situação não estará melhor – afinal, perto das ondas, a areia é mais escura e você sofre menos a ação do calor. Claro, tem dias que nessa faixa a areia está muito fofa, o que não favorece nada. Tudo é questão de uma análise da situação. Ahh! Importante: não se preocupe em molhar seu rico pezinho na água. Ficar saltitando pra desviar dos córregos e valas, comuns no nosso litoral, é erro comum: muita gente já travou a posterior ou teve lesões ao fazer isso. Meta a “pata” sem dó e toque ficha. Afinal, se não é pra se sujar, nada como um passeio no xópim!

4) Evoque o mantra “eu posso. eu consigo”. Dia desses, conversando com um amigo meu que estreará na categoria solo, perguntei por qual motivo ele “inventou de fazer essa merda”. Deixei ele falar. Nenhum dos motivos que ele citou bateram com aqueles que acredito. “Não, você deve querer fazer porque você pode. E porque você consegue”, falei. A maneira de pensar é que faz toda a diferença. Lembre que tudo está na mente. Correr como você nunca correu é uma questão muito mais mental do que física. É preciso treino, sim, porém quem te faz chegar lá e cruzar a linha de chegada chorando e rindo ao mesmo tempo é essa superação pessoal. A grande batalha é com você mesmo.

Desejo a todos uma excelente prova – e que a força esteja com você. Sempre!

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Nos vemos lá na Barra do Imbé/Tramanda! ( ;

 

 

 

 

 

 

 

 

Fuja do Leão de Treino

Publicado por | Foco no treino | Um Comentário

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :

 

 

 

 

 

Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

Publicado por | Por Aí | Nenhum Comentário
O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

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Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

( :

Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km

 

 

 

 

Desafio Samurai: a vida como ela é

Publicado por | Por Aí, Sem categoria | Nenhum Comentário

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Escrever sobre a minha quarta participação na Mizuno Uphill Marathon – prova que ocorre desde 2013 na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina – é uma tarefa árdua. São tantas emoções que nem Robertão Carlos seria capaz de descrever na suas centenas de letras. E dessa vez, tentarei explicar o que é encarar duas vezes a imponente estrada considerada “a mais linda do mundo”, vide eleição virtual realizada recentemente.

SERRA

Para quem não sabe, esse ano escolhi encarar o Desafio Samurai – ao todo, 67 km -, divididos em insanos 25km matutinos (de Lauro Müller a Bom Jardim da Serra) e 42km vespertinos/noturnos (de Treviso ao topo de Bom Jardim novamente). Duas “pernas” recheadas de subidas intermináveis. Poucos ousam subir (e descer) de veículos motorizados. Porque, meu fio, você enxerga a bunda da caranga no retrovisor. De moto, cansa. Imagine a pé. Enfrentando um clima nada previsível, numa região onde são registradas as temperaturas mínimas do País.

Participo desse evento desde a sua origem. Compareci religiosamente em todos os anos. Havia subido até ontem antes da 7h da manhã, 126km nas três edições – 42km em cada, ficando em 5º lugar em 2013, 3º lugar em 2014 e 2º lugar em 2015. E ontem acordei às 7h disposta a acumular mais essa porrada de quilômetros num só dia. Me sentia bem, havia treinado bastante, dentro das possibilidades – já que, lembrando, não sou atleta profissional e encaixo a planilha numa rotina de casa-filho-família/coordenação de academia e grupo de corrida/faculdade de Educação Física.  Pois então. Sem chorumelas. Estava prontíssima!

Aprendizado número 1: parcimônia

Larguei nos 25km controlando muito. Ficava olhando no GPS para jamais puxar demais o ritmo, com a certeza de que pagaria o preço depois. E fui segurando. A intenção era fazer abaixo de 2h15min a primeira “perna”, que fiz com perfeição. Encerrei em terceiro lugar geral feminino, numa corrida consistente e no controle, algo complicado para meu perfil, que ama “sentar a bota”. Acabei orgulhosa da minha capacidade de concentração, o que me deixou inteira para enfrentar a maratona que viria a seguir.

Descansei, encontrei amigos no ginásio de Treviso e me alinhei às 3h da tarde para a segunda largada. Pernas muito inteiras, pulmão idem – apesar de ter enfrentado quase que apenas subidas na primeira parte. E fui. Confiante. Só que a matemática não é tão simples quando falamos em ultramaratona. Comecei a subir muito bem e senti, lá pelo quilômetro 8, falta de água. Para quem estava largando sem o peso dos 25km nas costas, talvez esse detalhe não tenha sido determinante. Porém, para atletas acostumados a hidratar com regularidade como eu (o que acho imprescindível), o bolo começou a desandar nesse ponto, ainda no início.

Desidratei. O tempo abafado pesou a ponto de perder rendimento drasticamente. E o efeito dominó pegou: náuseas. Não entrava suplementação. Glicemia baixando. Pressão despencando. Cansaço extremo. Pernas não respondendo. E se tem algo que sei é conhecer meu organismo. Quando lá pelo quilômetro 20 da maratona “preteou os óios da gateada” (a visão ficou turva), vi que algo deveria ser feito. E a melhor atitude seria subir a serra de carro.

Parei num posto de hidratação. Dezenas de pessoas me ajudaram. Falavam palavras de incentivo. Queriam me levar junto. E eu, já apática, dizia que não dava. Comi, tomei Coca-Cola, glicose. E fui até o quilômetro 38. Talvez desse para terminar (não no tempo limite de 6h30min do Desafio Samurai). Porém, decidi que não valia a pena. Pressenti algo ruim. Não sei explicar. Ninguém sabe. Mas resumo assim: em respeito a mim, em primeiro lugar. Em respeito a minha família, em segundo lugar. E em terceiro, a todos que já me viram chegar e não reconheceriam ver cruzar o pórtico uma Daniela destruída e sem forças para vibrar ao cortar a desejada fita.

Saldo positivo: ao todo, percorri 60km. E hoje, escrevendo esse texto, parece que corri um “21km pegadinho na Beira-Rio”. ( ;

Há uma diferença brutal entre superação e burrice. Desculpem os fãs dos “atletas-que-chegam-vomitando”.

Brilho eterno de uma mente com lembranças

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Pela primeira vez, larguei uma prova. Após 20 anos correndo. E digo: fiz o certo. Hoje estou inteira, pronta para enfrentar um calendário bem bacana de ultras pros próximos seis meses (ficarão sabendo logo!). Tento sempre fazer do limão uma limonada e pensar de que nada é por acaso. Hoje, tenho o orgulho de dizer que jamais deixei alguém me ver passar mal numa prova – o que ao meu ver, depõe contra esse esporte tão lindo -, e que minha tentativa de passar um exemplo bonito e saudável tem dado bons frutos.

Minha frustração? Sei lidar com ela. Isso é fácil. O que não saberia é lidar com uma lesão ou sequela do desgaste excessivo. Entre três mulheres que puderam ter índice para encarar o Desafio Samurai, apenas a “alienígena” Letícia Saltori, da Equipiazza de Curitiba, conseguiu no tempo regulamentar de 6h30min para cumprir as duas pernas. Eloiza Testolin Rodrigues, da Inspire Assessoria Esportiva de Caxias do Sul (tchó!) conclui os 67km acima do tempo, mas está de parabéns pelo empenho e dedicação às corridas. Ambas moram no meu coração e são atletas exemplares, além de pessoas maravilhosas. Dessas coisas que só a corrida nos dão. <3

Agradeço a todos que me ajudaram nos dois percursos, tentaram me empurrar, levar de carrinho de mão, de guincho, mas amigos…tem dias que não dá! Hauhahaha! Prometo retribuir essa energia maravilhosa.

À equipe da Mizuno e da X3M, parabéns por mais um evento fantástico. É por isso que deixo minha família, meu trabalho em Porto Alegre e encaro a gincana. Para encontrar esse bando de “louco dentro das roupa!”. E como a trupe do Bernardo Fonseca e do Bruno Onezio pregam: “é muito mais fácil segurar um louco do que empurrar um bobo”. ( ;

Parabéns a todos atletas que encararam essa pedreira, seja nos 25km, nos 42km ou nos 67km. É pra poucos. E o que eu senti nesse final de semana não pode ser explicado num só texto. Somos uma “tribo” de loucos, sim, mas loucos pela vida. Essa gente que gosta de sentir o sangue correr na veia dessa maneira pode ser um objeto de estudo na NASA. Mas é essa adrenalina que nos move.

No frigir dos ovos (e eu amo omelete!), fica a sensação de que tudo é um aprendizado e, mais uma vez, confirmo que a corrida é a mais perfeita metáfora da vida.

A beleza da vida está nisso: na humildade de reconhecer nossos erros e acertos.

Estamos aqui hoje porque muita coisa deu certo – mas muitas coisas deram errado.

Já pensou nisso?

Um forte abraço e até a próxima!

 

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O maratonista de Kichute

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Dois dias depois de seu aniversário de 77 anos, Valdomiro participará mais uma vez da Maratona Internacional de Porto Alegre, que ocorre dia 12 de junho. A comemoração, segundo ele, “ficará após cruzar o pórtico de chegada”

No ano em que o primeiro homem correu a lendária Maratona de Boston abaixo de 2h30 min (o norte-americano Ellison M. “Tarzan” Brown, com 2:28:51), nascia, quase dois meses depois, no dia 10 de junho, um dos mais longevos maratonistas da capital gaúcha. Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, é uma figura notável. Impossível não sorrir ao vê-lo de manhã bem cedinho, de camiseta molhada, cumprindo mais um de seus sagrados treinos.

Já tinha mirado ele inúmeras vezes em provas de rua e nos longões da Beira-Rio. No mesmo passinho , devagar e sempre. Sem firula, tênis da moda ou qualquer parafernália. Aliás, sua primeira maratona, aos 50 anos de idade (a de Porto Alegre), foi disputada com um…Kichute. Sim, aquele tênis horroroso, misto de chuteira com sei-lá-o-quê, criado na década de 70 – e terror dos ortopedistas.

Mesmo que ninguém recomende correr 42 quilômetros com calçado similar, é por esse e outros detalhes que Valdomiro merece um capítulo a parte na história das corridas de rua da cidade. Pela sua simplicidade e leveza de ser, pela perseverança e atitude perante a vida. Ao invés de reclamar da idade, ele muda o curso e vai pra rua vestido apenas com a vontade insaciável de sentir o vento no rosto e a endorfina correndo nas veias.

Na semana passada, o relógio marcava 6h58. Esperava meu grupo de corrida chegar para treinarmos em frente ao Praia de Belas Shopping. E tive a sorte de esbarrar com Valdo. Encerrava seu treino, iniciado há mais de uma hora. Sim, ele acorda às 4h, come “frutas e respectivas farinhas” e sai para a rua às 5h30. “Com minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite”, não esquece de salientar, bem-humorado.

Nossos olhares se encontraram e fomos metralhando perguntas um ao outro. Ele iniciou o papo:

“E aí, tá fazendo quanto hoje?”

Eu respondo:

“Não, não, só tô esperando ainda o pessoal chegar pra correr. Só um trotinho hoje!”

Preferi não perguntar quanto ele já havia rodado, mas sem dúvida muitos mais do que faria no dia. Falamos sobre a Maratona de Porto Alegre, perguntei com quantos anos ele estava, como era bom acordar cedo pra correr…e, claro, não perdi a oportunidade de clicar uma fotinho pra me exibir ao lado do amigo, de quem sou fã.

No final, saiu essa entrevista, feita por e-mail. Acham que a jornalista aqui perderia a oportunidade de contar essa história contagiante? Jamé! A ideia é incentivar quem “acha que está velho pra começar a correr”, acha mil justificativas pra não desgrudar a buzanfa do sofá ou, simplesmente, deseja encontrar uma inspiração para seguir acreditando no poder desse lindo esporte.

Seu Valdomiro, taí uma figura encantadora. Espero chegar na sua idade com a metade de sua disposição e vitalidade. ( :

ENTREVISTA – Valdomiro Siegieniuk, 76 anos, maratonista

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Valdo emocionado ao cruzar a reta final na Maratona de Chicago

Santa Corrida – Quando e porque começou a correr? 

Valdomiro Siegieniuk – Sempre gostei de correr, mas participar de corrida de rua foi mais tarde, a partir de 1980. Tudo surgiu a partir de uma aposta com guris mais jovens, que me desafiaram a começar. O início foi na pista do Parque Marinha do Brasil. A minha primeira Maratona foi a Internacional de Porto Alegre, em 1989. Eu tinha 50 anos de idade e corri com os tênis Kichute. Não tinha feito nem um treino longo. Fiquei uma semana sem poder descer as escadas.

Santa Corrida – Quantas maratonas já disputou?

Valdomiro -  Já disputei 42 Maratonas no Brasil, mais a Supermaratona de Rio Grande, além de 13 Maratonas no exterior. No total, foram 53 provas nessa modalidade. Mas eu corro diversas distâncias, gosto de todas!

Santa Corrida – Como é a sua rotina de treinos?

Valdomiro – Hoje, treino sem planejamento.Levanto às 4 horas da manhã,como as minhas frutas com as respectivas farinhas e saio para treinar ao redor das 5h30min (com a minha mulher preocupada comigo, pois ainda é noite). Quantos quilômetros por dia? Depende da disposição, temperatura e se encontro alguém no meio do caminho.Em média, de 10 a 20 km.

Santa Corrida – Qual o significado da corrida para você?

Valdomiro – É a chama da vida. A satisfação de chegar em casa, tomar um banho e estar disposto e com bom humor o dia inteiro.

Santa Corrida – Que conselho você daria para quem quer iniciar nesse esporte?

Valdomiro -  Em primeiro lugar, fazer um exame médico. Depois, procurar um professor de Educação Física ou participar de um grupo de corrida para receber as orientações corretas. Da minha parte, sempre digo para nunca desistirem.O meu maior prazer é ler no Facebook, quando após uma maratona, o que um(a) atleta escreve: Valdomiro, graças a ti,eu sou um(a) Maratonista! Pois já incentivei muitos jovens a participarem.

Santa Corrida – Cite um momento marcante que você viveu nesses anos todo correndo.

Valdomiro - Foram muitas emoções vividas. Uma foi ao correr a Maratona de Berlim, quando combinei com a minha mulher (que sempre me acompanha, mesmo não correndo), que me esperasse na frente do hotel, pois ali seria o 15 km do trajeto. Ao atingir esse ponto,encontrei ela com um apito (foram distribuídos pela organização),parei, dei um beijo, um forte abraço e recebi calorosos aplausos do público presente.Continuei  correndo com lágrimas nos olhos.Terminei a prova ao redor de 3h35min. Isto foi em 2001, aos 62 anos de idade. Outro episódio marcante foi na Maratona de Budapeste, quando passava pelo ponto de troca do revezamento e fui saudado pelo locutor anunciando meu nome e dizendo que era brasileiro. Inesquecível!