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Fuja do Leão de Treino

Publicado por | Foco no treino | Um Comentário

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No pico do treinamento para a Travessia Torres Tramandaí (TTT) 2017, que ocorre no final do mês de janeiro no litoral gaúcho  - prova que enfrentarei pela quinta vez na categoria solo (82km) -, rodando mais de 100 quilômetros por semana, tenho oportunidade de sobra para “viajar” sobre vários temas durante minhas rodagens diárias. No finde que passou, num desses famigerados longões de 30 e poucos quilômetros, fui teorizando a respeito dos atletas que treinam feito loucos, com o afinco de um profissional, mas chegam na hora da prova e acabam colocando tudo a perder.

As desculpas são inúmeras: ou é uma lesão inesperada, ou deu uma cãimbra horrorosa, ou “senti o quadril”, ou deu piriri, churrio, enjoo, faltou hidratação. Jamais, em hipótese alguma, o dito-cujo assume que treinou errado. E, no caso – e é sobre isso que irei falar nesse texto – treinar errado é treinar demais. Em excesso. A ponto de chegar no dia da competição exausto, física e mentalmente.

Os chamados “Leões” ou “Campeões de Treino” são facilmente identificáveis. Conheço uma penca deles. Cumprem planilhas Kamikases, vivem postando fotinhos de GPS para se gabar nas redes sociais. Seu esporte predileto é comparar seu desempenho com o dos amigos (ou inimigos). Porém, quando chega o momento do “pega-pra-capar”, miam feito gatinhos. Acabam se frustrando com o desempenho e, obviamente, relatam a experiência com detalhes cirúrgicos do quanto foi inevitável sua baixa performance.

Aprendendo com os erros

Claro que todos temos direito a errar e ir mal numa prova. Não somos máquinas. Tem dias que realmente a coisa não flui. Paciência. Já aconteceu comigo, com você, com todo mundo. A diferença está em saber lidar com a situação e, claro, tirar alguma lição após o ocorrido. Li recentemente, numa excelente matéria da Revista Tênis conselhos extremamente úteis para quem deseja competir de forma saudável e colher bons frutos.

“Existe uma forte relação entre a baixa performance sob estresse competitivo e a carência de habilidades mentais. Contudo, existem outras competências que igualmente influenciam esse processo (…) Habilidades emocionais e físicas completam o conjunto de competências necessárias para resistir às tensões. Deve-se entender que o rendimento em competições é uma questão multidimensional, envolvendo mente, emoções e a parte física”.

Sim, há uma enormidade de fatores relacionados. Mas vejo que chegar cansado numa prova é, sem sombra de dúvidas, algo que pode colocar tudo a perder. Na ânsia de ir bem, com a melhor das intenções, o sujeito chega à estafa. Corpo e mente entram em colapso justamente no momento em que precisaríamos estar 100%. Triste, mas completamente compreensível.

Como tirar o leão da jaula?

Primeiro passo: invista no autoconhecimento. Conhecer seus limites é extremamente útil para saber quando “aliviar o pé” ou quando enfiar a sola no fundo. Bons corredores evoluem gradualmente e têm parcimônia para atingir grandes resultados. Não queime etapas.

Invista em profissionais capacitados. Uma planilha bem feita, com a periodização adequada, darão a segurança para chegar no “Dia D” com tudo em cima. Há uma ciência por trás de todo esporte. Hoje, há inúmeros treinadores de corrida, nutricionistas, fisioterapeutas, médicos do Esporte, enfim, opções não faltam para você chegar lá de forma saudável e inteligente. São “atalhos” que valem bem mais do que meses parado em função de uma lesão, por exemplo.

Estabeleça metas possíveis. Correu 10km hoje e já quer fazer maratona daqui a 6 meses? Calma, rapaz. Segure a onda e fique bom em cada uma das distâncias. De nada adianta assumir um compromisso humanamente impossível de realizar. Não há milagre. Você jamais dará numa prova o que não fez num treino.

Tenha humildade para assumir(e aceitar) suas limitações. Ninguém nasce maratonista sub-3h. É preciso muito lastro e dedicação. E, claro, também há o fator genético. A natureza é sábia. Não force a barra.

Aprenda com seus erros. E tente novamente. Desistir de primeira? Jamais. Tenha maturidade para tirar o máximo proveito dos seus erros diariamente. Todo grande competidor possui essa característica: saber levantar com elegância. Raiva e desânimo são comuns, mas saiba controlar essas emoções. Com uma mente positiva, tudo flui melhor. Como a corrida deve ser. ( :

 

 

 

 

 

Quer ser forte e ágil? Aposte no treino funcional

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Ele é a promessa de um corpo saudável para enfrentar os desafios do dia a dia e banir as limitações do envelhecimento. Caiu no gosto de pessoas de todas as idades e níveis de condicionamento – e ganha, a cada dia, mais adeptos.

O método do futuro, quando se fala em malhação eficaz e nada monótona, tem um nome e sobrenome: Treinamento Funcional. Como o termo diz, o objetivo é que o corpo mantenha sua funcionalidade. Em resumo, é preservar a capacidade de executar os movimentos do dia a dia, que vão desde sentar e levantar até alcançar um pote de biscoitos no alto da prateleira.

A técnica ganhou imensa notoriedade nos últimos anos por ter sido eleita para esculpir o corpo de celebridades como Juliana Paes, Deborah Secco e Jennifer Lopez, bem como para turbinar o desempenho de atletas de alta performance, como jogadores de futebol e de tênis, nadadores e lutadores de MMA (Artes Marciais Mistas, popularizada por Anderson Silva). Também ganhou notoriedade ao ser anunciado como o método priorizado por jogadores de futebol de alto rendimento, como Douglas Costa.

Basta olhar nas academias, praças e parques (onde alunos e professores praticam exercícios ao ar livre). O número de adeptos do Funcional cresceu em escala geométrica no número de adeptos nos últimos cinco anos. Mas, afinal, por que ele virou o “queridinho” no mundo todo? Há quem diga que a versatilidade e eficácia dos movimentos é uma das mais fortes razões. Outros afirmam que ele dá mais resultados do que os pesados aparelhos de musculação – e porque dispensa horas intermináveis das aulas de modalidades convencionais, que para alguns mais parecem uma tortura.

Embora repaginada, de novidade, há muito pouco nesse tipo de treino. Poucos sabem que ele tem uma origem remota, que data aproximadamente do período pós Segunda Guerra Mundial . Uma das raízes é a da Fisioterapia, inicialmente uma obscura especialidade médica pouco prestigiada. A segunda raiz é a ciência do treinamento esportivo desenvolvida durante os anos da “Guerra Olímpica” entre Estados Unidos e União Soviética, uma expressão esportiva da Guerra Fria.

“Nada mais é do que tentar reproduzir a ação natural do corpo. Usamos tanto para a reabilitação quanto para o condicionamento físico”, afirma Henrique Valente, um dos fisioterapeutas do Grêmio.

Assim como Valente — que utiliza os princípios do treinamento funcional no time titular do Grêmio há alguns anos — um dos fisioterapeutas do Inter, Mauren Mansur, explica que a “febre” nas academias nada mais é que uma nova roupagem para a chamada cinesioterapia funcional:

— É uma terapia que promove, através dos movimentos naturais do corpo, agilidade, potência, coordenação e estabilidade da parte central do corpo, garantindo maior eficiência neuromuscular.

Treino dinamizado

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Enquanto os exercícios localizados, como a musculação, estimulam os músculos de forma isolada, no modelo funcional o treino é dinamizado com a ajuda de aparelhos simples, como bolas, elásticos, pesos e pranchas. Um dos grandes benefícios, certamente, é o ganho de consciência corporal, com maior força e equilíbrio, além do aumento da percepção do próprio corpo. Os ganhos são globais e perceptíveis.

“Estou fazendo há pouco mais de meio ano e sinto melhoras incríveis. No começo, achei bem diferente, pois estava acostumada com apenas com a musculação. Desde que aliei as duas modalidades, realmente senti uma evolução, que foi absurda”, afirma Monique Terra, 37 anos, de Porto Alegre.

Alto gasto energético

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Também é possível gastar energia — e muita energia — em uma das aulas, que duram de 45 a 60 minutos.  Dependendo do nível de treinamento e intensidade, são queimadas de 400 a 800 calorias. A advogada Luciana Minuzzi, 34 anos, diz que, desde que começou a fazer as aulas, há um ano, conseguiu “secar” oito quilos, além de se livrar de uma lombalgia (dor na região lombar):

“O melhor foi que substituí gordura por músculos. Sinto uma enorme diferença no meu corpo, em todos os sentidos”, diz ela.

Uma opção que se encaixa em todos os perfis e idades

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Qualquer pessoa, em qualquer idade e perfil, está apta para se beneficiar deste tipo de treinamento. O programa apenas precisa ser ajustado para cada condição física. E, é claro, é preciso de regularidade: no mínimo duas vezes por semana, fazendo parte da rotina de exercícios.

Turbinando a corrida

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O Funcional também pode ser um forte aliado de quem pratica modalidades esportivas variadas, como a corrida. Força, velocidade, equilíbrio, flexibilidade e coordenação motora são trabalhadas apenas com o uso do peso corporal e com equipamentos como TRX, cones, camas elásticas, entre outros.

Exercícios simples como agachamentos, saltos e flexões integram boa parte dos treinos, que vão evoluindo em dificuldade a medida em que o atleta ganha condicionamento. A melhora do desempenho ocorre porque o treinamento funcional envolve exercícios de força dinâmica, isolando alguns movimentos característicos da corrida – e, de sobra, ainda trabalha o equilíbrio e fortalecimento da região “core” (músculos de sustentação do tronco), que contribui para prevenir lesões.

Principais vantagens do treinamento funcional

- Aperfeiçoamento do desempenho e eficiência do gesto esportivo.

- Melhora do equilíbrio e correção dos desvios musculares, reduzindo o índice de lesões.

- Melhora da coordenação motora.

- Recruta maior número de fibras musculares e unidades motoras.

- Desenvolvimento da consciência, controle do corpo e postura.

 

 

 

A melhor dica? Não ir atrás de dicas

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Sabe aquele agachamento? Faz assim, ó…

 

Raramente, existe alguém que não tenha algo que queira melhorar em sua vida. Seja pessoal ou profissional. Afinal, não é novidade que o ser humano é insatisfeito por natureza. E cada um sabe de si, certo? Nem sempre.

Vamos falar aqui das questões de saúde/nutrição/treinamento físico. Mesmo que a esmagadora maioria concorde com essa máxima, a atitude acaba indo completamente contra. Na ânsia de melhorar em algum aspecto, acabam recorrendo ao “Dr. Google” (sim, a legião de cybercondríacos só aumenta) ou a tantos outros recursos enlatados em revistas, sites e TV. A tentativa é a mesma: encontrar a fórmula perfeita para emagrecer, melhorar o desempenho na corrida ou ganhar mais músculos, por exemplo. Quando não tentam achar a causa de uma lesão, porque dói o ombro ou dá enjoo depois de fazer um longão.

Claro que é importante nos inteirarmos ao máximo, buscando o maior número de fontes possíveis. Mal não faz. Mas como saber o que é “quente” e o que é empulhação? Questiono o quanto, hoje, estamos suscetíveis a um turbilhão de informações que, sabe lá, não vão mais estragar o que já está meia-boca do que melhorar qualquer coisa. É dica de “como perder a barriga em 3 semanas”, “como correr 21km em tanto tempo”, “como correr sua primeira maratona”, “ganhe mais músculos sem sair de casa”, “caiba no biquíni dos seus sonhos em 2 meses”, entre tantas outras chamadas sensacionalistas. Atualmente, há um aplicativo cuja chamada é: “eu era gorda até seguir essas dicas”. A mocinha jura que, fazendo 20 minutos de exercícios por dia, fica com o shape de miss. E tem quem acredite. Olho aqui, olho ali e coloco toda a parafernália num só balaio: são, meramente, apelos tira-níquel. Preocupada com sua saúde ficava sua avó.

Para cada organismo, uma sentença

Pense aqui comigo: temos um histórico, cada um de nós, peculiar. Cada um tem um estilo de vida, gostos, preferências, tipo físico, mente, profissão. A minha realidade é diferente da sua, que é diferente da Maria, do João, da Margarida. De que forma poderão todos seguirem o mesmo padrão de treino, alimentação, etc? Claro, somos parecidos e sabemos da importância de beber com moderação, não comer gordura em excesso, ingerir frutas e verduras, praticar exercícios físicos, não fumar, dormir bem…porém, mesmo assim, cada caso é um caso.

Dias desses, um professor de fisiologia questionou em tom irônico, no Facebook, a validade de uma dessas “dicas quentes” dadas em rede nacional num famoso programa. A apresentadora sugeria tomar “chá diurético para emagrecer”. Logo, uma competente nutricionista rebateu, comentado que, seguindo esse raciocínio, tomar cerveja seria excelente, pois várias bem geladas são uma excelente forma de fazer xixi. Pérolas como essas viram piada entre quem trabalha sério. É o caso de rir, pra não chorar.

Para mudar de forma consistente o estilo de vida – e somente dessa forma haverá resultados consistentes a pequeno, médio e longo prazo -, não tem dieta da moda, detox, treino intensivo de 2 meses ou qualquer outra invenção que dê certo. É preciso, primeiramente, nos conhecer. E acreditar em profissionais que analisam cada pessoa como um ser único, dotado de inúmeras particularidades. Seja ele um médico, um nutricionista, um professor de educação física ou um fisioterapeuta. Infelizmente, nem todos têm o privilégio de poder pagar por isso. É um terreno perigoso: devemos questionar se, quem dá “dicas” a toda hora não tem outro interesse por trás. Poucos são os casos de quem pensa seriamente na saúde da população, em ajudar que as pessoas tenham uma vida mais saudável, sem ter uma série de outros interesses envolvidos. Acho justo ganhar dinheiro “vendendo saúde”, mas é preciso deixar isso claro, e não camuflado por trás de boas intenções – embaladas, muitas vezes, de forma irresponsável.

Ter senso crítico – e paciência – para evoluir aos poucos, de forma sustentável, conhecendo cada vez mais a nós mesmos, sem querer nos comparar com ninguém – talvez seja a saída. Vamos combinar: a maioria sabe muito bem o que faz errado e como mudar. Procurar atalhos ou fórmulas mágicas torna-se tão perigoso quanto irresistível. Lembre que nem tudo o que vemos por aí condiz com a realidade. Na vida real, não tem filtrinho nem Photoshop, nem muito menos edição de primeira. E se quiser uma dica quente, mas quente mesmo, tá aqui uma: não vá atrás de dicas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Repetição: a mãe da habilidade

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Você conhece alguém que já obteve bons resultados não só na corrida, mas em qualquer outro esporte, sem treinar muito? Já viu alguém superar um recorde sem afirmar que foram precisos meses de preparo? OK. Há quem atribua grandes marcas à genética, assim como há quem afirme que aquele empresário bem-sucedido teve muita “sorte”. Ahãm.

Não tem fórmula mágica: é repetição. Repetição. Repetição. Perseverança. Rotina. Disciplina. Ralação pura e crua.

Porém, como fazer para achar isso bom?

Cada um tem suas estratégias. Prefiro ser bastante prática e resumir: é um mal necessário. E ponto. Quem disse que seria fácil? ( :

Treinando para algumas provas cascas-grossas, tento mentalizar, sobretudo nos longões solitários, que essa rotina muita vezes estafante faz parte do jogo – e que se eu não acostumar meu corpo e cérebro a aguentar o tranco no osso, jamais vou evoluir ou ter a sensação de missão cumprida.

Penso que, mesmo não tendo certeza do melhor resultado, saberemos que estamos no caminho certo: no caso da corrida, treinando, simulando provas, fazendo pista, aumentando progressivamente a velocidade. E tudo isso com um planejamento adequado, otimizando tempo e recursos. Na hora do “pega pra capar”, se você sabe que treinou o bastante e que seu corpo está preparado para tal estímulo, as chances de ter êxito são bem maiores.

Pode parecer óbvio, mas a prática não costuma ser fiel à teoria. Cada vez mais, vejo atletas amadores priorizarem as provas do que o treinamento rotineiro. São os famosos “leões (ou campeões) de treino” . Mas vem cá, você treina para competir ou é ao contrário? Ah, não tem tempo? Então não exija do pobre do seu corpo o que ele não pode dar sem sofrer até quase sair sangue dos olhos ou estourar as coronárias.

Treinar é, sim, muitas vezes chato. Inúmeras vezes saí para a rua sem a mínima vontade. E o que ocorreu? Voltei, sempre, feliz da vida. Mesmo que não tivesse feito aqueeeeele treino, eu fui. E isso que importa.

Correr é lindo, correr é bom, correr virou uma coqueluche. Mas, se você tem um perfil como o meu, que adora superar a si mesmo, em primeiro lugar, o conselho é um só: treine sério. Treine duro. Repita. Repita. Repita. E quando você ficar bom, prepare-se para ouvir: “ah, é genético”.

Tá certo.

 

 

 

Turbine sua corrida treinando a mente

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Treinadores esportivos das mais diversas modalidades são unânimes em afirmar que a mente de qualquer atleta deve ser preparada tanto quanto o seu corpo. É inegável a importância de estar forte por dentro e por fora para otimizar resultados e evoluir. Mesmo que a metodologia de treinamento físico esteja sendo aprimorada dia após dia, nada terá eficácia se não for trabalhado, em sinergia, os aspectos emocional e intelectual.

Basta observar os atletas que se destacam. Confiança, determinação, resiliência, coragem, paciência, dentre tantas outras qualidades, não surgem do nada. As maiores escolas e clubes mundiais têm hoje, em seu quadro de profissionais, psicólogos encarregados de “turbinar” o cérebro de seus talentos, desde cedo.

Para entender melhor do assunto, fui atrás de recursos para mergulhar à fundo nesse universo de preparação de atletas de alta performance. E descobri, entre tantas técnicas utilizadas, o EMDR. A sigla, que em inglês significa Eye Movement Desensitization, pode ser definida como “Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares” e foi criada por uma estudante de Psicologia, no final da década de 80.

O nome dela? Francine Shapiro. Sua descoberta foi meio por “acaso”. Francine estava caminhando pelo parque da cidade de Los Gatos, na Califórnia. Os pensamentos perturbadores que ela tinha, de repente, começaram a desaparecer. Quando ela voltou a pensar neles, se deu conta que já não incomodavam como antes. Aos poucos, foi percebendo que, quando um pensamento perturbador vinha à mente, seus olhos começavam a se mexer rapidamente. Parecia que os movimentos oculares conseguiam fazer com que o pensamento incômodo “saísse” da sua mente consciente. Quando voltava a pensar naquilo, tinha perdido muito da sua carga negativa.

Então, ela começou a experimentar deliberadamente, pensando sobre coisas do seu passado e presente que lhe incomodavam enquanto ela mexia os olhos. Todas as vezes que fazia isso a perturbação cessava. Decidiu descobrir se isso funcionaria com outras pessoas e, então, fez experiências com seus amigos. Pedia que eles seguissem o movimento dos seus dedos como uma forma de ajudá-los a manter os movimentos oculares enquanto eles estivessem pensando em coisas perturbadoras. Depois de experimentar com mais de 70 pessoas, foi confirmado que o processo tinha dessensibilizado os pensamentos perturbadores.

Francine foi aperfeiçoando a técnica e chamou-a de EMD, Eye Movement Desensitization e, em 1990, expandiu o conceito para EMDR, Eye Movement Desensitization and Reprocessing, para incluir o conceito de processamento e aprendizagem. Estava convencida que os movimentos oculares poderiam processar as lembranças traumáticas, libertando a pessoa para que pudesse ter condutas mais adaptativas e funcionais.

Em 1998, a Dra. Shapiro experimentou seu novo método com 22 voluntários, veteranos da guerra do Vietnã ou vítimas de estupro, ou abuso sexual, e que tinham os sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. A metade do grupo recebeu uma sessão de EMDR, enquanto que ao outro grupo (grupo controle) se pediu apenas que contassem o seu trauma em detalhe. O grupo demonstrou melhorias significativas; o grupo controle, não. Por questões éticas, depois se aplicou também a terapia EMDR com o grupo controle. Ao averiguar um mês depois e aos três meses depois do tratamento, todos os pacientes tinham mantido os resultados positivos da sua sessão de EMDR.

Uma experiência surpreendente

Interessada em aprofundar meus conhecimentos sobre o tema, fui atrás de um profissional que aplicasse tal método. E, há seis meses, virei “cobaia” no consultório de Maury Braga, que – além de psicólogo – é praticante de atletismo. No começo, achei meio estranho ser estimulada através do método, no qual você acompanha os dedos do terapeuta com os olhos e fala o que vêm a mente, elegendo, a cada série de sessões, um tema. Por exemplo: se vai correr uma maratona, é simulado o ambiente de competição, as sensações, as emoções. Em resumo, você antecipa o ambiente de prova e processa mentalmente tudo o que vai enfrentar.

 

Quando fui à Mizuno Uphill Marathon, nesse ano, consegui verificar in loco a eficácia do EMDR. Tinha feito uma maratona seis dias antes e me preparei, durante um bom tempo, para ter confiança para cruzar a linha de chegada. Imaginei o vento cortando meu rosto; a voz de incentivo dos amigos; o som das minhas passadas no asfalto. Simulei a prova “perfeita”. Me fortaleci.

Recursos como esses, ao meu ver, são essenciais para incrementar o treinamento e deveriam ser incluídos na agenda de todo corredor, do amador ao profissional. Temos dias bons, dias ruins, mas quem compete sabe que o dia “D” (da competição) é o momento em que nos definimos como atletas. Nesse momento, mostramos a nós mesmos, primeiramente, do que somos capazes de fazer. Porém, antes disso, precisamos de perseverança e, principalmente, de confiança para chegar lá.

Recomendo que cada um busque esse “treinamento” mental, visando sua meta, seja ela qual for: começar a correr, correr 10k, 21k, 42k ou uma ultramaratona. Não só um atleta, mas todo ser humano, só evolui de verdade se estiver forte por fora – e, principalmente, por dentro.

 

Corrida: esporte para todos os pesos

Publicado por | Gente que corre | Nenhum Comentário

 

Basta checar os números e dar uma olhada a sua volta. Nunca o brasileiro esteve tão gordo. Conforme dados recentes do Ministério da Saúde, 48,5% da população está acima do peso. Ao mesmo tempo, jamais vimos tamanho crescimento da quantidade de corredores nos quatro cantos do país. Hoje, esse já é o segundo esporte mais praticado no País, só ficando atrás do futebol (se bem que acho que há mais gente que apenas “curte”o esporte bretão, mas não joga toda a semana…).

A verdade é que a figura do corredor de alta performance, magrelo, estilo queniano, forte e esguio, é rara nas ruas. Corpos mais roliços e menos privilegiados, digamos assim, são a grande maioria, sobretudo quando formos falar de quem realiza treinos e compete nos 3, 5 e 10 quilômetros. Há, é claro, os que encaram os 21 e os 42 quilômetros – e entram naquela lista dos que “apenas querem completar”. O número de maratonistas brasileiros cresceu mais de 40% de 2009 a 2014, mesmo que ocupemos a 33ª posição na lista de 47 países, no que diz respeito à performance. A média de tempo que um brazuca leva para completar a distância é de 4h21min, bem acima dos espanhóis (3h55min), por exemplo.

Ou seja: a esmagadora maioria corre porque se sente bem. Para socializar, conhecer gente nova. O valor social da corrida é inegável e é muito em função dele que os atletas amadores, magros e gordos, se juntam nas dezenas de provas realizadas todo fim-de-semana. A saúde e a boa forma figuram como fatores importantes, sem dúvida, porém dar aquele “upgrade” na qualidade de vida é o que faz a grande diferença.

Ser gordinho ou não? Esse parece não ser um detalhe primordial quando falamos em corrida. É possível, sim, estar acima do peso e fazer bonito nas pistas. Com orientação profissional e parcimônia (e desde que realizados todos os exames de aptidão física), há ganhos inegáveis em todos os aspectos. Sinal disso é que revistas de grande circulação e credibilidade, como a Women’s Running estão fugindo do modelo-padrão e já estampam, como na atual capa, modelos como a plus size Erica Jean Schenk, na foto acima, praticante desse esporte desde criança. Na reportagem, ela conta que “adora correr para relaxar e pensar na vida” e coloca o dedo na ferida de muita garota “instafitness”: “garotas de todos os tamanhos têm o direito se serem valorizadas pelo público e pela mídia”.

Vou concordar em gênero, número e grau com a Erica. Está cheio de gente magra e que de saudável não tem nada – tanto física quanto psicologicamente. A genética não favorece todo mundo, o que jamais poderá ser um fator impeditivo. Atingir grandes marcas, figurar no pódio é para a minoria. A maioria não dorme sonhando com isso. Quer mais é descontrair, ter mais energia, bater papo com os amigos.

Como escreveu o colunista da revista O2 Marcos Caetano:

Eu admiro profundamente os gordinhos que continuam correndo, mesmo sem emagrecer. Eles têm a alma de corredor. Correm contra os próprios limites, contra si mesmos e não por glórias. Correm mesmo sob gritos jocosos dos bocós sedentários nas provas: “Corre, gordinho!”, “Tá magrinho, hein, bolão?!”… Os gordinhos corredores — esses seres grandes de tamanho e imensos de caráter — não ligam para a crueldade do bicho homem. Apenas seguem, passo após passo, rumo à faixa final. Todo o meu respeito a eles, que estão em outro estágio de compreensão da importância do esporte e do valor da determinação. E, talvez exatamente por isso, mereçam ser chamados de homo sapiens“.

O mais belo desse esporte, ao meu ver, é o caráter democrático. Sem ele, não haveria tanta graça. Viver mais e melhor todos queremos: gordo, magro, alto, baixo, pobre ou rico. O universo da corrida é assim: leve, real e sem preconceitos.

 

 

Parcerias de treino

Publicado por | Foco no treino | Um Comentário

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Dentre todos os esportes, a corrida – mais do que a natação e o ciclismo – talvez seja o que mais testa a capacidade do atleta em conseguir treinar sozinho. Por mais que os grupos de corrida tenham crescido em escala geométrica e unido os “pangarés” para rodagens coletivas, não tem jeito: se o cara não consegue ter disciplina para calçar os tênis e cumprir a planilha diária com afinco, sem precisar de alguém incentivado o tempo todo, as chances de estagnação são enormes. Além das rotinas serem completamente diferentes, pessoas tem níveis de condicionamento distintos. Dos bons maratonistas que já cruzei pelas ruas e pistas, quase a totalidade estava só, suando a camiseta.

Embora esta seja uma realidade triste para alguns, que preferem esportes coletivos, nela está, ao meu ver, um diferencial positivo: para correr, basta um bom par de tênis e sua própria vontade. Motivo pelo qual a corrida tem dado um pulo no número de praticantes a cada ano. Sim, somos seres individualistas, e isso não pode ser encarado como um fato estritamente ruim. Para mim, ser dono do seu tempo é sinônimo de liberdade.

Porém, ao mesmo tempo em que é uma atividade solitária, a corrida tem o poder de criar elos tão fortes que chega a ser inexplicável a energia que rola entre atletas que mal se conhecem. Quantas vezes, naqueles longões intermináveis, encontrei gente pelas ruas e rodei quilômetros trocando ideias, perguntando o nome só no final do papo. A conversa flui, sempre há assunto. Feito pescador, corredor sempre tem uma história mirabolante para contar.

O valor das parcerias de treino é inestimável. Na terça-feira, saí para um longão de 30 quilômetros, num calor terrível, ainda sentindo o jet lag da viagem de volta do Japão (foram mais de 30 horas sem dormir direito, intercalando três voos), sem treinar direito há 20 dias. Achei que não ia conseguir completar. Aí, encontro um amigo de fé, o Alessandro Amaral, lá no quilômetro 21. Dito e feito: ele se prontificou para acabar comigo o sacrifício e eu cumpri o dever com muito mais alegria.

No domingo passado, a mesma coisa: saí para dar uma rodadinha de 10km e acabei fazendo 18km porque encontrei o Gabriel, gente finíssima, no meio do caminho. Conversamos sobre filhos, trânsito, tipo de tênis…naquela miscelânea de assuntos, o tempo voou.

No final das contas, chego à conclusão que correr sozinho é bom, mas ter parceria pros treinos é, sem dúvida, melhor ainda.

Encontro no postinho

Publicado por | Contos de treino | 5 Comentários

Divulgação

Dia desses, fui fazer um longão nas bandas do Aeroporto Internacional Salgado Filho, local que escolho para rodar após um treino muito forçado, já que lá é bem plano e tranquilo.

Estava lá eu, faceira, sol a pino, ventinho batendo no rosto. Dei um alô pro Laçador, apreciei o pouso e decolagem de algumas aeronaves (sim, adoro fazer isso, feito turista do interior). Paro num posto de gasolina para tomar uma água e repor as energias com um carbogel. Logo que entro na loja de conveniência, deparo com um jovem de 30 e poucos anos que chamava a atenção pela enorme barriga. Devia pesar mais de 120 quilos (isso que estou sendo generosa). Ao lado dele, dois frentistas que descansavam degustando um cafezinho. No caixa, uma moça de boa aparência, que descontou os R$ 2 de de 10 pilas que entreguei. Pedi desculpas pelo estado da nota, afinal, há uma hora e meia ela estava sendo molhada por meu suor dentro do calção.

Nesse instante, o rechonchudo rapaz começa a tirar uma onda da minha cara, fazendo uma paródia do famoso hit de Anitta:

- Pre-pa-ra, que agora, é hora, dos gordos irem embora…

Todos riram. Inclusive eu, claro. Foi a deixa pra ele começar um papo:

- Pois então, taí, tu corre e eu como pastel. Cada um com seu esporte.

Como vi o deboche na cara do cidadão, que tirava um sarro na maior cara-de-pau, não pude deixar de responder, sem perder o bom humor:

- É, mas meu esporte sobe pra cabeça. O teu desce pra barriga.

Silêncio. Gargalhadas.

Ele segue defendendo a silhueta:

- Mas ó, eu me atraco numa costela bem gorda. E sou viciado. Viciado em cerveja. Mas tchê, não consigo correr até a esquina! Acho que eu morro!

Vi que ele tava dando uma deixa e comecei a falar que ele era novo, que se ele tivesse afim, podia ter um estilo de vida mais saudável. Poderia seguir comendo pastel e tomando cerveja, mas deixar degringolar daquele jeito tava brabo.

A moça do caixa se interessa, prontamente.

- Mas correr “perde” mais que caminhar?

Comecei a explicar, dum jeito bem simples, como funcionava. Quando vi, tinha umas cinco pessoas prestando atenção. Inclusive o da barriga, que deixou de tirar onda e passou a me fazer um monte de perguntas. Como fazia pra começar, quantos quilos podia emagrecer.

Fiquei uns 10 minutos no posto. Falei do meu blog, contei um pouco da minha história.

Saí dali feliz. Acho que plantei mais uma sementinha na mente desse pessoal – e assim já aconteceu inúmeras vezes. Quanta gente, de tudo quanto é canto, troquei ideia nesses anos e anos rodando pela cidade.

Se estiverem lendo, saibam que meu dia ficou diferente depois de encontrar vocês. Espero que o de vocês, também.