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TTT 2018: carta de uma veterana de guerra

Publicado por | Mente de corredor | Um Comentário

 

Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros "ultraloucos"

Um lindo registro do amanhecer ao lado de outros “ultraloucos”

Sábado que vem, a essa hora (perto das 20h), a esmagadora maioria dos atletas que enfrentarão a 14ª edição da Travessia Torres-Tramandaí (TTT) - uma das mais célebres provas de revezamento do Sul do Brasil – estará com um irritante sorriso no rosto, daqueles que só exibem aqueles que são adeptos da máxima “missão dada, missão cumprida”. Na peleia, quase 3 mil atletas dos mais diversos níveis de condicionamento, idades e perfis – dos iniciantes, recrutados para revezamentos em octetos e quartetos -, aos mais calejados, que enfrentam os 82 quilômetros na beira da praia em duplas e individualmente com sangue nos zóios, como é de praxe no evento esportivo mais disputado do verão gaúcho.

Será minha oitava participação na TTT. Venci 5 vezes solo, 1 vez em dupla, e fiz mais uma vez não sei há quanto tempo, em quarteto (quando achava aquilo tudo uma doidera, tipo gincana de colégio). Devo a essa competição meu pontapé inicial nas ultramaratonas. Nunca, jamais, imaginei estar no posto de recordista feminina da prova (com 7h21min, cravados ano passado), e hoje, aos 41 anos, ainda ter tesão de varar a imensa faixa litorânea, monótona e invariavelmente insalubre que separa as cidades de Torres, na divisa com Santa Catarina, com a Barra do Imbé, balneário onde veraneio há 3 décadas (sim, cruzo a chegada a 500 metros de casa, onde minha mamãe me espera com uma sopa de legumes que levanta até defunto). <3

E, afinal, o que posso dizer dessa doidêra toda? Dicas, curiosidades, o que tenho a declarar?

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Sou a prova viva, véia, seca, esturricada e toda fia da mãe (kkkkkkkkkkk) de que não há mágica nessa brincadeira toda. Tudo o que conquistei foi suado pra caramba, e fruto de anos e anos de treinamento incessante, um DNA favorável, um lastro respeitável no esporte desde muito cedo (já pratiquei de tudo um pouco, desde os 3 anos de idade) e, sobretudo – e é sobre isso que que quero focar -, de uma cabeça dura pra dedéu. A prática da resiliência (a arte de se ferrar, tomar pancada e seguir em pé) é o que me trouxe até aqui. Absoluta certeza.

Tenho receio de dar dicas genéricas. Até porque hoje, como profissional de Educação Física, tenho compromisso de incentivar a todos os que buscam ter uma vida longeva e consistente no esporte busquem orientação, já que cada organismo reage de forma distinta e o princípio da individualidade biológica deve ser respeitado.

…o que não me priva de dar um conselho que já me serviu muito na hora do aperto: não vamos nos acadelar. ((((:

“Você é uma mulher ou um verme?” às vezes é muito mais válido do que o famigerado e inútil “falta pouco!” (só se for pra você, desgraçado!). kkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!

No sábado, quando a coisa estiver russa, o urso sentar nas costas e aquele paredão desgraçado surgir na sua frente, lembre que no final é tudo alegria.

Desejo a todos uma excelente prova. Corram com paixão e alegria. Afinal, é por isso que estamos aqui, certo?

Quando cruzarem com a veterana de guerra que vos fala, tenham certeza que estou torcendo por cada um de vocês. De coração.

 

Até lá!

Um forte abraço!

(((( :

 

 

 

 

 

Mountain Do 65K: relato de um desafio Insane

Publicado por | Por Aí | Nenhum Comentário
O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

O atleta Neemias Alves de Campos, ao meu lado, foi um dos atletas cascudos da categoria Insane

Segunda-feira, dois dias após enfrentar uma prova pra lá de dura – a Mountain Do da Lagoa da Conceição -, trago, além do lindo trofelão de primeiro lugar na categoria solo feminina (Insane, 65km), uma bagagem enorme de experiências que tentarei descrever em poucas linhas a seguir.

Como é de se esperar, uma ultramaratona é coisa de doido. Correr mais de 40 quilômetros já é algo dificilmente compreensível mesmo para atletas de longa data. Imagine, agora, trilhar bem mais do que isso numa sequência de terrenos diferentes, que vão da areia fofa à lama, passando por atoleiros repletos de macegas, pedras, pedregulhos e rochas à beira-mar, dunas, trilhas estreitas e um montão de outros solos complicados de firmar o pé sem sentir um arrepio na espinha. Pois então.

Mountain Do na Ilha da Magia é, como definiu o diretor da prova, Euclides Neto (Kiko), uma série de “pegadinhas” sem fim. Quando larguei lá no Lagoa Iate Clube (LIC), na Lagoa da Conceição, às 7h de sábado, jamais pensei que encararia uma pauleira sem fim. Achei que era uma prova “gourmet”, daquelas feitas pra passear, apreciar a vista e – pra quem gosta – fazer selfie pra postar no Instagram. Aham. Vai nessa.

O primeiro trecho, super na buena, fui tocando a 4min30seg/km sem nenhuma dificuldade a mais, mesmo com algumas ladeiras – afinal, há um mês, havia feito 60 quilômetros na Serra do Rio do Rastro, além de ter feito vários treinos de qualidade preparatórios, focando muito na força e potência muscular, essenciais para trechos íngremes.

E fui tranquila. Mochila nas costas, lotada de rango. Hidratação 100%. Segundo trecho, começam as trilhas no meio do mato. Eu respiro fundo, não dou bola pro sol que começa a estourar na cachola. E taca-lhe pau.

No terceiro, quarto, quinto e sexto trecho, muita dor e sofrimento pela variação de terreno, o que exigiu muita energia, paciência e experiência dos atletas – sobretudo os ultramaratonistas, que fizeram sozinhos a prova, como eu. Mas estava firme e confiante. Nada grave a registrar. Minha mente estava tranquila. Senti que era uma competição que exigia parcimônia e estratégia. Nos postos de transição, parava, me alimentava legal, parando no máximo 2 minutos para não perder muito tempo.

Quando dava, descia o sarrafo. Quando não dava, segurava o pé e estudava como firmar os pés e mãos nas trilhas mais difíceis para não escorregar, cair e botar tudo a perder.

No quarto ou quinto trecho, já comecei a ser ultrapassada por alguns atletas que tomaram a dianteira nas demais categorias (octetos, duplas e quartetos), o que deu uma animada – afinal, correr totalmente sozinha em lugar desconhecido não é lá uma experiência muy agradável.

Nos dois últimos trechos, a surpresa Kinder Ovo nada feliz: não passava nunca. Aqueles 22 quilômetros finais foram de matar. Mais de 6 horas de prova num acelera/trava/pisa em falso/pula/sobe/desce pesavam nas costas, destruíam as pernas e acabavam com a paciência.

Um final inesquecível

Uffff.

Respirei fundo. Como havia me informado sobre o grau de dificuldade dos trechos anteriormente, fiquei fria. E pensei em acabar a prova sem perder o primeiro lugar, tomado desde o início. Não sabia quem vinha atrás – só tinha certeza de que deveria cumprir a missão com dignidade, sem fraquejar.

Só que a Lei de Murphy insiste em nos acompanhar.

Lá pelo quilômetro 54, vislumbro um trecho bonitão duns 100 metros no qual poderia correr. Viva!!! E acelerei, sem pensar duas vezes. O solo, coberto por folhas secas, encobriu uma raíz de árvore. Senti algo prender meu pé direito. E voei, esbelta e toda fia da mãe, naquela linda terra catarinense. Caí de queixo, bati o ombro esquerdo num pancadão violento. A mochila de hidratação que levava chegou a soltar das costas.

Daí que vem a parte louca: um senhorzinho que carregava umas sacolas vinha atrás e viu meu tombo. Eu lá, estatelada no chão, e o véinho me estende a mão. Eu numa sequência de “aiaiaiaiaiiaiaiaiaiaiaaaaaaaaaaaaaaai”, falando trocentos palavrões, com cãimbra generalizada até no fio do cabelo, e ele, sereno, tranquilo:

“Ei, levanta, moça! Foi nada não!”

E eu:

“Tô sangrando muito? Olha aqui, olha aqui!” (apontando pro meu queixo, minha mão, meu joelho).

O bicuíra-samurai sentencia:

“Nada não! Nada não! Vai firme que vem gente lá atrás querendo te pegar!”

Vai entender? O fia da mãe não deu a mínima bola. Sério. E, pensando agora, a atitude dele foi determinante. Se ele fizesse drama – e se eu fosse na onda -, capaz de desistir ali. Porque o tombo foi muito sério. Tanto que subi no pódio de tala, Tive que ir no hospital depois da prova, esperar 3 horas para fazer raio-X e ter certeza de que não havia quebrado a mão esquerda.

O que sei é que, naquela altura do campeonato, desistir não era opção válida.  Sabia que, nesse caso (não estava tonta, nem desidratada, com as pernas aguentando ainda), seria uma besteira. Como o tiozinho avaliou, com sua simplicidade. Ele viu que, se eu estava com forças pra mandar toda uma geração pro inferno, aguentaria o tranco.

mounta

Trofelão na mão e sorriso no rosto

O final da história todo mundo sabe: cruzei a linha de chegada em primeira posição com um sorriso no rosto, emocionada e orgulhosa, muito  orgulhosa de mim mesma. De todos os 60 atletas que concluíram a prova na categoria individual (10 mulheres, 50 homens), fui a 14ª pessoa a chegar, atrás de 13 homens. Baita resultado!

Fico muito grata e emocionada pela oportunidade maravilhosa que Deus me deu de conseguir superar esse tipo de desafio com serenidade e brilho nos olhos.

Não sou corredora de trilha.

Não sou corredora de montanha nem de morro.

Não sou corredora de asfalto nem de pista.

Sou, única e simplesmente, uma apaixonada pela corrida – que, para mim, é a síntese mais perfeita do que é a vida.

Sem preconceitos, rótulos ou quaisquer frescuras.

( :

Um abraço e até a próxima!

 

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo - 65 km

Pódio das cinco primeiras colocadas na categoria solo – 65 km