Uphill Marathon

Desafio Samurai: a vida como ela é

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Escrever sobre a minha quarta participação na Mizuno Uphill Marathon – prova que ocorre desde 2013 na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina – é uma tarefa árdua. São tantas emoções que nem Robertão Carlos seria capaz de descrever na suas centenas de letras. E dessa vez, tentarei explicar o que é encarar duas vezes a imponente estrada considerada “a mais linda do mundo”, vide eleição virtual realizada recentemente.

SERRA

Para quem não sabe, esse ano escolhi encarar o Desafio Samurai – ao todo, 67 km -, divididos em insanos 25km matutinos (de Lauro Müller a Bom Jardim da Serra) e 42km vespertinos/noturnos (de Treviso ao topo de Bom Jardim novamente). Duas “pernas” recheadas de subidas intermináveis. Poucos ousam subir (e descer) de veículos motorizados. Porque, meu fio, você enxerga a bunda da caranga no retrovisor. De moto, cansa. Imagine a pé. Enfrentando um clima nada previsível, numa região onde são registradas as temperaturas mínimas do País.

Participo desse evento desde a sua origem. Compareci religiosamente em todos os anos. Havia subido até ontem antes da 7h da manhã, 126km nas três edições – 42km em cada, ficando em 5º lugar em 2013, 3º lugar em 2014 e 2º lugar em 2015. E ontem acordei às 7h disposta a acumular mais essa porrada de quilômetros num só dia. Me sentia bem, havia treinado bastante, dentro das possibilidades – já que, lembrando, não sou atleta profissional e encaixo a planilha numa rotina de casa-filho-família/coordenação de academia e grupo de corrida/faculdade de Educação Física.  Pois então. Sem chorumelas. Estava prontíssima!

Aprendizado número 1: parcimônia

Larguei nos 25km controlando muito. Ficava olhando no GPS para jamais puxar demais o ritmo, com a certeza de que pagaria o preço depois. E fui segurando. A intenção era fazer abaixo de 2h15min a primeira “perna”, que fiz com perfeição. Encerrei em terceiro lugar geral feminino, numa corrida consistente e no controle, algo complicado para meu perfil, que ama “sentar a bota”. Acabei orgulhosa da minha capacidade de concentração, o que me deixou inteira para enfrentar a maratona que viria a seguir.

Descansei, encontrei amigos no ginásio de Treviso e me alinhei às 3h da tarde para a segunda largada. Pernas muito inteiras, pulmão idem – apesar de ter enfrentado quase que apenas subidas na primeira parte. E fui. Confiante. Só que a matemática não é tão simples quando falamos em ultramaratona. Comecei a subir muito bem e senti, lá pelo quilômetro 8, falta de água. Para quem estava largando sem o peso dos 25km nas costas, talvez esse detalhe não tenha sido determinante. Porém, para atletas acostumados a hidratar com regularidade como eu (o que acho imprescindível), o bolo começou a desandar nesse ponto, ainda no início.

Desidratei. O tempo abafado pesou a ponto de perder rendimento drasticamente. E o efeito dominó pegou: náuseas. Não entrava suplementação. Glicemia baixando. Pressão despencando. Cansaço extremo. Pernas não respondendo. E se tem algo que sei é conhecer meu organismo. Quando lá pelo quilômetro 20 da maratona “preteou os óios da gateada” (a visão ficou turva), vi que algo deveria ser feito. E a melhor atitude seria subir a serra de carro.

Parei num posto de hidratação. Dezenas de pessoas me ajudaram. Falavam palavras de incentivo. Queriam me levar junto. E eu, já apática, dizia que não dava. Comi, tomei Coca-Cola, glicose. E fui até o quilômetro 38. Talvez desse para terminar (não no tempo limite de 6h30min do Desafio Samurai). Porém, decidi que não valia a pena. Pressenti algo ruim. Não sei explicar. Ninguém sabe. Mas resumo assim: em respeito a mim, em primeiro lugar. Em respeito a minha família, em segundo lugar. E em terceiro, a todos que já me viram chegar e não reconheceriam ver cruzar o pórtico uma Daniela destruída e sem forças para vibrar ao cortar a desejada fita.

Saldo positivo: ao todo, percorri 60km. E hoje, escrevendo esse texto, parece que corri um “21km pegadinho na Beira-Rio”. ( ;

Há uma diferença brutal entre superação e burrice. Desculpem os fãs dos “atletas-que-chegam-vomitando”.

Brilho eterno de uma mente com lembranças

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Pela primeira vez, larguei uma prova. Após 20 anos correndo. E digo: fiz o certo. Hoje estou inteira, pronta para enfrentar um calendário bem bacana de ultras pros próximos seis meses (ficarão sabendo logo!). Tento sempre fazer do limão uma limonada e pensar de que nada é por acaso. Hoje, tenho o orgulho de dizer que jamais deixei alguém me ver passar mal numa prova – o que ao meu ver, depõe contra esse esporte tão lindo -, e que minha tentativa de passar um exemplo bonito e saudável tem dado bons frutos.

Minha frustração? Sei lidar com ela. Isso é fácil. O que não saberia é lidar com uma lesão ou sequela do desgaste excessivo. Entre três mulheres que puderam ter índice para encarar o Desafio Samurai, apenas a “alienígena” Letícia Saltori, da Equipiazza de Curitiba, conseguiu no tempo regulamentar de 6h30min para cumprir as duas pernas. Eloiza Testolin Rodrigues, da Inspire Assessoria Esportiva de Caxias do Sul (tchó!) conclui os 67km acima do tempo, mas está de parabéns pelo empenho e dedicação às corridas. Ambas moram no meu coração e são atletas exemplares, além de pessoas maravilhosas. Dessas coisas que só a corrida nos dão. <3

Agradeço a todos que me ajudaram nos dois percursos, tentaram me empurrar, levar de carrinho de mão, de guincho, mas amigos…tem dias que não dá! Hauhahaha! Prometo retribuir essa energia maravilhosa.

À equipe da Mizuno e da X3M, parabéns por mais um evento fantástico. É por isso que deixo minha família, meu trabalho em Porto Alegre e encaro a gincana. Para encontrar esse bando de “louco dentro das roupa!”. E como a trupe do Bernardo Fonseca e do Bruno Onezio pregam: “é muito mais fácil segurar um louco do que empurrar um bobo”. ( ;

Parabéns a todos atletas que encararam essa pedreira, seja nos 25km, nos 42km ou nos 67km. É pra poucos. E o que eu senti nesse final de semana não pode ser explicado num só texto. Somos uma “tribo” de loucos, sim, mas loucos pela vida. Essa gente que gosta de sentir o sangue correr na veia dessa maneira pode ser um objeto de estudo na NASA. Mas é essa adrenalina que nos move.

No frigir dos ovos (e eu amo omelete!), fica a sensação de que tudo é um aprendizado e, mais uma vez, confirmo que a corrida é a mais perfeita metáfora da vida.

A beleza da vida está nisso: na humildade de reconhecer nossos erros e acertos.

Estamos aqui hoje porque muita coisa deu certo – mas muitas coisas deram errado.

Já pensou nisso?

Um forte abraço e até a próxima!

 

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Uphill Marathon: relato do desafio

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Creio que ninguém imaginava o quanto seria duro completar essa prova. Assim como eu, que estou sentindo as pernas doloridas, acredito que grande parte de quem subiu os 42,1 quilômetros da Uphill Marathon – realizada pela Mizuno no sábado em Santa Catarina – deve estar relembrando, em flashes, o que passamos no fantástico final de semana.

Tentarei resumir, com alguns detalhes, as sensações de “escalar” a Serra do Rio do Rastro. Certamente, não conseguirei passar a emoção de chegar no topo, tampouco descrever as dores num corpo pouco acostumado a enfrentar subidas tão íngremes.

Confirmando a previsão de tempo fechado, saímos de Criciúma antes do sol raiar com um chuvisco atravessado, aquele que entra nos olhos e para o qual guarda-chuva não adianta. Havia passado a noite sem dormir, o que me deixou bastante cansada mas não tirou minha euforia. Às 4h15, já estávamos tomando café no hotel, e uma hora depois sacolejávamos na van que nos levou até o município de Treviso, local de início da competição. Chegamos por volta das 6h30 no pórtico e o clima era de festa. Os 50 atletas estavam ansiosos e sorridentes para a largada, que ocorreu às 7h. O prefeito da cidade tocou a corneta. Saí em disparada. Pensei: “vou me garantir no plano, depois na subida eu me viro como der”. Embora não seja uma estratégia inteligente, é o que eu poderia fazer para não passar vergonha e ser recolhida no tempo de corte da Uphill. Tinha que chegar na metade do percurso em duas horas e meia. Com 1h40, eu havia cruzado esse ponto. Imaginei: “ai meu Deus, o que me espera”, visto que o limite estabelecido pela organização para cruzar a linha de chegada era de seis horas.

Conferi o mapa de altimetria, fixado no número do peito (aliás, uma ótima ideia da Mizuno). Verifiquei que estava lascada. Com as pirambeiras que havia enfrentado naquele momento, com descidas alucinantes e algumas exigentes subidas, as pernas já pediam trégua. Para meu desespero, a prova não tinha começado. Eu sabia que “o que separava os homens das galinhas”, como comentou um engraçado colega, se pronunciaria após o quilômetro 30. Aliás, mesmo no plano, é aí que o bicho pega. E ele não pegou: o tal bicho sentou nas costas e ali ficou. E o bicho pesava 500 toneladas.

A placa dando boas-vindas aos turistas na “estrada mais bela do mundo” provocou lágrimas nos olhos. “Bela para quem está de moto”, pensei eu. A neblina, que já era forte, fechou a paisagem – uma infelicidade para alguns, mas alegria para outros, pois nessas condições, enxergar tudo o que tínhamos de subir era impossível.

A imponência da Serra do Rio do Rastro começava a dar as caras. Como uma serpente furiosa, a estrada engole todos que arriscam vencê-la, seja a pé, com duas ou quatro rodas. Não dá trégua em nenhum momento. A força da natureza impressiona e dá a sensação de que somos tão pequenos, tão frágeis. O frio e o ar gelado, somado ao chuvisco e à água que cruzava os pés, escorrendo de cachoeiras ao longo do trajeto, transformaram os corredores em picolés ambulantes. Respirávamos num aquário.

No quilômetro 38, eu estava entregue. Caminhava bem mais do que corria – e caminhava fazendo MUITA força –, e o pace foi pras cucuias. Esqueci o relógio e só pensei em chegar. O cronômetro marcava 3 horas e 30 minutos de prova, aproximadamente. Fui avançando, falando com atletas que se aproximavam. Todos mortos de cansados,  também caminhando. Trotar numa altimetria dessas, para mim, era impossível. Meu pé esquerdo, judiado por uma metatarsalgia (inflamação na sola) latejava. Eu tremia de frio. Era hora de acabar.

Dentro das minhas previsões, me aproximei da linha de chegada na casa das 4 horas. Com 4h12min, adentrei no pórtico (que não enxergávamos a mais de 30 metros de distância, devido à neblina fechada), a 1.418 metros acima do nível do mar, na pequena cidade de Bom Jardim da Serra. Na minha frente, já haviam cruzado quatro experientes mulheres. Finalizei em quinto lugar na categoria feminina. Para quem não treinou quase nada em subidas, não tem boa experiência em provas de montanha e ficou quase um mês sem treinar…lambi os beiços!

O mais bacana de toda a experiência, fora a prova, que avaliei como nota 10 no quesito organização/hidratação/apoio/sinalização, foi o clima de amizade e parceria do grupo de atletas selecionados para o evento. Embora seja um evento “fechado” e que tenha provocado certa ciumeira e até antipatia de outros atletas, vi que o formato agradou muito e, certamente, será muito concorrido nas próximas edições. A diversidade de perfis foi excelente, pois envolvia não só atletas com um bom background, mas também pessoas menos experientes. Entre todos, ficou latente uma característica: a paixão pela corrida.

Os 50 guerreiros estão de parabéns. A experiência de deixar nosso rastro na exuberante serra catarinense ficará para sempre na memória. Para quem gosta de desafios, a Uphill não é um prato cheio: é um baquete!

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